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Jornalista de @openDemocracy , doutorando em Ciência Política na Universidade de Barcelona; pesquisador no ALARI at Hutchins Center de Harvard

Aug 20, 2019, 15 tweets

Durante os governos de FHC, as Forças Armadas passaram pela mesma crise de recursos que estão passando agora com Bolsonaro. Os governos em que tiveram maior orçamento foram os governos do PT (os de Lula em especial). Entretanto, membros das Forças Armadas odeiam Lula.

O sociólogo @JesseSouzaecht tem uma tese: o preenchimento do significante da corrupção pela imprensa comercial (alto-falante da classe social dominante, os ricos) teria levado os altos funcionários públicos e a classe média beneficiados na era Lula a o odiarem injustamente.

Aos motivos apresentados por essa tese de @JesseSouzaecht , eu acrescentaria alguns outros:

1) o ressentimento dos altos funcionários públicos e da classe média em relação a Lula - ressentimento que independe do modo como a imprensa comercial tratou o significante da corrupção.

Até Lula ser presidente, altos funcionários públicos (sobretudo juízes e procuradores) transmitiam seus cargos aos seus filhos quase como uma herança, seja por meio das melhores condições que estes tinham para prestar concursos públicos seja por meio da corrupção nos concursos.

Até Lula ser presidente, a classe média branca tinha o ensino superior público (de maior qualidade em relação ao privado), sobretudo os cursos de Engenharia, Direito e Medicina, como um privilégio de seus filhos.

Logo, é grande o ressentimento dessa gente em relação a Lula, pelo fato de este ter, com o conjunto de suas políticas sociais, alterado minimamente a transmissão dos privilégios mantidos com dinheiro público.

O discurso “contra corrupção” de altos funcionários públicos e da classe média branca não passa de uma máscara para seu ressentimento. Tanto é que agoram se encontam calados ante a corrupção e a incompetência do governo fascista de Bolsonaro.

Sem falar que a classe média branca e os altos funcionários públicos recorrem à corrupção sempre que precisavam, tipo fraudar concursos públicos; fazer abortos clandestinos em clínicas de segurança; atestados médicos falsos e subornos de baixos funcionários públicos. Hipócritas.

2) O segundo motivo que acrescento à tese de Jessé de Souza é a inveja, esta poderosa emoção política. Pessoas como Lula, Marielle e eu, que superamos todas as barreiras impostas à nossa mobilidade social e ocupação de espaços de poder, despertamos a inveja de quem as impõem.

Se alguém poderia empunhar a bandeira da meritocracia esse alguém seríamos Lula, Marielle e eu, que chegamos onde chegamos apesar das barreiras impostas pela classe social, cor da pele (Marielle preta, nós mestiços), orientação sexual e gênero (ela mulher, nós dois LGBTs).

Entretanto, quem gosta de falar em “meritocracia” são os privilegiados de sempre, com vantagens vindas da classe social (o capital social, a rede de relações e apadrinhamentos), da cor da pele, da orientação sexual e do gênero. Estes tem inveja dos que os superam sem nada disso.

3) O terceiro motivo está maravilhosamente descrito pela historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz em seu novo livro “Sobre o autoritarismo brasileiro” (Companhia das Letras, 2019). Recomendo muito! Trata-se de uma arqueologia desse mal que se opõem a democratas de verdade.

Lula, Dilma, Marielle e eu somos democratas de verdade; acreditamos verdadeiramente na democracia. Lula está preso injustamente. Dilma foi deposta num impeachment fraudulento. Marielle foi assassinada covardemente. E eu fui obrigado ao exílio.

Hoje completam-se 500 dias da prisão injusta de Lula. Então, neste dia, em que tentei refletir sobre o ódio da classe média branca e de membros das Forças Armadas em relação a Lula, que tanto os beneficiou, eu grito: Lula livre!

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