Zé Augusto Miranda Profile picture
Historiador e Latinoamericanista. História Econômica e Financeira, História do Capitalismo. Tweets en #portuñol 🇨🇱🇧🇷

Aug 21, 2019, 10 tweets

Por que o Brasil não teve uma Wall Street? 150 anos atrás tivemos a chance de criar um mercado de capitais sólido e competitivo, que poderia ter lançado o país na segunda revolução industrial e transformar a rua do Ouvidor na Wall Street Tropical. Mas não foi. Por que? Segue:

Em meados do séc 19 uma das principais atividades da economia brasileira não era nem o açúcar nem o café. Eram os escravos. Como sabemos o trabalho e a base de qualquer processo produtivo. E no Brasil havia um grupo expressivo de capitalistas que compravam e vendiam esse trabalho

Com o fim do tráfico de escravos em 1850 uma quantia enorme de capital excedente buscava por um destino. Era hora de criar um sistema financeiro pujante para absorver esse capital e direciona-lo às atividades produtivas e a Industria. Um exemplo dessa luta foi o barão de Mauá.

Para investidores dos setores comerciais, alocar recursos no setor agrícola — dominado por famílias tradicionais e poderosas- era uma opção pouco provável. Onde alocar todo esse capital desviado do lucrativo e agora proibido comércio de escravos?

A resposta encontrada não foi no mercado de capitais doméstico, mas na dívida pública imperial. O Brasil era reconhecido suas contas públicas em ordem. A dívida publica em Apólices era considerada o investimento de portfólio mais seguro do hemisfério sul.

A boa conduta nas finanças públicas foi justamente o motivo do país não desenvolver um setor financeiro privado forte. Para se abrir uma empresa S/A no Brasil era necessário um pedido direto ao Conselho de Estado — gabinete ultimo antes do Imperador.

Em Londres na mesma época abrir uma S/A em regime de era uma simples medida burocrática realizada em cartórios. A Bolsa Rio de Janeiro operava sob estrito controle estatal e o setor bancário amargava uma triste coadjuvância à sombra do todo-poderoso Banco do Brasil

Toda essa morosidade e custos nos processos em se abrir uma empresa S/A no Brasil eram enormes. E havia um motivo para isso. Ao Estado interessava mais canalizar todo esse capital oriundo do tráfico de escravos para suas impecáveis contas públicas do que para o setor privado

Vender apólices, e ações do Banco do Brasil tinha necessariamente que ser o melhor investimento de portfólio do país para manter os ativos do governo em alta. Outra razão era canalizar o capital para determinadas empresas e setores considerados estratégicos (Ferrovias especificas

Com isso o Brasil perdeu um momento ímpar para desenvolver uma legislação amigável ao investimento no setor privado. Isso só mudou em 1888 e gerou a primeira bolha da Bolsa do Rio. Para saber mais, conferir o maravilhoso livro do Summerhill:

Share this Scrolly Tale with your friends.

A Scrolly Tale is a new way to read Twitter threads with a more visually immersive experience.
Discover more beautiful Scrolly Tales like this.

Keep scrolling