1/n Muito se discute sobre o ritmo de recuperação da economia brasileira, que desabou 11,4% no 2T de 2020, relativamente ao mesmo período de 2019. Aqui vai uma modesta contribuição, com base em um dado de fácil acesso e disponível em tempo real: o consumo de eletricidade.🧵
2/n Dados de alta-frequência podem ser utilizados como uma interessante ferramenta para medirmos a temperatura da economia. A vantagem é que esse tipo de informação fornece, em tempo real, uma fotografia do que as estatísticas oficiais só revelarão semanas à frente.
3/n O @OppInsights e o @BudgetModel, por exemplo, acompanham diariamente a recuperação da economia americana usando dados de compras de cartão de crédito e débito, folhas de pagamento, vagas de trabalho publicadas online, etc.
4/n Muitos dos dados utilizados por esses institutos de pesquisa são proprietários e obtidos via empresas parceiras. Porém, como já adiantei, o consumo de eletricidade é uma informação de fácil acesso, disponível em tempo real, e historicamente bastante correlacionada com o PIB.
5/n Nos últimos dezesseis anos, as taxas de crescimento trimestral (YoY) do PIB brasileiro e do consumo de eletricidade exibiram um comportamento muito semelhante. Em particular, durante a Crise de 2008, ambas tiveram uma dinâmica de queda e recuperação parecida.
6/n Mas enquanto as informações sobre o uso de energia eram conhecidas em tempo real, os dados oficiais do PIB só foram anunciados tempos mais tarde. No 2T de 2020, o consumo de eletricidade caiu 9,5%, relativamente ao mesmo trimestre de 2019. Lembre-se: o PIB, caiu 11,4%.
7/n É claro, não há garantia de que esse padrão se manterá no longo prazo. Primeiro, porque correlação não implica em causalidade. Segundo, pois transformações estruturais – tais como a redução do peso de atividades intensivas em energia na composição do PIB, padrões de ...
8/n ... consumo mais sustentáveis, e ganhos de eficiência energética – podem provocar um descolamento entre essas duas curvas. Ademais, diferentemente de crises passadas, essa é uma crise de saúde pública, que apresenta particularidades que devem ser levadas em consideração.
9/n Por exemplo, muitos empregados foram obrigados a substituir o trabalho no escritório pelo regime de home office. Se o nível de energia consumido ao se trabalhar de casa for semelhante ao que seria utilizado no escritório, então esperaríamos que a queda no consumo ...
10/n ... tenha reflexos mais próximos àqueles sobre a atividade econômica. Por outro lado, caso o home office se traduza em maior eficiência no consumo de energia – ou, talvez, em um consumo inferior em virtude da expectativa de que contas de luz mais elevadas ...
11/n ... não serão reembolsadas pelo empregador, então a queda da atividade econômica tenderá a ser relativamente menor. Em linha com um trabalho desenvolvido pelo economista @SteveCicala, criei um indicador para medir a variação diária do consumo de eletricidade ...
12/n ... no Brasil, em 2020, relativamente ao período pré-COVID – que defini como sendo de 01 Jan. a 29 Fev. de 2020, pouco antes da doença ter sido declarada uma pandemia pela OMS, em 11 Mar. 2020. Os dados de uso de eletricidade foram obtidos através do ...
13/n ... Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e são divulgados em tempo real. Eles representam cerca de 99% de toda a eletricidade consumida no país por clientes comerciais, industriais e residenciais. Essas informações estão disponíveis para quatro subsistemas, ...
14/n ... segundo uma classificação estabelecida pelo ONS. São eles os subsistemas Norte, Nordeste, Sudeste/Centro-Oeste e Sul. Praticamente todos os estados pertencem ao subsistema homônimo à região brasileira da qual fazem parte, com exceção do estado do Maranhão, que faz ...
15/n ... parte do subsistema Norte, dos estados do Acre e Rondônia, que fazem parte do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, e do estado de Roraima, que não é incluído em subsistema algum e que, portanto, é excluído da análise.
16/n Não surpreendentemente, o consumo de eletricidade possui fortes padrões sazonais. Portanto, de forma a permitir a comparação entre diferentes momentos no tempo, os dados de consumo foram dessazonalizados. Para isso, utilizei: i) dados de satélites, radares e estações ...
17/n ... meteorológicas para obter o histórico da temperatura, por hora, de todos os municípios brasileiros; ii) dados de feriados nacionais, disponibilizados pela ANBIMA; e iii) controles para hora do dia, dia da semana e semana do ano.
18/n Adicionalmente, os valores do indicador são normalizados para terem média zero entre 01 Jan. e 29 Fev. de 2020. A normalização nos permite medir o quanto o consumo de eletricidade variou relativamente ao período que antecedeu a pandemia.
19/n Um indicador distinto foi criado para cada subsistema. A média ponderada desses indicadores, por sua vez, deu origem a um indicador nacional, onde para cada subsistema foi atribuído um peso proporcional à sua fração no consumo total do país entre 2016 e 2019.
20/n Os resultados da Tabela 1 sugerem que o consumo em março caiu em quase todos os subsistemas, com exceção do subsistema Sul, onde cresceu 1,08% relativamente ao período pré-pandemia. Em abril, o uso de eletricidade despencou aproximadamente 11% em todo o país, ...
21/n ... coincidindo com um momento no qual diretrizes de distanciamento social foram reforçadas e políticas de lockdown ampliadas nacionalmente, fechando aeroportos, comércios, fábricas e escritórios. Nos subsistemas Nordeste e Sul, a retomada aos níveis pré-pandemia ...
22/n ... tem se mostrado mais lenta. O primeiro exibiu uma retomada significativa entre os meses de maio e julho, sucedida por uma piora marginal no mês de agosto. O consumo de eletricidade no subsistema Sul, por sua vez, apresentou uma melhora substancial ...
23/n ... no mês de maio, vis-à-vis à queda expressiva do mês de abril. No entanto, voltou a cair no mês de junho – o oposto do que se observou nas demais regiões do país, para então tornar a crescer novamente nos meses de julho e agosto.
24/n Por outro lado, nos subsistemas Norte e Sudeste/Centro-Oeste – neste último, onde se concentra mais da metade do consumo de eletricidade em todo o país, o uso de energia já retornou aos níveis pré-COVID. Por fim, o que se observa a nível nacional é uma recuperação ...
25/n ... consistente desde a metade de abril. Se a relação entre o consumo de eletricidade e a atividade econômica observada nos últimos dezesseis anos continuar valendo, então há evidência de que recuperação do PIB brasileiro poderá ser rápida, tal qual foi a sua queda.
Todos os códigos e dados que utilizei para fazer a análise estão disponíveis (e devidamente documentados) em github.com/gabrielrichter.
Por fim, apenas marcando algumas (das muitas) pessoas que gosto de seguir e que podem ter interesse: @rvitoria, @JorgeLarangeir1, @rosa_riscala, @samydana, @luizfalvesjr, @alisc, @CenergiaLab, @jlbraga, @ArthurLulaM, @mamollica, @JamesGBrasil, @pfnery, @sf2invest, @LucasWarwar
Share this Scrolly Tale with your friends.
A Scrolly Tale is a new way to read Twitter threads with a more visually immersive experience.
Discover more beautiful Scrolly Tales like this.
