Afinal, quem é o “pobre de direita”?
Inicio essa leitura aos meus 10 anos. Meu pai tinha acabado de pegar o Bar. Trabalhava durante o dia e eu e minha mãe íamos pra Central do Brasil todos os dias fazer compras de ônibus.
Carregávamos bolsas e mais bolsas de compras, muitas vezes não tínhamos nem o dinheiro da Kombi para subir o morro, era a pé, nas canelas.
Arrumando os biscoitos fofura na prateleira, sem querer esbarrei numa haste de metal enferrujada que fez o saco abrir e perdemos um pacote, para o nosso desespero. À época? Cada centavo era importante.
Dias depois, a mãe de um amigo entrou na porta do bar chorando, dizendo que sua irmã, no nordeste, estava quase morrendo de fome, estava se mantendo viva bebendo água e açúcar. O ano era 2001, ali eu já pensava que não era tão pobre assim.
As coisas melhoraram um pouco, conseguimos juntar algumas dezenas de reais para pagar a mensalidade de um colégio particular de baixíssimo nível, uma aposta dos meus pais em mim. Aposta essa que durou apenas um ano, pois ou eu estudava ou a gente comia, mas que deu certo.
Em um ano estudando nesse colegio consegui fazer um teste para uma escola estadual e passei. O ano era 2004. Ali eu sabia que meus amigos eram muito mais pobres. E eu? Nem me via mais como tal, tamanho o privilégio de estudar numa escola que era uma realidade de poucos no morro.
Mas eu não tinha nada.
Minha juventude foi nas ruas do morro do pinto, na porta do bar, na rua João Cardoso. Chegava final de semana, com o movimento do bar oscilando entre a merda e o desespero do aluguel, me permitia, ao menos,
comer um biscoito trakinas com um Tobi Lata de 50 centavos. Com muito esforço, claro, e apenas com autorização do meu pai, que a época, contava as moedas para fazermos compras na central do Brasil. Meus amigos? Alguns nem tinham centavos pra comprar bala.
Ora, como eu me acharia pobre? Pobreza, pra mim, na época? Era isso.
A Central do Brasil sempre esteve mais presente na minha vida do que qualquer outro lugar dessa cidade.
Entre bolsas a tira-colo e espelhos d’água no meio fio com esgoto a céu aberto, eu e minha mãe éramos habitué da lotérica, da loja do biscoito e da banca do bicheiro pra fazer uma fezinha na esperança de acertar uma milhar.
Quando sobrava dinheiro, a volta era de Mototaxi, ou então voltávamos de ônibus pra comer um joelho no China, mas sem Coca-cola. O ano era 2006. A vida dos meus amigos continuava a mesma, a minha? Também. Mas eu?
Agora comendo um joelho no China e andando de moto-taxi? Já me achava a classe média da favela.
Matinê da Raio de Sol. Alguns amigos meus eram figurinha carimbada.
Eu, mês sim mês não, conseguia, a muito custo, tirar dez reais do meu pai pra garantir a entrada, mesmo que sem dinheiro pra beber nada, ia de carona com alguns amigos que na época já tinham até carro. Eu achava que eles eram ricos.
Eu, andando com eles apenas com o dinheiro da entrada? Não me via mais como pobre.
Onde eu quero chegar com isso? Que em todos os momentos em que alguém me chamasse de POBRE, dada as referências de pobreza que eu e boa parte desse país tivemos contato na vida.
Nas nossas histórias, nas relações interpessoais, a pobreza se torna algo abstrato, inimputável ao próprio indivíduo. Um indivíduo no Brasil dificilmente vai se enxergar como pobre na perspectiva da ofensa.
Sempre vai ter na sua cabeça alguém que é mais pobre para que ele possa fugir de um estigma que estão tentando lhe atribuir.
Pobre não sou eu, pobre é a irmã da fulana, que bebe água com açúcar pra não morrer de fome.
Pobre é meu amigo que não tem dinheiro pra comprar um bigbig, eu bebo Tobi Lata, rapá, me respeita.
O “Pobre de Direita” é uma alegoria diante de um cenário tão pavoroso para o trabalhador.
Um cenário criado por essa elite perversa, pavorosa, criminosa, escravocrata, que não se furtou em destruir os alicerces industriais e tecnológicos desse país a fim de criminalizar o único pobre que conseguiu equalizar todas as faces da pobreza desse país em uma só voz.
O pobre nesse país é descartável, como sempre foi, e vai continuar sendo nessa necropolitica do século XXI. Mas quando chega na época da eleição, todos os pobres são abraçados pelos políticos de Direita que em outrora os chamavam de “vagabundos que vivem de bolsa família”.
O pobre de direita não é burro, ele é cego a ponto de nem se enxergar, e essa cegueira não é uma escolha, é a ideologia do capitalismo, onde sempre vai ter alguém mais miserável pra te confortar.
Não é o pobre de direita que tem que ser combatido, é a ideologia que o cega.
Share this Scrolly Tale with your friends.
A Scrolly Tale is a new way to read Twitter threads with a more visually immersive experience.
Discover more beautiful Scrolly Tales like this.
