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Seremos pra sempre as brusinhas mais cheirosas e kkkkk da internet. Paramos de operar em agosto de 2023. Obrigada pelo carinho de sempre ❤️

Sep 24, 2020, 25 tweets

Clientes, preciso contar pra vocês uma coisa que está rolando com a produção têxtil no Brasil. Nunca, em toda nossa história, tivemos uma crise tão grande nas matérias primas do setor têxtil. Essa thread vai ser um segue o fio quase literal 🧶

As fábricas de tecido não têm fio pra produzir malha. Toda a produção nacional de fio foi vendida pra fora porque assim: se você pode vender em dólar no preço de sempre e converter em real, o lucro é muito maior. Por isso, falta tanto algodão quanto fio no mercado.

Isso tá rolando faz um tempo já, mas acredito que a coisa vai ficar terrível daqui pra frente, viu? Acabou o estoque das empresas fornecedoras. Temos um belo estoque aqui, mas ele tá acabando. Muito material está atrasando DEMAIS, demais mesmo. Um pedido meu de julho chegou hoje.

E o que isso significa? Aumento nas camisetas. Vocês vão ver lá no site: subiu tudo. Não estamos fazendo e nem temos a menor previsão de fazer promoção, inclusive Black Friday, porque não temos como produzir.

Pedidos específicos estão atrasando porque não chegou tecido/água. Como não temos estoque, a produção atrasa mais ainda.
E nossa situação é até que confortável porque temos malha, por enquanto, e pedidos para chegar que serão honrados mesmo com muito atraso.

Entretanto, é URGENTE alguma política que impeça que matéria prima seja totalmente exportada deixando preços como do algodão e do arroz subirem absurdamente. O kg de tecido subiu 25%.

Nem na década de 90, com o bicudo, que foi destruída quase toda a lavoura de algodão do Brasil, tivemos uma crise dessa. Somos o quinto maior produtor do mundo e não temos algodão em casa.

Não comentei muito com vocês porque estava tentando resolver esse problema conversando com fornecedores, lançando mão da nossa boa relação com fábricas e lojas pra montar uma estrutura boa pra passarmos por esse momento da forma mais suave possível.

E também ajudando quem tá precisando de malha e não tem pra produzir, porque além da gente tem mais galera se fodendo MUITO com isso. Aqui tem uma rua que só vende malhas... pode andar de ponta a ponta e você não acha tecido de algodão branco e preto.

Fora isso, pra tecer não precisa só de matéria prima nacional: o fio vem da China, tem suprimento que vem da Europa, EUA etc. e com a desvalorização do real e dificuldade de importação, tudo isso tá sendo muito complicado de se conseguir, e se conseguir, o preço tá altíssimo.

As fábricas não estão aceitando pedido. Se estão, é apenas pra novembro/dezembro, sem data ou prazo certo. A colheita do safra de algodão aconteceu mais ou menos há 15/20 dias, e esse prazo até novembro é baseado na expectativa desse algodão virar fio pra poderem produzir.

Entretanto, é uma expectativa só, porque só 10% do fio ta sendo entregue aqui no Brasil, 90% tá sendo exportado.

Lembrando que MÁSCARA RESPIRATÓRIA CASEIRA é feita com... tecido. Não é só uma crise sobre “comprar roupas novas” e a solução não é “comprar no brechó”, como vi RT comentando. É só... sobre o emprego das pessoas (?). Uma coisa não anula a outra. Industria têxtil não é só roupa.

Lamentável esse governo que acredita que desenvolvimento econômico se lê apenas em número. Porque sim, os números vão ser lindos: toneladas de exportação, muito dinheiro estrangeiro vindo pra cá... e ficando parado na mão de uns gatos pingados. E a indústria nacional que se foda.

Esqueci de comentar que os 10% de fio que estão sendo entregues só estão sendo entregues por CONTRATO. Produtores, indústrias de fio e de tecido têm acordos de venda antecipada da safra, uma das conquistas da consolidação da indústria têxtil nos últimos 20 anos.

Se não tivesse esses acordos, TUDO seria vendido pra fora e a crise seria muito maior. É fundamental que sejam feitos acordos no sentido de dar proteção aos produtores, já que plantar algodão é muito caro, às empresas de fio, mas também garantia de entrega pra suprir a demanda +

nacional. Não só no algodão, mas outras culturas também. Especificamente sobre o algodão, é uma cultura difícil de ser feita em produção de pequena escala. É cara. Precisa de grande área. Não tem quase pequenos produtores. Ficamos nas mãos de monopólios produtores.

Essa lógica precisa ser aplicada a outras culturas também. O exemplo mais notório nesse momento é o arroz.

E agora uma anedota desses tempos: uma costureira da firma pegou um freela de final de semana de 80 camisetas por conta. Foi, comprou o tecido numa loja. Depois de lavado, o tecido simplesmente ficou destruído. Me ofereci de ver no microscópio a malha pra analisar.

A fábrica tá misturando poliéster e algodão de fio menor e uma fibra desconhecida no meio da fibra de algodão 30.1 pra render.

Isso leva a pensar que num momento de ausência de suprimentos isso pode significar não termos segurança em relação ao que consumimos. Pode ser algodão, mas em breve pode ser alimentar, em relação a materiais de construção. Os efeitos colaterais são vários.

Fiquem tranquilos: NÃO É A MALHA QUE A GENTE USA. Eu só me ofereci pra analisar o material e entender o que rolou.

Novidades sobre a questão têxtil: tá sem malha, tudo atrasando, tudo pior que antes. Falta tinta, falta primer, falta fio, falta suprimento, falta tudo...

Semana passada eu abri meu último par de cartucho de tinta branca. Era pra ter chego mais dia 07. Depois mudou pra dia 19. Agora não tem mais prazo. Numa rede de solidariedade, o Victor da Stampideias conseguiu me emprestar 2 cartuchos pra conseguirmos continuar trabalhando.

Muitos clientes perguntam se vai ter Black Friday e promoção de Natal. Sempre fazemos. Esse ano, não sei. Encomendei malha pra Black mas não sei se vai chegar. Não posso vender algo que não consigo entregar depois. Enquanto isso, seguimos em stand-by.

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