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Quebre os grilhões da cela, mas não se assuste se o prisioneiro não sair, talvez a cela seja absurdamente confortável.

Sep 29, 2020, 12 tweets

Para você, filosofento (a), que vive no mundo da lua:

“Em 1974, tornei-me pai. Foi isso que me levou a entrar plenamente no mundo. Por diversas razões, eu me senti fortemente tocado pela chegada dessa criança e queria viver plenamente essa experiência. +

A criança não se deixa reduzir a uma abstração, ela chora e ri para você, exigindo uma resposta. Ela também o força a aceitar a continuidade entre vida material e vida do espírito. +

Amá-la com todo coração deve ser traduzido também em lavar seu traseiro, trocar fraldas, preparar suas mamadeiras — nem muito quentes, nem muito frias. Diante dessa intrusão brutal de preocupações, tão diferentes daqueles a que estava acostumado, duas atitudes eram possíveis. +

Ou bem compartimentava solidamente minha pessoa e minha vida, e nesse caso o fato de ter me tornado pai, não teria nenhuma incidência sobre minha maneira de pensar e, portanto, sobre o conteúdo de meu trabalho, dado que se tratava de um trabalho do pensamento. +

Ou então eu buscaria estabelecer, se não uma coerência perfeita, pelo menos uma comunicação. Ora, a primeira opção me repugnava, pois se parecia muito com a atitude de descontinuidade como regra de vida: bons companheiros de copo à noite, conformistas submissos durante o dia. +

Optei pela busca de continuidade, e minha maneira de pensar se viu transformada. Nesse aspecto, senti-me em ruptura não só com meus antigos amigos, mas também com bom número de intelectuais franceses. +

Você, assim como eu, conhece todos esses filósofos e escritores para quem somente existem a vida do espírito, a pesquisa ou a criação, e gostariam de reduzir sua presença física neste mundo a um mínimo ou, em todo caso, gostariam de não tomar conhecimento dela em seu trabalho. +

Da vida material, eles só retêm o “corpo”, ele próprio reduzido à sexualidade. Ora, eu não creio, para falar como Mallarmé, que “tudo no mundo existe para finalizar num livro”. A troca amigável e amorosa, a vida material, me importam muito. +

Adoro trabalhar com as mãos, arrumar uma casa, cozinhar para meus próximos, caminhar na floresta, sentir o cheiro da terra e, sobretudo, não quero isolar essas experiências do trabalho do espírito. Meu pensamento não deve ignorar os prazeres de meus sentidos. +

Você vai achar que tenho contas a acertar com Sartre, o que não é o caso, mas é ele que me vem à mente como contraexemplo. Você sabe, esse lado “moro num hotel, não tenho filhos, as preocupações cotidianas não existem” etc. +

Muitos intelectuais, menos célebres q ele, adotam essa atitude, por vezes sem se dar conta. Separo-me deles em dois pontos: (1) acho q deixam de viver experiências essenciais (como lamento por todos os jovens q não viram seus filhos crescerem pq precisavam terminar a tese!); +

(2) creio que nenhuma parede estanque deve separar a reflexão desses aspectos da existência. Do contrário, corre-se o risco de produzir, no trabalho, uma imagem de mundo sem relação com o mundo em que se habita.”

— Tzvetan Todorov, in: “Deveres e deleites”.

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