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Me chamo Filipe Figueiredo, criador do Xadrez Verbal, site e podcast de política internacional. Sou professor, do Nerdologia de História e colunista do Estadão

Oct 2, 2020, 16 tweets

Saiu um estudo genético de uma amostra da população brasileira mostrando uma maior proporção de genes paternos europeus e de genes maternos indígenas e africanos. Algo que a historiografia brasileira já mostrou, diga-se. Alguns tentam negar o componente da violência (...)

(...) na formação dessa composição, algo também bem documentado

O que a estátua do post tem a ver? Representa o Rapto das Sabinas, lenda romana sobre o rapto de mulheres de tribos vizinhas

O lembrete pode ser desconfortável, mas a violência sexual é fator importante na História

(...) A violência sexual em massa, inclusive, está na tipificação do crime de genocídio. E isso ocorreu em massa praticamente ontem na ex-Iugoslavia

E aconteceu por séculos no Brasil. Deveria ser surpreendente ver gente querendo negar esses fatos, mas, alguns casos, não são(...)

(...) Finalmente, usar o conceito de cunhadismo de Darcy Ribeiro para explicar tamanha disparidade é, no mínimo, superficial, já que foi um fenômeno restrito, no tempo, no espaço e nas etnias

Desculpem o "textao" e ter chegado atrasado na conversa, que, no fundo, não é novidade

Fui conferir os dados do censo de 1872, praticamente ontem em termos demográficos

15% de toda a população brasileira estava escravizada. Como falar de acasalamento seletivo ou sequer de consentimento em relação a pessoas que sequer eram donas de si, por exemplo?

Isso quer dizer que toda relação foi fruto de violência? Claro que não

Só que a disparidade das proporções é chave pra compreender o fenômeno. Especialmente no que concerne a população negra. Mulheres escravizadas não precisavam de consentimento, é muito simples (...)

(...) E falar de "selecionar o macho reprodutor" nesse caso é tosco, já que a relação não seria pública nem meio de ascensão. José do Patrocínio, por ex, era fruto do estupro de padre branco com escravizada negra

Seu pai nunca assumiu o filho e ele cresceu junto aos "cativos"

"Oras, mas José do Patrocínio é exemplo de ascensão social"

Pela educação que lhe foi propiciada, mas ele não tinha pai reconhecido. Sua mãe, que teria "escolhido o reprodutor", não teve marido

Mesmo hoje questionariam o consentimento entre padre de 40 anos e uma menina de 15

Pra quem gosta de evidência anedotica ("meu avô disse isso e aquilo, você tá errado") temos aqui um exemplo nem tão incomum assim

Desculpa avisar, mas o fato de ser seu antepassado não quer dizer que era anjo

Transamazônica, ontem

Tudo consensual, parem de querer lacrar em cima

(Ironia, por óbvio)

Para quem quiser conferir os dados do estudo com gráficosp, segue o link

É que nem o caso dos polinésios que comentei no podcast uns tempos atrás: é a genética referendando o que as fontes históricas já apontavam

www1.folha.uol.com.br/amp/ciencia/20…

Para quem não ficou claro ou quiser aprofundar, a genética referendou algo que é visto em documentos e fontes historicas. Não é "apenas" a genética que mostra o papel da violência na formação do Brasil, e um gene sozinho não prova nada (...)

(...) mas a sua relação com outros materiais e fontes. Sugestões: Vainfas, Laura Mello e Souza, Lilia e Stuart Schwartz (História da vida privada: cotidiano e vida privada na América portuguesa; História e sexualidade no Brasil, etc)

E, claro, O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro

Um breve complemento na thread, algumas horas depois

Claro que são relatos individuais, servem no máximo de ponto de partida para uma amostragem maior, mas é impressionante o tanto de gente falando de antepassadas não tão distantes (até avós) "pegas no laço", "buscadas na mata"

Não adianta fazer leitura seletiva do Darcy Ribeiro e sua obra seminal. Que tem fartas referências bibliográficas e de fontes, por sinal

(Tweet só de desculpa para lembrar que dei umas indicações bibliográficas aí em cima, em algum lugar da thread, para românticos insistentes)

23:59: Falar de violência na formação do Brasil é militância, o cunhadismo explica, Darcy Ribeiro fala disso

*O mesmo Darcy Ribeiro, no mesmo O Povo Brasileiro, sobre "criatórios de gente" e "incremento prodigioso"

00:00: Isso aí é evidência anedótica, "umanas" não é ciência!

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