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Ilustradora • Falo sobre Arte e coisas que me interessam~ Ela/Dela • Contato: joanafraga@yahoo.com.br • LOJA:

Feb 3, 2021, 33 tweets

Tem gente que vai tentar te convencer de que essas 3 situações são exatamente iguais a nível representativo. Segue o fio:

Vamos destrinchar a imagem em texto:
-Moça Bonita está parada
-Homem chega por trás e apalpa o seio dela
-Moça Bonita diz: Pare!
Qualquer pessoa em sã consciência diria que essa é uma situação de assédio sexual. Certo?

Vamos dizer que eu passei essa exata descrição para 3 artistas diferentes, e recebi essas 3 interpretações da imagem acima. Você conseguiria dizer pra mim que as 3 pessoas pensam igual em relação a situação "Assédio"? Talvez sim, talvez não.

Vou te falar que a pessoa pode entender perfeitamente que assédio é algo negativo e ainda representar isso dessa forma aqui. A questão é, por que? E por que isso pode ser ruim?

SEMIÓTICA é, em termos simplórios, o estudo de como interpretamos o que vemos. E como atribuímos significado a coisas. Se você ver um alinhamento de 3 bolinhas, vermelha/amarela/verde, você VAI associar isso a um semáforo. Mesmo que não seja um.

Muita gente acha que semiótica funciona apenas pra logomarca e símbolos de placa. O que é um engano! Semiótica é aplicável em qualquer campo artístico. Na ilustração, nos utilizamos de semiótica o tempo todo para representar personagens, situações e discursos.

Nesse exemplo aqui, qual deles seria o VILÃO, na sua perspectiva?

Veja como eu posso mudar a percepção que vocês tiveram inicialmente com apenas alguns acréscimos de outros símbolos:

Na ilustração, TUDO que você acrescenta dá um significado ao leitor. E mesmo signos iguais podem representar coisas diferentes se atrelados a outros símbolos simultaneamente (os tracinhos no rosto de ambos os personagens podem representar falsidade, ou inocência)

Isso se torna especialmente problemático quando entramos no campo da representatividade. Não é novidade que personagens femininas são hipersexualizadas sem necessidade para o benefício do olhar masculino há gerações.

Isso já vem sido falado a anos, e ultimamente vemos várias tentativas de mudança por parte da mídia em geral. Algumas MUITO boas! Outras...nem tanto. Isso acontece porque existe uma resistência em vários artistas de reconhecer outros tipos de signos para representar coisas.

O mercado é tão absurdamente viciado que tem artista que não consegue CONCEBER outro tipo de representação. EU NÃO TO FALANDO dos punheteiros de plantão, estou falando de pessoas e artistas que GENUINAMENTE não percebem a diferença entre isso e isso +

+pelo simples fato de que a imagem da esquerda é TÃO comum que alguns não conseguem perceber os signos sutis pelo que eles são, e acabam NATURALIZANDO coisas que não deviam ser naturalizadas, perpetuando assim a dominância desse tipo de representação, e PIOR +

+ ressentindo e reclamando de pessoas que dizem que esse tipo de representação é ERRADA para a situação em questão. Entendam que eu não to fazendo uma cruzada contra as punhetagens alheias, o meu problema é isso estar se tornando TÃO natural que a pessoa é incapaz de perceber +

+ que ela NÃO ESTÁ representando um assédio, e na hora de REALMENTE ter que representar uma situação dessas como ela é, UM CRIME...não consegue. Vamos destrinchar a imagem para vocês entenderem melhor:

A personagem hipersexualizada tem apenas uma função no DESIGN: se apresentar disponível sexualmente, seja pro leitor ou pra cena. Ela é desenhada para despertar desejo, e TUDO que acontecer com ela ao decorrer das cenas são para provocar alívio sexual ao leitor, +

+não importando o contexto. MESMO que essas cenas sejam de assédio ou até estupro. O design hipersexualizado nesse caso serve justamente para aliviar a culpa instintiva do leitor, transformando a situação, no mínimo, em algo semi-consentido, capaz de ser consumido.

Além disso, sua posição será SEMPRE aberta, passiva, ao estilo "você fala não mas seu corpo diz sim". A personagem pode falar QUALQUER coisa, mas o design vai sempre contradizer: as roupas, a postura, a expressão facial... o mercado de hentai se aproveita MUITO dessas técnicas.

Eu tenho CERTEZA que vocês já viram esse tipo de cena em INÚMEROS trabalhos, mesmo sem pornografia. E com certeza você já viu algum leitor ou artista argumentando assim: "ENTÃO QUER DIZER QUE NÃO PODEMOS MAIS DESENHAR SOBRE ASSÉDIO? E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO??" +

+ e você provavelmente não soube explicar bem PORQUE a cena te incomodou tanto. Mas você não está doida: isso é gaslighting. Cenas como essa NÃO SÃO pensadas para representar o assédio como crime, elas são pensadas para mostrar o assédio como FETICHE, +

+ e quem fala isso ou é desonesto, ou leu tanto hentai/quadrinhos dos anos 90/Qualquer coisa do Manara que acha GENUINAMENTE que essa é a única forma possível de desenhar mulheres. Sério, já vi acontecendo DEMAIS. Nem sempre é punheteiro.

(Por isso eu INSISTO TANTO que um bom artista precisa de MÚLTIPLAS referências e muito estudo de coisas diferentes. Viciar o olho em uma coisa só também te impede de enxergar coisas óbvias como... PARA DE DESENHAR BICO DE MAMILO pORRA)

Temos aqui a MESMA personagem, mas sem os marcadores de hipersexualização. Ela continua sendo peituda, mas sua blusa não marca o formato dos seios como se estivesse nua. Ela continua magra e curvilínea, mas seu quadril não está apontado como se estivesse esperando uma piroca +

+Ela continua usando shorts, mas sua vagina não está marcada. DE REPENTE essa personagem não é apenas uma capa de pornô. Ela é uma pessoa que você pode conversar, trocar uma ideia. E ao representar ela sendo assediada, como fazer para não deixar a situação ambígua?

A leitura corporal vai dizer tudo. Ela precisar estar se afastando, se protegendo do agressor? defendendo a área que foi tocada? Se você nunca passou por algo assim, convém entrevistar pessoas que já passaram por isso. O primeiro passo é SEMPRE observar o real, DEPOIS estilizar.

TUDO que você desenha, da forma como você desenha, importa. O leitor VAI perceber, conscientemente ou não. E vai agir de acordo.

Se você tá desenhando pornografia ou algum tipo de conto erótico, ok. Mas se você está usando esses signos com o objetivo de "falar sobre o assédio"... você tá fazendo errado. Simples assim. E isso vale pra qualquer outra situação ou mensagem...

Expressar as coisas corretamente é MUITO importante na hora de passar uma mensagem. Não despreze as pessoas que falam sobre isso, as vezes sem nem saber o que incomoda. A responsabilidade de comunicar é sua. É isso

Eu sei que muita gente vai dizer "Ah Joana mas quem faz isso faz SEMPRE de forma deliberada", mas olha, vou te falar que NÃO. Claro que sempre tem o famoso artista punheteiro, mas tem gente que realmente não tem referência. EU MESMA já passei por isso.

Na época em que eu só assistia anime e estava entrando no mercado, era esse tipo de personagem que eu fazia seio marcado, roupas diminutas, posições sexualizadas. Porque tinha um exemplo desse em TUDO que eu assistia. Eu não sabia que dava pra ser diferente. Eu tinha 16 anos

Foi só quando eu me propus a ESTUDAR e buscar outras referências que eu comecei a ver que existiam outras possibilidades e outros caminhos para representar as coisas.

Outro exemplo interessante, a artista barroca Artemisia Gentileschi era coagida pelo pai a alterar as expressões das mulheres que pintava para serem mais passivas. Artemisia queria mostrar a mulher SOFRENDO com o assédio em "Susanna e os Anciões" (1610) +

+ mas o pai insistiu em alterar o quadro para uma versão mais "palatável", com expressões mais ambíguas, que eram mais típicas pra época. Um exemplo é o quadro com o mesmo tema do Massimo Stanzione (1643):

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