Tiago Batalhão Profile picture
Data Scientist - Ph.D. in Quantum Computation

Nov 6, 2022, 15 tweets

Vi o PDF do tal relatório do argentino e resolvi fazer algumas análises por conta própria, aproveitando que já trabalhei com dados do TSE no passado. Vou colocando aqui alguns pontos que for descobrindo nessas análises, e eventualmente posso compartilhar algo mais detalhado.

No slide 10 do relatório em PDF, há uma marcação de “Importantíssimo” e um comentário de que “Este jamais seria um comportamento esperado". Quero mostrar que na verdade esse é um comportamento totalmente esperado.

Ele comenta que “Modelos não-2020 têm ângulo fixo ‘máximo’, do qual os votos do Bolsonaro (ou do Lula) ‘não podem passar’”. Obviamente, a soma dos votos de Bolsonaro e de Lula não podem passar do número de eleitores aptos a votar naquela urna. É preciso saber como isso é feito.

O TSE tenta manter um máximo de 400 eleitores inscritos por urna. Quando mais eleitores se inscrevem em uma determinada zona eleitoral, o TSE adiciona mais urnas nessa zona, para manter um máximo de 400 eleitores.

Para referência, deixo aqui uma figura do número de eleitores por urna. Reparem que existem poucas urnas com mais de 400 eleitores, e que nesses casos a grande maioria é de urnas novas.

No entanto, esse ano, parece que foi testado em alguns lugares um aumento de até 500 eleitores por urna. Não sei se isso foi amplamente noticiado, mas a intenção deve ser reduzir os custos da eleição (com mais gente por urna, dá para usar menos urnas e menos lugares de votação).

Esses lugares que tiveram seções com mais eleitores em geral utilizaram as urnas novas (2020). O que ele aponta como “artificialidade” é apenas uma consequência do fato de que essas urnas tem mais eleitores.

Essas urnas com mais eleitores se concentram em poucas cidades. Mais de 70 % delas estão em apenas 10 cidades (Rio, BH, Salvador, Belém, Natal, Maceió, Fortaleza, Curitiba, Lauro de Freitas, Manaus). Reparem a ausência de São Paulo e Brasília.

Os dados de quantos eleitores estavam aptos a votar em cada urna estão disponíveis desde antes do primeiro turno. Então, desde então já dava para saber que teria esse comportamento que o tal argentino descreve no slide 10.

Na minha opinião, isso já enfraquece bem o relatório, coloca uma dúvida sobre a capacidade técnica de quem fez. Porque ele trata como grande escândalo algo que na verdade é bem trivial.

Um ponto que me incomoda é que, em vários dos slides com gráficos, ele escreve “MESMÍSSIMA POPULAÇÃO, SEM CAPITAL, SEM CIDADE MÉDIA OU GRANDE, TUDO NO MESMO ESTADO: NÃO HÁ OUTRA JUSTIFICATIVA PARA AS DIFERENÇAS QUE NÃO O MODELO DE URNA.” Isso também não é realmente verdade.

O argumento do relatório é que as cidades que receberam as urnas novas tem o mesmo padrão que as cidades que receberam urnas antigas. Porém, se olharmos no mapa (azul=urna nova, vermelho=urna antiga), dá para ver que, no Nordeste, as urnas novas ficaram próximos das capitais.

Eu sei que no relatório ele exclui as capitais, mas ele não exclui as cidades próximas das capitais. No interior dos estados do Nordeste, há poucas urnas novas (modelo 2020), com exceção de algumas regiões de Bahia e Piauí (ao redor da capital, a única que não fica no litoral).

Já era sabido desde antes que o Lula tinha um desempenho muito bom no interior do Nordeste e nem tanto assim no litoral. A votação maior do Lula nas urnas antigas parece fácil de entender ao olhar o mapa e ver que o litoral tinha urnas novas e o interior ficou com as antigas.

Novamente, mais um ponto em que o relatório faz uma afirmação muito forte mas que não é realmente verdade.

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