Agora pouco houve a confirmação de que Ali Khamenei, Supremo Líder do Irã, foi morto nos ataques aéreos realizados por Israel e EUA
Vou fazer uma breve thread em complemento ao mais recente podcast Xadrez Verbal (que, até agora, não está obsoleto)
Por favor, compartilhe
(...) As autoridades israelenses reivindicam a morte de dezenas de líderes e comandantes militares iranianos, em um ataque de decapitação com poucos precedentes na História
É a primeira vez em que um líder de um Estado foi morto pelo ataque aéreo de outro país (...)
(...) Diante disso, resta analisar as possíveis consequências e desdobramentos dos ataques iniciados na manhã desse sábado
Duas variáveis principais precisam ser analisadas
Diga-se “principais” pois, por razões de espaço, não é possível analisar-se tudo em um só texto (...)
(...) Uma variável é sobre a duração do conflito e a outra sobre o futuro do regime da República Islâmica do Irã, e ambas se correlacionam
Dado o escopo do ataque de decapitação, a hipótese de uma escaramuça quase teatral, como ocorrida em 2024, com ataques telegrafados (...)
(...) em que cada ator envolvido simplesmente buscou salvaguardar a reputação, pode ser descartada
Agora, mesmo em caso de conflito curto, as consequências serão duradouras
O conflito pode ter curta duração, como o do ano passado, que durou doze dias, e intenso (...)
(...) Um possível sinal virá na abertura dos mercados na segunda
As ações de Trump costumam ocorrer após o fechamento das bolsas na sexta, como previsto no podcast
Se houver forte queda na segunda, ele pode recuar (...)
(...) Isso explica parte da retaliação iraniana aos ataques, que incluiu mísseis contra Israel, bases dos EUA e monarquias do Golfo. A escalada pode gerar forte impacto econômico, afetando hubs globais de aviação, turismo e grandes produtores de petróleo
(...)
(...) Esse impacto econômico pode afetar as ações do governo Trump
A estratégia do Irã ecoa a de Saddam em 1991, atacando Israel e o Golfo para rachar o apoio árabe aos EUA. Nesse sentido, como antes, é improvável que funcione, e o Irã já afastou monarquias árabes e (...)
(...)gerou críticas também da Turquia, que tentou mediar as conversas
Com eleições legislativas e popularidade em queda, Trump monitora os mercados. Seu eleitorado MAGA critica “guerras eternas” e teme inflação e combustíveis caros (...)
(...) A atual decisão de Trump pode envolver desde mudar o foco do caso Epstein, a aliança com Israel e pressão de sua base religiosa, além de ser o desejo de parte razoável do establishment político dos EUA, incluindo democratas (...)
(...)Netanyahu se beneficia em ano eleitoral, com os ataques como vingança pelo 7/10 e enfraquecimento do principal rival regional
À depender da retaliação próxima iraniana e se Trump julgar que seus interesses políticos sobressaem aos econômicos, a guerra pode continuar (...)
(...) Trata-se da maior mobilização militar dos EUA desde a invasão do Iraque
Nesse caso, o objetivo declarado de Israel e dos EUA é a queda da República Islâmica, à partir do vácuo do ataque de decapitação que matou Khamenei e outras lideranças (...)
(...) As possibilidades em relação à esse vácuo são quatro
1, ser ocupado pela linha-dura, sobretudo a Guarda Revolucionária, que lutaria pela própria sobrevivência. O regime se manteria, possivelmente ainda mais repressivo, com Khamenei mártir nacional, tal qual Soleimani(...)
(...) 2, vácuo ser ocupado por reformistas, como Zarif, solução que agradaria vizinhos e poderia evitar colapso e guerra longa, o que exigiria concessões da Guarda Revolucionária e enfrentaria críticas tanto da linha-dura e quanto de quem quer derrubar todo o regime (...)
(...) Essas hipóteses também poderiam evitar um conflito longo
3, o retorno da monarquia, com apoio da diáspora a Reza Pahlavi, o que não é unânime dentro do Irã. Isso requer também uma ação dentro do Irã, talvez via protestos populares, o que pode alimentar a linha-dura
(...)
(...) 4, embora o aparato de Estado do Irã seja consolidado, e exista um "Estado dentro do Estado" na GRI, o Irã enfrenta forte descontentamento e tensões étnicas
No atual cenário, pode levar a guerra civil, separatismos e fragmentação, transformando o país em um (...)
(...) cenário ainda mais caótico que o Iraque
Todos esses quatro cenários estão ligados à possível duração do conflito
Um novo governo reformista poderia levar ao fim rápido do conflito, enquanto uma guerra interna iraniana poderia até encerrar a participação dos EUA (...)
(...) no conflito, mas a guerra interna poderia se arrastar por meses, até anos
O Irã não é um país simples e monolítico como algumas pessoas ideologicamente pensam, seja pro bem, seja pro mal. São cem milhões de pessoas, de diversas etnias e grupos de interesses (...)
(...) A realidade é mais complicada, e apresentar essa miríade de possibilidades é apenas honestidade
Isso sem entrar em pontos como a incerteza sobre a real capacidade militar iraniana após os ataques e o suposto apoio chinês
Além disso, seus proxies estão fragilizados(...)
(...) Finalmente, é necessário destacar que, apenas horas antes do ataque, o ministro de relações exteriores do Omã, Sayyid Badr Albusaidi, que mediava as conversas em Genebra, apareceu na televisão dos EUA e falou com o vice-presidente JD Vance (...)
(...) em uma última cartada diplomática
Quem falar que não existiria uma saída diplomática está mentindo
O que houve foi uma opção pelo conflito, uma escolha consciente e conveniente para muitos
A guerra é, sempre, uma escolha (...)
(...) Novamente, peço que compartilhem o fio e, repito, ele é um complemento ao mais recente podcast do Xadrez Verbal, que foi gravado na quinta-feira, dia 26 de fevereiro
Também tenho uma live no canal do Pirulla, publicada no feed do Xadrez Verbal, em que faço (...)
(...) uma retrospectiva histórica de Irã x Israel
Para resumir a thread: olho nas bolsas na segunda-feira
Agradeço a confiança e apoio de todos meus ouvintes e leitores nesses anos todos, conquistados com um trabalho sério e responsável
Beijos para todos vocês
PS: eu deixei claro no início da thread que ela vai focar em dois pontos específicos. Comentários como "faltou dizer que..." não são construtivos, já que é impossível esgotar esse tema. Que eu abordo publicamente tem mais de década, inclusive
Obrigado
PPS: O cargo de Khamenei era de Supremo Líder. Aiatolá é um título religioso muçulmano xiita
Existem dezenas de aiatolás pelo mundo, especialmente no Irã
Manchetes como "Morre aiatolá do Irã" são imprecisas, vamos revisar aí
PPPS: Quem fala em “ataque preemptivo” busca enganar
Trata-se de conceito inexistente no Direito Internacional, mesmo que utilizado por toda a História para dar verniz ideológico de justificativa moral para um conflito
EUA em 1812 e 2023, por exemplo (...)
(...) Uma suposta agressão iminente precisa ser contida de forma justa e legítima, vide a narrativa das “armas de destruição em massa”
Repito, isso não existe no Direito e quem usa esse termo, salvo para explicar a posição do governo de Israel, busca enganar
(...)Vou aproveitar a pergunta da amiga internauta
Explico no Xadrez Verbal desde 2024 que a Rússia rifou o Irã em prol da Ucrânia. Rússia não fará nada pelo Irã hoje
Incógnita é algum eventual apoio chinês, algo especulado e que repercutimos no podcast
(...) Mídia estatal iraniana anuncia um conselho de transição formado por um triunvirato: presidente Pezeshkian (reformista), chefe do judiciário Gholamhossein Mohseni Ejei (linha dura) e um jurista religioso do Conselho Guardião
Possivelmente, 2x1 pra linha dura
(...)
(...) Aqui o tweet da IRNA em inglês. Trata-se do procedimento constitucional iraniano
Resta aguardar o que virá desse conselho de transição
(...) Detalhe importante: quem vai escolher o terceiro integrante do Conselho de Transição é um dos principais aliados de Mojtaba Khamenei (filho de Ali Khamenei), chamado Sadiq Larijani
Novamente, tudo indica 2x1 pra linha-dura nesse conselho
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