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gabi sobral @darkgabi
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vocês pediram e eu vou tentar finalmente fazer uma thread sobre digitalizacao de acervo e colecoes científicas. dps do incêndio do MN, vi algumas pessoas falando q se o museu digitalizasse as coisas, a perda seria menos pior. bom, pra comeco de conversa o MN tinha um esforco de
digitalizacao de várias coisas. eu como aluna de graduacao trabalhei num projeto q era a exposicao Dinos Virtuais lááá em 2006, pra fazer tomografia computadorizada de espécimes e colocar num site pra galera poder acessar. o projeto rolou e dps foi incorporado a uma pequena
exposicao virtual no site do MN. o sérgio alex, q é um paleontólogo do museu e trabalhava com dinossauros, sempre foi visionário nisso. ele foi o primeiro brasileiro a tomografar fósseis ainda na década de 90. enfim, ele criou um departamento, um laboratório, dedicado só pra
isso, o LAPID (Laboratório de Processamento de Imagem Digital). ele trabalhava junto a vários outros setores do museu pra digitalizar documentos históricos e artefatos. ok, mas quais sao as dificuldades e limitacoes reais da digitalizacao? acho q a mais simples de entender é o
tempo. vc sabe o quao chato e custoso é pq eu duvido q todo o seu álbum de família esteja digitalizado. vai na xérox da sua faculdade. qt tempo levam pra fazer cópia do caderno do seu amiguinho nerd? pior ainda se o livro nao puder ser desfolhado e tiver q ser xerocado ainda
inteiro. agora imagina livros raros q têm uma série de limitacoes por causa da deterioracao. tem q pegar de luga, tem q tomar cuidado ao virar páginas, alguns nao podem nem estar sobre luz forte ou calor. o tipo de escaner pra esses livros é aquele q a câmera é no alto, já viram?
hj em dia edve ter uns mais rápidos, mas qd eu era aluna do museu de berlin o q tinha lá era lerdo por bosta. e como eles nao sao mt comuns, sao caros tb. é importante dizer q os livros de tombo (os catálogos onde ficam concentrados os dados sobre as colecoes biológicas) já
deviam estar praticamente todos digitalizados (provavelmente em tabelas de excel) e salvos na nuvem. o buckup fala disso na entrevista q ele deu ao bial. nao posso dizer se todos eram assim, mas parece q documentos mais siples já estavam, em boa parte, feitos. enfim, só de saber
que sao DUZENTOS anos de documentos e fotos, msm q seja simples de digitalizar e q ocupe pouco espaco de armazenamento, a coisa demora mt. havia tb uma biblioteca de áudio. eu nao sei o qt ela tava digitalizada, mas eu trabalhei, ainda em 2004, na digitalizacao do acervo de
bioacústica da ufrj (basicamente sons de aves). nao sei como é feito hj, mas naquela época eu tinha q ouvir a fita enquanto ia tocando pra separar os diferentes cantos. pq na fita a coisa corre sem faixas, certo? "pipipipipi - canto da ave x.... cóóó cóóó cóóó - canto da ave y"
e eu ia separando nas faixas, nomeando, adicionando dados do tombo original etc. na época, eu lembro q uma das dificuldades foi a compatibilidade de softwares e hardwares. as primeiras fitas foram gravadas nos anos 80 se eu nao me engano e tinham sido digitalizadas e armazenadas
em DISQUETE daqueles enormes, de 5'8". dae qd eles diminuíram pra 3'4" houve a transferência mas logo esses tb sumiram e nao deu tempo de passar tudo. os q se conseguiam acessar, o tipo de arquivo tinha ficado mt defasa, o mac nao lia mais e todos aqueles disquetes tavam fadados
a sei lá, lixo. entao aqui temos mais outros problemas além do tempo: armazenamento e compatibilidade de software e hardware. e isso é um problema até pra grandes empresas. nao é uma discussao idiota. qd vamos pra arquivos tridimensionais a coisa piora mt. os arquivos sao enormes
(os meus tinham uns 20 GB). fiz meu doutorado baseado em modelagem tridimensional e no comeco a gente guardava tudo em HDs externos lá em berlin (pode rir, tá liberado). eu participei de umas duas reunioes em congressos internacionais pra se discutir COMO guardar essa merda toda.
fora q pouca gente concorda em qual tipo de arquivo vai ser guardado e compartilhado. o povo do texas faz em vídeo, o pessoal de berlin faz pilhas de imagens. tem gente q já libera o modelo tridimensional de uma vez. fora q os programas conversam relativamente pouco entre si.
scans de pecas de acervo e de colecao biológica podem ainda ser digitalizadas de várias formas. tem tomografia computadorizada (geralmente com raios-x, dá pra ver dentro do objeto), tem miscroscopia eletrônica de varredura (só superfície) etc. pra preparar o material pra essas
técnicas, às vezes se leva semanas. hj em dia tem escaner de superfície q é beeem mais rápido, embora eu desconheca a qualidade, mas se vc for fazer uma microscopia eletrônica de varredura, vc tem q pulverizar o espécime biológico com ouro ou prata antes.. tem uma série de coisas
e eu nem conheco tudo. tem tb uma técnica q é praticamente fatiar os ossos dos animais e fazer lâminas finíssimas. eu nem sem qt tempo leva pra preparar as lâminas ou fotografá-las. voltado ao acervo e às colecoes biológicas: msm q fossem apenas fotos, existem várias opcoes e
de novo, muitas delas sao complexas. nao é só tirar uma foto. um vaso tem q se tirado várias fotos de vários ângulos pra registrar as pinturas todas... entao no mínimo umas 4: de frente, de costas, de um lado e de outro. mais de cima e de baixo. se vc coloca bixo na jogada, piora
(*bicho) piora tudo. pra inseto, além desses 6 ânulos, teria q ter foto detalhada da boca, das antenas, das asas e das genitálias dos machos. várias dessas fotos teriam de ser feitas em macro (as lentes sao mais caras) e só de insetos a colecao tinha uns 5 MILHOES de bichos.
e isso só considerando UMA foto de cada ângulo. o ruim disso é q pra um objeto tridmensional, qd vc tira uma foto, digamos, de cima, qt menor o objeto maior a chance de detalhes no segundo plano ficarem desfocados. entao existe uma técnica onde uma câmera tira várias fotos
com profundidades ligeiramente diferentes e dps monta uma imagem única onde todos os pontos estao focados. nao preciso dizer qt tempo isso leva e q um microscópio desses custa mais q um normal né. fora licenca de software. falando em software, pra arquivo tridimensional por
exemplo, nao adiant aum computador desktop normal pra rodar o programa, nem msm um computador de gamer q tem mais capacidade de processamento, geralmente. a coisa é tao pesada q é necessário um WORKSTATION, computadores de alta performance q custam a bagatela de uns 20mil reais
(isso em 2016 qd eu vi precos e computadores minimamente bons, mas o mlehor msm seriam uns de 40mil reais). fora a licenca dos programas, q pode chegar a 10mil EUROS.
por último, como eu já pincelei, armazenar isso é bizarramente caro. e, de novo, existem opcoes - e geralmente nuvens nao sao exatamente opcoes nesses casos. a maior parte do armazenamento, inclusive aqui na europa, é feita em servidores. em berlin dps dos HDs externos nós
mudamos tudo pra servidor, mas tava ficando caro demais manter e por uma questao de armazenamento a longo prazo (algumas décadas), eles optaram por fitas de prata (até pq alemao é bem desconfiado com tecnologia). nesses casos, no braisl e no exterior, os servidores ficam na
própria instituicao. nao tem "nuvem". isso nao existe pra esses dados (pelo menos nao até onde eu sei). entao bom, os servidores do museu ficavam no museu. quem é dessa área de TI sabe q qd vc tá tratando de big data, de bases de dados gigantescas, a coisa é mt mais do q só
colcoar na nuvem ou atualizar software como no caso das nossas fotos das férias. enfim, a gente tem aqui exemplos de limitacao de tempo, de espaco, e, principalmente, de dinheiro. é mt mais fácil e barato e melhor em todos os sentidos vc evitar q a coisa seja destruída do q
"guardar na nuvem". até pq a nova técnica q inventam, vc recorre ao objeto original para digitalizá-lo. vc nao vai digitalizar a digitalizacao. fora pros estudos científicos q ver o material em primeia mao é primordial. pq? pq cada técnica dessa, cada artigo publicado, geralmente
foca em um aspecto do animal. meu doutorado por exemplo: eu tava interessada no ouvido, entao por limitacao de tempo, tamanho do tomógrafo, resolucao das imagens etc, eu tomografei as minhas pecas me concentrando naquilo tinha interesse naquele momento pra MINHA pesquisa. se
algum outro pesquisador estiver interessado em cérebro, músculo ou outra coisa, nao é garantia de q ele vai poder usar os meus dados tomografados, talvez ele tenha q refazer as tomografias enfocando em outra coisa.
claro, só pq digitalizar é custoso em tempo e dinheiro, na significa q os museus nao devam buscar fazê-lo. e como eu comecei essa thread, o MN estava sim fazendo isso.
pra encerrar, nós temos uma outra limitacao tao importante quanto tempo, dinheiro e espaco que é PESSOAS. quem faz essas coisas? nao é a máquina q faz sozinha, sao pessoas. pra várias dessas técnicas sao pessoas TREINADAS. às vezes ANOS de treinamento. vc consegue colocar um
estagiário pra passar o tombo prum arquivo de excel, mas quem vc acha q faz tomografia computadorizada? e pra ter pessoal, vc precisa PAGAR por eles. msm q sejam estgiários ou alunos desenvolvendo seus projetos: eles precisam de bolsas. se for um técnico, ele precisa ser
contratado. ou seja: ele precisa virar SERVIDOR PÚBLICO. e os técnicos nunca sao em número suficiente e geralmente sao técnicos de várias coisas ao mesmo tempo. e depois vem um monte de gente criticando a universidade pública chamando de cabide de emprego.
enfim, por enquanto é isso. se eu lembrar de mais coisa eu acrescento aqui. espero q tenha sido de alguma valia :)
quem tinha me pedido isso? nem lembro mais.. vou marcar todo mundo entao @paleotaissa @lama_mala @Pirulla25 @caiocgomes @davirsimoes @Pernetinha1 @tainalon
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