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estirpe em extinção @amaurigonzo
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Eu acho bem louco a galera estranhar essa violência no discurso político atual. Explique-se: cresci na "colônia". A ocupação do noroesto de RS, e depois do oeste de SC, oeste do PR, sempre veio precedida de muita violência, e isso naturalizou o fascismo político na região.
Antes (e durante) a chegada dos primeiros "colonos", camponeses europeus, chegavam os "bugreiros". O nome já carregava as intenções: eram matadores de índios (bugres).
Do Oeste catarinense pra cima, toda essa área em que se planta soja foi forjada na base da pistolagem. Cascavel, no interior do PR, hj parece terra pacata, mas até os anos 80 o sangue corria literalmente nas ruas por lá.
Seja no Alborghetti ou nos programas policiais da TV Tarobá, sempre viu-se muito sangue, sempre pediu-se pena de morte, sempre relativizou-se a ditadura militar - espanto, pra mim, foi conhecer em SP gente com gerações de militância de esquerda.
Esse rastro de sangue ainda é bem recente nessa regiões, e mais recente ainda nas "fronteiras" agrícolas atuais - é mais novo em Luiz Eduardo Magalhães, mas não é tão velho em Sinop ou Lucas do Rio Verde.
Durante os anos 80 e 90, quando a soja subia Mato Grosso adentro, os netos dos colonos que ocuparam o noroeste gaúcho foram criando latifúndios de fazer corar os senhores de engenho do Nordeste.
Esse dinheiro voltava à colônia antiga, às TVs e rádios. MST sempre foi palavrão dos mais brabos por lá - os pequenos e médios proprietários acreditavam-se tão ameaçados ´pelo movimento quanto os latifundiários.
Essa massa toda de gente que acredita em batalhar por um futuro em terras "abandonadas" se articula sobre uma cultura frágil e ainda incipiente, que mistura CTG, cuca e caminhão, com uma presença estatal sempre elusiva. O que sobra é a linguagem da violência.
A ascensão do discurso facho assusta quem é dos grandes centros urbanos, mas lá nas terras onde manda quem pode e obedece quem tem juízo, isso é mato.
É bem curioso pra mim, e acho que existe um traço muito forte de "finalmente estão nos ouvindo", ver isso tudo alçado ao patamar nacional como política de Estado. É sempre bom lembrar que as estradas que carregam soja também levam cocaína e armas para o litoral.
Há um componente forte de se sentir representado por essa "política" (especialmente pelo se aspecto violento) que é algo que vai bem além da razão, é efetivamente identitário.
Vejam bem que eu nem tô falando do nazi-fascismo que grassa a colônia "industrializada" do Vale do Itajaí e do Vale dos Sinos e Serra Gaúcha. Em Blumenau já tive o desprazer de conhecer gente velha que não era neo-nazi, era nazi desde os anos 30 mesmo.
Nessa "colônia" imaginária que vai de Catuípe a Barra do Garças, isso é muita mais difuso, e por isso, inclusive, é tão apaixonada a defesa da candidatura fascista atual por lá: é a primeira vez que se enxergam organizados, com um "projeto" no qual acreditar.
Estamos vendo o nascimento de uma união entre a classe média assustada das capitais e esse discurso tosco e violento do Oeste selvagem brasileiro. Quem fala que isso não vai morrer depois dessas eleições está certíssimo: o Brasil ainda está pela metade.
O processo de integrar essa colonada (e os "matutos", de diferentes origens, que lhes servem de mão de obra barata) ao resto do país é um dos maiores desafios que teremos neste século.
E isso, por bizarro que pareça, significa também ouvi-los, e conseguir separar essa mistura entranhada de defesa da violência com crítica justa à relação entre essas áreas e a União.
Significa fazer valer a lei como um todo, mas também fazer o posto de saúde funcionar. Significa enfrentar o latifúndio, mas também fazer boas estradas. Demarcar terras indígenas, mas abrir universidades.
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