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Pedro Bragança @pfbraganca
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0 “Portela a rebentar pelas costuras. Colapso iminente. Ruptura" - É com base nestes lugares comuns inquestionável que estamos prestes a assumir os custos de um novo aeroporto em Lisboa. Apeteceu-me questioná-los porque é uma história que ilustra bem o país que somos. Vejamos…
1 Em 2015, a TAP altera o seu Plano Estratégico para reforçar a concentração no hub Lisboa e reconhece que uma nova ponte-aérea “encerra alguns mercados a partir do Porto” = o Norte, região mais populosa e exportadora, pode potenciar o crescimento da presença da TAP em Lisboa.
2 A estratégia de concentração assentava num conjunto de medidas concretas, algumas assumidas publicamente, outras não, mas todas visíveis ou de depreensão fácil. Por exemplo:
3 (1) Criar bypass de passageiros do Porto para Lisboa [ponte aérea com frequência horária] com o objetivo de alargar a área de influência da Portela a todo o Norte e captar mais passageiros para o hub, que não aguentava só com AML ou LVT.
4 (2) Fazer downgrade ao estatuto do aeroporto do Porto, que passaria a ser regional, cancelando todas as ligações de longo-curso (Nova Iorque, Rio de Janeiro, São Paulo e Caracas), para forçar os passageiros do Norte a uma escala em Lisboa;
5 (3) Concentrar a frota em Lisboa e ao serviço de novas rotas a abrir, aproveitando as disponibilidades abertas pela supressão de rotas (longo e médio curso) a partir do Porto;
6 (4) Explorar o mercado da Galiza, abrindo novas ligações e oferendo vantagens nas ligações ao resto do mundo;
7 (5) Iniciar uma campanha comercial agressiva no sentido de promover Lisboa como destino, ponto de partida e passagem, com ofertas e descontos quase exclusivos e com reduções de preços em voos via Lisboa.
8 No último trimestre de 2015, Lisboa tem 4,6 milhões de passageiros. A TAP é responsável por 2,3 milhões. Vamos memorizar estes números.
9 12/2015 - Primeiras notícias do fim das rotas de longo curso da TAP a partir do Porto. Fonte da TAP diz que ainda não há decisão definitiva, mas não desmente que a intenção está a ser avaliada.
10 01/2016 - TAP anuncia oficialmente fim das ligações entre Porto e Barcelona, Milão, Bruxelas e Roma. Reduz capacidade para Funchal, Genebra, Londres e Paris. No longo curso dá-se por terminada a ligação a Caracas. As três restantes aguentam-se mas com redução de capacidade.
11 01/2016 - TAP anuncia ligação entre Lisboa e Vigo a partir de Julho e tenta desviar para a Portela um mercado estratégico do Porto. Um revés na intenção de consolidar o Porto como equipamento central e ao serviço de todo noroeste peninsular.
12 02/2016 - No anúncio da nova rota Porto-Munique, o diretor-geral da Lufthansa deixa um recado à TAP: "o Grupo Lufthansa é o único grupo de aviação de topo a investir no aumento da operação a partir do Porto"
13 02/2016 - British Airways aproveita a redução de capacidade dos voos da TAP para triplicar a sua presença no Porto, criando uma ligação diária a Londres. O sucesso da decisão conduziu a aumentos sucessivos, o que demonstra a sua rentabilidade.
14 02/2016 - TAP defende-se da tempestade de críticas através de notícias nos jornais e alega que as rotas canceladas com partida do Porto não são economicamente rentáveis, sendo parcialmente responsáveis pelos prejuízos da empresa.
15 02/2016 - No entanto, outras notícias parecem ir em sentido contrário. Os voos suprimidos tinham um load factor médio de 90%, muito superior a rotas que se mantiveram e a rotas que foram entretanto abertas.
16 02/2016 - Ryanair contra-ataca e aproveita o espaço deixado vago para tomar as posições abandonadas pela TAP. Reforça as ligações semanais a Barcelona: (+2, para 16), Bruxelas: (+4, para 15) e Milão/Bergamo (+4, para 11) Roma mantém-se.
17 Dos lados da TAP a reação informal diz: "Mas Milão e Bergamo são coisas diferentes. A rota que a TAP considerou inviável era Porto-Milão (Malpenza)."
18 03/2016 - Ryanair anuncia abertura da ligação Porto-Milão (Malpenza), voos que se juntam aos 11 voos para Milão (Bergamo). Não era rentável para a TAP, é rentável para a concorrência da TAP. Voos mantêm-se quase três anos depois.
19 03/2016 - Easyjet também aproveita redução da presença da TAP para abrir nova rota Porto-Funchal com 4 voos semanais. A retirada da TAP do Porto tornou-se um enorme banquete para a concorrência.
20 03/2016 - Ponte aérea começa a operar. Duplicam os movimentos diários entre Porto e Lisboa. TAP espera atingir a fasquia do 1 milhão de passageiros no primeiro ano, muitos dos quais em escala redundante e forçada. Conforme o plano, a Portela começa a encher...
21 03/2016 - Supressões no Porto arrancam no mesmo dia. Para a TAP, a ponte aérea só tem um sentido: é um bypass de passageiros do Porto para Lisboa. Não faz parte dos planos da companhia aproveitar o retorno para aliviar Lisboa, ligando-a à Europa via Porto.
22 09/2016 - Meio ano depois, os primeiros números oficiais são arrasadores: presença da TAP no Porto está em queda livre: 367 mil passageiros, aprox. -25%. Companhia é ultrapassada pela Easyjet e desce para o 3.º lugar em quota de mercado (n.º passageiros), com apenas 13%.
23 09/2016 - Reduzida a 12 destinos e altamente dependente da ponte aérea, que já representa cerca de 40% do tráfego TAP no AFSC, a companhia portuguesa perdeu o Porto para a concorrência. Ryanair tem 32 destinos. Easyjet 13. Companhias de bandeira também aproveitam.
24 09/2016 - Mas mesmo depois da retirada da TAP, o 3.ºT 2016 foi o melhor de sempre para o Porto: 2,8 milhões de passageiros. O Sá Carneiro continua a encher com as companhias concorrentes.
25 09/2016 - Já a Portela começa a encher com um balão. Quem sopra? A TAP. [TAP=3,1M, 48%;+100m]. Mas a companhia ainda não está satisfeita e, por isso, planeia lançar novo mapa de rotas a partir da capital.
26 12/2016 - TAP lança campanha “Viagens TOP só com preços TAP!” com o intuito de enfrentar as low costs. “Sem aterrar em cascos de rolhas! Sem levar marmita de casa! Sem acordar com as galinhas! Viagens TOP só com a TAP!” - diziam. Das 45 ofertas, 43 eram de e para Lisboa.
27 01/2017 - Viajar de Vigo para qualquer destino TAP via Lisboa é mais barato do que viajar do Porto para o mesmo destino TAP via Lisboa. A diferença chega às centenas de euros.
28 Essas diferenças permanecem nos dias de hoje. Exemplo: Viajar do Porto para Maputo via Lisboa custa €1235. O mesmo voo, nas mesmas datas, com a mesma tarifa custa €874 se a origem for Vigo, €838 se a origem for Oviedo e €832 se a origem for a Corunha. Menos €403!
29 Com esta campanha comercial agressiva, a TAP deixa uma mensagem clara: na concorrência entre o Porto e os aeroportos da Galiza, a companhia portuguesa escolheu uma parte, a espanhola. Talvez porque o Porto, onde há mais oferta, é mais ameaçador para o hub.
30 É neste ponto que a retirada da TAP do Porto ganha contornos de sabotagem.
31 04/2017 - Em plena convulsão política, o aeroporto do Porto é considerado o melhor da Europa e terceiro melhor do mundo de um grupo de 178 aeroportos avaliados. Para a TAP não serve.
32 06/2017 - ANA alerta. Aeroporto de Lisboa não aguenta mais e responsabiliza a TAP pela situação de ruptura, que inclusive está a impedir a entrada de novas companhias. Sugere que a solução é a TAP fazer “o que é razoável: criar uma base operacional no Porto.”
33 Um dia depois, e apesar das declarações do presidente da ANA, a TAP lança um novo pacote de rotas (ainda maior que o anterior) a partir de Lisboa: Toronto, Gran Canaria, Alicante, Estugarda, Budapeste, Bucareste, Colónia, Fez, Costa do Marfim e Togo.
34 Quando abandonou rotas com load factor de 90% do Porto, a TAP cortou vínculos sociais, familiares e económicos. Emigrantes ficariam sem ligação. Empresários muito mais distantes do seu mercado. Agora, abre ligações rotas para Gana, Costa do Marfim e Togo.
35 E a Portela continua a encher… Neste momento, a TAP já tem 54% dos movimentos, um número que, graças às novas rotas e ao reforço da presença da companhia no aeroporto, acabaria por chegar a 58% até ao final do ano.
36 06/2017 - O voo Vigo-Lisboa completa um ano. Apesar da estratégia comercial agressiva, nos primeiros 365 dias, em média, a TAP transportou 35 pessoas/dia (!!). Os dados são da AENA, porque a TAP nunca os disponibilizou.
37 09/2017 - No terceiro trimestre, a Portela continua a encher. [TAP=4M; 50%]
38 12/2017 - A TAP fecha o ano com uma presença avassaladora em Lisboa. Apesar da habitual redução sazonal de passageiros no Inverno, a Portela continua a encher com a TAP. [TAP=3,4M; 52%] Em dois anos, o aumento relativo é de 46%.
39 03/2018 - No primeiro trimestre de 2018, o n.º passageiros no Porto cresceu aprox. 60% face ao primeiro trimestre de 2015, o ano zero do plano de retirada da TAP do Porto. A TAP tem, neste momento, 12 destinos a partir do Porto e 88 a partir de Lisboa.
40 04/2018 - Humberto Pedrosa, accionista majoritário do consórcio que comprou a TAP, admite que a retirada do Porto “não foi bem pensada” e reconhece o erro. Anuncia que as rotas encerradas, na altura consideradas economicamente inviáveis, vão ser repostas.
41 Pela primeira vez, a TAP assume o falhanço da estratégia no que diz respeito ao Porto. E falhou por duas razões:
42 (1) A TAP queria que os passageiros do Porto voassem para a Europa via Lisboa. Um absurdo que qualquer criança com um mapa e um relógio consegue explicar. (2) A concorrência aproveitou o vazio deixado pela TAP e ocupou as suas posições.
43 A TAP julgava que fazia o que queria no Porto e acreditava que ainda tinha o poder que chegou a ter até aos anos 90. Foi surpreendida por uma resposta musculada da concorrência, que nunca deixou de estar atenta.
44 05/2018 - Isso mesmo voltou a acontecer um mês depois. United também aproveita recuo da TAP e inaugura voo Porto-Nova Iorque. A ligação bissemanal da TAP chegou a ser considerada inviável. A da United é diária.
45 05/2018 - Na apresentação da nova rota, United fala das “empresas instaladas no Norte” como “fator de impulsão.” Com 2744 lugares por semana (i/v), passa a ser a maior rota de longo curso a partir do Porto e abre a porta a centenas de ligações para todo o mundo via EWR.
46 A TAP passou ter uma presença praticamente residual no longo curso a partir do Porto. Situação que se agravou com chegada de novas companhias. United (N.Y.), TAAG (Luanda), AirTransat (Toronto e Montreal), Air Canada (Toronto), Arkia (Tel Aviv) e Turkish Airlines (Istambul)
47 (O caso da Turkish é particularmente interessante. Em abril de 2015 inaugurou rota com 3 voos semanais. Menos de um ano depois passou para voos diários. Neste momento, planeia crescer para 10 voos por semana nos próximos meses.)
48 06/2018 - United põe em marcha uma grande campanha publicitária em Nova Iorque: “Olá, Porto, Portugal.” A TAP responde com uma imagem de Lisboa e “Portugal, your way to Spain.” (via Gonçalo Moreira)
49 06/2018 - A ponte aérea torna-se a rota mais concorrida da TAP (726 mil passageiros). Ao segundo ano, objetivo 1 milhão/ano falhou, mas 726 mil já é um fortíssimo contributo para a estratégia de concentração em Lisboa. E a Portela continua a encher...
50 Ainda assim, Antonoaldo Neves (CEO TAP) anuncia 11 novas rotas a partir de Lisboa e 3 a partir do Porto. Porto-Nova Iorque, que chegou a ser “inviável”, e depois de a United ter ganho posição, passa a ter também voo diário. TAP corre atrás do prejuízo.
51 Com as novas rotas, a Portela continua a encher. Os últimos dados da ANAC, 1.ºT 2018, revelam que a TAP já tem 59% dos movimentos de Lisboa e, apesar da sazonalidade, aumenta a quota de mercado. [TAP=3,2M; 53%] Em apenas 3 anos, a presença da TAP em Lisboa cresceu 70%.
52 09/2018 - Ao parlamento, o CEO da TAP faz um balanço do plano que arrancou em 2015 e apresenta orgulhosamente no ppt um novo marco: a TAP passou a ser a companhia europeia com maior quota no seu hub. 54% do Aeroporto de Lisboa é ocupado pela TAP. E não vai ficar por aqui.
53 Que é o mesmo que dizer, por outras palavras, que a TAP é a companhia europeia que mais contribui para a ruptura da principal infraestrutura aeroportuária do seu país, após uma estratégia de concentração que visou unicamente sufocá-la.
54 Este gráfico, que produzi com base no cruzamento de dados, é sintomático. Conclui-se que (1) Lisboa atingiu o limite de capacidade no momento em que a TAP pôs em marcha a estratégia de concentração no “hub”.
55 (2) A presença da TAP em Lisboa foi crescendo à medida que foi diminuindo no Porto. Foi muito à custa da frota libertada pelas supressões de ligações a partir do Porto e dos passageiros do Norte que a TAP impulsionou a sobrelotação de Lisboa.
56 (3) Este ponto é dos meus preferidos. Vendo bem, a procura externa (extra TAP) pelo Porto e por Lisboa não é substancialmente diferente. A diferença anda entre os +27% e os +40%.
57 (4) Não é, sobretudo, se considerarmos a diferença relativamente à TAP, que tem uma presença em Lisboa 400% superior à que tem no Porto. A companhia portuguesa não vê mercado, as companhias estrangeiras agradecem.
58 Se a presença da TAP em Lisboa fosse idêntica à do Porto na proporção face à procura externa, a Portela estava muito longe do limite da capacidade. Se tivesse uma presença no hub semelhante à da Iberia em Barajas também.
59 A conclusão torna-se, pois, evidente para qualquer um. Se a Portela está, hoje, a "rebentar pelas costuras", "à beira do colapso" e num estado de "ruptura iminente", tal deve-se exclusivamente à TAP. E não é obra do acaso, mas de uma estratégia que visava a sobrelotação.
60 Se observarmos a evolução do n.º de passageiros em Lisboa (é relevante para a lotação do terminal) chegamos às mesmas conclusões: é a TAP, com 54% da quota, que está a sufocar a Portela e não, como se pretende fazer crer, uma procura internacional extraordinária.
61 Já no Porto a TAP tem uma presença quase residual e dependente da ponte aérea. Em número de passageiros, a presença em Lisboa chegou a ser 800% superior à do Porto (3.ºT 2016), apesar de o Porto servir uma região com um número de habitantes muito superior. Lógico, não? Não.
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