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David Butter @butterfutebol
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Vou contar uma história pessoal, fora do perfil deste perfil. É uma série de histórias, histórias em que pensei muito nestes dias.
O lado judeu da minha família veio para o Brasil antes da Segunda Guerra Mundial. Aqui se encontraram meu avô e minha avó. Ele, de uma família de alfaiates. Ela, de uma família de comerciantes de tecidos.
A família do meu avô deixou a França, onde vivia há anos como cidadãos de segunda classe. Judeus poloneses eram alvo preferencial da extrema-direita na rua.
O avô do meu avô chegou a ser espancado por ultranacionalistas franceses. Ele era alfaiate e trabalhava virado para a rua. Numa surra que levou dos ultranacionalistas, rasgou o braço num prego que usava para pendurar linhas. Sangrou muito.
Passada a Segunda Guerra, vida refeita aqui, meu avô voltou à França. Visitou a casa do avô, já morto. Encontrou o sangue dele na parede. Congelado no tempo.
Esse meu avô era comunista. Tricolor e comunista. Era um tremendo advogado de falências (a ironia disso). Era e ainda é meu farol de humor, retidão e humanismo.
A família da minha avó chegou ao Brasil por conta da visão de uma tia. Num dia, voltando da rua na Polônia, ela anunciou aos pais e aos irmãos uma visão de sangue e fogo sobre o futuro da família. A Segunda Guerra Mundial só começaria mais de uma década depois. Eles vieram antes.
Minha avó nasceu no Brasil já. Filha de um casal de comerciantes. Fizeram a vida em torno da Praça XI e da SAARA. Graças à parceria com outros imigrantes (portugueses, tanto que meu bisavô virou vascaíno) e, sim, sambistas, quase todos negros.
Por décadas, a loja dos meus bisavós forneceu couros e plásticos para instrumentos e adereços das escolas de samba. Os diretores das escolas mostravam desenhos para minha bisavó, e ela opinava.
Na Praça XI, esqueci de contar, eles viram integralistas marchar, mais de uma vez. Os camisas-verdes não rodavam lá por acaso: sabiam que aquela era uma região de muitos judeus, fugidos de gente exatamente como os integralistas.
Só estou aqui escrevendo por conta da:

Noção de perigo
Diversidade do Brasil
Vitalidade do Brasil
Capacidade de recomeçar
Votei no PT duas vezes na vida. Numa, perdi. Na outra, eu me arrependi amargamente. Agora, não vejo outro caminho que não negar uma figura que é a negação das minhas próprias condições de possibilidade e da minha família. Os bolsonaros daqueles dias marchavam de verde.
Um detalhe, para arrematar: o meu bisavô da loja de couros e plásticos simplesmente não tinha família. Morreu todo mundo na Europa. Todo mundo. O que ele chamava de família era formada por colegas de navio, a "família de navio" que veio com ele para o Brasil.
Esse meu bisavô passou parte significativa da vida adulta procurando notícias sobre vizinhos e parentes. Mesmo cego, do diabetes, ficava colado em um rádio que pegava estações europeias para saber do destino deles. (Era comum depois da Segunda Guerra.)
Morreram todos. Todos. Meu bisavô era o filho levado de uma linhagem de homens religiosos, alguns até rabinos. Só sobrou ele.
O que a família do meu bisavô (Littman-Salomon) sofreu (o desaparecimento quase completo nas engrenagens de uma máquina de extermínio) é negado até hoje por revisionistas e negacionistas. Dizem eles que mentimos todos, para roubar e dominar.
A mecânica do negacionismo do holocausto é bem semelhante a de outros negacionismos, como o negacionismo dos crimes da ditadura. A Bolsonaro, dentre tantos epítetos, tenho certeza desse: ele É um negacionista dos crimes da ditadura.
Bolsonaro nega veracidade e legitimidade aos testemunhos das vítimas da máquina de repressão da ditadura, mesmo que confirmados por pesquisas e levantamentos do próprio Estado brasileiro.
Depois de negar esses testemunhos, Bolsonaro denuncia uma conspiração dessas vítimas para drenar a Pátria, numa conspiração maligna.
O que Bolsonaro afirma, como bom negacionista, é que aquelas vítimas mentiram e ainda mentem, lutaram e ainda lutam e que, mesmo sem terem sofrido o que dizem ter sofrido, mereceriam sofrer no passado e no presente.
Impossível depositar um voto num negacionista. O negacionista nega para propor de novo. Intolerável a possibilidade.
Que o Brasil saia íntegro, vivo e pulsante deste domingo.
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