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Carlos Andreazza @andreazzaeditor
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QUAL AGENDA MORRERÁ NO CAMINHO?

Jair Bolsonaro foi eleito com agenda muito ampla, vaga e pouco detalhada. Isto significa expectativas intensas em muitas áreas. Significa também, em médio prazo, talvez em curto prazo, algumas sensíveis frustrações. Ele terá de fazer escolhas.
Bolsonaro ganhou de lavada e tem popularidade – capital político – como não se via desde Lula. Capital político é, objetivamente, capacidade de fazer avançar no Congresso, no primeiro semestre, qualquer agenda. (Mas não todas.) A governabilidade está dada. Não será o problema.
No primeiro trimestre, o presidente eleito terá força para obter vitórias independentemente da qualidade da operação política a ser costurada por Onyx Lorenzoni. O problema é mesmo a agenda. Impossível passar tudo em tantas frentes já amarradas como prioritárias. Algo perecerá.
E é disto exatamente que se trata: Bolsonaro assumiu muitos compromissos complexos. Algo terá de ser jogado ao mar. Ou ser feito nas coxas. A luta pelo que prevalecerá está sendo travada agora. Não parece bonita. Isso porque tem gente jogando a própria vida no futuro governo.
Há a questão da segurança – certamente o pilar mais antigo do bolsonarismo, aquele que abarca também a defesa de valores dos quais a eleição de Bolsonaro é em parte devedora: redução da maioridade penal, excludente de ilicitude, flexibilização do estatuto do desarmamento etc.
Essa seria a agenda natural do bolsonarismo e a mais fácil de passar – perfeita para cultivar a popularidade de um animal político cuja principal característica é o faro para captar demandas da sociedade, alguém que sempre orientou seus passos segundo a pressão do eleitor.
Há também Sergio Moro. O futuro ministro da Justiça não teria aceitado o desafio da política sem o compromisso do presidente eleito de priorizar a agenda lava-jatista. Não é agenda simples, porém; porque ameaça as próprias forças políticas que ainda compõem o Congresso.
O novo MJ será uma pasta anticorrupção, com foco na lavagem de dinheiro, uma engrenagem projetada para desbaratar o crime organizado, e só poderá funcionar por meio de nova legislação: algo similar às tais dez medidas contra a corrupção precisaria ser aprovado pelo Parlamento.
Não é simples – insisto. E certamente custará muito capital político. É, no entanto, conjunto consistente com o histórico de Bolsonaro – eleito também porque soube simbolizar o combate à corrupção – e com potencial altamente popular. O presidente eleito prestigiará Moro.
Chegamos, então, ao drama fiscal e ao desafio da reforma previdenciária. Não deveria haver dúvida sobre sua primazia ante qualquer outra agenda nem sobre o fato de que todos os demais compromissos de Bolsonaro necessitarão do dinheiro que, sem o pacote reformista, não haverá.
Apesar do comprometimento do futuro ministro da Economia com esta agenda e do modo satisfatoriamente claro como ele identifica a urgência em enfrentar o problema, sem dúvida a prioridade de qualquer governo sério, Bolsonaro, por sua vez, é vago a respeito, não raro ambíguo.
Isto não deveria ser surpresa. O Bolsonaro liberal é construção recente e que ainda carece de fundamento, seguramente de convicção, certamente de comprovação. O presidente eleito, afinal, tem uma história. Jamais escondida. Nunca rejeitada. E as pessoas são o que são.
Durante a maior parte de sua vida pública, foi um deputado de nicho, representante de classe, com pelo menos três décadas de compromissos assumidos em defesa de direitos que obrigatoriamente conflitam com qualquer modalidade de reforma da previdência minimamente rigorosa.
Reforma que seria, entrave adicional, incontornavelmente impopular, travo maior na engrenagem de um trem político movido pela fenomenal intuição leitora da voz rouca das ruas/redes. A coisa simplesmente não é natural para o presidente eleito. Nem para seus mais chegados.
Aí está a presente encruzilhada brasileira. Bolsonaro está sob pressão. O momento é decisivo. O presidente eleito tem dúvidas e não as esconde. Parece preferir solução fatiada que empurre o problema para frente. O que seria grave erro de avaliação. E aí?
Joga-se, neste momento, na montagem do futuro governo e na transição em curso, a peleja política da qual ascenderão – não sem que alguns fiquem pelo caminho – os principais líderes políticos da próxima gestão federal. A coisa é pesada e tem gente apostando a própria existência.
É influente no núcleo-duro bolsonarista o discurso segundo o qual bastariam o enxugamento da máquina pública e a redução de privilégios para que o governo tivesse fôlego econômico, o que representaria poder prescindir de reformas estruturais. Bolsonaro quer acreditar nisto.
Onyx Lorenzoni, coordenador da equipe de transição, está entre os que formam com o time do puxadinho, hostil à reforma da previdência, e trabalha abertamente para desacreditar Paulo Guedes e seu projeto. Lamento. Mas é o que é.
Não bastará a Guedes ser superministro da Economia. Ele precisará ser uma força política no coração do governo e na mente de Bolsonaro. Em suma, deverá impor sua agenda sobre a tentação populista. Não sem antes correr para entender a dinâmica do Congresso. A incompreensão o mina.
A seu favor, há o próprio desenho ministerial projetado, que muito lembra o de João Figueiredo, com pastas com evidente perfil desenvolvimentista, voltadas para grandes obras de infraestrutura, algo apenas factível, no mundo real, por um governo com capacidade de investimento.
Capacidade de investimento: algo impossível sem pelo menos a reforma da previdência conforme apresentada por Temer. Mas, diante deste projeto, já conhecido e mastigado, como reage Bolsonaro? Satisfeito com a ideia de que se faça ao menos um pedacinho. A mensagem não é boa.
Se temos clareza sobre o que fazer, temos também um presidente habituado a ser popular e que tem muitos compromissos e muitas agendas, sendo as suas mais antigas e mais caras pautas as mais fáceis de passar, e também as mais prósperas para cultivar a imagem de líder conservador.
Não há, no entanto, motivo para pessimismo. Mas convém prudência. Senso de realidade. Bolsonaro é o que é, produto de trinta anos de uma vida pública aberta. Paulo Guedes e sua agenda são as novidades, os estranhos no ninho. A briga é dura. Já há feridos. Haverá mortes?
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