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Gabriel Thread🏴 @gabrieldread
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Alberto Guerreiro Ramos: esse preto foi o maior sociólogo do Brasil!

Pioneiro da proposta da descolonização da ciência do país e incluir os limites biofísicos da Terra na produção, criticou Florestan Fernandes sobre o racismo.

(thread de resgate para o Dia da Consciência Negra) O preto velho Alberto Guerreiro Ramos, de barba branca, óculos de armação grossa, boina branca estilosa, camisa branca e bebendo um chimarrão
“Deus me tornou bárbaro.
Deus me tornou insubmisso.
E protesto contra os homens que estão mergulhados no esquecimento.
Que estão tiranizados pela ordem, pela opinião, pela civilização”.

Guerreiro Ramos nasceu em Santo Amaro da Purificação, Bahia, no dia 13 de setembro de 1915. Jovem Guerreiro Ramos em uma foto preto e branco muito antiga e debotada. ele usa uma gravata borboleta branca.
Em 1956, Pitirim A. Sorokin inclui Guerreiro Ramos entre os autores eminentes que mais contribuíram para o progresso da Sociologia no mundo na segunda metade do século XX. Pitrin Sorokin: um branco velho de óculos em frente a uma estante de livros
Alberto Guerreiro Ramos foi Delegado do Brasil à XVI Assembléia Geral da ONU de 1961.

Deputado Federal de agosto de 1963 a abril de 1964, teve seus direitos políticos cassados pelo Ato Institucional nº 1. Guerreiro ramos discursa pra um momente de brancos que parecem Jorge Amado, ACM, dorival Caymmi e eessa galera (mas não sõa eles), e Abdias Nascimento um dos únicos negros além de Guerreiro
Guerreiro Ramos foi obrigado a se exilar do Brasil em 1966, radicando-se nos Estados Unidos, onde inspirou toda uma geração de estudantes como professor da Escola de Administração da Universidade do Sul da Califórnia (University of the South California – USC). Guerreiro Ramos dando aula numa lousa pequena
Escreveu 10 livros e mtos artigos publicados em inglês, francês, espanhol e japonês. Fez conferências em Pequim, Belgrado e na Academia de Ciências da União Soviética. Foi “visiting fellow” da Yale University e professor da Wesleyan University e da UFSC.
“O Velho Guerreiro me ensinou a sempre lembrar que ele era da Bahia, e tinha um grande orgulho de nossa ancestralidade Africana. Sua avó era de Angola, seu pai nasceu escravo mas do ventre livre”.
Alberto Guerreiro Ramos, Filho O filho de Guerreiro Ramos segura seu livro
Enquanto ainda estava na Bahia, Guerreiro Ramos foi convidado por Abdias Nascimento para ser o coordenador do Instituto Nacional do Negro, departamento de pesquisas do Teatro Experimental do Negro (TEN). Guerreiro Ramos e Abdias Nascimento
Guerreiro Ramos concluiu que ressentimento é uma das matrizes psicológicas do homem negro brasileiro, e considerava o psicodrama um espaço de catarse e reflexão das seqüelas trazidas de um passado escravo, de uma vivência de ausência de um lugar, de uma identidade fragmentada. Cena do Teatro Experimental do Negro carregada de drama. Uma mulher negra aponta para um homem negro no chão, parecendo que vai chorar, enquanto outras mulheres negras em volta fazm gesto de desprezo.
Conviveu num contexto acadêmico em que “os estudos sobre os negros brasileiros“, como ele definiu, já estavam consolidados e eram realizados quase que exclusivamente por brancos.

Eles em nada contribuíam para melhorar a vida dos negros, e os tratavam exóticos, como um espetáculo Recorte de revista antiga: problemas e aspirações do negro brasileiro<br />
<br />
“Como tema, o negro tem sido objeto de escalpelação perpetrada por literatos e pelos chamados ‘antropólogos e sociólogos’. Como realidade efetiva, o negro vem assumindo o seu destino, se fazendo a si próprios, segundo lhe têm permitido a sociedade brasileira."
Guerreiro Ramos Guerreiro Ramos, o pensador
Guerreiro Ramos teceu considerações acerca da patologia social dos brancos brasileiros e, principalmente, da patologia dos brancos nordestinos.

Se opunha assim à patologização do negro que era realizada pelos sociólogos da época, como Florestan Fernandes.
A patologia da minoria branca consiste numa constante reivindicação das origens da própria brancura, especialmente no nordeste, o que Guerreiro Ramos às vezes define como a perturbação psicológica em sua auto-avaliação estética.
De acordo com o sociólogo baiano, a patologia do branco é marcada por uma “inferioridade sentida com excessiva intensidade, e por uma superioridade desejada, mas fictícia.“

Guerreiro Ramos acertava no alvo!
“O sujeito [Florestan] analisava o sangue do negro brasileiro, o tamanho do nariz, o cabelo etc. Era preciso, assim, analisar o sangue, o nariz e o cabelo do branco brasileiro. Num país de negro como o nosso, falar do problema do negro é uma cretinice”.
Guerreiro Ramos Florestan Fernandes, o sociólogo, com uma cara de bosta kkkkkAlberto Guerreiro Ramos dando a letra
Guerreiro Ramos tem uma forma de produzir conhecimento que vai de encontro aos moldes hegemônicos, que se contrapõe à nossa propalada cordialidade. O estilo contraditório e provocador adotado por ele destoa da polidez acadêmica. O debate com Florestan Fernandes é exemplo disso.
Entre os conceitos fundamentais criados e trabalhados pelo Divino Mestre, como era chamado Guerreiro Ramos por seus alunos, estão:
A redução sociológica, uma pioneira proposta de descolonização da ciência brasileira já em 1958!

"Sociologo de Mangas de Camisa", Guerreiro Ramos afirmava que a pesquisa deveria ser focada na busca de soluções para os problemas do país. E ele fazia isso.

irradiandoluz.com.br/2011/03/reduca… visão distorcida por uma lente
A ciência de Guerreiro Ramos era estar inserido e atuante em seu contexto social, adotando uma postura política transformadora. Ele se rebelava contra a sociologia que era (e ainda é) dominante nos meios acadêmicos: uma sociologia “de gabinete”, distante da realidade nacional.
Guerreiro Ramos considerava a ciência brasileira da época como “consular”, onde o sociólogo atua como representante de uma teoria estrangeira incapaz de explicar a realidade local, apoiando assim a dominação cultural e científica dos países periféricos.
A redução sociológica de Guerreiro Ramos é:
1) Assimilação crítica da produção estrangeira;
2) Atitude para transcender, os condicionamentos circunstanciais que conspiram contra sua expressão livre e autônoma;
3) Superação da ciência social na forma institucional que se encontra.
Outro conceito marcante de Guerreiro Ramos é a "Síndrome comportamental", uma doença das sociedades centradas no mercado que leva as pessoas a se comportarem como robôs, meras engrenagens do sistema de produção.

irradiandoluz.com.br/2011/04/sindro… Engrenagens de uma máquina
Finalmente, o conceito mais importante da obra de Alberto Guerreiro Ramos é a "racionalidade substantiva", um resgate da luminosidade, ética e solidariedade como aspectos fundamentais de nossa humanidade, e uma proposta de nova ciência baseada nessa razão irradiandoluz.com.br/2008/02/crtica… Velho Guerreiro Ramos
Essa thread também está disponível no meu site @IrradiaLuz:

irradiandoluz.com.br/2018/11/guerre…
Em 2008 eu fiz uma biografia bem completa sobre Alberto Guerreiro Ramos, que complementa bastante as informações dessa thread. Se você chegou até aqui e ainda tá na pilha de conhecer esse cara incrível, recomendo muito a leitura: irradiandoluz.com.br/2008/06/albert… O preto Alberto Guerreiro Ramos elegante num terno cinza com um branquelo de terno branco ao fundo ao fundo
Fernando Henrique Cardoso admitiu em entrevista que a sociologia mão na massa de Guerreiro Ramos fazia mais o seu estilo do que o academicismo de seu orientador Florestan Fernandes.

O primeiro trabalho sociológico de FHC foi com Guerreiro Ramos. Entrevista com Fernando Henrique Cardoso disponível em https://www.google.com.br/url?sa=t&source=web&rct=j&url=https://periodicos.ufsc.br/index.php/politica/article/viewFile/2175-7984.2016v15n34p232/33266&ved=2ahUKEwjv7viKp-TeAhUEhZAKHddBDakQFjAAegQIARAB&usg=AOvVaw38kVIsyCULSH_s_L4o2Dgx
Por que então Guerreiro Ramos não é reconhecido como um dos clássicos da sociologia no Brasil, enquanto outros países do mundo o reverenciam?

Porque na época em que questionou tanto Florestan Fernandes quanto Goerender e os marxistas, foi tratado como "sem preparo intelectual" Trecho de artigo disponibilizado em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2238-38752012000400265
Guerreiro Ramos debate a sociologia de Max Weber e Durkhein

Seu arcabouço teórico vai da Escola Critica de Frankfurt à filosofia de Aristóteles a Eric Voegelin.

Ele abraça a economia plural de Mauss e Polanyi. Mais um trecho do mesmo artigo disponibilizado em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2238-38752012000400265
Como é possível alguém afirmar que o maior sociólogo da história do Brasil, com essa capacidade, não tinha refinamento teórico?

Pra mim fica bem óbvio que existe um componente fortemente racista nesse apagamento de Alberto Guerreiro Ramos das tradições sociológicas brasileiras.
Fernando Henrique Cardoso lembra que seu primeiro trabalho sociológico foi para Alberto Guerreiro Ramos e que sua sociologia contextualizada aos problemas reais do Brasil o influenciou mais que o estilo academicista de seu orientador Florestan Fernandes. Entrevista por escrito com Fernando Henrique Cardoso em que ele reconhece ambos os fatos
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