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~ Bzz @Lumiephoenix
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Mais cedo eu falei meio sério, meio zombeteiro sobre a Revolução Iraniana e os possíveis paralelos com o que está acontecendo com Brasil. Depois fiquei pensando mais a fundo sobre essa comparação. Apertem os cintos talvez venha uma thread da madrugada.
Primeiramente devo fazer uma contextualização rápida e pretendo não me alongar muito até pelo apelo didático Estou puxando algumas informações de memória, então posso estar cometendo equívocos...

Dito isto,

a Revolução foi dividida em alguns momentos e os mais importantes:
No primeiro, ocorreu uma improvável aliança, a priori, entre grupos de esquerda, liberais e religiosos para derrubar o xá.

Mas o que é Xá?
Xá: esta denominação era atribuída especificamente a Pérsia/Irã e significa "Imperador da Pérsia". Ainda depois da invasão árabe o termo resistiu, mas desapareceu em definitivo após a Rev. Iraniana.
Apenas um leve fun fact, a expressão do xadrez ~xeque mate~ surgiu desse título o xá/rei está morto.

Já no segundo momento, sendo também chamada de Revolução Islâmica, os aiatolás chegam ao poder.

Certo, mas o que é Aiatolá?
Aitolá: dentro da ótica das leis islâmicas é o mais alto dignitário na hierarquia clérica. E tb significa ~sinais de Deus~, ou seja, o aiatolá é aquele que detém o mais profundo conhecimento desta ordem.
É importante contextualizar algumas coisas, pois... apesar das narrativas, há realidade.
Importante salientar que o Irã é conhecido por suas reservas de petróleo, logo todo e qualquer país que tivesse algum indício ou fosse confirmado possuidor deste ~tesouro~ seria "convidado" para uma relação tóxica entre as potências de sempre querendo ensandecidamente explorá-lo
Obviamente não seria diferente com o Irã que possuía uma relação com os britânicos e controlavam as reservas petrolíferas - estes tb tentavam impedir uma investida nazista, interviram militarmente afim de proteger as reservas. campos e aumentando potencialmente
a pressão doméstica iraniana, que já estava sob governo do xá Rheza Pahlevi que anteriormente deu um Coup d'État nos anos 20 e desde então tava lá pleno e lépido no poder.
Como nem tudo é o que parece, a tentativa de Pahlevi manter uma relação ambigua, semelhante ao que Vargas - magistralmente - fez no mesmo período, com os países totalitários, nem preciso dizer que isso causou um rebu com a Inglaterra e a URSS que também estava na espreita.
Alguns anos depois, Palevi saiu do país e o governo estava nas mãos do filho: Mohammed Reza Pahlevi, num contexto de guerra fria lidou com a insurgente insatisfação da população.
Uma vez que o petróleo era tido como recurso extremamente relevante e lucrativo, mas os mesmos não estavam sendo revertidos para a população.

Parece um pouco com a história de uma terra tropical não?
Como o Xá não era bobo, optou por diminuir seus poderes, colocando outros mecanismos de dispersão do mesmo como a criação de um parlamento e um primeiro-ministro com poderes de Chefe-de-Estado. Isso tudo para tentar acalmar a população que cada vez mais estava sem paciencia.
Lá pra 1951... O primeiro ministro Mossadegh resolveu mexer seus pauzinhos e mudar algumas coisas como a nacionalização do petróleo. Nem preciso dizer que as empresas que estavam explorando, sendo a maioria delas estadunidenses e britânicas não ficaram NEM UM POUCO felizes
Anos depois, os países de sempre ( EUA com apoio dos britânicos) e a CIA tirou o Mossadegh do poder e trouxe o Mohammed Reza Pahlevi de volta, mas como uma figura central de uma monarquia constitucional que na verdade era nada mais, nada menos que uma ditadura...
isso porque, o parlamento acabou também sendo fagocitado por ter apoiado anteriormente Mossadegh e "suas loucuras".
Como é sabido e usual na maioria dos governos totalitários, uma parte considerável da população perecia,
suas riquezas eram exploradas por capital estrangeiro e a população nem via a cor do mesmo, passando por extrema necessidade.

Sem contar o soft power... talvez, nem tão suave, dada a "ocidentalização' que o país estava passando, apoiado pelo governo.
Conhecida como revolução branca onde ocorreu uma enxurrada de quinquilharias ocidentais e seus trejeitos que levavam em um processo agressivo de aculturação e reduzindo brutalmente a influência islâmica no país.
Nem preciso dizer que isso é um padrão e podemos ver ao longo da história diversos países que passaram por processos semelhantes, só que uns em maior ou menor proporção.

Vários segmentos da sociedade muçulmana não gostou muito do que estava acontecendo por razões óbvias.
Os xiitas iniciaram uma oposição interna orquestrada pelo Aiatolá Khomeini que apesar de estar exilado, usava de sua influência para instigar protestos e toda forma de manifestação em repúdio a Pahlevi.

Mas só ficou insano quando o Xá criticou publicamente um texto do Aiatolá
Após cometer esse erro de criticar o aiatolá, tal ato deu pano pra manga e foi o suficiente para outros grupos insatisfeitos com o governo se juntasse para protestar.

Tais protestos ganharam tanta força que pegou o governo de surpresa.
O país já se encontrava em "Estado de Exceção" e só era questão de tempo para se iniciar o banho de sangue. Organizações internacionais estavam se posicionando e o restante do mundo pressionava para que o mais rápido possível fosse posto um fim nisso.
Além das denúncias de violações dos Direitos Humanos contra opositores e instabilidade econômica, jamais vista. Pahlevi deixou o país em 79, mas respirando com ajuda de aparelhos e como ultimo ato designou o primeiro ministro Bakhtiar como responsavel pelo Irã em sua ausência.
Logo depois, Khomeini voltaria ao país e seria recebido calorosamente pela população.
É interessante salientar que apesar do Irã ser um país muçulmano... não é exclusividade de países com tendencias teocráticas que atores políticos -ou não- que são considerados lideranças relligiosas possuem poder de causar impactos sejam eles positivos ou negativos no governo,
sejam lidos também como um ponto de veto, na ciência política.

A singularidade do Irã é que além da população completamente insatisfeita com o rumo do país, havia uma liderança religiosa que defendia a mudança do status quo social e economico,
além do desejo, da nostalgia de valores tradicionais da cultura islã que outrora estava sendo perdido.
Sem apoio significativo dos braços repressivos do Estado e de outros mecanismos que poderiam ainda legitimar seu poder, Bakhtiar se posicionou contra khomeni que tentava formar um novo governo. Obviamente a população voltaria as ruas e causaria mais trocação de socos.
Ao amanhecer, havia muitos soldados nas ruas de Teerão e o rumor de um novo golpe militar estava pairando no ar, só que o mesmo foi caindo por terra, pois percebia-se que não havia o menor interesse do militares em tomar o poder.

Era praticamente unanime o apoio de Khomeini.
Mas o que aconteceu com o Baktiar? Bem, morto que não estava... renunciou o cargo. E os EUA que nunca dão ponto sem nó, tentaram entrar em termos com o Aiatolá, mas, pasmem, não foi desta vez. Até mesmo uma nova tentativa de golpe, não colava.
Em Abril de 79 foi feito um plebiscito e vencido por Khomeini com boa margem de votos. E assim foi declarada e fundada a República Islâmica do Irã e o mesmo proclamado como líder supremo ad eternum do país. Religiosa e políticamente falando.
Agora vem os questionamentos pertinentes, o que mudou com esse cara no poder?

1) Eles tem um presidente e parlamento eleitos pelo povo.

2) Mas, a liderança suprema, tipo um poder moderador, é do Aiatolá... Tipo, tanto faz o resultado das eleições.
É este camarada que confirma este resultado, tanto que é possível dizer que um presidente eleito pode não conseguir tomar posse, mas se conseguir ele pode fazer as paradas dele, mas, mas... MAS também pode acontecer das decisões serem questionadas pelo Aiatolá.
Um dos pontos negativos e questionados diretamente é sobre o direito das mulheres que devem usar - em publico- trajes que cubram o corpo e outras restrições.
Outro aspecto é o conservadorismo enraizado de diversos setores e com respaldo no governo vis-a-vis que constantemente é acusado de ferir os DH etc
Apesar de existir um apoio popular com seus governantes, já que há o sentimento de retorno as raízes depois de tudo que ocorreu. Também é enxergado como uma forma de resistência contra o principal inimigo do Ocidente, EUA, que deve ser derrotado em definitivo.
E assim... em nome de uma causa maior, não entrarei no mérito se é tóxico ou algum tipo de "robotização" - se é que me entendem. Mas o discurso de nós contra eles, facilitam todas as atitudes do Irã em relação ao Ocidente não serem tão questionadas, salvo pelos mais jovens...
Sempre os mais jovens...

No entanto, há um gosto amargo na boca, pois apesar de necessária a revolução... Os resultados não foram dos melhores, esqueci de dizer que setores da esquerda também foram fagocitados e tidos como inimigos públicos e lidos como degeneração ocidental.
“A revolução está decrépita. Se olharmos do ponto de vista econômico, o Irã é mais pobre hoje do que era na época do Xá. Não houve nenhum avanço real nos últimos 30 anos. O país não produz nada além de petróleo. Há menos oportunidades para os jovens iranianos,
e menos liberdade para a população. A população apoiou o Aiatolá Khomeini, mas em vez de ajudar o país a progredir, a revolução jogou o Irã para trás.”
g1.globo.com/Noticias/Mundo…
Agora sobre o Brasil, por que eu disse que poderia haver paralelos interessantes?

Primeiro, teve um movimento popular que começou com "boas intenções" e apoio de diversos segmentos, até os de esquerda...
E se tornou em uma monstruosidade e ainda iremos colher os frutos nos próximos anos.

Segundo, o desejo profundo de mudar os costumes que estariam sofrendo influências externas e todo tipo de babaquice que estamos cansados de ter contato.
Lideranças religiosas e tidas como intelectuais influentes, um lider político carismático que consegue mobilizar até os braços repressivos a seu favor.
Consigo ver tranquilamente o brasil se tornando uma teocracia em uma das possíveis e infinitas linhas temporais possíveis que essa terra nefasta pode optar. E eu não ficaria surpresa caso surgisse um código de vestimenta para mulheres "belas, recatadas e do lar"
para se diferençar daquelas que são mudanas, feministas, comunistas e tudo que há de ruim.

Nem preciso dizer que há diferenças nos dois casos, mas as semelhanças são absurdamente gritantes e acho importante que comecemos a buscar no passado respostas para uma futorologia.
Seja para mero conhecimento pelo conhecimento ou saber como evitar que isso se repita em outra parte do mundo, principalmente na terra que vc vive.
Eu sei que eu queria fazer algo mais curto, mas senti que precisava explicar com mais detalhes o que rolou no irã pra provar um ponto. Para aqueles que leram até aqui não deixam de comentar se concordam ou discordam, afinal o bolsonarismo é realmente algo pra se prestar atenção.
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