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Ana Luiza Marques @anna_go_to_him
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Meu relato crítico sobre racismo reverso e lugar de fala.
THREAD.
Assim que ingressei na graduação em história, em 2006, participei de uma seleção para estagiar em uma ONG de mulheres negras, na cidade em que moro. A vaga era para produzir conteúdo para o site da organização.
Como a ONG sobrevivia, em grande parte, através dos editais que submetia era preciso dar um feedback daquilo que estava sendo produzido. Eis que calhou de uma das entidades que financiava os projetos da organização realizar uma visita.
Após me apresentarem para a representante da entidade explicaram-lhe o motivo de ter uma branca (eu era, de fato, a única mulher branca na ONG) em uma organização de mulheres negras, produzindo conteúdo para o site institucional.
A justificativa foi q eu havia cumprido com êxito todos os pré-requisitos para ocupar a vaga, em relação as demais candidatas. E q isso prevaleceu para além da questão étnica. Na época eu não entendia nada sobre lugar de fala e achava constrangedor ter q explicar pq estava ali.
Na minha cabecinha de branca e privilegiada acreditava que estava sofrendo racismo reverso (risos) por ter que explicar, cada vez que um representante de uma entidade nos visitava, porque eu - branca e de olhos azuis - era estagiária de uma ONG de mulheres negras.
E por muito tempo disseminei este discurso de “racismo às avessas”, mesmo quando não trabalhava mais lá. Vergonha alheia (de mim!).
Eu deixei a ONG quando prestei uma outra seleção para o Projeto de Iniciação Científica, na UEPB, cujo tema estava vinculado às religiões de matriz africana. Após a aprovação comecei a pesquisar sobre a “Iniciação no Candomblé” e, caralho, foi uma experiência inesquecível.
Inesquecível tanto em relação ao aprendizado - no âmbito teórico - quanto nas vivências, especialmente, no decorrer da pesquisa de campo. Entrevistei pais de santo, visitei alguns terreiros e tive contato com aqueles que estavam adentrando na iniciação.
Durante esse período acompanhei em ipsis litteris o olhar preconceituoso do “outro” em relação à cultura afro-brasileira. Cansei de ouvir comentários do tipo: “você estuda sobre quem faz macumba?” ou algo como “não tem medo de Deus te castigar?”. 🙄
E foi ótimo porque também desmistifiquei muita coisa em relação a imaginário que eu mesma tinha a respeito do candomblé.
Mas uma das coisas que me marcou na época foi a fala do meu então orientador (que é preto), quando uma vez ele mencionou a seguinte frase em uma reunião do grupo de pesquisa: “não vamos fazer com eles o que fizeram conosco”, referindo-se ao genocídio do povo negro no Brasil.
E, de fato, mesmo quando estava circulando em espaços de protagonismo negro, em momento algum, eu fui diminuída academicamente como pesquisadora. Ao contrário, sempre fui bem acolhida, ainda que eu estivesse transitando em um terreno que não era meu lugar de fala.
Foi justamente a partir dessas experiências que eu pude compreender melhor o que seria o lugar de fala e como poderia contribuir para que os protagonistas pudessem ter suas vozes ecoadas.
Afinal, se você não dá espaço para essas pessoas partilharem suas vivências, a experiência perpetuada será sempre a do branco, uma vez que ele quem detém os privilégios na sociedade.
Isso não significa q eu não possa escrever sobre escravidão ou denunciar o racismo. Mas a questão é que a minha própria enunciação já reafirma uma hierarquia social, pois no âmbito da legitimidade do discurso e da fala quem sofre na pele tem muito mais autoridade p/ falar por si.
Por isso que compreender o lugar de fala também pressupõe uma postura ética. Mas é importante saber que grupos oprimidos também podem reproduzir preconceitos. Uma mulher branca e lésbica pode vir a reproduzir o racismo através de atitudes imbricadas ao senso comum.
O próprio Holiday se utiliza da sua condição de negro e gay para criticar as cotas raciais e tentar deslegitimar a luta dos movimentos sociais.
Só que embora existam paradoxos é preciso que evitemos reproduzir a lógica excludente e hierárquica de forma invertida (como eu mesma já fiz), de modo que possamos dar cada vez mais visibilidade para que os grupos oprimidos tenham mais participação ativa como reais protagonistas.
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