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Trabalhei por 11 anos como missionário cristão. Quer saber o que isso fez com minha cabeça? Para cada fav um fato sobre o assunto.
1) Desse período, 2 anos foi em uma instituição muito famosa do meio. Tem bases de operação no mundo todo. Meu treinamento foi em uma base próximo a Curitiba e o restante de minha atuação nessa instituição foi em Brasília,
2) Todo o restante do período eu trabelhei de forma independente, com meus próprios projetos sociais.
3) Nas duas ocasiões tive bastante contato com diversas igrejas evangélicas de vátios dogmas diferentes.
4) Como era de se esperar, vivi muitas coisas nesse período. Algumas delas muito positivas. Outras nem tanto. Vou tentar intercalar os podres com acontecimentos positivos pra ser justo, mas vai ser difícil porque são MUITOS podres.
5) Sempre me envolvi com ações socio-culturais. Em brasília eu dei apoio à população de rua com doações de comida e roupa, mas principalmente de tempo. Conversava com todos eles.
+ Um dia, um dos homens que vivia em uma praça me abraçou emocionado, dizia que aquilo fazia diferença pra ele. Nossas conversas NUNCA envolviam religião.
6) Na instituição missionária que trabalhei haviam vários costumes bem escrotos. Um deles: viver pela fé. Além de ter que pagar uma mensalidade pra morar E trabalhar lá, você não podia arrumar emprego de meio-período. A grana tinha que vir de Deus (é sério).
+ é importante dizer que os obreiros (como eram chamados os funcionários) eram livres para interpretar como quisessem esses ensinamentos, mas boa parte era meio alucinada no "Deus proverá" mesmo.
7) O diretor dessa base era uma figuraça. Se tornou um de meus melhores amigos. Ele tinha uma visão bem equilibrada das coisas. Só foi por causa dele que eu não enlouqueci mesmo.
8) Tinha muita regra bizarra. Uma delas: não pode ouvir música "do mundo" em público. Isso significa que nas caixas de som só podia rolar som gospel. Com fones de ouvido era permito ouvir o que quiser. Quanto mais escroto o som gospel, mais popular e tocado ele era.
9) uma vez alguém pediu meu MP3 player emprestado pra ligar em uma caixa de som. Tinha tudo que é tipo de som, exceto gospel. O cara aumentou o volume porque ele ia trabalhar longe da caixa de som e queria ouvir a música. Tocou Raul, que é tipo o demônio em pessoa pros crente.
10) Um cara novato ouviu a música e ficou CHOCADO. Quando ele viu diretor da base no corredor foi correndo reclamar, mas desistiu quando viu que ele tava cantando a música junto. Ele adorava raul hahaha.
11) Rolava uma homofobia FORTE naquele lugar. Tentaram até organizar protesto no congresso nacional contra um projeto de lei que garantia alguns direitos a casais LGBT+. Eu fui um dos únicos que se opôs a isso e riram da minha cara, como se eu tivesse fazendo piada.
12) Também tinha umas coisas boas. Havia uma sensação de irmandade muito grande. Apesar das diferentes crenças ali representadas, quando alguém ficava doente TODO MUNDO se mexia pra ajudar, fazer vaquinha, levar no hospital. Tinha uma pegada bem familiar nessas horas.
13) O lugar gostava de se chamar de "interdenominacional", o que significa que você podia pertencer a qualquer igreja evangélica de qualquer dogma e ainda assim trabalhar ali. Na prática isso é uma mentira filha da puta. Tenta discordar de alguma coisa ali dentro pra ver.
14) Nessas horas quem salvava era o diretor. às vezes ele apaziguava os ânimos, mas na maioria das vezes ele tirava sarro e ria de todos os envolvidos até a galera parar de encher o saco.
15) Esse diretor era meio psicopata no trabalho. Veja, bem "workaholic" não define. O termo correto é "psicopata" mesmo.
16) O cara ignorava completamente feriados. Na cabeça dele isso não existia. Se não fosse pela mulher dele (que também era uma das líderes do lugar), a gente nunca ia ter folga.
17) Em determinado a base se mudou para uma chácara. No lugar havia uma construção esquisita, com teto de palha. Não tinha portas ou janelas, apenas buracos inacabados. A gente teve que fazer muita coisa pra poder morar ali. E a gente fez isso já morando lá.
18) Passamos fiação elétrica, puxamos encanamento do poço artesiano, cavamos fossa, erguemos parede, improvisamos janelas e compramos e instalamos umas portas.
19) Nessa época o serviço mais pesado ficava com os homens. As mulheres cuidavam da manutenção interna do lugar. Em geral limpeza, cozinha e funções administrativas. Foi uma época muito intensa. Todo mundo trabalhou feito cão.
20) Também teve seu lado positivo. A gente tava curtindo aquela vibe. Estávamos construindo juntos nossa casa e local de trabalho. Meu lado anarco celebrava essa oportunidade, mas eu sei que nem todo mundo pensava assim na época.
21) Vamos esclarecer uma coisa. Eu disse "estávamos", mas isso foi generalização. Eu cheguei um pouco depois. Fiquei alguns meses numa base menor que ficava na cidade. Então a primeira leva de serviços pesados eu não peguei. Mas depois entrei no ritmo igual todo mundo.
22) Eu mencionei as muitas regras do lugar. Vamos falar mais sobre elas. Dá pra dividir em categorias. Tinham as regras de convivência (não pode fazer barulho depois de certo horário, homens não podem entrar no dormitório feminino, etc).
23) Tinham as regras religiosas. Tinha que ler a bíblia e fazer "meditação" (ficar orando) por uma hora por dia (essa ninguém seguia depois de alguns meses).
24) E tinham as regras ultra moralistas que a MAIORIA não seguia MESMO. Ex: proibido trepar antes do casamento, proibido fumar maconha, etc. Muita gente, mas muita gente mesmo, quebrava essas regras. Mas eu sei de pessoas que as seguiam sem muito sacrifício.
25) Em geral, a galera que trabalhava e morava ali costumava ter uma mente mais aberta para certos tabus evangélicos. Em algumas bases, como a que morei em Brasília, dava pra ter uma boa liberdade se compararmos com outros meios cristãos.
26) Por outro lado, a gente se achava os fodões por causa disso. Existia uma mentalidade coletiva ali de que "nós somos mais evoluídos do que o povo das igrejas". "Povo das igrejas" era como a gente chamava os outros crentes, que não tinham se envolvido com trampo missionário.
27) Era até bem frequente essa divisão. Estava implícito que o "povo das igrejas" era meio cabaço enquanto nós éramos os profetas enviados por Deus para salvar o mundo de toda a desgraça.
28) Por causa disso era bem fácil identificar quem tava morando ali há mais tempo. O pessoal mais velho, em geral, já tinha aprendido a não ser babaca desse jeito. É claro que também haviam exceções pra isso.
29) A gente recebia muitos convites para ir em igrejas. A gente pregava, fazia apresentações, tocava no "louvor" e outras chatices.
30) Por isso, eram frequentes as "roubadas" que a gente se metia. Eu, por exemplo, tive que dançar funk uma vez em uma peça de teatro que a gente apresentava porque a pessoas que fazia esse papel não podia ir. Aliás, que fique bem claro: ERA PANTOMIMA ESSA DESGRAÇA!
31) Eu odiava esses teatrinhos do fundo da minha alma. Mas tinha que fazer porque era regra da casa. Um dia a responsável por ensinar e ensaiar as peças com a gente ficou de saco cheio da minha má vontade e me dispensou dessa tarefa na frente de todo mundo,
32) Eu fiquei me sentindo super culpado e chateado ao mesmo tempo. Eu sabia que podia ter sido mais esforçado, mas também não precisava ser humilhado em público. Fui tirar satisfação com a pessoa no dia seguinte, mas ela era orgulhosa feito uma mula e não admitiu o erro.
33) Voltando as igrejas. Tinha uma coisa muito curiosa: quanto menos dinheiro tinha a igreja que nos convidava, mais bem tratamos éramos.
34) Em uma igreja MUITO rica a gente foi tentar vender uns livros pra arrecadar fundos pra base. No final do culto, DO NADA, sobe a Baby do Brasil e começa a cantar no louvor como se fosse os Novos Baianos.
35) Esse dia foi foda, fomos tratados que nem lixo o tempo todo pelo pastor dessa igreja e do nada alguém sumonou a Baby no palco. Parecia uma viagem de ácido.
36) Eu lembro até que ela chegou a arrancar a guitarra das mãos do cara que tava tocando pra poder tocar ela mesma. O cara ficou do lado fazendo umas dancinhas, meio constrangido hahahah
37) E tinham os intercâmbios. Gente, agora o bagulho vai ficar louco mesmo.A gente recebia um pessoas de bases gringas. EUA, SUÍÇA e outros. Ia um pessoal de primeiro mundo que ficava meio chocado com a gente hahahaha.
38) Aqui vale um parênteses. Uma das regras mais ensinadas e seguidas na base era a "hospitalidade". A gente aprendia a receber bem todo mundo que visitava a base. Isso é uma coisa que aprendi e carrego até hoje. Quem vai em casa não passa fome de jeito nenhum.
39) Mais aí recebemos nossa primeira equipe de gringos. Motivada pela "hospitalidade", uma das nossas líderes mandou comprar uns negócios na padaria e fez um super café da tarde pra eles logo no primeiro dia.
40) Entenda: isso NUNCA acontecia. O café da tarde pra gente era isso mesmo: café preto e umas bolachinhas dessas que vc paga 2 real e vem um saco gigante cheio. E também tinha uma coisa, a grana era contada. Gastar com padaria era um luxo que NUNCA tinha rolado até então.
41) Aí, no meio do café dos gringo, chega o diretor da base com aquela cara de fdp e dá um berro "terceiro mundo também pode???"
42) Naquela base tinha um espírito que reinava: a gambiarra. NADA era usado pra sua real função, era tudo alguma gambiarra feita com alguma coisa estranha. A torneira do filtro quebrou e alguém improvisou com um GARFO. Um garfo, malandro!
43) E tinha rato pra caramba, pq era no meio do mato e não tava totalmente construído o lugar. Era um ninho de rato, literalmente.
44) Sempre que sobrava uma grana eu comprava uns biscoitos e deixava guardado pra quando desse fome. Qual não era a minha alegria ao pegar o pacote e ver ele comido na ponta e todo esfarelado. Só alegrias.
45) Uma vez eu decidi deixar os biscoitos dentro da minha mochila. Meu colega de quarto falou "ei, não vai fechar essa mochila não?", "não precisa. o rato não vai entrar aí". Acontece que ratos sabem entrar em mochilas também, fiquem de olho!!!!
46) Agora vamos falar um pouco sobre Brasília. Essa cidade (e todas as cidades-satélite nos arredores) tem crente pra caramba. O mais próximo do inferno que cheguei até hoje foi o Taguatinga Centro, pq além de quente pra porra, era cheio de carros de som tocando fernandinho.
47) Manja aqueles carro de com anunciando supermercado, padaria, ou até mesmo algum evento na região? Então, era isso. E tocava som de crente no volume máximo, rachando os falantes. E não era um ou dois. Era MAIS DE OITO MIL aquela porra!
48) Tinha tanto crente naquele lugar que o nome dos lugares e das coisas iam se tornando clichês de evangélico. Uma vez, em uma lanchonete no gama, eu comi um "atos com cheddar" (juro pra você).
49) E foi em Brasília que eu vi pela primeira vez foto de pastor/bispo/apóstolo em outdoor ou até mesmo na fachada da igreja. Estilo R R Soares mesmo. Tem um monte disso lá.
50) E os caras eram bons em uma coisa: pedir dinheiro. Uma das coisas que fiz uma época foi ir de igreja em igreja apresentando nosso projeto missionário para pedir doações. Teve uma igreja que o pastor chorou tanto pra mim que quase tirei cincão do bolso e dei pra ele.
51) Agora entremos em outro capítulo. Os shows. Eu era bem envolvido com o meio underground. Organizava muitos shows de bandas independentes. Era um aspecto cultural do nosso trampo. Eu misturava bandas evangélicas com bandas comuns.
52) Entre o pessoal da base isso era de boa. Mas quando o "povo das igrejas" descobria que eu tava colocando "música do mundo" pra tocar no meu show, eles ficavam chocados. Alguns tentavam me converter.
53) Cabe uma explicação. Crente costuma chamar de "música do mundo" qualquer banda ou artista que não seja evangélico e/ou que não componha letras explicitamente evangélicas. Em geral é um termo pejorativo.
54) Dito isso, Oficina G3 tem status de semi-divindade por lá.
55) E direto as igrejas organizavam eventos especiais que eles consideravam super descolados e convidavam a gente pra ir. Era quase sempre uma derrota em todos os sentidos.
56) Uma coisas mais vergonhosas que tem é uma pessoas tentando pagar de descoladinha. E, por alguma razão, isso ocorre muito dentro de igrejas evangélicas. Em alguns casos é até incentivado. Isso acaba resultado nesses eventos de vergonha-alheia que chamavam a gente.
57) Nossa base tinha um status de "underground" por causa dos shows que fazíamos e por causa dos projetos sociais com moradores de rua, etc. E tinha uma igreja de playboy que cismava que era underground tbm e ficava chamando a gente pros rolê.
58) Aliás, essa é uma igreja famosíssima, tem em tudo que é lugar. Eles adoram pagar de descolados, mas em geral são só bem constrangedores mesmo.
59) Outra coisa sobre brasília. O excesso de crente também se reflete no excesso de linguagem evangélica. Já fui chamado de varão, vaso, ungido, irmão. Isso tudo antes do infeliz perguntar meu nome.
60) Agora vamos falar sobre as bandas. Tem umas histórias bem engraçadas aqui. A gente misturava bandas evangélicas com bandas "do mundo", lembra? Uma vez chamamos uma banda punk pra tocar no nosso show.
61) O nome da banda era FACES DO CAOS (aliás, um abraço pra eles, são pessoas muito bacanas). Mas o vocalista falava muito rápido, e meio enrolado. Eles foram tocar no nosso evento substituindo uma banda de última hora, então nós não conhecíamos eles.
62) Quando chegaram, meu colega perguntou o nome da banda pra anunciar no microfone. O vocalista, falando rápido e enrolado, disse o nome duas vezes e meu colega não entendeu direito. Ficou tentando decifrar na cabeça.
63) Aliás, esse meu colega merece atenção. Vamos chamá-lo de "Sérgio". Ele era um goiano orgulhoso de suas origens. Tinha fama de dar uma aumentada nas histórias. Um clássico dele: "fui num show em goiânia tão cheio que vc levantava o pé do chão e não conseguia colocar de volta"
64) A gente teve uma fase meio circense na base. A gente aprendia uns truque pra apresentar por aí. Uma vez duas moças foram cuspir fogo em uma praça pública. O sérgio anunciou elas como "as mulher-dragão".
65) O Sérgio era dono de algumas pérolas, tipo no dia que a gente esvaziou uma caixa d'água para limpeza. Sérgio:
-Pra limpar direito tem que misturar quiboa com água sanitária.
-É a mesma coisa, sérgio.
-Não (balançando o dedo e cabeça), depende da cidade onde você está.
66) E teve quela vez que o Sérgio riu igual um retardado porque ninguém mais sabia o que era "silibrim". Afinal de contas, uma palavra tão comum e óbvia como essa, como é que você não sabe o significado??
67) Lembrei de uma regra boa que incluíram na base depois da chegada de um pessoal diferenciado. "é obrigatório no mínimo um banho por dia".
68) E tinham as famosas e destestáveis "reuniões de obreiros". Isso é o equivalente a reuniões semanais de qualquer firma, mas com o agravante de morarmos lá e ficarmos pelo menos 40 minutos ouvindo alguém reclamar que acharam um prato sujo no escritório ou coisa assim.
69) Essas reuniões eram um período de morte cerebral que eu tinha toda a semana. Só assim pra passar por isso ileso.
70) Como bem lembrou o @felipenogs tinha um período do dia, em geral entre 14h e 16h, dedicado a limpeza e/ou pequenos consertos dentro da base. Todos participavam. A gente chamava isso de "manutenção".
@felipenogs 71) Era nessa hora que a gente separava os gente boa dos vagabundo e dos mais vagabundos ainda. Como tinha gente que fazia de tudo pra fugir do serviço!
72) Não era divertido, mas era necessário. E pra enconomizar, a gente mesmo limpava tudo. É claro que há controvérsias aqui também.
73) Tinha sempre um obreiro em cada base responsável pela "manutenção". Essa pessoa decidia o que cada um ia fazer. Não raro essa pessoa sumia depois disso e não fazia porra nenhuma.
74) Nem todos eram assim, haviam os mais honestos que trabalham com todo mundo, que fique claro. (mas eram minoria hehe)
75) A gente trabalhava todos os dias. Nossa folga era apenas uma vez por semana, em geral nas segundas. Em algumas bases o domingo era pra você ir na sua igreja. Quem não tinha igreja nenhuma ficava na base mesmo e trabalhava mais.
76) E tinham escala de cozinha. Café da manhã, almoço e janta. Eram os próprios obreiros que faziam isso. De tempos em tempos você era escalado pra alguma dessas tarefas. Você tinha a opção de trocar o dia da sua escala com outra pessoa, se ela estivesse de acordo.
77) Se você esquecesse de olhar a escala (em geral um papel pregado na cozinha e/ou corredores) ou simplesmente faltasse no dia da sua escala, você recebia um tratamento especial chamado "disciplina".
78) Aliás, você podia ganhar uma "disciplina" para qualquer merda errada que fizesse na base. Era uma punição ou "imposto por ser cuzão", como eu gosto de chamar.
79) As punições variam bastante de base pra base. Algumas são pedagógicas, preocupadas em ensinar o certo ao invés de simplesmente punir. Outras eram mais sangue nos zóio, interessadas na punição old school mesmo. A de brasília era a segunda.
80) A punição para faltar a escala na cozinha era fazer o café da manhã da base por uma semana inteira seguida, o que significava que a pessoa ia ter que acordar 6 da manhã todo dia. Talvez mais cedo, se a base tivesse mais pessoas e precisasse de uma quantidade maior de café.
81) E isso nos traz as odiosas escalas de folga. De tempos em tempos você ia precisar cuidar da cozinha o dia inteiro em uma segunda-feira para que todos os outros pudessem descansar. É bem óbvio porque ninguém gostava disso, né?
82) Algumas bases recompensavam os obreiros na escala de folga com um dia de folga exclusivo pra eles durante a semana. A base de brasília não era chique desse jeito. Caiusna escala? Se fudeu até semana que vem!
83) E tinham os impactos. Eram basicamente durante as férias escolares ou em algum feriado prolongado. A gente ia par algum lugar especial (ou ficava na base mesmo se o orçamento estivesse curto).
84) Além de realizar as atividades de sempre, também recebíamos o "povo das igrejas", dávamos treinamento e deixávamos eles participarem de tudo com a gente. Por um preço razoável, é claro.
85) Esse é um ponto delicado. Em geral os impactos rodavam muito no limite em termos financeiros. Alguns davam prejuízo. O valor cobrado era bem simbólico na maior parte dos casos. Mas tinha um povinho dinheirista sim que considerava um fracasso os impactos que davam prejuízo.
86) E tinham vários tipos de impacto. O povo ia criando uns nomes diferentes, mas era tudo a mesma coisa. Só mudava a faixa etária e as atividades ensinadas/desenvolvidas.
87) Mais um bem lembrado pelo @felipenogs. Tinha um impacto que era o "impacto terrorista" máximo. Eles vendiam isso como um impacto com uma pegada meio de sobrevivência, no meio do mato.
88) E proibiam os participantes de dizer o que rolava lá pra não estragar a surpresa pros novos participantes. Nunca fiz esse, mas o que ouvi: era tudo umas gincaninha meia boca pra deixar o cara estressado e depois dizer: "olha irmão, deixa deus trabalhar a sua vida".
89) E teve Barretos. Sabe a festa do peão em Barretos? A maior do brasil? Acho que da américa latina também? Então, eu fui até lá para trabalhar como voluntário. De todas as derrotas da missão, essa foi a maior.
90) Basicamente era assim: a organização missionária queria entrar na festa do peão de graça pra poder fazer suas apresentações artísticas (eles chama isso de evangelizar). O dono do evento, malandrão que só ele, falou: eu deixo se vocês trabalharem de graça pra mim.
91) Tá, não foi exatamente assim, mas é algo bem parecido com isso. O evento cede espaço pra gente acampar (tem que levar barraca) e dá três refeições pra todo mundo todos os dias. Em troca a gente só precisa entregar nossa alma.
92) A gente ganha uniformes e somos chamados dentro do evento de "promoção humana". É um termo bonito para "quebra-galho". ABSOLUTAMENTE QUALQUER MERDA QUE PRECISAREM, eles chama a gente.
93) Eram coisas como cuidar da fila, cuidar do parquinho das crianças, ajudar a organizar excursões, carregar peso. Enfim, chamavam a gente pra tudo.
94) era muito chato pq era o dia inteiro tocando música cretina e sempre as as mesas 4 ou 5 músicas. No ano que eu fui tava tocando sem parar "cada um no seu quadrado". Usem isso pra triangular o ano pq eu já nem lembro mais quando foi.
95) Agora vamos falar das "revelação". essa era outra praga que tinha dentro da missão. Pessoas dizendo que "Deus me revelou isso e aquilo outro oh glória". Sempre que alguém queria terminar uma discussão a pessoas falava que Deus tinha revelado pra ela.
96) A base de Brasília tinha um perfil mais racional e até um pouco cético às vezes, por isso esse tipo de coisa não pegava muito por lá. Mas meu irmão, tem altas historias alucinógenas que rolam pelos corredores de certas bases aí.
97) Até agora estou evitando usar nomes oficiais, mas tem uma coisa que eu PRECISO falar pq é muito bizarro. Chama "semana do espírito santo". Here we go:
98) Era um evento que acontecia em uma certa cidade com muitas bases. Todas as bases se reuniam uma vez por ano em um único lugar onde rolava a "semana do espírito santo". Até onde eu sei, esse evento não acontece mais (carece de fontes).
99) A ideia era: uma série de aulas e palestras sobre como o espírito santo age na vida das pessoas. Isso mesmo, o terceiro cara da trindade. Não é Deus e Nem Jesus, mas é os dois ao mesmo tempo. É confuso pra quem é de fora, admito.
100) Nessa "semana do espírito santo", no final das aulas, rolava um momento onde o espírito santo era livre pra agir entre todos os presentes. E é aqui que começa a loucura master de todos os tempo da minha vida de missionário.
101) Os caras davam nome de unção pra qualquer merda que faziam. Caiu no chão se tremendo todo? unção de sei lá o quê. Começou a falar enrolado? "unção de línguas". Começou a rodar igual o pastor zangief? "unção do pastor zangief".
102) A minha favorita foi a "unção do hadouken". É claro que esse não era o nome oficial e sim como eu batizei o negócio. Um cara (que eu conhecia aliás), caído no chão, rindo e repetindo os gestos de Ryu e Ken ad eternum. A galera em volta gritando aleluia.
103) Acha que eu to exagerando? Isso não tá nem no top 5 de loucuras que eu vi nessa semana. É sério. tinha DE TUDO. Gente berrando, correndo, dançando, pulando, abraçando. Um cara cismou que tinha aparecido pó dourado na minha mão e uma galera em volta gritava aleluia também.
104) Só pra deixar claro: não apareceu porra nenhuma. Isso tudo foi um momento emotivo agindo em sincronia com o efeito placebo de uma galera (procure "efeito placebo" no google). E tinha um montão de gente que tava fingindo na cara dura. tipo o cara do hadouken.
105) Em determinado momento a coisa fugiu do controle. No meio da emoção a galera levava um pessoal lá na frente berrando no microfone "ELE ERA SURDO E AGORA OUVE ALELUIA MEU DEUS". Aí vc ia lá confirmar, o cara continuava surdo da silva.
106) A última notícia que tive é que a "semana do espírito santo" foi cancelada pra sempre, mas estou fora dessa missão há quase uma década, então não posso confirmar essa info.
107) Outra vez o @felipenogs, meu correspondente de SP, lembrou de algo interessante: tinha as "unção dos bicho". Galera imitava água, leão, a porra toda.
107) Agora vamos falar de como você conseguia (e ainda consegue, acredito) entrar para essa missão. Em teoria, todos tem que fazer o mesmo curso que dura 5 meses. 3 meses teóricos e 2 práticos.
108) Tem que pagar uma grana, que pode ser à vista ou parcelada durante os 5 meses. Isso te garante os estudos + moradia + alimentação + todos os adicionais que a base possa possuir, por exemplo internet (algumas cobram a parte pelo uso da internet)
109) Para tudo que eu falei ou falar a seguir, existem suas exceções, é claro. Mas o processo é basicamente se inscrever pelo site da base que vc quer entrar e preencher uns formulários. São 3 ao todo.
110) Um pessoal e dois confidenciais. O pessoal você preenche com seus dados, bem normal. Os confidenciais você não preenche e, em teoria, não pode sequer ler depois de preenchidos.
111) Um deles precisa ser respondido por um amigo próximo, alguém que te conheça bem. O outro é preenchido pelo seu/sua pastor/pastora/líder espiritual que o valha. Tem altas histórias de pessoas sendo rejeitadas pq o pastor falou mal deles no formulário hahaha.
112) Se aprovado, você recebe um email com instruções e data do início do curso. Você já mora na base durante todo o curso. (tecnicamente não nos dois últimos meses, mas já chego nessa parte).
113) Eles deixam bem claro: se você quebrar alguma regra pode receber "disciplinas" ou, se for muito sério, pode ser expulso. Em geral eles evitam essa segunda opção, mas acontece bastante pq essa organização atrai mais tranqueira do que lixão.
114) E tem também as injustiças. Tem muito líder descapacitado nesse lugar, então não é raro ver pessoas sendo mandadas embora (ou pedindo pra sair) por causa de uma liderança toda errada. Tem isso também.
115) Uma vez aceito, você começa o curso e fica 3 meses na base estudando num ritmo intensivo. Além das aulas, da já citada "manutenção" e das outras atividades oferecidas por cada base, tem uma criação do exú sem luz: o "semanário"
116) É basicamente um caderno (ou pasta, em alguns casos) onde você precisa registrar tudo o que aprendeu e o que aconteceu com você na última semana. O pior: tem que ser criativo. Pode desenhar, fazer recortes de revista ou qualquer outra coisa do gênero.
117) Cada base tem suas próprias regras em relação ao "semanário", mas em geral não aceitam apenas que você escreva algo. Precisa também agir como se fosse uma criança na pré-escola pintando no caderninho. Eu odiava o semanário do fundo da minha alma.
118) Sabe o que é pior? Alguns obreiros ficavam encarregados de corrigir o seu semanário. Basicamente eles tinham que ler o que você escreveu e mandar escrever de novo se estivesse muito vago.
119) Você tinha que ser bem específico no que estava aprendendo pra que eles pudessem usar isso contra você no futuro. Eles diziam que, na verdade, era pra você ter noção do seu próprio crescimento. e talvez até fosse, mas que usavam contra você, ô se não usavam!
120) Então, quando o obreiro corrigia seu semanário era bem comum vir um bilhetinho "seja mais específico", que era um código pra dizer "seu animal, faça tudo de novo, e dessa vez em dobro porque tem o semanário da semana atual pra fazer tbm".
121) Uma vez aceito no curso de iniciação, você ganhava um líder, alguém que meio que só mandava em você e te ajudava a aprender as paradas ou apenas trocava uma ideia quando vc precisava de alguém. Tipo um padrinho do AA.
122). Na maior parte das bases existe uma preferência por duplas de líderes, sempre com um homem e uma mulher para cada aluno. Em bases com um corpo de obreiros reduzido, vai quem tiver mesmo e foda-se.
123) Depois dos três meses iniciais, vem o "período prático" ou apenas "prático", como dizem. São os dois meses finais onde os alunos são levados para algum lugar, quase sempre fora da base, para passar um tempo colocando em prática o que aprenderam nos três meses iniciais.
124) Pode ser qualquer coisa: pregar em igreja, tocar no "louvor", trabalhar em projetos sociais, ir para um outro país realizar essas e/ou outras atividades. Enfim, pode acontecer praticamente qualquer coisa no seu prático.
125) O meu prático foi na gloriosa Paranaguá. Lembra daquelas pantomimas cretinas que eu falei antes? Apresentei umas 1987632498761239874 delas em todos os malditos colégios da cidade.
126) Aliás, vamos falar das peças de teatro? Cada base tinha a possibilidade de criar suas próprias peças, mas algumas eram repetidas a exaustão em todo lugar. Vou falar da que eu mais apresentei e, por consequência, a que eu mais odeio: ladrão da alegria.
127) Essa era a única peça falada. Era basicamente um bando de marmanjo fazendo papel de criança (igual o chaves, mas sem graça nenhuma). Vinha um ladrão e roubava o brinquedo das criança tudo.
128) As criança chorava e no final vinha alguém dizer pras criança que a alegria delas não precisava ser os brinquedo. Todo mundo ficava contente e cantava " a alegria está no coração", que é tipo stairway to heaven de crente, mas sem qualquer talento.
129) Qual era o personagem que mais aparecia e mais tinha falas? O ladrão. Adivinha qual papel eu interpretada. Isso aí, a PORRA DO LADRÃO!
130) Como eu disse antes, a gente fez essa peça em todos os colégios da cidade. Paranaguá não é uma cidade grande, mas tem, inexplicavelmente, milhões de colégios. No fim eu tava tão de má vontade que esculhambava a peça inteira.
131) Os meus colegas, desgraçados do jeito que eram, faziam de tudo pra prolongar minha tortura. A peça era isso aí: eu ia lá e roubava o brinquedo da criança. De acordo com o script (digno de oscar), a criança tinha que interagir um pouco com o ladrão antes de ser roubada.
132) Os malditos ficavam enrolando pra dar a porra do brinquedo. EU FICAVA UM TEMPÃO PRESO NAQUELA MERDA!
133) Aí um dia me vinguei. No final da peça, quando eles estava cantando a musiquinha lá, o ladrão tinha que voltar e tentar assustar todo mundo, mas falhava e fugia com medo.
134) Um dia eu fiquei tão puto que na hora de entrar no final, simplesmente não entrei. Eu nunca tinha ouvido "a alegria está no coração" tantas vezes em sequência.
135) Depois de quase rachar o cu de tanto rir, entrei pra poder finalizar a peça. Nunca mais os fpds enrolaram pra entregar o brinquedo. Vejam vocês, uma história com final feliz.
136) Esse "ladrão da alegria" era uma peça disruptiva até. Em geral, a maioria tinha o mesmo roteiro: pessoas se fodendo nas drogas e no sexo, o diabo vindo em cima delas tripudiar, e jesus vinha no final pra morrer e ressuscitar.
137) Porque não sei se vcs tão ligado, duas coisa que crente adora falar que odeia: sexo e drogas.
138) Mas tinha um montão de outras peças derivadas. Alguns nomes que eu lembro agora; Não Toque, Máscaras, rei dos corações, kumbaya.
139) Eu quase me esqueci de uma das maiores bizarrices de todas: a amizade especial.
140) Assim que o tweet original tiver mais curtidas, eu falo mais sobre a "amizade especial". Conheça a maquiagem escrota que eu usava na época para apresentar peças. Tinha variações pintando a cara inteira de branco, mas em brasília a gente era baixo orçamento até nisso.
141) Eu explico essa cicatriza na testa. Eu pensava: já que vou ter que fazer uma peça cretina com uma maquiagem escrota, pelo menos deixa eu colocar minha marca nisso. Naquela época isso significava pintar uma cicatriz na minha testa.
142) Agora: amizade especial. em resumo: namoro de crente. Vamos aos pormenores. Antes de qualquer coisa, lembre-se, isso também não era aceito em todas as bases.
143) Quando um menino se interessava por uma menina (ou vice versa, casais lgbt+ são do diabo, segundo a maior parte dos crentes, então isso nem era cogitado por lá), o que a pessoa fazia? Falava pro seu líder.
144) O líder ia lá e falava pro líder da outra pessoa, ou seja, já tinha duas pessoas que ficavam sabendo disso ANTES da própria pessoas na qual se estava interessado. Sabe o que eles faziam depois? Oravam. Se Deus autorizasse, eles liberavam o menino para falar com a menina.
145) Uma vez autorizado, o menino podia falar com a menina. Aí faziam sabe o quê? Oravam juntos. Gente, é muito sexy isso.
146) Se Deus falasse pra eles, de novo (pq já tinha falado pros líderes, afinal), então eles estavam autorizado a entrar em um relacionamento que se chamava "amizade especial". Não podia beijar nem pegar na mão, só conversar, e sempre em locais públicos, nunca escondidos.
147) Isso variava MUITO de base pra base. Os mais radicais só deixavam beijar se os dois se casassem (não to de brincadeira). Os mais liberais acreditavam que depois disso tudo já podia rolar um namoro numa boa (mas sem sexo antes do casamento pois sexo é coisa do diabo).
148) Sabe o que acontecia na maior parte das vezes? NINGUÉM SEGUIA PORRA DE REGRA NENHUMA. Se queriam beijar, beijavam. Se queriam trepar, trepavam, e muito! Se o outro não quisesse quebrar a regra, a pessoa quebrava a regra com outra pessoa. Isso mesmo, um terceiro elemento.
149) como vocês podem ver, "amizade especial" era coisa linda de Deus, não tinha como dar errado.
150) A base de brasília não tinha essa amizade especial. Comecei a namorar uma moça lá. A única coisa que me obrigaram a fazer foi ir na frente de todo mundo e dizer "eu e ela tamo namorando seus fdps". Como essa base era meio hue hue br br, foi mais ou menos isso mesmo que rolou
151) Tinha também a ocorrências "sobrenaturais". Essas não sei se devo contar pq envolve muita gente além de mim hahaha.
152) Durante o período teórico do meu treinamento, tinha um colega meio maladrão Aquele mesmo cara do hadouken. Ele percebeu que se fizesse algumas coisas, conseguia manipular facinho os obreiros.
153) Uma vez ele fingiu estar possuído. Ficou se revirando no chão bem na hora de dormir (os alunos tinham horário pra dormir, era as 22h). Começou a fazer escândalo e disse que só saía se chamassem um cara específico lá pra orar por ele.
154) O cara foi chamado, orou pelo desgraçado e o demônio foi embora como num passe de mágica.
155) E tem outro termo muito comum por lá. Chama "liberar perdão". Tem a ver com saber assumir seus erros, pedir perdão e perdoar. Existe de fato uma lição bonita por trás disso, se vc tiver maturidade aprende algo legal.
156) Mas tem uns zé ruela que usam isso pra aliviar a barra quando fazem merda. Ficam repetindo "libera perdão, irmão". Sabe quem fazia isso muito? O cara do hadouken. Tocava o TERROR na base, depois a casa caía ele vinha todo meloso pedir perdão.
157) Lembrei de outro tipo de zé ruela relativamente comum nas bases. Lembra da manutenção? Tem uns caras que fogem dela dizendo que estão em "interseção". Isso significa que ela está tirando um tempo de oração, "intercedendo" pelos outros diante de Deus, saca?
158) Curiosamente, o momento de interseção dele coincide com a manutenção, veja que coisa.
159) Aqui cabe outra explicação: eu to aqui lembrando dessas coisas, tirando sarro e dando risada, mas eu me incluo em tudo o que aconteceu, ok? Eu mesmo cometi um monte de excessos até encontrar meu próprio equilíbrio.
160) E tinha, é claro, a hora do almoço. Como os recursos eram limitados, quase sempre a quantidade de comida era controlada, pra não correr o risco de faltar e alguém ficar sem almoço. Por isso, tinha um termo que eu só ouvi por lá: o "ré".
161) "ré" é uma abreviação de "repeteco". Os mais esfomeados ficavam com seus pratos sujos e prontos pra uma segunda leva de comida ali perto das panelas esperando alguém dizer que o "ré" tava liberado.
162) Era comum também, pra ter certeza que todo mundo já tinha almoçado, a pessoa responsável gritar algo como "falta 5 minutos pra liberar o ré". Aí quem não tinha almoçado ainda vinha correndo sabe Deus de onde pra não ficar sem.
163) Quando finalmente a pessoa liberava o "ré" era como abrir uma porteira de um cercado que abriga touros enfurecidos. Nem cachorro de rua esvazia uma panela tão rápido, é impressionante.
164) Como já deu pra sacar, cada base tinha suas características próprias. Não era tudo igual e, até certo ponto, cada base tinha liberdade para agir como quisesse. A base de brasília era bem racional em termos espirituais. Eram poucos os excessos lá.
165) Já a base na qual fiz meu treinamento era mais hardcore no quesito sobrenatural. Eles não só acreditavam em coisas como falar em línguas, cura pela fé, revelação do espírito santo, profecias e etc, como incentivavam que todos os alunos se desenvolvessem nessas áreas.
166) E esse incentivo rendia situações curiosas, como por exemplo a vez que vi um cara no microfone dizendo "quem não tem dom de línguas venha até aqui na frente AGORA que eu vou orar e você vai passar a ter". Na minha equipe eram uns dois ou três que não tinham esse dom.
167) entenda: para uma certa parcela de crente, "dom de línguas" significa falar enrolado, glossolalia, "falar na língua dos anjos", etc. Isso é muito bem visto por essa galera, gera até um certo status.
168) Uma vez ouvi um cara dizer "quem não tem dom de línguas não pode se dizer convertido". Ou seja, rolava até uma pressão para que todos desenvolvessem esse "dom". Voltando ao acontecido: apenas eu e mais dois caras da minha equipe não possuíamos esse tal dom.
169) Fui o único a recusar a oportunidade de adquirir esse dom maravilhoso e indispensável, o que rendeu um questionamento com olhar surpreso e inquisidor da minha líder na época. Felizmente ninguém me obrigou a nada.
170) Sobre a liderança das bases: Era basicamente uma loteria. Se a base tivesse um diretor/diretora gente boa, a experiência de trabalhar lá também poderia ser bem positiva. A base de brasília tinha um cara muito peculiar na liderança, mas era dos bons. Então pra mim foi legal.
171) Mas o diretor da base onde fiz meu treinamento não era lá essas coisas não. Pra começar, o cara era chegado e fazer amizades com políticos. Isso pra mim já é razão pra entortar a boca, Além de tudo, o cara era um puta tirano disfarçado de amigão da galera.
172) As coisas tinham que ser do jeito dele e pronto. Tem um termo evangélico muito usado pra isso também: "submissão". Por causa de uma passagem bíblica, boa parte dos crentes defende que você deve obedecer sua liderança sem questionar. Pra mim isso é inaceitável. É até burrice.
173) Lembram quando eu mencionei o treinamento inicial para entrar na missão? Pois bem, tem um obreiro responsável por dirigir esse treinamento. Ele/ela se torna o/a diretor(a) do curso. Em geral essa pessoa tem a palavra final em relação a questões do curso.
174) Esse cara (diretor da base) um belo dia puxou o tapete do diretor do curso. Eu era aluno. Ele entra na sala de aula e avisa " a partir de agora o fulano não vai mais estar com vocês". Assim do nada mesmo. O antigo diretor do curso foi embora da base, praticamente expulso.
178) Isso custou ao restante do meu curso um status de "encheção de linguiça", já que toda a programação que o cara tinha feito antes de sair fora foi jogada no lixo e ignorada pelo novo diretor. Foi uma bosta total, porque o antigo cara é legal. Um bom professor, na verdade.
179) Esta instituição tem uma fama entre as igrejas de "casa de recuperação gospel". Existe um costume de pastores que mandam pra lá qualquer pessoa que esteja dando muito problema na igreja dele, geralmente por causa de droga. Na cabeça deles a missão vai "curar" o cara.
180) É claro que isso quase nunca dá certo. Há alguns exemplos que deram resultado positivo, mas em geral só serve pra traumatizar mais o cara - e a própria base já que os caras costumam ir a contragosto e tocam o terror lá dentro. Existem casos até mesmo de roubo.
181) Por causa disso, a frequência de gente meio "perdida" dentro dessa instituição é muito grande. Todo mundo, repito, TODO MUNDO, que já foi obreiro de QUALQUER BASE já conheceu pelo menos um caso desses.
182) às vezes gera situações engraçadas. O cara não quer fazer as atividades propostas, não concorda com nada e não tem culhões pra virar as costas e ir embora. Fica ali encostado, enchendo o saco de todo mundo até ser expulso ou desistir de vez.
183) E tem o extremo oposto. O "super crente", cheio de religiosidade, que considera tudo ali dentro como uma heresia e acaba arrumando confusão por se recusar a fazer as atividades. Desses são poucos os que permanecem. Os que ficam, vão mudando de ideia com o tempo hehe.
184) Sabe qual é o principal problema de morar junto com seus colegas de trabalho? A fofoca. TODA BASE tem uma galera muito linguaruda que se acha no direito de se meter na vida dos outros só porque mora no mesmo ambiente. A privacidade vai se perdendo um pouco.
Gente, vou encerrar a thread por AQUI. Agradeço o interesse e a interação de todos vocês, foi muito divertido relembrar essas coisas. Quero deixar claro que, apesar de tudo, guardo coisas positivas desse tempo também, Aprendi coisas valiosas e foi uma experiência única pra mim.
Também tive a sorte de conhecer algumas pessoas incríveis. Então, apesar de todas as ressalvas e críticas que eu tenho a este lugar e muitas das coisas que são feitas por lá, também reconheço que ele possa ter um efeito positivo em algumas pessoas.
É tudo uma questão de ter maturidade e equilíbrio. Se você chegou a essa thread e JÁ FOI membro dessa mesma instituição, seja bem-vindo(a), estamos juntos nas boas memórias e nas ruins também. Um grande abraço a todos. Em breve mais threads sobre outras histórias que eu vivi. ;)
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