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O jornalista @alexandregarcia, quem respeito, fez uma afirmação da qual discordo frontalmente e convém divergir. Ele usou o Twitter para atribuir um papel de construção democrática brasileira as forças armadas. Isso é incorreto. Basta ler a história.
Quando alguém com tantos seguidores e autoridade diz algo assim, convém discordar mesmo não tendo a mesma audiência e a mesma dimensão. De 1889 a 1988, durante 99 anos, as forças armadas contribuíram muito para ESFACELAR a democracia brasileira.
Com todo respeito que tenho sobretudo pelo Exército Brasileiro, que me forneceu uma educação sem igual no Colégio Militar, não é difícil afirmar que, desde a deposição de Dom Pedro II, os militares atuaram por quase um século no sentido de AUTOCRATIZAR o Brasil.
Fruto da Guerra do Paraguai, um pensamento que teve em Benjamim Constant (na foto) seu principal expoente, fez os militares se acharem no papel de condução da nação. Uma força Armada não conduz povo algum. É o povo que conduz a força armada se achar que deve.
É por esse pensamento equivocado que vários golpes foram dados (1889, 1930, 1937, 1945, 1964...) e tivemos um amadurecimento tardio da democracia brasileira. Fora o período de 1988 até hoje, foi possível ver a democracia florescer de 1946 até 1964 quando foi interrompida.
A família real não precisava ter sido exilada como foi em 1889. Não foi por republicanismo! Foi apenas por intrigas entre o Marechal Deodoro da Fonseca e o Visconde de Ouro Prero, primeiro-ministro imperial. Os militares se meteram.
Washington Luiz não precisava ser deposto em 1930. Júlio Prestes poderia ter assumido a presidência. Eleições poderiam ter ocorrido em 1934. Getúlio Vargas, tenentista, preferiu o caminho do golpe. E fez sua revolução. Os militares se meteram.
Getúlio Vargas, ditador desde 1930, aceitou promulgar uma nova constituição em 1934, mas não aceitou novas eleições em 1938. Antes disso, outorgou uma nova constituição que instaurou o Estado Novo em 1937. Os militares se meteram.
Em 1945, os mesmos apoiadores que levaram Getúlio Vargas ao poder em 1930 voltaram-se contra ele. Foi deposto. Os militares se meteram. Todavia, por sorte, os civis prevaleceram com a constituição de 1946... Não por muito tempo!
Em 1964, com apoio de civis irresponsáveis e oportunistas, num contexto da guerra fria, encerraram um período democrático para instaurar uma ditadura que custa muito caro. Suas maiores faturas? A baixa cidadania, a alta violência e o gordo governo! Os militares se meteram...
Depois de duas décadas, espremidos entre militares que não queriam largar o osso e guerrilheiros tão autocratas quando quem estava no poder, civis conseguiram articular uma resistência no Movimento Democrático Brasileiro.
Heróis como Ulysses Guimarães costuraram o fim ditatorial. Quem afirma que os militares propuseram a transição tranquila ignora que a emenda Dante de Oliveira foi derrotada em 1984 e que o regime quis eleger Paulo Maluf no colégio eleitoral em 1985. Quem afirma isso mente.
Depois de 99 anos, forças civis, ainda que entremeadas por militares, pactuaram uma constituição cidadã que tem sido o sustentáculo democrático de 1988 até hoje.
Com a vitória do atual presidente, 117 militares ocupam cargos chave no governo federal até agora.
Eu respeito o preparo da maioria deles. Eu respeito a noção de dedicação ao país da maioria deles. Eu respeito a repulsa a corrupção da maioria deles. Admirador da história militar, sei que Osório afirmava que “a farda não abafa o cidadão no peito do soldado.”
Ocorre, e isso muita gente não entende, que a lógica militar não se aplica a democracia. Qual a lógica militar? Um binômio que aprendi bem: hierarquia e disciplina.
Na democracia não há hierarquia. Somos todos cidadãos. Na democracia não há disciplina. Somos todos governados por nós mesmos. É essa ausência de compatibilidade que ainda vai apresentar sua fatura.
Basta entender a diferença entre Esparta e Atenas. Eu sou ateniense. A lógica desse governo é espartana. O Brasil vive sua Guerra do Peloponeso interna e tropical.
Todavia, não é a primeira vez que o Brasil vive isso. Na década de vinte, basta estudar o tenentismo, muitos outros militares acharam que a política já tinha dado o que tinha de dar. Ocorre que a democracia não é organizada, não é pura, não é hierárquica, não é disciplinada...
Será que um dia vamos todos aprender? Vamos sim.
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