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minha creppypasta favorita; a thread
bom já vou deixando bem claro que ela é enorme, tem 6 partes e vou falar de todas as 6 pq elas se complementam
vou por de acordo com oq achei, mudando algumas coisas pois em muitos sites ela está super mal traduzidas, felizmente já li ela varias vezes e consigo adaptar com base no >meu< entendimento
o texto é narrado pela pessoa que “sofreu” as coisas
no caso ele é adulto e está contando as coisas q aconteceram na infância
Parte 1: PASSOS
Esse relato é muito longo, me desculpem por isso. Nunca tive q contar essa história tão detalhadamente a ponto de conseguir explicá-la por completo, mas asseguro que é verdadeira e aconteceu quando eu tinha uns seis anos de idade.
Num quarto silencioso, se você deita seu ouvido contra o travesseiro, dá pra ouvir a batida de seu coração. Quando criança, essa batida e esse ritmo pareciam passos num tapete.
Muitas noites fiquei assustado pq durante aquele período de vigília antes do sono chegar, escutava esses passos e era tragado de volta à consciência, repentinamente.
Durante toda minha infância, vivi com minha mãe numa vizinhança boa que começava a ser desvalorizada.
Gradualmente, gente de menor poder aquisitivo começara a se mudar pra lá, incluindo eu e mamãe.
Nossas coisas couberam num único caminhão, se bobear até a casa poderia ter sido transportada junto, de tão pequena que ela era. Mas mamãe era muito caprichosa e cuidava bem do lugar.
Havia bastante mato ao redor do bairro, e eu desbravava e explorava um pedacinho novo todo dia. Mas, à noite, as coisas lá ficavam um pouco mais sinistras e assustadoras. Isso aliado ao fato de haver um espaço enorme e inabitado de baixo de nossa casa, fazia minha imaginação
infantil viver povoada de monstros e cenas apavorantes, que enchiam minha mente toda vez que ouvia os passos. Contei a minha mãe sobre os passos e ela disse que eu estava imaginando coisas. Insisti o suficiente até que ela, usando um conta-gotas, pingasse água em meus ouvidos pra
tentar aplacar meus nervos. Eu achava que, mantendo os ouvidos abafados, resolveria o problema. Claro que não adiantou. A despeito de tanto medo e desconforto, a única coisa estranha de verdade que já acontecera, era que as vezes eu acordava na cama de baixo do beliche, apesar de
ter deitado inicialmente na de cima. Só que isso não era assim tão estranho, já que me lembrava, uma vez ou outra, ter acordado no meio da noite pra fazer xixi, ou pegar água, e acabar deitando na cama de baixo por preguiça (sou filho único, então não importava muito onde me
deitava). Acontecia uma ou duas vezes por semana. Só que acordar na cama debaixo nem era tão assustador. Até a noite em que eu não acordei na cama debaixo.
Escutei os passos, mas estava cansado demais pra me deixar acordar. Quando enfim acordei, não foi por causa de medo, mas
por sentir frio. Muito frio. Quando abri os olhos, vi estrelas. Estava no meio do mato. Sentei na hora e tentei descobrir o que estava acontecendo. Pensei que estava sonhando, mas tudo parecia estranho, principalmente por estar sentado no meio da grama. Vi uma boia de piscina bem
em frente de mim (uma em forma de tubarão) o que só contribuiu pra sensação de estar dormindo e sonhando. No entanto, após um tempo, parecia que eu não iria mesmo acordar, por que não estava dormindo. Levantei pra tentar me localizar, só que não reconheci onde estava. Eu brincava
perto de casa, nas árvores, o tempo todo e conhecia bem o terreno. Mas essas não eram as mesmas árvores, então como eu poderia sair? Dei um passo a frente e senti uma dor aguda no pé que me derrubou de volta ao chão, pisei num espinho. À luz da lua, pude ver que havia espinhos em
todo lugar.
Olhei a sola do pé, que não estava machucada. Aliás, eu não estava machucado. Não havia um arranhão. Nem tanta sujeira em minhas roupas.
Chorei um pouco e me levantei de novo.
Não sabia pra onde ir, então escolhi uma direção aleatória. Resisti ao impulso de gritar
por que não estava confiante de que queria ser encontrado por quem quer que estivesse escondido entre as árvores.
Caminhei pelo o que pareceram horas.
Tentei seguir uma linha reta sem me perder, mas era só uma criança com medo. Não escutava uivos ou gritos, mas uma vez escutei
um som que me assustou. Parecia um bebê chorando. Penso agora que talvez fosse apenas um gato, mas, na hora, entrei em pânico. Segui por outras direções pra evitar arbustos e árvores caídas. Também prestava bastante atenção por onde pisava, e não por onde ir, pois meus pés já
estavam destruídos. Pouco tempo depois de ouvir o choro, vi algo que me encheu de um desespero surdo que nunca senti antes. Era a boia.
Eu estava a poucos metros de onde havia acordado.
Não era mágica, muito menos uma dobra no espaço-tempo. Eu me perdi. Até aquele momento
pensei mais sobre como sair de dentro do mato do que sobre como eu havia chegado lá em primeiro lugar. Mas estar de volta ao ponto de partida virou minha mente de cabeça pra baixo. Será que corri em círculos ao redor daquele lugar, ou, em algum ponto do percurso, dei meia-volta
sem perceber? Como poderia sair? Achava que a estrela do norte era a mais brilhante, então procurei por ela. Segui seu brilho.
Uma hora as coisas começaram a parecer familiares e, quando vi a “trincheira” (um buraco na terra onde meus amigos e eu brincávamos de guerra de lama)
soube que tinha conseguido sair. Estivera caminhando devagar por que meus pés doíam, mas fiquei tão feliz de estar perto de casa que comecei a correr.
Quando finalmente vi o telhado de casa acima de uma casa vizinha um pouco mais baixa, deixei escapulir algumas lágrimas e corri
mais rápido. Só queria chegar em casa. Decidira não dizer nada por que simplesmente não sabia o que dizer. De algum jeito, ia entrar de novo, me lavar e voltar pra cama. Meu coração saltitou quando virei a esquina e vi minha casa por inteiro.
Todas as luzes estavam ligadas.
Sabia que mamãe estava acordada, e sabia que teria que me explicar bastante (tentar) e não fazia nem ideia de como começar. Diminuí o presidente asso, e até ver sua silhueta por trás das cortinas estava preocupado com o que dizer a ela. Subi os degraus até a entrada e pus as mãos
na maçaneta. Antes mesmo de conseguir abrir a porta, braços me agarraram por trás. Gritei tão alto quanto pude. -MÃE! ME AJUDA, POR FAVOR!
A sensação de ser fisicamente arrancado de um momento de alívio gerou ondas de pavor pelo meu corpo que ainda hoje, após tantos anos, são
indescritíveis.
A porta de onde me arrancaram foi aberta, e uma ponta de esperança surgiu no meu peito. Mas quem abriu não era minha mãe.
Era um homem enorme. Esperneei e chutei os pontos fracos de quem me segurava enquanto tentava também fugir da figura que se aproximava.
Estava com medo, mas também furioso.
-ME DEIXA! CADÊ MINHA MÃE? QUE QUE VOCÊS FIZERAM COM ELA?
Minha garganta doía de tanto gritar. Tentei recuperar o fôlego. Percebi uma voz que não tinha ouvido antes.
-Amor, por favor, se acalma. Sou eu.
Era a voz da minha mãe. O aperto
ao meu redor afrouxou e pude ver as roupas dos homens. Eram policiais. Me virei pra encarar o sujeito atrás de mim e vi que quem me agarrara havia sido minha mãe.
Tudo estava bem. Comecei a chorar, e nós três finalmente entramos.
-Estou tão feliz de ver você em casa, amor.
Fiquei preocupada de nunca mais te ver – Agora, ela também chorava.
-Me perdoa, eu não sei o que aconteceu. Só queria vir pra casa de novo...
-Tudo bem, só não faça isso de novo. Nunca mais. Não sei aguentaria outros chutes seus...
Uma risada atravessou meu choro, e consegui
sorrir.
-Me desculpa por ter chutar, mas por que você me assustou desse jeito?
-Fiquei com medo de você correr de novo.
-Como assim?
-Achamos seu bilhete no travesseiro. – Ela disse, apontando um pedacinho de papel que um dos policiais acabara de me entregar.
Peguei o bilhete e
li. Era um bilhete de adeus. Dizia que eu estava infeliz e que nunca mais queria ver ela ou meus amigos e novo. Os policiais trocaram algumas palavras com a minha mãe na varanda, enquanto eu encarava o papel. Não lembrava de ter escrito nada. Não lembrava de nada que havia
acontecido. Mas mesmo que eu não lembrasse de me levantar pra ir ao banheiro às vezes, ou de ter ido sozinho pro meio do mato, mesmo que nada disso tenha sido verdade, tudo que sabia era
-Não é assim que se escreve meu nome.... Eu não escrevi essa carta…
fim da primeira parte
agora na segunda, como demorou um tempo pra cada parte da história ser postada, foi como se a pessoa tivesse contado a primeira num dia e depois de alguns dias começou contar a segunda e assim por diante
Parte 2 : BALÕES
Uns dias atrás, postei aqui uma história. Vocês fizeram algumas perguntas me que deixaram curioso com certos detalhes da minha infância, então fui falar com minha mãe. Incomodada com o que perguntei, ela disse:

-Por que não conta logo daqueles malditos balões
se eles estão mesmo tão interessados?

Assim que ela falou isso, lembrei de muitos detalhes da minha infância que havia esquecido. Essa história agora vai prover um contexto maior pra história de antes, e eu acho que vocês deviam ler aquela primeiro. Apesar de não ser lá muito
importante, ler aquela primeiro vai ajudar vocês a se pôr em meu lugar mais facilmente, já que lembrei daquilo antes. Aliás, ambas as histórias são bem grandes, encarem. Tenho medo de esquecer detalhes que possam ser importantes.

Quando tinha cinco anos, fui pra um jardim de
infância que, se me lembro bem, era bem cabeça dura quanto à importância de se aprender fazendo. Era um desses novos métodos de ensino pensados pra deixar as crianças aprenderam no próprio ritmo, e pra isso a escola encorajava os professores a inventarem tarefas bem criativas.
Cada professor tinha o espaço pra criar um tema que duraria até o fim de cada série, e todas as tarefas de matemática, redação e afins, era pensada dentro do tema escolhido. Esses temas era chamados de grupos. Tinha o grupo do espaço, do oceano, da terra, e o meu, da comunidade.
No jardim de infância desse país, não dá pra aprender muito além de amarrar os sapatos e dividir suas coisas, a maioria não é muito memorável. Eu só me lembro de ser o melhor em escrever o meu nome corretamente, e do Projeto Balão (era a marca do grupo Vizinhança por que era um
jeito bem inteligente de mostrar como vizinhanças funcionavam em seu alicerce).
Numa sexta feira (eu lembro de ser sexta por que estava feliz com o projeto e com o fato de ser quase fim de semana) no início do ano, caminhávamos pra dentro da sala de aula de manhã e víamos que lá
havia uns balões, amarrados com fitas a cada uma das cadeiras. E, em cada mesa, havia uma caneta, canetinha, um pedaço de papel e um envelope. A tarefa era escrever um bilhete, pôr no envelope e grudar no balão, onde também podíamos desenhar se quiséssemos. A maioria das crianças
estavam brigando pelos balões, por que queriam cores diferentes, mas eu comecei a escrever meu bilhete por que tinha pensado muito nele.

Todos os bilhetes tinham que seguir um padrão, mas a gente podia inventar um pouco dentro dele. Minha carta era mais ou menos assim:
Oi!
Você achou meu balão! Meu nome é X e eu estudo no Jardim de Infância Pode ficar com o balão, mas espero que me escreva de volta. Eu gosto de Max Steel, explorar, construir fortes, nadar, e de amigos. Do que você gosta? Me escreve de volta logo. Aqui tem um dólar pro correio
No dólar, escrevi “PARA SELOS” bem na frente. Minha mãe achou que era desnecessário, mas eu achei bem inteligente, então fiz.
A professora tirou uma foto Polaroid de cada um de nós com nossos balões e nos fez pôr cada uma no envelope, junto com cada bilhete. Também incluíram
outra carta que, acho, explicava a natureza da tarefa e agradecimentos sinceros pela participação de volta, ao escrever e mandar fotos de sua cidade ou vizinhança. Essa era a ideia, construir um senso de união sem ter que sair da escola, e manter um contato seguro com outras
pessoas, parecia uma ideia tão divertida.

Em duas semanas as cartas começaram a vir. A maioria tinha fotos de paisagens diferentes, e, a cada vez que as fotos chegavam, a professora pendurava-as num grande mapa que fizemos, mostrando de onde a carta veio e o quão longe o balão
viajara. Era uma ideia bem inteligente, por que realmente gostávamos de ir pra escola pra ver se tínhamos recebido nossa cartinha. Pelo resto do ano, tínhamos um dia na semana em que podíamos escrever de volta para nosso penpal ou para o penpal de outro aluno, caso o nosso não
tivesse escrito de volta. O meu era um dos últimos a chegar. Um dia, entrei na sala e vi que não havia nada pra mim na mesa, mas, assim que sentei, a professor se aproximou e me deu um envelope. Eu fiquei muito feliz, mas assim que comecei a abrí-lo, ela pôs a mão em cima da
minha e disse:

-Por favor, não fica chateado

Não entendi o que ela quis dizer – por que eu ficaria chateado se minha carta chegou?

Inicialmente, fiquei besta de saber que ela tinha olhado o que havia dentro do envelope, mas agora sei que as professores checavam o conteúdo
de cada carta pra ver se não tinha nada obsceno, mas mesmo assim, como eu poderia ficar chateado? Quando abri o envelope, entendi.

Não havia nenhuma carta.

A única coisa lá dentro era uma foto Polaroid que eu realmente não consegui descobrir o que mostrava. Parecia um pedaço
de deserto, muito desfocado pra ser decifrado; parecia que a câmera se mexera na hora de tirar a foto. Não tinha endereço de destinatário, então nem escrever de volta eu podia. Fiquei arrasado.

O ano letivo continuou e as cartas pararam de vir pra quase todos os alunos. Ora, só
dá pra trocar correspondência com um aluno do jardim de infância por pouco tempo. Todo mundo, eu incluso, tinha perdido interesse nas cartas quase que completamente. Até que recebi outro envelope.

Meu ânimo ficou renovado, e me concentrei no fato de que eu ainda recebia
cartinhas quando a maioria dos penpals tinha deixado elas de lado. Mas fazia sentido que eu tivesse recebido outra, pois não havia nada além de uma foto mal tirada na primeira. Essa devia ser pra compensar. Mas, de novo, não havia nenhuma carta... só outra foto.

Essa agora
estava melhor, mas ainda assim não entendi. A câmera estava fora de ângulo, pegando o pedaço de um prédio, e o resto da foto estava estragado pelo brilho do sol.

Por os balões não irem muito longe e por terem sidos todos soltos no mesmo dia, o mapa ficou atulhado. Aí, os alunos
(interrompendo aqui, não lembro se disse no começo, mas penpal significa “amigo de caneta”, basicamente uma pessoa q vc troca correspondência)
que ainda trocavam correspondência podiam levar suas fotos para casa. Meu melhor amigo Josh trouxera pra casa o segundo maior número de fotos no fim do ano, seu penpal era bem prestativo e mandara fotos de toda a cidade vizinha, Josh levou pra casa, no máximo, quatro fotos.
Eu levei quase cinquenta.
Todos os envelopes eram abertos pela professora, mas, depois de um tempo, parei até de olhar para as fotos. No entando, guardei-as numa gaveta, ao lado da minha coleção de pedras, figurinhas de baseball e de super-heróis. Com o fim do ano letivo, minha atenção estava
voltada pra outras coisas.
Minha mãe me dera uma máquina de raspadinha de natal naquele ano. Josh realmente invejava ela, tanto que seus pais compraram uma um pouco melhor que a minha pra ele de aniversário, no fim do ano. Naquele verão, planejamos uma banquinha pra ganhar
dinheiro, achamos que íamos fazer uma fortuna vendendo raspadinhas a um dólar. Josh vivia em outra bairro, mas decidimos vender no meu por que lá muita gente gostava de cortar a grama, os jardins eram maiores e mais bonitos. Durou cinco finais de semanas até que minha mãe nos
mandou parar e, só muito tempo depois, entendi o pq.

No quinto final de semana, Josh e e eu estávamos contando dinheiro. Por nós dois termos uma maquininha própria, cada um tinha sua pilha de dinheiro que juntávamos em uma só e dividíamos ao meio. Tínhamos um total de dezesseis
dólares aquele dia, e, enquanto Josh me dava meu quinto dólar, fui pego de surpresa.

Aquele dólar tinha escrito “PARA SELOS”.

*parando a história dnv: KKJSKSKK EITA CARAIOOOOOOOO*

Josh percebeu meu choque e perguntou se tinha contado errado. Falei do dólar e ele disse que
aquilo era muito legal. Ponderei sobre e concordei. A ideia do dólar ter voltado pra mim depois de ter andado por tantas mãos me deixou extasiado.

Corri pra dentro pra contar pra minha mãe, mas minha alegria morreu por que ela estava distraída ao telefone. Esse fato fez minha
história parecer incompreensível pra ela, que respondeu apenas que era muito maneiro.

Frustrado, corri de volta pra fora e disse ao Josh que queria mostrar algo pra ele. No meu quarto, abri a gaveta e tirei as fotos de lá. Comecei com a primeira que havia recebido, mas lá pela
décima Josh perdera o interesse. Perguntou se podíamos brincar na trincheira (uma trincheira no fim da rua) antes que a mãe chegasse para buscá-lo, e foi o que fizemos.

Fizemos uma guerra de lama por um tempo, que era interrompida a toda hora por barulhos estranhos no matagal
que ficava perto. Havia guaxinins e gatos de rua lá,mas isso agora fazia muito barulho e tentamos adivinhar o que era, tentando assustar um ao outro. Meu último palpite era uma múmia, mas Josh insistia que era um robô por causa do barulho. Antes de ir, ele virou, sério, e me
disse:

-Você ouviu, não ouviu? Parecia um robô. Você também ouviu, né?

Eu tinha ouvido sim. Como parecia “mecânico”, concordei que podia ser um robô. Só agora entendo o que era.

Quando voltamos, a mãe do Josh esperava por ele na mesa da cozinha, junto da minha. Josh falou
do robô, nossas mães riram e eles foram pra casa. Eu e minha mãe jantamos, e eu fui dormir.

Não fiquei muito tempo na cama antes de levantar e decidir que, por causa do que acontecera à tarde, eu ia rever os envelopes, que pareciam muito mais interessantes naquele momento.
Peguei o primeiro e pus no chão, a foto desfocada do deserto por cima. Fiz o mesmo com o segundo e a foto do prédio e segui com cada foto, até que formasse uma imagem de mais ou menos quinze por trinta centímetros, me ensinaram a ser cuidadoso com minhas coisas, mesmo que não
tivessem muito valor.

As fotos gradualmente fazia mais sentido. Uma árvore com um pássaro, uma placa de trânsito, fios de energia, pessoas entrando num prédio. Até que vi algo que me acertou tão profundamente que consigo, enquanto escrevo, sentir a mesma vertigem, concentrado
num único pensamento:

-Por que estou nessa foto?

Nessa foto de pessoas num prédio, vi eu e mamãe, mãos dadas, bem no início da multidão. Estávamos na beiradinha da foto, mas com certeza era a gente. Meus olhos corriam aquelas fotos e eu ficava cada vez mais nervoso. Era um
sentimento muito estranho – não de medo. É aquela sensação de ter entrado numa fria. Não sei porquê, mas achei que tinha feito algo de errado. A sensação piorou depois de analisar com calma cada foto, e cada imagem me acertou mais em cheio.

Eu estava em todas elas.

Nenhuma de
perto. Nenhuma só minha. Mas eu estava em cada uma delas – no lado, na borda, na parte de trás.Algumas traziam só um pedacinho do meu rosto bem no canto, mas sem exceção, eu sempre aparecia.

Não soube o que fazer. A mente funciona de maneiras engraçadas quando se é criança,mas
havia uma grande parte de mim com medo de levar bronca só pelo fato de ainda estar acordado. Por já estar sentindo que tinha feito muita coisa coisa de errado, decidi esperar até a manhã seguinte

O dia seguinte era folga da minha mãe, e ela passou a maior parte da manhã
limpando a casa. Vi televisão e esperei até o que achei uma boa hora pra mostrar as fotos. Quando ela saiu pra buscar cartas na caixa postal, peguei as fotos e distribuí-as pela mesa, esperando por ela. Quando voltou, já estava abrindo correspondência e jogando alguns anúncios na
lata de lixo.

-Mãe, olha isso aqui rapidinho? Essas fotos-

-Só um minuto, amor. Preciso marcar esses dias no calendário.

Depois de um tempinho, ela voltou e parou atrás de mim, perguntando o que eu queria. Podia ouvi-la mexendo em cartas. Eu só conseguia olhar para as fotos
e falar sobre elas. Quanto mais eu explicava, e apontava, os sons de “aham”, “ok”, ficavam mais raros, até ela estar completamente atônita. O próximo som que ouvi dela fez parecer que tentava respirar numa sala onde nenhuma molécula de ar restava. Por fim, seus sons de engasgue
foram cortados pelo barulho de correspondência sendo jogado na mesa. Ela correu pro telefone.

-Mãe, desculpa! Não tinha reparado! Não fica brava comigo!

Com o ouvido grudado ao telefone, ela andava e corria de um lado pro outro, gritando através da linha. Eu mexia, nervoso,
no envelope atirado à mesa, ao lado das minhas fotos de Polaroid. Tinha alguma coisa saindo pra fora do envelope. Ansioso e cheio de dedos, puxei aquilo pra fora.

Era outra foto.

Pensei de início que uma das minhas fotos tinha acabado dentro daquele envelope no meio da
confusão, mas reparei que nunca tinha visto aquela. Pra minha surpresa, era um close meu. Estava no meio de árvores e rindo. Mas não estava sozinho. Josh também estava lá. Aquilo era a gente, no dia anterior.

Comecei a gritar pela minha mãe, mas ela estava distraída no telefone
-Tô falando com a polícia, amor.

-Por que?! Me desculpa, eu não quis...

Ela me respondeu de um jeito que nunca havia entendido até lembrar agora desses acontecimentos. Pegou o envelope e a foto com o Josh caiu perto das outras. Ela segurou o envelope bem na minha frente, mas
eu só podia encará-la, sem entender nada. A cor fugia de seu rosto. Com lágrimas nos olhos, ela disse que teria de chamar a polícia, por que não havia endereço no envelope.
fim da parte 2
Parte 3: BOXES
Passei o verão antes do meu primeiro ano do ensino fundamental tentando aprender a subir em árvores. Havia um particular pinheiro fora da minha casa que parecia quase projetado para mim. Tinha galhos que estavam tão baixos que eu poderia facilmente os agarrar sem
um impulso, e durante os primeiros dias eu aprendi a me puxar para cima para que pudesse apenas me sentar no galho mais baixo, balançando os pés. A árvore estava fora da nossa cerca e era facilmente visível a partir da janela da cozinha, que estava em cima da pia. Antes de muito
tempo minha mãe e eu desenvolvemos uma rotina, onde eu iria brincar na árvore enquanto ela lavava a louça, porque ela poderia facilmente me ver enquanto ela fazia outras coisas.

À medida que o verão passou, minhas habilidades aumentaram e após um tempo eu estava subindo a um
ponto mais alto. Como a árvore ficou mais alta, seus ramos não só ficaram mais finos, mas também mais amplamente espaçados. Eu finalmente cheguei a um ponto onde eu não poderia realmente subir mais, e assim o jogo teve que mudar, eu comecei a me concentrar na velocidade, e no
final eu poderia alcançar o meu ponto mais alto em 25 segundos.

Eu fiquei muito confiante em uma tarde e tentei pisar de um galho que eu estava antes para um próximo. Eu cai cerca de vinte metros e meu braço quebrou bem feio em dois lugares. Minha mãe estava correndo em minha
direção e gritando, e eu me lembro dela parecendo que estava debaixo d'água, não me lembro do que ela disse, mas lembro de ser surpreendido por quão branco meu osso estava.

Eu ia começar a jardim de infância com um gesso e nem sequer tinha amigos para assinar ele. Minha mãe
deve ter se sentido terrível, porque um dia antes de eu começar a escola, ela trouxe para casa um gatinho. Ele era apenas um bebê e era listrado, bege e branco. Assim que ela o colocou para baixo, ele se arrastou para uma caixa vazia de refrigerante que estava no chão. Eu chamei
ele de Boxes.
Boxes era apenas um gato de rua quando escapou. Minha mãe o pegou sem as unhas para que ele não destruísse os móveis, assim como um resultado que fizemos o nosso melhor para mantê-lo dentro de casa. Ele saía de vez em quando, e nós o encontrávamos em algum lugar no
quintal perseguindo algum tipo de inseto ou lagarto, embora ele dificilmente pudesse pegar algum, sem suas garras dianteiras. Ele era muito evasivo, mas nós sempre o pegávamos e o levávamos de volta. Ele se esforçava para olhar por cima do meu ombro, eu disse à minha mãe que era
porque ele estava planejando a sua estratégia para a próxima vez. Uma vez dentro de casa nós lhe dávamos um pouco de atum, e ele aprendia o que o som do abridor de latas poderia sinalizar, ele viria correndo sempre que o ouvia.

Esta condição veio a calhar mais tarde, porque nos
nossos últimos dias naquela casa Boxes saía com muito mais frequência e corria para ficar sob a casa, por meio do forro, onde nenhum de nós queria entrar porque estava apertado e provavelmente cheio de insetos e roedores. Engenhosamente, minha mãe pensou em ligar o abridor de
latas a um cabo de extensão para trás e executá-lo em frente ao buraco que Boxes havia entrado. Eventualmente, ele saiu com seus miados altos, parecendo animado com o som e, em seguida, horrorizado com o truque cruel utilizado nele, um abridor de latas sem atum não fazia sentido
para Boxes. A última vez que ele fugiu para debaixo da casa era realmente o nosso último dia na mesma. Minha mãe tinha colocado a casa a venda e já havia começado a empacotar nossas coisas. Nós não tínhamos muito, e por isso estendemos o empacotamento por um tempo, mas eu já
tinha embalado todas as minhas roupas (a pedido de minha mãe), ela poderia dizer que eu estava realmente triste com a mudança e queria que a mesma fosse tranquila pra mim, e eu acho que ela pensou que ter minhas roupas na caixa reforçaria a ideia de que estávamos nos mudando, mas
as coisas não mudariam muito. Quando Boxes saiu, nós estávamos carregando algumas coisas pra dentro da van. Minha mãe o xingou, porque ela já tinha embalado o abridor de lata e não tinha certeza de onde estava. Fingi que iria procurá-lo para eu não ter que voltar em casa, e minha
mãe (provavelmente completamente ciente de meu pequeno golpe) moveu um dos painéis e rastejou para dentro. Ela saiu com Boxes muito rapidamente e parecia muito nervosa, o que me fez sentir ainda melhor saindo dali.

Minha mãe fez alguns telefonemas enquanto eu guardei algumas
outras coisas, e então ela entrou no meu quarto e me disse que ela tinha falado com o corretor de imóveis, e íamos se mudar para outra casa naquele dia. Ela disse isso como se fosse uma excelente notícia, mas eu achava que iríamos ter mais tempo naquela casa, ela disse
inicialmente que não iríamos nos mudar até o final da próxima semana, e era só terça-feira. Além do mais, nós tínhamos terminado de embalar as coisas, mas minha mãe disse que às vezes era mais fácil substituir as coisas que embalá-las e transportá-las por toda a cidade. Eu nem
sequer cheguei a pegar o resto das minhas roupas nas caixas. Eu perguntei se eu poderia me despedir de Josh, mas ela disse que nós poderíamos chamá-lo para nossa nova casa. Saímos de van.

Consegui manter contato com Josh por anos, o que é surpreendente, uma vez que não fomos
para a mesma escola. Nossos pais não eram amigos íntimos, mas eles sabiam que nós éramos e para que pudessem acomodar o nosso desejo de ver um ao outro trazendo-nos e levando-nos um para a casa do outro (algumas vezes para umas dormidas fora), às vezes a cada fim de semana. No
Natal, um ano os nossos pais juntaram dinheiro e nos deram agradáveis walkie-talkies que cobriam uma distância maior que o das nossas casas, e que tinham baterias que poderiam durar dias se o walkie-talkie estivesse ligado, mas não utilizado. Eles teriam que apenas ocasionalmente
trabalhar bem o suficiente para que pudéssemos nos falar em toda a cidade, mas quando ficávamos perto nós usávamos em casa, simulando uma conversa via rádio igual a dos filmes, e eles funcionavam muito bem para isso. Graças aos nossos pais nós ainda éramos amigos quando tínhamos
dez anos. Um fim de semana eu estava hospedado no Josh e minha mãe me ligou para dizer boa noite (ela ainda estava muito atenta, mesmo quando ela não podia realmente me ver), mas eu tinha ficado tão acostumado a isso que eu nem ligava, mesmo que Josh sim. Ela parecia chateada.
Boxes tinha sumido.
Esta deve ter sido uma noite de sábado, porque eu tinha passado a noite anterior no Josh e estava voltando para casa no dia seguinte, porque nós tínhamos a escola na segunda-feira. Boxes estava desaparecido desde sexta-feira à tarde, e eu deduzi que ela não
o tinha visto desde que voltou para casa depois de me deixar no Josh. Acho que ela deve ter decidido me dizer que ele tinha sumido porque se ele não voltasse para casa antes de mim, então eu ficaria devastado, não só por sua ausência, mas por ela ter escondido isso de mim. Ela
me disse para não se preocupar. “Ele vai voltar. Ele sempre volta!”

Mas Boxes não voltou.
Três semanas depois eu estava no Josh de novo. Eu ainda estava chateado por causa do Boxes, mas a minha mãe me disse que muitas vezes os animais desapareciam de casa por semanas ou mesmo
meses, apenas para voltar por conta própria, ela disse que eles sempre souberam onde ficava sua casa e sempre tentariam voltar. Eu estava explicando isso para Josh quando um pensamento me bateu tão forte que eu interrompi a minha própria frase para dizê-lo em voz alta. "Mas e se
Boxes foi para a casa errada?"

Josh estava confuso: “O quê? Ele vive com você. Ele sabe onde fica sua casa.”

“Mas ele cresceu em outro lugar, Josh. Ele foi criado em minha antiga casa a alguns bairros de distância. Talvez ele acha que ali é sua casa, como eu.”
“Ah, eu entendo. Bem, isso seria ótimo! Vamos falar com meu pai amanhã e ele vai nos levar até lá para que possamos ver!”

“Não, não vai, cara. Minha mãe disse que não podemos voltar para aquele lugar, porque os novos proprietários não gostam de ser incomodados. Ela disse que
falou para sua mãe e pai a mesma coisa.” Josh insistiu: “Ok, então vamos sair, explorar amanhã e fazer o nosso caminho para a sua antiga casa.” “Não! Se nos virem seu pai vai descobrir em seguida, minha mãe também! Temos que ir lá nós mesmos temos que ir lá hoje à noite ...”
Não demorou muito tempo para convencer Josh, porque era ele quem geralmente aparecia com ideias como esta. Mas nunca tinha fugido de sua casa antes. Na verdade, foi incrivelmente fácil. A janela de seu quarto era aberta para o quintal e ele tinha uma cerca de madeira fechada, que
não estava trancada. Após essas duas pequenas batidas nós saímos para a noite, lanterna e walkie-talkies na mão.

Havia duas maneiras de ir da casa de Josh para a minha antiga casa: poderíamos caminhar na rua e fazer todas as voltas ou ir pelos bosques, o que levaria cerca de
metade do tempo. Podia ter levado cerca de duas horas usando as ruas, mas eu sugeri ir por esse caminho de qualquer maneira, disse-lhe que era porque eu não queria que a gente se perdesse. Josh se recusou e disse que se fôssemos vistos, poderiam reconhecê-lo e contar ao seu pai.
Ele ameaçou ir para casa se não tomássemos o atalho, e eu aceitei, porque eu não queria ir sozinho.

Josh não sabia da última vez que eu andei por estes bosques à noite.

O bosque era muito menos assustador com um amigo e uma lanterna, e nós estávamos fazendo um bom tempo. Eu
não tinha certeza de onde estávamos exatamente, mas Josh parecia confiante o suficiente e isso aumentou a minha moral. Passávamos por uma parte particularmente grossa das árvores emaranhadas quando a cinta no meu walkie-talkie ficou presa em um galho. Josh tinha a lanterna, e
então eu estava lutando para soltar o walkie-talkie quando ouvi Josh dizer:

“Ei, cara, quer nadar?”

Olhei para onde ele estava apontando a lanterna, e embora eu ter fechado meus olhos, eu agora sabia onde estávamos. Ele estava apontando para a boia na piscina. Este era o
lugar onde eu tinha acordado nessa floresta todos os anos. Senti um nó na garganta e algumas lágrimas frescas nos meus olhos enquanto eu continuava a tentar tirar o walkie-talkie. Frustrado, eu puxei com força suficiente para se livrar e me virei caminhando para junto de Josh
que tinha parcialmente entrado na boia da piscina imitando uma pose para se bronzear. Enquanto eu caminhava em direção a ele eu tropeçou e quase caí em um buraco bastante grande que estava sitiado no meio da pequena clareira, mas eu recuperei meu equilíbrio e parei bem em sua
borda. Era fundo. Fiquei surpreso pelo tamanho do buraco, mas mais surpreso com o fato de que eu não me lembro dele. Eu percebi que não deve ter estado lá naquela noite, porque era no mesmo lugar onde eu tinha acordado. Eu tirei-o da minha mente e voltei-me para Josh:

“Para de
brincar, cara! Você viu que eu estava preso lá, e você só ficou aí, brincando nessa boia!” Eu pontuava a frase com um pontapé para cada parte exposta da boia. Um gritinho saiu dele.

O sorriso de Josh sumiu. De repente, ele parecia aterrorizado e estava lutando para sair da boia
mas ele não poderia de forma rápida devido ao jeito estranho que ele tinha entrado nela. Cada vez que ele iria voltar a cair da boia os gritos ficavam mais altos. Eu queria ajudar Josh, mas eu não podia chegar mais perto, minhas pernas não iriam cooperar, eu odiava esse bosque.
Peguei a lanterna que ele havia jogado ali perto e apontei para a boia, sem saber o que esperar. Finalmente, Josh saiu da boia e correu para o lado, olhando para onde eu estava apontando a luz. De repente, lá estava ele. Era um rato. Eu comecei a rir nervosamente e ambos
assistimos o rato correr para o bosque, levando os gritos com ele. Josh levemente me deu um soco no braço, o sorriso voltando lentamente para o rosto dele, e nós continuamos a caminhar. Nós aceleramos nosso ritmo e conseguimos sair da mata mais rápido do que pensávamos, e nos
encontramos de volta no meu antigo bairro. A última vez que eu tinha contornado a curva à frente, que eu tinha visto minha casa totalmente iluminada, todas as lembranças do que aconteceram vieram à tona. Eu senti um salto no meu coração, como nós estávamos finalmente virando a
esquina e prestes a ter uma visão completa da minha casa, lembrando da última vez quão incandescente ela estava. Mas desta vez todas as luzes estavam apagadas. De longe eu podia ver minha velha árvore de escalada e como minha mente teve um retrocesso, percebi que eu não iria
voltar aqui esta noite se a árvore não tinha crescido, e estava com um pequeno temor de como todos os eventos foram assim. Quando chegamos mais perto pude ver que o gramado estava horrível, eu não podia sequer imaginar quando foi havia sido cortado pela última vez. Uma das
janelas tinha parcialmente quebrado e estava balançando para frente e para trás na brisa, e toda a casa parecia suja. Fiquei triste ao ver a minha antiga casa em tal estado de abandono. Será que minha mãe iria ligar se incomodássemos os novos proprietários, se eles se importavam
tão pouco com onde viviam? E então eu percebi.
Não haviam novos proprietários.
A casa foi abandonada, embora parecesse simplesmente desamparada. Por que minha mãe mentiu para mim dizendo que a nossa casa iria ter novas pessoas nela? Mas eu pensei que isso era realmente uma
coisa boa. Seria mais fácil procurar por Boxes se não tivéssemos que se preocupar em sermos vistos pela nova família. Isso deixaria tudo muito mais rápido. Josh interrompeu meus pensamentos enquanto caminhávamos até o portão e até a casa em si.

“Sua antiga casa é uma porcaria,
cara!” – Josh gritou tão silenciosamente como pôde. “Cala a boca, Josh ! Mesmo assim ainda é mais agradável do que a sua casa .”

“Pô cara–”

“OK, OK. Acho que Boxes está provavelmente sob a casa. Um de nós tem que ir lá embaixo e olhar, mas o outro deve ficar ao lado da
abertura, caso ele venha a fugir.”

“Você está falando sério? De nenhum jeito que eu vou lá embaixo. É o seu gato, cara. Você faz isso .” “Olha, eu jogo com você por isso, a menos que você esteja com muito medo...” Eu disse segurando a minha mão com a palma da mão virada para
cima.

“Tudo bem, mas vamos no ‘já’, e não em ‘três’. É ‘pedra, papel , tesoura , já’, e não ‘um, dois, três’.” "Eu sei como jogar o jogo, Josh. Você é o único que sempre estraga . E é melhor de três .”

Eu perdi.

Movi o painel solto que minha mãe sempre mexia quando ela
tinha que se rastejar atrás do Boxes. Ela só tinha que fazer isso um par de vezes desde que o truque do abridor de latas funcionava, mas quando ela tinha que fazê-lo ela o odiava, especialmente da última vez, e quando olhei para a escuridão do forro eu entendi melhor o porquê.
Antes de nos mudarmos, ela disse que era realmente melhor que Boxes corresse aqui embaixo, apesar de o quão difícil poderia ser tirá-lo. Foi menos perigoso do que ele saltar sobre a cerca e sair correndo ao redor do bairro. Tudo isso era verdade, mas eu ainda estava temendo em
fazer isso. Peguei a lanterna e o walkie-talkie, e comecei a rastejar para dentro, um cheiro forte tomou conta de mim. Cheirava a morte.

Liguei meu walkie.

Josh, você está aí?

Este é Macho Man, volte.

Josh, pare com isso. Tem algo errado aqui.

O que quer dizer?
Fede. Tem cheiro de algo morto.

É Boxes?

Sinceramente espero que não.

Pousei o walkie e movi a lanterna em volta enquanto eu me arrastava para frente. Olhando pelo buraco do lado de fora você pode ver todo o caminho de volta com a iluminação certa, mas você tem que estar lá
dentro para ver ao redor dos blocos de suporte que mantinham a casa em pé. Eu diria que havia cerca de quarenta por cento da área que você não podia ver a menos que você estivesse realmente no forro, mas mesmo dentro eu descobri que eu só podia ver diretamente onde a lanterna
estava apontando, percebi que isso tornaria a patrulha do lugar muito mais difícil. Enquanto eu ia para frente, o cheiro ficava mais forte. O medo foi crescendo em mim de que Boxes tivesse vindo aqui e algo tivesse acontecido com ele. Eu brilhei a lanterna ao redor, mas não
conseguia ver muita coisa. Eu passei meus dedos em torno de um bloco de apoio para me puxar para frente e, enquanto eu fiz isso, eu senti algo que fez a minha mão recuar.

Pele.

Meu coração se afundou e eu me preparei emocionalmente para o que eu estava prestes a ver.
Arrastei-me lentamente para que eu pudesse prolongar o que eu sabia que ia acontecer e eu avancei meus olhos e a lanterna além do bloco para ver o que estava do outro lado.

Eu cambaleei para trás com horror: “JESUS CRISTO!” – escapou da minha boca trêmula. Era uma criatura
hedionda e torcida, em estado de decomposição. Sua pele tinha apodrecido em seu rosto, então os dentes pareciam ser enormes. E o cheiro era insuportável.

“O que é isso? Você está bem? É Boxes ?”

Estendi a mão para o walkie:

“Não, não, não é Boxes.”
“Bem, o que diabos é isso então?”

“Eu não sei.”

Eu apontei a luz de novo e olhei para ele com menos medo na minha visão. Eu ri.

“É um guaxinim!”

“Bem, continue procurando. Eu vou entrar na casa para ver se ele poderia ter entrado lá de alguma forma.”
“O quê? Não. Josh, não vá lá. E se Boxes estiver aqui em baixo e sair correndo?”

“Ele não pode. Eu coloquei a placa de volta.”

Eu olhei e vi que ele estava dizendo a verdade.

“Por que fez isso?”

“Não se preocupe cara, você pode movê-la fácil. Isto faz mais sentido. Se
Boxes correu para fora e eu perdesse ele, em seguida ele iria embora. Se ele está aí em baixo, você segure-o firme e eu vou mover a placa, e se ele não estiver, então você pode movê-la por si mesmo, enquanto eu olho na casa!” Alguns de seus pontos eram bons, e eu duvidava que ele
seria capaz de segurá-lo de qualquer maneira. “OK. Mas tenha cuidado e não toque em nada. Há um monte de minhas roupas velhas ainda em caixas no meu quarto, você pode olhar lá para ver se ele se entrou em uma. E certifique-se de trazer o seu walkie.”

“Entendido, parceiro.”
Percebi que estaria um breu lá, a luz estaria cortada, já que ninguém estava pagando a conta. Com alguma sorte, ele seria capaz de ver pelas luzes da rua, que poderia lançar luz no interior da casa – caso contrário eu não sei o que ele faria.

Pouco depois, ouvi passos acima da
minha cabeça e senti sujeira velha chovendo sobre mim.

“Josh, é você?”

“Chhkkkk Destrudor. Este é Macho Man voltando para o grande Tango Foxtrot . A Águia pousou. Qual é a sua posição, princesa Jasmine ? Câmbio.”

“Babaca.”

“Macho Man, a minha posição é o seu banheiro,
olhando o seu estoque de revistas. Parece que você tem uma coisa relacionada a bundas masculinas. Qual o seu relatório sobre isso? Câmbio.”

Eu podia ouvi-lo rindo sem o walkie e eu comecei a rir também. Eu ouvi as pegadas desaparecem um pouco – ele estava em seu caminho para o
meu quarto.

“Cara, é escuro aqui. Ei, você tem certeza que tinha caixas de roupas aqui? Eu não vejo nenhuma.”

“Sim, deve haver um par de caixas na frente do armário.”

“Não existem caixas aqui, deixa eu verificar para ver se você colocou as caixas no armário antes de sair.”
Comecei a pensar que talvez a minha mãe tinha voltado para pegar as roupas e tinha as doado, porque a maioria já estava curta para mim, mas lembro de ter deixado as caixas lá – eu nem sequer tive tempo para fechar a última antes de sairmos.

Enquanto eu estava esperando por Josh
para me dizer o que achou, eu mexo minha perna para evitar a dormência, por causa da posição em que estava e tinha batido em alguma coisa. Olhei para trás e vi algo muito estranho. Era um cobertor e em torno dele havia taças. Arrastei-me um pouco mais perto dele. O cobertor
cheirava mofo e a maioria das taças estavam vazias, mas em uma tinha alguma coisa que eu reconhecia nela. Alimento de gato.

Era um tipo diferente do que nós demos para Boxes, mas de repente eu entendi . Minha mãe tinha montado um pequeno lugar para Boxes para encorajá-lo a vir
aqui em vez de correr ao redor do bairro. Isso fez muito sentido, e parecia ainda mais provável que Boxes teria voltado a este lugar. “Isso é tão legal, mãe”, eu pensava.

“Encontrei suas roupas.”

“Oh, legal. Onde estavam as caixas?”
“Como eu disse , não há caixas. Suas roupas estão no seu armário... Elas estão penduradas.”

Senti um calafrio. Isso era impossível. Eu tinha guardado todas as minhas roupas. Mesmo que não deveriam passar de duas semanas desde que saímos, eu me lembro de tê-las embalado, e penso
que seria estúpido para mim tirá-las da caixa e colocá-las de volta. Eu as tinha embalado, mas alguém tinha pendurado de volta. Por que então?

Josh precisava sair de lá.

“Isso não pode estar certo, Josh. Eles deveriam estar nas caixas. Pare de brincar, e só voltar para fora.”
“Sem piada, cara. Eu estou olhando para elas. Talvez você só pensou que as empacotou. Haha! Wow! Você com certeza gostarava de olhar para si mesmo , não é?”

“O quê? O que quer dizer?”

“Suas paredes, cara. Haha. Suas paredes estão cobertas de Polaroids de si mesmo! Existem
centenas deles O que, você contratou alguém para-”

Silêncio.

Eu chequei meu walkie para ver se eu tinha desligado-o de alguma forma. Estava normal. Eu podia ouvir os passos, mas não poderia dizer exatamente onde Josh estava indo. Esperei por Josh de terminar a frase, pensando
que o seu dedo tinha saído do botão, mas ele não terminou. Ele parecia estar correndo em torno da casa agora. Eu estava prestes a falar quando ele voltou.

“Tem alguém em casa.”

Sua voz foi abafada e quebrada – eu podia perceber que ele estava à beira das lágrimas. Eu queria
responder, mas o quão alto estava seu walkie? E se a outra pessoa ouvisse? Eu não disse nada e apenas esperei e escutei. O que eu ouvi foram passos. Pesados, arrastados. E então um baque forte.

“Oh Deus... Josh .”

Ele havia sido encontrado, eu tinha certeza disso . Esta
pessoa tinha lhe encontrado e estava machucando ele. Explodi em lágrimas. Ele era meu único amigo, ao lado de Boxes. E então eu percebi: E se Josh lhe disse que estava aqui embaixo? O que eu poderia fazer? Enquanto eu lutava para me recompor, eu felizmente ouvi a voz de Josh
através do walkie.

“Ele tem algo, cara. É um grande saco. Ele simplesmente jogou-o no chão. E... oh Deus, o homem... o saco ... Eu acho que acabou de se mover.”

Eu estava paralisado. Eu queria correr para casa. Eu queria salvar Josh. Eu queria pedir ajuda. Eu queria tantas
coisas, mas eu só estava lá, paralisado. Incapaz de me mover os olhos voltados para o canto da casa que estava bem de baixo do meu quarto, eu mudei a minha lanterna. Minha respiração prendeu com o que vi. Animais. Dezenas deles. Todos eles mortos. Imóveis em pilhas em volta de
todo o perímetro do forro. Poderia Boxes estar entre estes cadáveres? Era pra isso que a comida de gato servia?

Vendo isso, meu choque acabou e eu soube que eu tinha que sair de lá, e eu mexi a tábua. Eu a empurrei, mas ele não se mexia. Eu não conseguia movê-la porque ela
estava presa lá dentro, e eu não poderia colocar meus dedos em volta dela a não ser que as bordas estivessem do lado de fora. Eu estava preso. “Maldito seja, Josh!” Eu sussurrei para mim mesmo. Eu podia sentir os passos estrondosos acima de mim. A casa estava tremendo. Ouvi Josh
gritar, e foi acompanhado por um outro grito que não estava cheio de medo.

Enquanto eu continuei empurrando senti a placa se movimentar, mas eu sabia que não era eu que estava a movendo. Eu podia ouvir os passos acima de mim e na minha frente, e gritando e gritando, preenchendo
os breves silêncios entre os passos. Me movi para trás e segurei meu walkie pronto para tentar me defender, e a placa foi jogada para o lado e um braço apareceu procurando por mim.

“Vamos cara, agora!”

Era Josh. Graças a Deus.

Subi para fora da abertura segurando a lanterna
e o walkie. Quando chegamos à cerca nós dois pulamos, mas walkie de Josh caiu; ele estendeu a mão para ele e eu disse-lhe para esquecer. Tivemos que ir. Atrás de nós, eu podia ouvir gritos, embora eles não fossem palavras, só pareciam. E nós, talvez tolamente, corremos para os
bosques para voltar para a casa do Josh o mais rápido e tornar um pouco mais difícil de seguir. O caminho todo através dos bosques Josh ficava gritando:

“Minha foto! Ele tirou uma foto minha!”

Mas eu sabia que o homem já tinha uma foto de Josh – de todos esses anos atrás, na
vala. Eu acho que Josh ainda pensava que esses sons mecânicos eram de um robô.

Nós chegamos de volta para a casa de Josh e de volta para o seu quarto antes de seus pais acordarem. Perguntei-lhe sobre o grande saco e se ele realmente se moveu e ele disse que não podia ter
certeza. Ele continuou pedindo desculpas sobre deixar cair o walkie na casa, mas, obviamente, isso não era um grande negócio. Nós não fomos dormir e sentamos na janela esperando pelo sono. Fui para casa mais tarde naquele dia, pois já eram quase 3h da manhã.

Eu disse à minha
mãe o resumo desta história há alguns dias atrás. Ela ficou furiosa sobre o perigo que eu me coloquei dentro. Eu perguntei por que ela falou todas essas coisas sobre incomodar os novos proprietários para me impedir de ir, por que ela acha que a casa era tão perigosa? Ela ficou
irada e histérica, mas respondeu minha pergunta. Ela pegou minha mão e apertou-a mais forte do que eu pensei que ela fosse capaz de e olhou nos meus olhos, sussurrando, como se ela estivesse com medo de ser ouvida:

“Porque eu nunca coloquei nenhuma merda de cobertores ou taças
sob a casa para Boxes. Você não foi o único a encontrá-los...”

Senti-me tonto. Eu entendi tudo agora. Eu entendi por que ela parecia tão inquieta depois que ela trouxe Boxes de debaixo da casa no nosso último dia lá, ela encontrou mais do que aranhas ou um ninho de ratos
naquele dia. Eu entendi por que saímos quase duas semanas mais cedo. Eu entendi por que ela tentou me impedir de voltar.

Ela sabia. Ela sabia que ele fez sua casa sob a nossa, e ela escondeu de mim. Saí sem dizer uma palavra e não terminei a história para ela, mas eu quero
terminar isso aqui, para você.

Eu cheguei da casa do Josh e a partir daquele dia eu joguei minhas coisas no chão e espalhei-as por toda parte, eu não me importei, eu só queria dormir. Acordei por volta 9h da noite ao som do miado do Boxes. Meu coração pulou. Ele havia
finalmente voltado para casa. Eu estava um pouco doente sobre o fato de que se eu tivesse apenas esperado os acontecimentos da noite anterior não teriam acontecido e eu teria Boxes de qualquer maneira, mas isso não importava, ele estava de volta. Eu saí da minha cama e chamei por
ele olhando em volta para pegar um brilho de luz de seus olhos. O choro continuou e eu o segui. Ele estava vindo de debaixo da cama. Eu ri um pouco pensando que eu tinha acabado de se arrastar em uma casa à procura dele e como isso era muito melhor. Seus miados estavam sendo
abafados por uma camisa, então joguei-a de lado e sorri, gritando “Bem-vindo de volta, Boxes!”

Seus gritos vinham de meu walkie-talkie.

Boxes nunca voltou para casa.
fim da parte 3
agora eu vou demorar um pouco pra postar a 4 pq eu n separei os trechos ainda aksjskskskk
Parte 4: MAPAS
A maioria dos bairros em cidades antigas não foi pensado que a população poderia aumentar exponencialmente e precisaria de lugar pra ser acomodada. O desenho das estradas é, geralmente, só uma resposta aos obstáculos geográficos e à necessidade de juntar pontos de
relevância econômica. Uma vez que haja essas conexões, novas empresas e ruas apenas se posicionam estrategicamente ao esqueleto já existente, eventualmente, os trajetos estabelecidos serão fossilizados em asfalto, deixando espaço apenas pra algumas modificações ou adições, nunca
pra uma mudança dramática.
O bairro da minha infância deve ter sido antigo, acho. Se a menor distância entre dois pontos é uma reta, meu bairro é provavelmente um caracol. As primeiras casas devem ter sido construídas ao redor do rio e, gradualmente, a área habitada cresceu à
medida que novas ruas foram adicionados ao mapa original, mas todas essas terminavam abruptamente em algum ponto aleatório, só tinha uma entrada e saída no bairro todo. A maioria dessas “extensões” eram limitadas por uma vala que tanto começava quanto terminavam no rio e pareciam
como eu acabei chamando-as, com trincheiras. Muitas das casas originais tinham quintais enormes, mas alguns terrenos tinham sido divididos, deixando limites cada vez menores entre cada propriedade. Um mapeamento aéreo do bairro daria a impressão de que uma lula gigante morreu no
meio do bosque e algum empreendedor aventureiro achou seu corpo, fazendo ruas e rodovias a partir dos tentáculos, só pra, no fim, retirar seus investimentos de lá, deixando só tempo, vontade e desespero de dividir a terra numa tentativa vergonhosa de organizar o lugar sob uma
proporção áurea.
Da minha varanda, dava pra ver as casas antigas ao redor do lago. A casa da Dona Maggie era minha favorita. Ela tinha, numa perspectiva otimista, uns oitenta anos de idade, mas apesar disso era uma das pessoas mais amigáveis que já conheci. Tinha uma cabeça meio
avoada, cachinhos brancos e usava vestidos leves com estampas florais. Sempre falava, da varanda de casa, comigo e com Josh enquanto nadávamos, e nos convidava pra lanchar. Dizia que era solitária por que seu marido, Tom, viajava muito a negócios. Josh e eu sempre dizíamos não,
pq por mais legal que Dona Maggie fosse, tinha algo de estranho com ela.

Às vezes, quando nadávamos pra longe, ela dizia

-Chris e John, são bem vindos aqui quando quiserem! – E ainda a ouvíamos no caminho de volta pra casa.

Dona Maggie, assim como a maioria dos moradores das
casas antigas, tinha um sistema de irrigação ligado num timer, que devia ter quebrado em algum momento por que os sprinklers ligavam diversas vezes de dia e de noite o ano inteiro. Por mais que nunca tenha feito um frio de nevar muito, muitas vezes eu saí de casa de manhã pra ver
o quintal da Dona Maggie transformado por água congelada num paraíso ártico surreal. Os outros quintais permaneciam estéreis e secos pela mordida gélida do frio invernal, mas lá, bem no meio daquela lembrança constante de como a natureza é selvagem, havia um belo oásis de gelo,
parado como estalactites caindo em cada ramo de cada árvore e em cada folha de cada arbusto. Reluzia com o nascer do sol e cada pedacinho de gelo moldava a luz num arco-íris que devia ser apreciado logo antes que irritasse os olhos. Mesmo criança, era atingido por essa beleza.
Josh e eu constantemente íamos lá pra caminhar na grama congelada e brincar de esgrima com os pedaços de gelo.

Uma vez perguntei pra minha mãe por que ela deixava os sprinklers ligados. Mamãe pareceu pensar numa explicação antes de responder:
-Bom amor, a Dona Maggie é bem doente, e às vezes, quando piora, ela fica confusa. Por isso confunde você com o Josh. Ela não quer ofender, só não lembra das coisas. Ela vive naquela casa enorme sozinha. Tudo bem falar com ela quando for nadar, mas quando ela convidar pra entrar,
diz que não. Seja educado, não vai magoar.

-Mas ela vai se sentir menos sozinha quando o marido voltar, né? Quanto tempo ele vai viajar a negócios? Parece que ele tá sempre longe. – Mamãe hesitou e pude perceber que estava bastante chateada. Finalmente, respondeu:
-Amor... O Tom não vai voltar pra casa. Tom foi pro céu. Ele morreu anos e anos atrás, mas a Dona Maggie não lembra. Ela se confunde e esquece, mas o marido nunca vai voltar pra casa. Se alguém se mudasse pra lá, ela podia até confundir e pensar que era ele, mas ele se foi, amor.
Eu devia ter só uns cinco ou seis anos quando ela me contou isso, e, ainda que não tivesse compreendido tudo completamente, fiquei profundamente triste pela Dona Maggie. Agora sei que a Dona Maggie tinha Alzheimer. Ela e o marido Tom tiveram dois filhos: Chris e John. Os dois
tinham combinado com as empresas pra revezar os pagamentos pela água e pela luz, mas nunca iam visitar ela. Não sei se algo aconteceu entre eles, se era a doença, ou se eles só vivam longe demais, mas nunca apareceram. Não tenho ideia de como eram fisicamente, mas houve vezes em
que a Dona Maggie deve ter pensado que Josh e eu parecíamos com seus filhos quando crianças. Ou talvez ela só viu o que uma parte desesperada de sua mente quis ver, ignorar as imagens vindas do nervo ótico pra reviver as lembranças. Só agora que vejo o quão sozinha ela devia ser.
Durante as férias de verão da escola, antes dos eventos descritos em Balões, Josh e eu começamos a explorar o bosque perto da minha casa e o conjunto de valas do lago. Sabíamos que os bosques entre nossas casas eram ligados, e achamos que ia ser demais se o lago perto da minha
casa fosse de alguma forma ligado ao córrego perto da dele, e aí resolvemos descobrir.

Íamos desenhar mapas.

O plano era criar dois mapas separados e juntá-los depois. Íamos fazer um mapa explorando a área ao redor do córrego perto da casa dele e depois outro, seguindo a
partir da minha casa.

Originalmente, íamos fazer um só, mas percebemos que não seria possível pois comecei a desenhar o meu mapa tão grande que não foi possível encaixar a rota da casa dele na escala. Deixamos o mapa do lago na minha casa e o do córrego na dele, e íamos
completando os dois enquanto dormíamos na casa um do outro.

Nas primeiras semanas, deu tudo certo. Caminhávamos pelas árvores ao redor da água e pausávamos toda hora pra completar os mapas e parecia mesmo que os dois iam se juntar em algum ponto. Não tínhamos nada do que é
exigido pra esse trabalho, nem mesmo um compasso, mas tentamos compensar. Tivemos a ideia de enterrar um pedaço de pau no chão ao fim de uma caminhada pra, quando o achássemos de novo, sabermos que os dois mapas tinham finalmente se encontrado. Talvez fomos os piores cartógrafos
do mundo. Uma hora, no entanto, o matagal se tornou denso demais perto da água e não conseguimos ir mais longe. Perdemos um pouco do interesse pelo projeto e diminuímos as explorações significativamente, embora nunca tenhamos parado de fato, quando começamos a vender raspadinha.
Depois que mostrei as fotos que trouxe da escola pra minha mãe e ela confiscou minha máquina de raspadinha, nosso interesse por mapas foi revitalizado. Tivemos que bolar outro plano. Ainda que não entendesse o porquê, minha mãe impôs restrições severas no que eu podia fazer ou
onde podia ir, e tinha que dar sinal de vida toda hora quando saía pra brincar com Josh. Isso significava que não podíamos passar horas no bosque procurando por outro jeito de atravessar a parte densa. Pensamos em simplesmente ir nadando quando chegássemos a ela, mas não daria
certo já que o mapa ficaria molhado. Tentamos ir mais rápido quando saímos da casa do Josh, mas sempre acabávamos parados no mesmo ponto. Aí tivemos uma ideia brilhante.

Construir uma jangada.

Devido a obras na vizinhança, havia muito resto de material de construção que a
empreiteira jogava nas valas pra deixar as ruas e o campo de construção livres, já que não era mais necessário.

Pensamos originalmente num navio formidável, com mastro e âncora, mas essa ideia rapidamente se desmantelou em algo mais simples. Pegamos madeira e canos cheios de
palha e os amarramos usando corda e barbante de pipa.

Partimos um pouco antes da casa de Dona Maggie e lhe demos adeus, enquanto ela nos implorava pra voltar. Não havia nada pra nos impedir. A jangada funcionou bem e, embora falássemos como se aquilo tivesse sido muito fácil de
construir, sei que pelo menos eu estava muito surpreso. Tínhamos um galho de árvore bem grande pra usar como remo, mas vimos que era muito mais fácil simplesmente usá-los pra impulsionar o barco a partir do chão do lago do que realmente navegar com eles. Quando a água ficava
funda demais, simplesmente deitávamos de bruços e usávamos as mãos pra empurrar, e funcionava, mesmo que não tão bem. Da primeira vez que fizemos isso, lembro de pensar que, de longe, parecia um cara muito gordo de braços bem finos nadando.

Na verdade, demorou bastante pra
levar a jangada até o pedaço de mata impenetrável que marcava até onde tínhamos ido. Depois da ideia de marcar o caminho com um pedaço de pau, planejamos ir até a marcação e, aí, tão precisa e cuidadosamente quanto conseguíamos, rastrear nosso curso. Isso significou que o
obstáculo estava bem longe e navegar da minha casa até o maço de árvores demoraria mais do que o esperado. Navegávamos um pouco e aportávamos a jangada, pra na próxima vez chegar lá a pé pelo bosque e ir um pouco mais longe. Devíamos estar indo muito bem, mas quando finalmente
conseguimos chegar ao obstáculo e tivemos a oportunidade de ir além, não achamos lugar pra estacionar a jangada. O mato era denso demais e a água tinha erodido a terra ao ponto de haver mais de meio metro de margem descamada, expondo as raízes torcidas e podres das árvores.
Dávamos a volta toda a vez e deixávamos a jangada no mesmo obstáculo que nos obrigara a construí-la em primeiro lugar. Pra piorar, o inverno chegou e não tínhamos desculpa pra sair de sunga, chegamos a lugar nenhum, sempre tínhamos de voltar pra casa antes de conseguir resolver
algo.

Num sábado, lá pelas sete da noite, Josh e eu brincávamos quando um dos colegas de trabalho da minha mãe bateu na porta. Seu nome era Samantha, e lembro bem dela por que a pedi em casamento uns dois anos depois quando fui visitar minha mãe no trabalho. Minha mãe disse que
ia ter que sair pra resolver uns problemas que surgiram no serviço e que voltaria umas duas horas depois. O carro dela estava no conserto, e ela teve de ir de carona com Samantha. Conclui que a culpa do problema era de Samantha e a briga no carro que levaria duas horas. Disse que
sob nenhuma circunstância, devíamos sair de casa ou abrir a porta e, quando estava dizendo que ia ligar a toda hora pra saber se estávamos lá, lembrou que o telefone fora cortado por conta de pagamentos atrasados, por isso Samantha chegou de surpresa. Ela me olhou profundamente
nos olhos enquanto saía de casa e disse:

-Se comporte.

Era nossa chance. A vimos sair pela rodovia perto e, assim que o carro sumiu de vista, corremos para meu quarto. Larguei a mochila no chão enquanto Josh pegava o mapa.

-Ei, você tem lanterna?

-Não, mas a gente volta
bem antes de escurecer.

-Acho que, só de precaução, a gente devia levar uma.

-Minha mãe tem uma, mas não sei onde ela deixa... Pera! – Corri pro armário e puxei uma caixa da prateleira de cima.

-Tem uma lanterna aí? – Josh perguntou.

-Não exatamente....

Abri a caixa e
mostrei três sinalizadores que tinha pegado da pilha que minha mãe tinha feito pro Quatro de Julho daquele verão; junto de um isqueiro que consegui roubar dela uns meses antes, tínhamos garantida pelo menos alguma luz caso precisássemos. Isso aconteceu um pouco antes de eu vir a
sentir medo do bosque à noite, então não era medo que nos fez procurar uma luz, não completamente. Jogamos tudo na mochila e saímos pela porta de trás, lembrando de trancá-la pra que Boxes não saísse. Tínhamos uma hora e cinquenta minutos.

Corremos pelo bosque tão rápido quanto
dava e chegamos na jangada em uns 15 minutos. Estávamos de sunga por baixo das roupas, tiramos nossas camisas e shorts e os largamos em duas pilhas a um metro da margem. Desamarramos a jangada, pegamos nossas coisas, nos mandamos.

Tentamos nos mover rapidamente pra chegar a
algum lugar além do que já estava no nosso sempre-crescente mapa, por que não tínhamos tempo a perder com paisagens já catalogadas. Sabíamos que éramos mais devagar na jangada, e que estávamos navegando havia um tempinho depois do ponto denso demais pra seguir andando e não havia
onde parar a jangada. Isso significava que teríamos que seguir com a jangada até o ponto original mesmo que achássemos outro lugar pra estacionar.

Depois de ultrapassar os limites de nosso mapa, a água começou a ficar funda de verdade e não conseguimos mais alcançar o fundo com
os galhos de árvore. Deitamos de bruços e remamos com as mãos. Estava ficando mais escuro e mais difícil de distinguir o caminho. Estávamos ficando nervosos. Na tentativa de ir rápido, batíamos as mãos rápido e causávamos muito barulho quebrando a tensão superficial da água. A
todo momento, ouvíamos o barulho de folhas amassadas e galhos pisados do nosso lado. Quando parávamos de remar e ficávamos quietos, o barulho diminuía ao ponto de nos fazer pensar se realmente tínhamos ouvido algo. Não tínhamos ideia de que animais viviam tão longe no bosque e
nem queríamos descobrir.

Enquando Josh olhava o mapa com a ajuda do meu isqueiro, de repente nos demos conta de que não tínhamos imaginado os barulhos. De forma rápida e ritmada, escutamos. Pisão, amasso, pisão. Parecia estar um pouco distante, indo pelas árvores além de onde
chegamos com o mapa. Estava escuro demais pra ver. Não pensamos quanto tempo o sol ia durar.

Com medo, gritei:

-Olá?

E houve um momento de tensão enquanto permanecíamos estáticos na água. O silêncio foi quebrado por uma gargalhada.

-Oiiii? – Josh riu.

-Que foi?
-Olá, Sr. Monstro-Do-Bosque. Eu sei que você tá se escondendo por aí, mas quem sabe você não responde meu olá? Oláááááá!

Percebi o quão estúpido era. Qualquer animal que fosse, não ia responder. Nem percebi o que tinha dito, mas se houvesse algo ali de verdade, obviamente não ia
responder. Josh continuou.

-Oiiiii – Num falsete alto.

-Oi. – Respondi, no barítono mais grave que consegui

-Oi aê, colega!

-O-lá. Bip, bip.

-Oiiiiiiiiiiiiii-IIIIIIIIIIIIII-iiiiiii!

Continuamos a rir da cara do outro. Estávamos virando a jangada pra
voltar quando escutamos:

-Oi.

Um sussurro forçado, como se saísse do último suspiro de um par de pulmões moribundos, mas não soava doente. Saiu de um ponto além do mapa, atrás de nós já que viramos a jangada em outra direção. Lentamente, voltei com a jangada em direção ao som,
acendendo um sinalizador. Queria ver.

-O que você tá fazendo?! – Josh surtou. Acendi o sinalizador. As faíscas se misturavam à água enquanto o erguia em direção ao céu. Nunca tinha atirado um desses e pensei só em usá-los como via nos filmes. Um orbe verde e brilhante saiu da
ponta em direção às estrelas e sumiu, rapidamente. Abaixei o braço, mirando o horizonte. Lembro que era de várias cores, mas não lembro quantas vezes atirei antes de esgotar a pólvora. Outra bola de luz seguiu em direção às árvores mas, ainda assim, vi nada.
-Vamo embora, cara! – Josh me pressionou, olhando o caminho de volta e me cutucando desesperadamente.

-Só mais um...

Abaixando o braço mais um pouco, atirei outra bola vermelha do tubo. Voou direto pra frente até bater em uma árvore, aumentando o diâmetro de leve enquanto se
desfazia.

Nada.

Larguei os fogos na água e vi outra bola de luz se soltar e apagar logo depois, engolida pela água. Quando começamos a remar de volta pra casa, ouvimos um farfalhar alto e desesperador na mata. Galhos quebrando e folhas amassadas engoliram o som de nossas
batidas.

O que quer que fosse, corria.

Em pânico, batemos as mãos violentamente e senti a corda embaixo do meu peito arrebentar.

-Josh, devagar!

Mas foi tarde demais. A jangada quebrava. Logo se desfez completamente. Nos agarramos cada um a um cano solto, mas estes não eram
grandes o suficiente pra nos sustentar acima da água. Nossas pernas pendiam embaixo da água fria.

-Josh, anda! – Gritei ao apontar pra água ao redor dele.

Ele tentou, mas estava frio demais pra se mexer e nós dois vimos o mapa ir embora.
-Tá f-f-f-frio, cara! –Josh tremeu, desesperado – Vamos sair d’água!

Nos aproximamos da margem, mas cada vez que tentávamos sair do lago, ouvíamos o barulho enlouquecedor vindo em nossa direção. Ficamos fracos e com frio demais pra tentar.

Com dificuldade, saímos de lá e nos
vimos de novo perto de onde tínhamos estacionado a jangada. Saímos da água e tentamos salvar o resto da jangada, mas o cano do Josh escapuliu e voltou pro lago. Tiramos as sungas, desesperados pra vestir roupas secas e nos proteger do vento frio. Pus os shorts e notei algo errado
Me virei pro Josh.

-Cadê minha camisa, cara?

Ele deu de ombros e sugeriu:

-Talvez tenha caído na água e sumiu no lago.

Disse pro Josh voltar pra minha casa e falar que tínhamos ido brincar de esconde-esconde se minha mãe tivesse chegado. Tinha que tentar achar a camisa.
Corri pra detrás das casas e procurei por cima da água pela margem. Me ocorreu que, com sorte, talvez pudesse achar o mapa também. Estava indo rápido por que precisava ir pra casa logo e desistindo quando fui interrompido pelo som atrás de mim.

-Olá.
Pulei de susto. Era Dona Maggie. Nunca a vi de noite e, à luz fraca, parecia frágil demais. O calor que normalmente emanava parecia destruído pelo frio. Não lembrava de tê-la visto sem sorrir, sua cara parecia estranha.

-Oi, Dona Maggie.

-Ah, Oi Chris! – O calor e o sorriso
retornaram, mesmo que sua memória falhasse – Não conseguia te ver por que tá escuro aqui.

De brincadeira, perguntei se ia me convidar pra lanchar, mas ela respondeu que uma outra hora, estava ocupado demais procurando meu mapa e a camisa pra questionar e ela parecia feliz. Não
me senti mal. Ela disse uma ou outra coisa depois, mas estava distraído demais pra prestar atenção. Disse boa noite e corri em direção a minha casa. Atrás de mim, ouvi seus passos no quintal congelado, mas não virei pra acenar. Tinha que chegar em casa.

Cheguei uns dois minutos
antes da minha mãe e, quando ela entrou, eu e Josh já tínhamos trocado de roupa e nos aquecido. Nos livramos de uma, mesmo perdendo o mapa.

-Não conseguiu achar?

-Não, mas vi a Donna Maggie. Ela me chamou de Chris de novo. To falando, fica feliz de não ter visto ela à noite.
Rimos e ele perguntou se eu fui convidado pra lanchar, dizendo que o lanche deve ser realmente ruim por que ninguém aceitava ele. Disse que ela não convidou e ele se surpreendeu e, depois de parar pra pensar, eu também. Toda vez que a víamos, ela nos convidava e, agora, mesmo que
ironicamente, eu me convidei e fui recusado.

Enquanto Josh falava mais, percebe de repente que o isqueiro ainda devia estar no meu bolso e seria um desastre se mamãe o achasse lá. Peguei os shorts do chão e apalpei, senti alguma coisa que não era o isqueiro. Do bolso traseiro,
tirei um pedaço de papel dobrado e meu coração parou.

-O mapa? – Pensei – Mas eu vi indo embora – Desdobrando o papel, meu estômago se revirou enquanto eu tentava entender aquilo. Desenhado no papel, dentro de um círculo, havia dois bonequinhos de palito de mãos dadas. Um muito
maior que o outro, ambos sem face. O papel fora rasgado e uma parte se perdeu. Havia um número escrito no canto superior direito. Ou 15 ou 16.

Nervosamente, dei o papel a Josh e perguntei se ele, em alguma hora, tinha posto no meu bolso. Ele negou e perguntou por que eu estava
daquele jeito. Apontei pro bonequinho menor e pro que estava escrito lá.

Minhas iniciais.

Tentei esquecer e continuei a falar com Josh da Dona Maggie. Tinha culpado ao fato de ela ser doente até pensar melhor nisso tantos anos depois. Pensando bem, o sentimento de tristeza por
ela vem, junto de um desespero quando imagino por que ela disse “outra hora”. Eu sabia o que ela disse, mas não entendi naquela noite o que significava. Não entendi suas palavras até semanas depois, quando vi homens de macacões laranja estranhos carregarem pra fora de sua casa o
que pensei serem sacos de lixo e nem entendi por que a rua cheirava a cadáver. Também não tinha entendido por que lacraram sua casa e trancaram com painéis de madeira um pouco antes de nos mudarmos. Mas agora entendo

Entendo por que suas palavras foram tão importantes, mesmo que
nem eu nem ela tenhamos percebido naquele instante.

Dona Maggie me contou que, naquela noite, Tom voltara pra casa, mas agora sei quem realmente se mudou, do mesmo jeito que sei por que não vi seu corpo ser levado numa maca.
Aqueles sacos não tinham lixo dentro.
EITA CARAIO KSJSKSKK
fim da parte 4, se alguém não tiver entendido o final eu explico aqui:
como a moça tinha Alzheimer, ela confundia as pessoas....
Nisso ela sempre confundia os meninos c os filhos dela né e dizia q o marido ia voltar do serviço
como o marido tava “trabalhando” (tava morto né Kk num ia voltar) ela sempre chamava as crianças pra lanchar lá, pelo fato de remeterem lembranças dos filhos dela
nisso o marido volta... ou seja, o cara q ficava perseguindo o garoto meio q se passou por marido dela, ou ela simplesmente se confundiu e disse q o cara era marido dela
aí ele deve ter ido pra casa c ela e matado ela
“ah mas pq ele mataria ela, ela nem fez nada”
considerando q o cara eh um perseguidor, ele tem uma atração (n necessariamente sexual) pelo menino, então ele sente ciúmes, qualquer pessoa q tenha “contato” com ele, o cara simplesmente fica puto
outra teoria minha pode ser q ele tenha matado a velha por ela morar de frente (eh isso msm?) pra casa do menino
ele poderia ter matado ela pra ficar c a casa e ficar mais perto dele KAJSKSKSK
mais uma vez venho pedir paciência pq vou separar os textos pra caberem nos tuítes Kk já já volto com mais, se quiser ativa as notificações q quando eu voltar vc vai saber
Parte 5: GRITOS (uma das mais perturbadoras na minha opinião)

No fim do verão entre o jardim de infância e a primeira série, tive uma infecção estomacal. Ela tem todos os sintomas de uma gripe comum, mas, com a infecção, você vomita num balde e não no vaso sanitário por que você
também está sentado nele, a doença é expurgada pelas duas saídas. Isso durou uns dez dias, mas, um pouco antes de me curar, consegui extender meu mal estar até os olhos, em forma de conjuntivite. Minhas pálpebras estavam tão coladas juntas pelo pus gerado durante a noite que, no
primeiro dia da nova infecção, achei que tivesse ficado cego. Quando comecei a primeira série, tinha uma torcicolo de dez dias na cama e olhos vermelhos-sangue e inchados. Josh estava em outra turma e não pegava o almoço comigo, e, numa cantina lotada por duzentas crianças, tinha
uma mesa só pra mim.

Comecei a levar comida extra na mochila pra lanchar no banheiro depois do almoço, uma vez que minha comida mesmo costumava ser confiscada pelas crianças mais velhas, que sabiam que eu não bateria de frente por que ninguém ficaria ao meu lado. Essa dinâmica
seguiu até mesmo depois de meu estado de saúde melhorar, já que ninguém é amigo da criança que sofre bullying, a não ser que queiram um pouco de agressão também. O único motivo pra que parassem foi por causa das atitudes de um garoto chamado Alex.

Alex estava na terceira série e
era maior que a maioria das crianças de qualquer série. A partir da terceira semana de aula, ele começou a sentar comigo no almoço, o que pôs um fim imediato à minha falta de comida. Ele era bem legal, mas parecia meio lerdo, nunca conversávamos muito até eu decidir, finalmente,
perguntar por que estava sentando comigo.

Ele era caidinho pela irmã do Josh, a Veronica.

Verônica era da quarta série e, provavelmente, a garota mais bonita na escola. Mesmo tendo seis anos e absorvido a ideia de que meninas eram nojentas, sabia o quão bonita Veronica era.
Quando estava na terceira série, Josh me contou, dois meninos chegaram a brigar, fisicamente, depois de discutirem o significado das mensagens que ela escrevera nos seus anuários. Um dos meninos acabou acertando o outro com o anuário, na testa, e o machucado precisou de pontos
pra fechar. Mesmo não sendo um deles, Alex queria que ela gostasse dele e confessou que sabia que Josh e eu éramos melhores amigos; concluí que ele esperava que eu fosse falar de sua ação filantrópica pra Veronica e ela ficaria tão tocada por tal altruísmo que começaria a se
interessar por ele. Se eu falasse, ele sentaria comigo pelo tempo que eu precisasse dele ali.
Por ter acontecido durante a época em que o Josh costumava ficar na minha casa construindo jangadas e navegando comigo, nunca tive a chance de trazer o assunto à tona para Veronica por
que, simplesmente, não a via. Falei pro Josh sobre e ele fez piada do Alex, mas disse que contaria pra irmã já que eu pedi. Duvidei que fosse contar mesmo. Josh se incomodava muito com o fato de as pessoas ficarem tão em cima de sua irmã. Lembro que ele a chamava de urubu feio.
Nunca disse nada pra Josh, mas lembro de querer falar que, mesmo àquela época, ela era bonita, e um dia, seria linda.

Eu estava certo.

Aos quinze anos, ia assistir filmes num lugar que meus amigos e eu acabamos chamando de pé-sujo. Deve ter sido bonito em algum momento, mas o
tempo e a negligência tinham acabado com o lugar. O cinema tinha mesas e cadeiras desmontáveis no nível do chão, e, quando estava cheio, havia poucos lugares de onde se pudesse ver a tela toda. O cinema ainda estava funcionando por, acho, três motivos: 1) Era barato assistir
filmes lá; 2) Exibiam filmes cult duas vezes por mês à meia noite; e 3) vendiam cerveja pra gente menor de idade durante as sessões da meia noite. Eu ia por causa dos dois primeiros e, naquela noite, Scanners, de David Cronenberg, estava em cartaz por um dólar.
Eu e meus amigos sentamos bem no fundo. Quis sentar mais perto pra ver melhor, mas Ryan que tinha nos dado carona então acatei. Uns minutos antes do filme começar, um grupo de meninas entrou. Todas eram bem bonitas, mas qualquer beleza que pudessem ter era ofuscada pela garota de
cabelo loiro escuro, mesmo vendo só um pedaço de seu rosto. Quando ela andou pra ajeitar a cadeira, tive uma visão completa de seu rosto que me fez sentir frio na barriga – era Veronica.

Não a via há muito tempo. Josh e eu víamos cada vez menos um ao outro desde que nos
esgueiramos pra minha casa antiga uma noite, quando tínhamos dez anos, e, mesmo na época que eu o visitava, ela costumava estar fora, com os amigos. Enquanto todo mundo encarava a tela, eu encarava Veronica e só desviava o olhar quando a sensação de parecer um tarado me fazia
desviar os olhos, mas essa sensação rapidamente esvaía e meus olhos voltavam a ela. Ela era realmente linda, como pensei que seria quando éramos crianças. Quando os créditos começaram a rolar, meus amigos se levantaram pra ir embora. Havia apenas uma saída e ninguém queria ficar
preso, esperando a multidão ir embora. Me agarrei à esperança de chamar a atenção da Veronica. Quando ela e as amigas passaram por perto, me aproveitei.

-Ei, Veronica.

Ela virou em minha direção, parecendo um pouco surpresa.

-Eu?

Levantei da cadeira e me posicionei na luz que
vinha pela porta aberta.

-Sou eu. Um amigo do Josh de muito tempo atrás. Como... Como você tá?

-Meu deus! OI! Faz tanto tempo – Ela gesticulou para as amigas, avisando que sairia já já.

-É, uns anos pelo menos! Desde a última vez que vi o Josh. E aí, como ele anda?

-Ah sim,
eu lembro das brincadeiras de vocês. Ainda brinca de Tartarugas Ninjas com os amigos?

Ela riu e eu corei.

-Não. Não sou mais criança... Eu e meus amigos brincamos de X-men agora. – Torci pra que ela risse. Ela riu.

-Haha! Que fofo! Você vem sempre pra esses filmes?
Ainda estava absorvendo o que ela disse.
Ela realmente me acha fofo? Será que minha piada foi boa? Será que ela me acha bonito?
De repente, percebi que ela fez uma pergunta. Minha mente cuspiu a resposta.

-VENHO – Respondi, alto demais. – Enfim, eu tento vir... E você?
-Venho vez ou outra. Meu namorado não gostava desses filmes, mas como terminamos, quero vir mais vezes.

Ela riu de novo.

Tentei me recuperar.

-Então, você vem semana que vem? Vão exibir Dia dos Mortos. É bem maneiro.

-É, vou vir sim.

Sorriu, e quando me preparei pra
perguntar se podíamos sentar juntos, ela atravessou rapidamente o espaço entre a gente e me abraçou.

-Foi mesmo bom te ver – Disse, os braços a minha volta.

Tentei pensar no que dizer quando percebi que o problema era que eu havia esquecido como falar. Por sorte, Ryan, que
escutei se aproximando, chegou perto e falou por mim.

-Cara, você sabe que o filme acabou né? Porra, vambora daq... AH SIM.

Veronica me soltou e disse que me via da próxima vez. Ela saiu da sala embalada pela música de filme pornô que Ryan cantarolava. Fiquei furioso, mas
esqueci dele assim que a ouvi rindo no lobby.

Day of the Dead demorou a chegar. A família do Ryan ia sair da cidade e ele não poderia nos levar de carro. Meus outros amigos não dirigiam. Uns dias antes do filme, perguntei pra minha mãe se ela podia me levar. Ela respondeu que
não quase imediatamente, mas insisti tanto que deixei transparecer o desespero da minha voz. Perguntou então por que eu queria tanto ir já que tinha visto o filme e hesitei antes de falar que ia encontrar uma garota. Ela sorriu e perguntou, brincando, se conhecia quem era e,
relutantemente, falei que era Veronica. O sorriso sumiu de seu rosto e ela disse, friamente, não.

Decidi ligar pra Veronica pra ver se ela poderia me dar carona. Não tinha ideia se ela ainda morava em casa, mas valia a tentativa. Foi aí que percebi que Josh poderia atender. Não
falava com ele fazia quase três anos e, se ele atendesse, eu obviamente não conseguiria perguntar pela irmã. Me senti mal de ligar pra falar com a Veronica e não com ele, mas deixei pra lá na hora, Josh também não ligava fazia anos. Peguei o telefone e disquei o número que ainda
estava gravado nos meus dedos de tanto que costumava discá-lo anos antes.

Tocou algumas vezes antes de atenderem. Não era Josh. Senti uma mistura de alívio e decepção,eu realmente sentia falta de Josh. Iria ligar depois do final de semana pra falar com ele já que era essa minha
única chance de ver se Veronica podia ou não me dar carona.

A pessoa que atendeu, no entanto, me disse que era engano.

Confirmei o número com a mulher. Ela disse que deviam ter mudado de número e concordei. Pedi desculpas pelo incômodo e desliguei. Fiquei triste no mesmo
instante por que, agora, não poderia falar com Josh nem se quisesse, me senti terrível por não querer que ele atendesse. Ele tinha sido meu melhor amigo. Percebi que o único jeito de voltar a falar com ele seria através de Veronica e, agora, não que precisasse de um antes, mas
tinha motivo para vê-la.

Disse pra minha mãe, no dia antes do filme, que não queria mais ir, mas esperava que ela pudesse me deixar na casa do meu amigo Chris. Ela cedeu e me deixou lá sábado, horas antes da sessão. Minha ideia era caminhar da casa dele até o cinema já que a
distância era de mais ou menos um quilômetro só. A família de Chris costumava ir à igreja domingo e dormiam cedo no sábado. Chris não se importou de eu ir embora por que queria espaço pra falar com uma garota que conheceu na internet. Ele disse que o caminho de volta, pra mim,
seria muito solitário depois que ela risse quando eu fosse beijá-la. Respondi pra tomar cuidado com os choques quando fosse tentar trepar com o computador àquela noite.

Saí da casa dele às 11:15.

Tentei correr pra chegar lá um pouco antes do filme começar. Iria sozinho e não
queria ficar lá só esperando. No caminho, imaginei que se a Veronica realmente fosse, seria muita sorte chegarmos ao mesmo tempo. Refleti se deveria entrar ou esperá-la. As duas opções tinham pontos contra e a favor. Enquanto debatia internamente, percebi que os feixes de farol
de carro que passavam ao meu lado na estrada eram agora só um único e constante farol atrás de mim, que se recusava a seguir em frente. A estrada não tinha postes de luz. Eu caminhava na terra, a centímetros do pavimento. Fui pro lado e olhei por sobre o ombro pra ver o que vinha
atrás de mim.

Um carro parou a uns metros de distância.

Tudo que conseguia ver eram as luzes excruciantemente brilhantes que cortavam através da paisagem antes escura. Pensei que pudesse ser o pai do Chris, talvez eles tivessem levantado pra nos ver e eu não estava lá. Não
demoraria muito pra arrancar a verdade do Chris. Passou por mim e vi que não era o carro dos pais do Chris ou de qualquer outro conhecido. Tentei ver o motorista, mas estava escuro demais e minhas pupilas tinham sido afetadas pela luz forte de antes. Elas se ajustaram depois o
suficiente pra captar uma rachadura tremenda no vidro traseiro do carro, que agora se afastava.

Não pensei muito no acontecido, algumas pessoas acham divertido dar sustos. Eu mesmo costumava me esconder pelos cantos pra pegar minha mãe de surpresa.

Acertei a hora de sair de
casa e cheguei lá dez minutos antes do filme. Decidi esperar do lado de fora até umas 11:57, já que ainda teria tempo de procurá-la do lado de dentro caso ela já tivesse entrado. Assim que comecei a pensar que levaria um bolo, ela chegou.

Estava sozinha e estava linda.
Acenei e caminhei pra perto. Ela sorriu e perguntou se meus amigos já tinham entrado. Disse que eles não vieram e percebi que ia parecer que eu tinha forçado um encontro. Ela, no entanto, não se incomodou, nem quando entreguei um ingresso que havia comprado. Ela me encarou,
confusa, e respondi:

-Não liga, sou rico.

Ela riu e seguimos pra dentro. Comprei pipoca e duas bebidas. Passei o resto do filme pensando se deveria tentar pegar pipoca no saco ao mesmo tempo que ela pra deixar nossas mãos se tocarem. Ela pareceu gostar do filme e, quando me
dei conta, a sessão acabou. Não ficamos nem na sala nem no lobby por que era a última sessão, aí fomos pro lado de fora.

O estacionamento do cinema era grande por que se ligava a um shopping que não funcionava mais. Sem querer que a noite acabasse, continuei a falar enquanto
andávamos em direção ao shopping velho. Assim que viramos a esquina e o cinema saiu de nossas vistas, vi que o carro dela não era o único parado.

O outro tinha uma rachadura enorme no vidro traseiro.

O estranhamento que sentira antes dissolveu-se em alívio.

Faz sentido. O
motorista daquele carro trabalha aqui e deve ter imaginado que eu seguia pro cinema.

Tentar assustar fãs de filme de terror é uma coisa bem óbvia.

Circulamos o shopping, conversando sobre o filme. Falei que Dia dos Mortos era bem melhor que Madrugada dos Mortos, mas ela
discordou. Contei também de quando tentei ligar pro número antigo da casa dela e do meu dilema quanto a quem atenderia. Ela não achou tanta graça quanto eu, mas pegou meu celular e gravou o número atual. Comentou que talvez fosse o pior celular que vira na vida. Não ajudei muito
falando que não podia nem mesmo ver fotos nele. Liguei de volta pra que ela registrasse o meu número no dela.

Ela me disse que estava se formando, mas que não se dera realmente bem durante o ensino médio e não tinha certeza se iria pra faculdade. Respondi que devia pôr uma foto
junto ao formulário de inscrição e que iriam pagá-la pra estudar só pra poder admirá-la. Ela não riu de primeira e pensei que talvez pudesse ter ofendido – deve ter achado que duvidei de sua inteligência. Me virei em sua direção, nervoso. Estava sorrindo e, mesmo com tão pouca
luz, pude ver que corava. Quis pegar sua mão, mas não peguei.

Enquanto seguíamos pra parte do shopping que se conectava ao cinema, perguntei do Josh. Ela respondeu que não queria falar sobre. Perguntei se ele pelo menos estava bem e a resposta foi um não sei. Imaginei que Josh
se perdera pelos rumos da vida em algum ponto e se meteu em problemas. Me senti mal. Me senti culpado.

Ao chegarmos no estacionamento, vi que o carro do vidro rachado tinha ido embora e o dela era o único lá. Ela perguntou se podia me levar em casa e, apesar de não precisar
realmente, respondi que adoraria a carona. Tinha tomado uma lata de refrigerante inteira durante o filme e a caminhada tinha pressionado minha bexiga. Sabia que dava pra segurar até a casa do Chris, mas decidi que iria beijá-la antes de sair do carro e não quis que essa
necessidade fisiológica me obrigasse a entrar correndo. Ia ser meu primeiro beijo.

Não consegui pensar numa desculpa. O cinema estava fechado há tempos e só vi uma saída. Disse que iria me esconder pra mijar mas voltaria em duas balançadas. Obviamente, achei a melhor piada do
mundo e ela pareceu se divertir mais com esse fato do que com a piada em si.

No meio do caminho, parei e me virei. Perguntei se o Josh alguma vez falou de um moleque chamado Alex, que tinha feito uma coisa legal por mim. Ela parou pra pensar por um momento e disse que sim, ele
falou uma vez. Perguntou o motivo da minha curiosidade. Respondi que não era nada.

Josh realmente tinha sido um bom amigo.

Já longe, percebi que havia uma cerca que seguia pelas paredes de fora do teatro. De onde estava, ela ainda podia me ver e, como a cerca seguia
eternamente, pensei em pular, me esconder e voltar o mais rápido possível. Subi a cerca e caminhei até estar fora de vista e urinei.

Por um momento, o único ruído era o som de grilos, dos pés na grama e do xixi no chão. Mas esses barulhos foram abafados por outro que ainda hoje
escuto quando está tudo quieto e não há nenhum outro ruído pra distrair meus ouvidos.

À distância, ouvi um ruído fraco que cresceu até parecer que um trovão caíra ali perto. Percebi o que era na hora. Era um carro.

O barulho do motor aumentou. E aí percebi.

Não tá mais alto,
tá mais perto.

Saí correndo, mas antes que pudesse chegar, ouvi um grito breve e o rugido de motor colidindo com algo. Corri, mas depois de alguns passos, tropecei num pedaço de pavimento solto e me esborrachei no concreto – minha cabeça bateu na quina de uma cadeira quando caí.
Fiquei tonto por coisa de meio minuto, mas o barulho do motor me tirou do transe e a adrenalina me deu forças. Corri com o dobro de esforço. Pensava que quem tivesse batido o carro poderia machucar Veronica. Enquanto seguia pela cerca vi que só havia um carro no estacionamento.
Não vi nenhum sinal de batida. Talvez tivesse interpretado mal o barulho. Quando circulei o carro da Veronica, no entanto, concluí o que o outro carro acertou. Minhas pernas amoleceram.
O alvo era Veronica.
O carro estava entre a gente e, só quando finalmente me aproximei o suficiente, pude vê-la.

Seu corpo estava retorcido e amassado como uma perfeita imagem de todas as posições que o ser humano não consegue fazer. Pude ver o osso da tíbia rasgando pela calça jeans.
Seu braço esquerdo pendia tão quebrado ao redor do pescoço a ponto da mão tocar o seio direito. Sua cabeça marcara a lataria e a boca pendia aberta, apontando pra cima. Havia tanto sangue. Por um momento, não consegui distinguir se ela estava de bruços ou de costas no chão e tal
ilusão me enjoou na hora. Quando se é confrontado por uma coisa que não deveria nunca acontecer, sua cabeça tenta se convencer de que é um sonho e dá aquela sensação de que tudo acontece em câmera lenta. Naquele momento, pensei que iria acordar a qualquer momento.
Mas não acordei
Minhas mãos tremiam quando peguei o celular, mas estava fora de sinal. Vi o telefone da Veronica pendurado pra fora do que imaginei que era o bolso da frente. Não tive escolha. Nervoso, alcancei o telefone e, quando o tirei, ela se mexeu e tossiu, respirando com tanta força que
parecia precisar de todo o ar do mundo.

Isso me assustou tanto que caí de costas no asfalto, com seu telefone em minhas mãos. Ela tentou sentar numa posição mais natural, mas a cada movimento, podia ouvir o ruído de seus ossos quebrados. Sem pensar, encostei o rosto no dela e
disse:

-Veronica, fica quieta. Não se mexe, ok? Fica quieta. Não se mexe. Veronica, por favor, não se mexe.

Repeti, mas as palavras saíam fracas, dando lugar às lágrimas. Abri o flip do telefone.

Ainda estava funcionando. Ainda estava na tela com o meu número.
Senti meu coração quebrando. Liguei pro 911 e esperei, a seu lado, falando que tudo ia terminar bem e me sentindo cada vez pior por mentir.

Quando as sirenes chegaram, ela pareceu acordar. Estivera consciente o tempo todo, mas a luz voltou aos seus olhos naquela hora. Sua mente
a protegia da dor desse jeito. Parecia que só agora pôde ver que havia algo de terrivelmente errado em seu próprio corpo. Olhou em minha direção e seus lábios se moveram. Falou com dificuldade, mas ouvi.

-M...minha foto. Ele tirou… foto….

Não entendi o que significava e tudo
que pude responder foi:

-Me perdoa, Veronica...

Fui com ela na ambulância, onde finalmente perdeu a consciência por completo. Esperei no quarto que reservaram pra ela. Ainda segurava seu telefone. Pus junto de suas coisas. Liguei pra minha mãe do próprio hospital. Ela me xingou
e disse que já já estaria lá. Respondi que não sairia enquanto a cirurgia da Veronica não terminasse. Ela disse que viria de qualquer jeito.

Minha mãe e eu não falamos muito quando ela chegou. Só disse a ela que sentia muito por mentir e ela respondeu que conversaríamos mais
tarde. Acho que, se tivéssemos aberto o jogo na sala, se eu contasse do Boxes ou da noite da jangada, se ela contasse o que sabia, as coisas talvez poderiam ter se resolvido. No entanto, apenas ficamos em silêncio. Ela falou que me amava e que eu poderia ligar sempre que
precisasse.

Quando minha mãe se preparava pra ir, os pais da Veronica entraram. O pai dela e minha mãe conversaram um pouco, bem sérios, enquanto a mãe da Veronica falava com a atendente do hospital. A mãe da Veronica era enfermeira, mas não nesse hospital. Tenho certeza de que
tentou transferir a filha, mas o estado de saúde dela impossibilitou o processo. Enquanto esperávamos, a polícia veio e conversou com cada um e nós. Contei o que aconteceu, eles anotaram algumas coisas e foram embora.

Quando saiu da cirurgia, noventa por cento de seu corpo era
gesso. O braço direito estava livre, mas o resto parecia um casulo. Ainda estava apagada, e me lembrei do meu gesso no jardim de infância. Pedi à enfermeira uma canetinha, mas não sabia o que escrever. Dormi em uma cadeira e fui pra casa no dia seguinte.

Ia lá todas as tardes
por um tempo. Em algum momento, tinham posto outro paciente em seu quarto e armaram uma cortina ao redor das camas pra dividir o espaço. Veronica não parecia nem um pouco melhor, mas estava lúcida às vezes. Mesmo nessas horas de lucidez, não conversávamos. O queixo dela fora
esmagado pelo carro e os médicos imobilizaram-no completamente. Beijei sua testa e ela sussurrou através dos dentes.

-Josh...

Fiquei surpreso, olhei pra ela e perguntei:

-Ele ainda não veio te ver?

-Não...

Fiquei irritado.

Não importa se ele tá metido em confusão, ele tem
que vir ver a irmã.

Quando abri a boca pra falar, ela disse:

-Josh... Fugiu. Devia ter falado…

O sangue congelou nas minhas veias.

-Quando?! Quando isso aconteceu?!

-Quando... tinha treze anos…

-Ele… deixou algum bilhete, ou qualquer coisa?

-No travesseiro...
Ela começou a chorar e eu também. Pensando bem, agora, acho que choramos por razões diferentes, mesmo que eu não percebesse a dela. Àquela altura, havia muita coisa que eu não lembrava bem da minha infância e muitas conexões que não tinha percebido ainda. Falei que precisava ir
embora e que ela podia me mandar mensagens quando quisesse pelo celular.

Recebi uma mensagem sms no dia seguinte, me falando pra não voltar. Perguntei porquê e ela respondeu que não queria ser vista daquele jeito. Assenti, mesmo sem querer. Falávamos por mensagem todos os dias,
às escondidas, por que sabia que mamãe não gostava que eu falasse com ela. Suas mensagens eram bem curtas em resposta aos textos longos que eu mandava. Tentei ligar uma vez, e tive certeza que ela não ia atender, mas quis muito ouvir sua voz. Ela atendeu, no entanto. Não disse
nada, mas pude ouvir a dificuldade de sua respiração pesada. Uma semana depois da última visita, ela me mandou uma mensagem curta e simples:

Te amo.

Me vi tão confuso e respondi também, bem direto:

Também te amo.

Ela disse que queria estar comigo e que não podia esperar pra
me ver de novo. Disse que tinha levado alta e estava de repouso em casa. Essas mensagens seguiram por algumas semanas, mas sempre que perguntava quando poderia ir vê-la, ela respondia que “logo”. Insisti e, na semana seguinte, ela disse que talvez conseguisse ir ao cinema pra
outra sessão da meia noite. Não acreditei, mas ela disse que tentaria. Na tarde antes da sessão, recebi uma mensagem dizendo:

Te vejo à noite.

Pedi pro Ryan me levar lá já que os pais do Chris descobriram sobre o ocorrido e eu não era mais bem vindo à casa deles. Expliquei tudo
pro Ryan, disse que gostava muito dela e pedi que nos desse privacidade. Ele concordou e fomos.

Veronica não apareceu.

Tinha guardado lugar pra ela, bem do lado da porta pra que ela entrasse e saísse sem dificuldade. Mas em dez minutos de filme, um cara sentou lá.
Sussurrei: -Dá licença, tem gente aí. – Mas ele não disse nada. Só continuou encarando a tela. Lembrei que tive vontade de ir pra outro lugar por que ele respirava de maneira muito estranha e barulhenta e só deixei pra lá por que me toquei de que Veronica não viria.
Mandei outra mensagem do dia seguinte, perguntando se ela estava bem e por que não aparecera na sessão. Ela respondeu, na última mensagem que receberia dela. Dizia apenas que: Te verei outra vez. Logo.

Ela estava delirando, me preocupei. Mandei várias respostas lembrando da
sessão e dizendo que não tinha problema nenhum, mas não obtive nada de volta. Não podia ir até sua casa por que não sabia onde morava. Meu humor ficou péssimo e mamãe, que andava bem boazinha ultimamente, perguntou se eu estava bem. Disse que não tinha notícias de Veronica há
dias e senti o ambiente gelar na hora.

-Como assim?

-Ela marcou de me encontrar no cinema ontem. Eu sei que só tem, tipo, umas três semanas desde o acidente, mas ela disse que ia tentar ir. Mas, depois, ela só parou de me responder. Ela deve me odiar.

Minha mãe parecia
confusa e percebi que ela se perguntava se eu estava tendo um colapso nervoso. Quando viu que não, que eu estava calmo, seus olhos se encheram de lágrimas e ela me puxou pra um abraço forte. Começara a chorar e achei uma reação bem exagerada pra levar um bolo de uma menina.
Também achava que ela não ligava muito pra Veronica.

-A Veronica tá morta, meu amor. Meu deus, achei que você soubesse. Ela morreu naquela tarde que você foi lá. Ah, meu filho, ela morreu faz semanas.

Ela não estava chorando por causa da Veronica. Me soltei de seus braços e
andei pra trás. Minha mente estava de cabeça pra baixo. Não era possível. Mandei mensagem pra ela ontem mesmo. Só conseguia pensar em uma pergunta, a mais óbvia de todas.

-Então por que o telefone ainda tava ligado?

Minha mãe continuava chorando. Não respondeu. Explodi.
-POR QUE DEMOROU TANTO TEMPO PRA DESLIGAREM A PORCARIA DO TELEFONE?

-Por causa das fotos… - Ela respondeu através das lágrimas.

Um tempo depois, vim a descobrir que os pais dela pensaram que o celular da filha simplesmente fora perdido no acidente, apesar de eu ter posto o
aparelho no meio das coisas dela no hospital. Quando devolveram a bolsa pra família, o telefone não estava lá. Tentaram ligar pra companhia de telefone no fim do mês pra desativar a linha e receberam um telefonema informando de uma conta enorme, em centenas de dólares, por conta
de fotos enviadas pelo aparelho. Fotos. Fotos enviadas pro meu número. Fotos que nunca recebi por causa do celular velho. A família soube que elas foram enviadas na noite em que ela morreu. Desativaram a linha na hora.

Tentei não pensar no conteúdo dessas fotos. Mas lembro de
imaginar que, por algum motivo, eu devia estar nelas. Minha boca ficou seca e senti uma dolorosa pontada de desespero ao pensar na última mensagem recebida.

Te verei outra vez. Logo.
fim da parte 5

kahsgshsjsj vou falar minhas teorias sobre essa parte
espero que vocês tenham pensado da mesma forma q eu:
aconteceu o acidente, o cara pegou o celular dela e tirou foto e deixou lá, nisso o menino ligou pra ambulância pra vir pegar ela
chegando no hospital ele entregou as coisas dela (inclusive o celular)
como ngm tinha visto a cara da pessoa q tava perseguindo ele, acredito q o cara foi no hospital e catou o celular dela pra se passar por ela
no dia q ela morreu foi quando eles começaram trocar mensagens
então abre pra duas interpretações
ele tava em estado crítico e não resistiu, ou o cara não satisfeito voltou lá pra terminar o trabalho (matou ela)
outra coisa, nas mensagens quando ele liga pra ela, ela já tá morta, então era o cara, por isso ele ficou quieto.
Quando eles marcam de ir no cinema, eu acho q quem sentou do lado dele foi o cara...... por isso que na última mensagem tava escrito pra eles se verem dnv
KAJSKSKSK vou entrar em hiatus aqui pra separar os textinhos de acordo com o limite de caracteres permitido pelo tt ok? vai demorar um pouquinho mas juro q a parte 6 vai ser a mais triste :(
Parte 6: AMIGOS (eu chorei)
No primeiro dia de aula do Jardim de Infância, minha mãe tinha decidido me levar de carro ao colégio. Estávamos os dois nervosos e ela quis ficar lá comigo até o momento de entrar na sala de aula. Demorei um pouco pra me arrumar de manhã por causa do
meu braço que ainda não havia melhorado. O gesso passava um pouco do meu cotovelo, ou seja, tinha que cobrir o braço todo com uma capa de látex quando tomava banho. A capa era feita pra ser bem justa ao redor da abertura pra poder impermeabilizar bem o gesso e impedir que
estragasse. Já estava acostumado a vesti-la sozinho. Naquele dia, no entanto, talvez pelo meu nervosismo, não apertei a capa o suficiente e no meio do banho pude sentir a água invadindo o látex, molhando meus dedos. Pulei pra fora e arranquei o escudo de látex na hora, já
sentindo que o gesso, antes rígido, estava molenga.
Como não dá pra limpar direito a área entre o seu corpo e o gesso, a pele morta, que normalmente sumiria, fica parada lá. Quando é umedecida por, digamos, suor, acaba liberando um odor, que é, aparentemente, proporcional à
quantidade de umidade lá dentro. Assim que comecei a me enxugar, fui atingido em cheio pelo cheiro forte de podridão. Como continuei a esfregar a toalha freneticamente, o gesso começou a se desintegrar. Estava ficando mais e mais estressado, tinha planejado esse primeiro dia de
aula tanto quanto era possível pra uma criança. Sentei com a minha mãe pra escolher minha roupa na noite anterior. Passei muito tempo escolhendo uma mochila e estava louco pra mostrar a todo mundo a minha lancheira, com as Tartarugas Ninja na frente.
Acabei tomando o hábito da
minha mãe de chamar as outras crianças de amigos, mesmo sem conhecê-las. Mas quanto mais o meu gesso piorava, mas eu temia acabar sem poder chamá-las assim no fim do dia.
Derrotado, chamei minha mãe.
Demorou meia hora pra tirar a água de dentro estragando o gesso o mínimo
possível. Pra disfarçar o cheiro, minha mãe cortou lascas de sabonete e jogou-os dentro do gesso, e esfregou o resto do sabonete por fora pra tentar substituir o fedor por algo mais agradável. Quando cheguei ao colégio, os outros alunos já estavam terminando o segundo trabalho do
dia e eu fui atirado em um dos grupos. Não explicaram direito o que era pra fazer e, em cinco minutos, tinha feito tanta coisa errada que o resto do grupo reclamou com a professora e perguntou o que eu fazia ali. Eu tinha levado uma canetinha, esperando conseguir umas assinaturas
ou algum desenho no meu gesso, além do da minha mãe, e, na hora, me senti um idiota por ter considerado a possibilidade.
Tínhamos a sala de almoço só pra gente, mas como algumas mesas eram proibidas por serem longe, não precisei sentar sozinho. Estava cutucando as pontas
estragadas do gesso, encucado, quando uma criança sentou na minha frente.

-Gostei da lancheira – ele disse.

Achei que estivesse fazendo piada comigo, e fiquei irritado. Na minha cabeça, a lancheira era a única coisa que valia a pena naquele dia. Não levantei os olhos, sentindo
neles o ardor das lágrimas que queriam cair. Quando finalmente olhei, antes mesmo de conseguir mandá-lo me deixar em paz, vi uma coisa que me fez hesitar: ele tinha a mesma lancheira.

-Gostei da sua também – Ri.

-Acho o Michelangelo o mais legal – Ele disse, imitando nunchakos
com a mão.

Estava quase respondendo que o Rafael era meu favorito quando ele derrubou a caixinha de leite no colo.
Tentei segurar a risada, já que não o conhecia ainda, mas a cara que fiz deve ter sido engraçada por ele riu primeiro. De repente, não me senti tão mal quanto ao
gesso e pensei que aquele ali nem ia notar o cheiro mesmo. Aí, resolvi tentar a sorte.

-Aí, quer escrever no meu gesso?

Tirei a canetinha e ele perguntou como quebrei. Respondi que tinha caído da árvore mais alta do bairro; acho que impressionei. Assisti enquanto desenhava
cuidadosamente seu nome, e perguntei qual era quando terminou.

-Josh. – Disse.

Josh e eu almoçávamos juntos todos os dias e fazíamos trabalhos juntos sempre que dava. Ajudei ele a melhorar a caligrafia e ele levou a culpa quando escrevi “PEIDO” na parede, com um marcador
permanente. Cheguei a conhecer outras pessoas, mas acho que sempre soube que Josh era o único amigo de verdade.
Continuar uma amizade fora do colégio quando se tem cinco anos é bem mais difícil do que vocês lembram. No dia dos balões, nos divertimos tanto que perguntei se ele
queria ir na minha casa no dia seguinte e brincar. Respondeu que sim e que traria alguns brinquedos, falei que podíamos sair pra explorar e, quem sabe, nadar no lago. Quando cheguei em casa, minha mãe disse que tudo bem ele ir. Minha alegria foi muita, até lembrar que não tinha
meios de ligar pra ele. Passei o final de semana todo preocupado, achando que nossa amizade acabaria na segunda.
Quando finalmente nos vimos, fiquei aliviado de saber que ele passou pelo mesmo problema e achou graça. No meio da semana, lembramos de escrever nossos telefones em
casa e entregamos os papéis um pro outro na aula. Minha mãe falou com a mãe do Josh e ficou combinado que ela pegaria nós dois na escola na sexta. Fazíamos quase o mesmo toda semana. O fato de morarmos perto só facilitou as coisas pros nossos pais, que pareciam trabalhar o dia
todo.
Quando mamãe e eu nos mudamos pro outro lado da cidade, na primeira série, tive certeza que nossa amizade chegaria ao fim. Enquanto nos distanciávamos da casa em que vivêramos a vida toda, senti uma tristeza que não se aplicava só a um lugar, estava dando adeus pro meu
melhor amigo. Mas Josh e eu, pra minha surpresa e alegria, continuamos próximos.
Apesar de passarmos a maior parte do tempo separados e de nos vermos só aos finais de semana, continuamos muito parecidos um com o outro ao crescer. Nossas personalidades se encaixavam, nossos
sensos de humor se complementavam e acabávamos gostando das mesmas coisas assim, sem combinar. Até mesmo soávamos parecidos o suficiente pro Josh chamar minha mãe fingindo ser eu. A taxa de sucesso era até bem impressionante. Minha mãe brincava dizendo que só sabia quem era quem
por causa do cabelo, ele tinha o cabelo louro escuro e liso, enquanto o meu era castanho e cacheado, como ela.
Alguém poderia pensar que o mais provável de separar dois jovens amigos estava fora do controle deles, mas acho que o início de nossa separação gradual foi minha
insistência em ir até minha antiga casa procurar Boxes. No fim de semana seguinte a esse episódio, convidei Josh pra ir lá em casa, como sempre, pra manter a tradição, mas ele respondeu que não estava muito a fim. Começamos a nos ver cada vez menos a partir daí. De uma vez por
semana, foi pra uma vez ao mês, e aí uma vez a cada dois meses.
Pro meu aniversário de doze anos, minha mãe deu uma festa. Não tinha feito tantos amigos assim desde que me mudei, então foi lá uma festa surpresa, já que ela não tinha ideia de quem chamar. Chamei umas poucas
crianças com quem mantinha algum tipo de amizade e liguei pro Josh pra ver se ele queria vir. De primeira, disse que não sabia se podia ir, mas na véspera da festa me ligou de novo e disse que viria. Fiquei muito feliz, não o via há meses.
A festa até que foi legal. Minha maior
preocupação era de Josh e os outros não se darem bem, mas até que todo mundo acabou se gostando. Josh estava surpreendentemente quieto. Disse que não trouxe presente e pediu desculpas, mas respondi que estava tudo bem. Tentei manter a conversa com ele várias vezes, mas sempre
acabávamos sem assunto. Perguntei o que deu errado entre nós. Eu não entendi por que as coisas estavam tão ruins entre a gente, nunca agimos daquela maneira antes. Costumávamos andar juntos quase todos os fins de semana e nos falávamos no telefone dia sim dia não. Perguntei o que
estava acontecendo. Olhou pra mim, depois de encarar os sapatos por um tempo, e simplesmente disse.

-Você foi embora.

Pouco depois disso, minha mãe me gritou da sala e disse que era hora de abrir os presentes. Forcei um sorriso e entrei na sala enquanto todos cantavam parabéns.
Havia algumas caixinhas e muitos cartões, já que o resto da família morava em outros estados. A maioria eram lembrancinhas, mas lembro que o Brian me deu um brinquedo em forma de cobra que guardei por muitos anos. Minha mãe insistiu que eu lesse todos os cartões e agradecesse a
cada pessoa, por que uns anos antes, no natal, destruí o papel de presente das caixas e a possibilidade de saber quem tinha mandado o quê ou que quantidade de dinheiro. Separamos os que vieram pelos correios e os que foram trazidos no dia, pros meus amigos não precisarem me ver
abrindo coisas de gente que eles nem conheciam. A maioria dos cartões dos meus amigos vinha com um pouco de dinheiro, e dos familiares com bastante dinheiro.
Um dos envelopes não estava endereçado a mim, mas, por estar na pilha, acabei abrindo. O cartão tinha uma estampa de
flores bem genérica na frente e parecia ter sido recebido por alguém que agora o repassava pra mim. Na verdade, até gostei da ideia por que, pra mim, cartões sempre foram algo meio bobo. Tomei cuidado pro dinheiro que achei que estivesse dentro não cair, mas a única coisa lá era
mensagem que já vem impressa no próprio cartão.

“Eu te amo.”

Quem quer que tenha me dado o cartão não escreveu nada nele, mas circulou a mensagem algumas vezes com uma caneta.
Ri um pouco e falei:

-Nossa, mãe, brigado por esse cartão tão legal.

Ela me encarou confusa e
analisou o cartão. Me disse que não era dela e o passava de mão em mão entre meus amigos, procurando quem tivesse armado a brincadeira. Ninguém se manifestou, então ela disse:

-Não se preocupa, amorzinho, agora você sabe que duas pessoas te amam.

Ela prosseguiu o momento com um
longo e doloroso beijo na minha testa, que transformou a graça que todos acharam em histeria pura. Todos riam muito, podia ter sido qualquer um deles, mas o Mike parecia rir mais. Pra participar da brincadeira e não ser só o alvo dela, disse a ele que só por que tinha me dado o
cartão não significava que ia dar um beijinho nele também. Rimos mais e, ao olhar pro Josh, vi que finalmente sorria.

-Acho que esse foi o melhor presente, mas tem mais alguns ainda pra abrir.

Minha mãe me deu outro embrulho. Ainda sentia um resto de riso enquanto rasgava o
papel de presente. Quando vi o que era, não precisei segurar o riso mais. Meu sorriso se desfez enquanto olhava pras minhas mãos.
Era um par de walkie-talkies.

-Vai, mostra pra todo mundo!

Mostrei, e todos pareceram aprovar, mas quando prestei atenção no Josh vi que estava
pálido. Nos encaramos por um momento, até ele se virar e seguir de volta pra cozinha. Vi enquanto discava um número no telefone fixo. Minha mãe disse que sabia que, desde a vez que quebramos os walkie talkies antigos, não nos falávamos mais como antes. Pensou que iríamos gostar
do presente. Me senti extremamente grato pela consideração dela, mas logo fui atingido pelas lembranças de um dia que eu tentava realmente esquecer.
Todo mundo estava atacando o bolo quando perguntei ao Josh pra quem ele havia ligado. Disse que não se sentia bem e pedira ao pai
pra buscá-lo. Compreendi porque queria ir embora e respondi que gostaria que nos víssemos mais. Estendi um dos walkie talkie pra ele, mas ele ergueu as mãos, negando. Derrotado, disse:

-Tudo bem então, valeu por ter vindo. Espero poder te ver antes do meu próximo aniversário.
-Desculpa... Eu vou tentar ligar mais vezes. Juro. – respondeu.

A conversa morreu na porta da minha casa, enquanto esperávamos o pai dele. Olhei pro seu rosto. Parecia sentir remorso genuíno por não tentar ligar mais vezes. De repente, abriu um largo sorriso, dizendo que sabia o
que me dar de presente – ia demorar, mas eu iria adorar. Falei que não precisava, nem fazia tanta questão, mas ele insistiu. Pareceu muito mais feliz e pediu desculpas por ter sido um estraga prazeres durante a tarde. Disse que andava cansado – não dormia direito.
Perguntei o porquê disso, mas o pai dele já estava buzinando na calçada. Ele foi embora mas, no meio do caminho, enquanto acenava, respondeu à minha pergunta:

-Acho que to sonâmbulo.

Foi a última vez que vi meu amigo. Uns meses depois, ele desapareceu.
Nas últimas semanas, minha relação com a minha mãe tem ficado meio tensa por causa de tantas perguntas que faço sobre minha infância. Normalmente, a gente nunca sabe o limite de alguma coisa até que ela quebre. Depois dessa última conversa com a minha mãe, imagino que vamos
passar o resto da vida tentando refazer nossa relação. Ela se esforçou tanto pra me manter seguro, física e psicologicamente, que as paredes que ergueu pra isso acabaram mexendo com a cabeça dela. Enquanto a verdade jorrava nessa conversa, conseguia ouvir uma tremulação em sua
voz que, acho, deixava bem clara o quanto a sua vida tinha sido destruída. Não acredito que conseguiremos conversar direito de novo algum dia e, ainda que haja muito que eu não saiba, já entendo bastante.
Depois do desaparecimento do Josh, os pais dele fizeram de tudo pra
encontrá-lo. Desde o primeiro dia, a polícia sugeriu que contatassem todos os pais de seus amigos pra ver se alguém sabia seu paradeiro. Fizeram isso, mas, claro, ninguém tinha ideia de onde ele teria ido. A polícia não conseguiu nenhuma pista além de uma mulher desesperada que
ligava toda hora implorando que comparassem o caso com um outro de perseguição que fora aberto seis anos antes.
Se a cabeça da mãe do Josh já não estava boa quando ele sumiu, ela pirou de vez com a morte da Verônica. Ela podia ter visto muita gente morrendo no hospital, mas nada
é suficiente pra aplacar o choque de perder um filho. Visitava a filha todo dia quando ela estava num hospital diferente de onde ela trabalhava: uma vez antes do expediente e uma depois. No dia da morte dela, sua mãe tinha saído tarde do trabalho e, ao chegar lá Verônica já tinha
ido embora. Isso foi a gota d’água e, nos dias que seguiram, ela ficou mais e mais instável. Saía por aí gritando pelos filhos, chamando eles pra casa. O marido dela foi procurá-la algumas vezes num bairro aleatório no meio da madrugada – seminua e gritando, desesperada, pelos
dois.
Por causa disso, o pai do Josh não pôde mais trabalhar fora e começou a procurar empregos em obras, que pagavam menos mas permitiam que ficasse perto de casa. Quando começaram a obra no meu antigo bairro, uns três meses depois que Verônica morreu, o pai dela se inscreveu
em toda oferta de emprego que apareceu e conseguiu alguns bicos. Tinha formação suficiente pra chefiar a obra, mas trabalhava como pedreiro, zelador e o que mais aparecesse. Até mesmo mesmo serviços menores em casas, como cortar a grama e consertar portões – qualquer coisa pra
poder ficar perto da esposa. Começaram então a cuidar da área perto do lago pra transformar o lugar num espaço habitável. O pai do Josh ficou com a tarefa de nivelar o terreno recém desmatado, o que garantia pelo menos algumas semanas de sustento. No terceiro dia, achou um lugar
que não podia ser nivelado. Mesmo passando o maquinário, o ponto continuava mais baixo que o resto. Frustrado, desceu do trator pra estudar a área. Ele se sentiu tentado a simplesmente pôr mais terra no buraco, mas sabia que seria uma solução temporária. Trabalhou em obras tempo
o suficiente pra saber que só enfraqueceria a fundação das casas, e que raízes podres de árvores grandes decompunham e formavam terra mole. Pesou as opções que tinha e decidiu fazer um buraco com uma pá pra resolver um problema que talvez não exigiria trazer uma outra máquina.
Enquanto minha mãe descrevia a cena, sabia que já tinha estado lá, antes do solo ser remexido e depois.
Senti um aperto no peito.
Ele cavou um buraco de uns 30 centímetros até a pá bater em algo. Socou a terra com a pá algumas vezes, esperando moer uma possível raiz podre e
desfazer o emaranhado de raízes quando a pá ficou presa. Confuso, alargou o buraco. Depois de uma meia hora de escavação, se viu parado em cima de uma caixa coberta por um lençol marrom, de mais ou menos dois metros por cinquenta centímetros. Nossa cabeça costuma se esforçar pra
evitar o pior – se acreditamos o suficiente, ela irá rejeitar terminantemente toda a evidência possível pra manter intacta nossa fé no mundo.
Até aquele momento, apesar de todo o resto indicar o contrário, apesar de alguma parte e sufocada do homem entender que essa crença só
servia pra mantê-lo vivo, ele acreditava, sabia, que o filho estava vivo.
O telefone tocou às seis da noite. Minha mãe sabia quem era, mas não entendia a mensagem. Mas o que ela entendeu fez com que saísse correndo na hora.
-AQUI EMBAIXO, AGORA, MEU FILHO, POR FAVOR... MEU DEUS...

Quando ela chegou lá, encontrou o pai do Josh sentado imóvel virado de costas pro buraco. Segura a pá tão firme que ela podia quebrar a qualquer momento, e encarava o céu com olhos tão frios como os de um tubarão. Não
respondia a nada do que ela dizia e só reagiu quando ela tentou tirar a pá de suas mãos.
Ele abaixou os olhos lentamente e disse que não entendia. Repetiu a frase como se fossem as únicas palavras das quais lembrava. Minha mãe ainda ouviu-as sendo murmuradas várias vezes
enquanto ela se aproximava do buraco.
Ela me disse que devia ter se preparado antes de encarar o buraco. Respondi que sabia o que vinha a seguir e que não precisava falar mais nada. Olhei pra ela e seu olhar era de tanta agonia que meu estômago se remexeu. Percebi que ela sabia
disso por mais de dez anos e esperava jamais ter que me contar. Como resultado, jamais conseguiria achar palavras pra descrever o que viu naquela noite e, sentado a sua frente, eu era confrontado pela mesma dificuldade de articulação.
Josh estava morto. Seu rosto estava fundo,
carregando uma expressão de tristeza e falta de esperança. O cheiro agressivo de podridão subia da cripta e mamãe teve de cobrir o nariz e a boca pra não vomitar. Sua pele estava ressecada, quase reptiliana, e havia um rastro de sangue seco que saíra de seu rosto e manchara a
madeira ao redor. Seus olhos semi-abertos encaravam o vazio. Ela disse que não aparentava estar morto há muito tempo e consequentemente o tempo ainda não fizera o favor de apagar a dor e o terror em suas feições. Disse que o corpo parecia encará-la, a boca aberta num último grito
pela ajuda que nunca chegou. O resto, no entanto, não estava visível.
Tinha alguém por cima.
Era grande e estava deitado por cima dele. Minha mãe disse que demorou pra poder interpretar o que seus olhos viam e o que a posição dos corpos significava.
Ele estivera agarrando Josh.
As pernas dos dois estavam frígidas, congeladas pela morte, mas entrelaçadas como se fossem raízes que crescem umas sobre as outras. Um braço passado por debaixo do pescoço do Josh pra que seus corpos ficassem mais próximos.
O sol surgia por detrás das árvores e fez com que
alguma coisa presa na camisa do Josh reluzisse. Minha mãe se ajoelhou e cobriu o nariz com sua camisa pra sobreviver ao cheiro. Quando viu o que tinha captado a luz do sol, suas pernas fraquejaram e ela quase caiu no buraco.
Era uma foto. Minha. Quando criança.
Ela se jogou pra
trás, ofegante e trêmula, e bateu no pai do Josh, que ainda estava sentado, longe de tudo. Ela compreendeu por que ele havia ligado pra nossa casa, mas ainda não achava forças pra contar o que escondeu de todos por tantos anos. Se apoiou nas costas dele e ele falou.
-Não posso contar pra ela... pra minha mulher... nosso caçula... – Ele cortou as próprias palavras, pressionando o rosto nas mãos sujas. – Ela não aguenta...
Um tempo depois, ele levantou e caminhou trêmulo em direção à cova. Com um último soluço, entrou no caixão. Era um homem
grande, mas não tão grande quanto aquele que deitava junto a seu filho. Pegou as costas de sua camisa e puxou com força – tentaria atirar aquele cara pra fora da cova com um só puxão. Mas o tecido arrebentou e o corpo caiu de novo.
-FILHO DA PUTA!
Pegou-o pelos ombros e empurrou o corpo pra longe do filho. Depois, olhou para aquele homem e tomou impulso.

-Não... Deus, não.... por favor... MEU DEUS, NÃO.

Depositou toda a força num movimento trêmulo. Puxou e levantou o cadáver e atirou-o pelo chão fora da cova.
Ele e minha mãe escutaram o barulho de vidro rolando na mata. Era uma garrafa.
Ele entregou-a pra minha mãe.

Era éter.

-Ah, Josh… - Chorava – Meu filho, meu bebê. Por que tanto sangue? O que foi que ele fez contigo?
Assim que minha mãe encarou o homem, que agora deitava
virado pra cima, percebeu que aquela era a pessoa que assombrou nossas vidas por mais de uma década. Imaginara-o tantas vezes, sempre amedrontador e maligno, e os gritos de dor do pai de Josh só confirmaram suas suspeitas. Vendo seu rosto, no entanto, pensou que não era a face
que imaginara. Era só um homem.
Sua expressão, congelada, parecia até serena. Os cantos dos lábios estavam levemente virados. Sorrindo. Não o sorriso que se espera de um maníaco num filme de terror; nem de um demônio. Era um sorriso de satisfação. De alegria.
De amor.
Ao correr
os olhos pelo resto do corpo, viu uma ferida enorme em seu pescoço, de onde a pele tinha sido arrancada. Sentiu alívio ao ver que o sangue não era do Josh. Talvez ele tivesse sofrido menos. Mas esse alívio durou pouco. Ela cobriu a boca com uma das mãos e sussurrou, com medo de
lembrar ao mundo a verdade.
-Estavam... vivos...
Josh deve ter mordido o pescoço dele pra tentar se livrar. Apesar do cara ter morrido, Josh não conseguiria sair. Comecei a chorar, pensando em quanto tempo ele aguentou até morrer finalmente.
Procurou nos bolsos do homem algum
tipo de identidade, mas só achou um pedaço de papel. Nele, havia um desenho de um adulto de mãos dadas a uma criança e, do lado do garotinho, iniciais.
Minhas iniciais.
Minha esperança é de que ela não lembre essa parte da história direito, mas jamais saberei. Minha mãe escondeu
o pedaço de papel em seu bolso quando viu o pai de Josh arrastando o filho pra fora da tumba. Ele murmurava que o cabelo do filho tinha sido tingido. Ela reparou nisso também – estava castanho. Suas roupas também estavam estranhas, pequenas demais pra ele. Depois de deitar o
filho no chão, o pai começou a apertar os bolsos do filho, procurando alguma pista. Ouviu um barulho. Com cuidado, tirou uma folha dobrada de um dos bolsos. Deu pra minha mãe, mas ela não sabia o que era. Perguntei o que tinha no papel.
Ela me disse que era um mapa. Meu coração
se despedaçou. Ele estivera terminando nosso mapa – meu presente de aniversário. Me vi desejando do fundo do coração que ele não tivesse sido raptado enquanto tentava completar o desenho – como se isso importasse agora.
Ela ouviu o pai de Josh gemer e viu-o empurrando o corpo do
homem pra dentro da terra de novo. Ao caminhar de volta ao trator que o levara até lá, pôs a mão num tubo de gasolina e parou, de costas pra minha mãe.
-Vai embora.
-Me perdoa...
-Não foi culpa sua. Foi minha.
-Não pensa assim, não teve na...
-Mais ou menos um mês atrás, um cara chegou pra mim enquanto eu limpava um terreno de obra. Me perguntou se eu precisava de um dinheiro a mais. Como minha mulher não trabalha mais, aceitei. Uns moleques tinham cavado buracos no terreno dele e me ofereceu cem dólares pra
consertar. Disse que iria tirar umas fotos pra seguradora primeiro, pra eu passar lá depois das cinco no dia seguinte.
Pensei que ele era um otário por que sabia que alguém iria vir limpar o terreno de qualquer jeito pras obras, mas precisava mesmo de dinheiro e concordei. Ele
nem parecia ter cem dólares, mas pôs a grana na minha mão, e eu fiz. Fiquei tão exausto que nem pensei no que estava cobrindo... Não até agora. Tirei o mesmo cara de cima do meu filho. – Ele interrompeu minha mãe, sem esboçar nenhuma emoção
Ele apontou pra cova e começou a
perder o controle.
-Me deu cem dólares pra enterrar ele com meu filho...
Externar aquelas palavras forçava-o a aceitar o que aconteceu. Caiu de joelhos no chão, chorando. Minha mãe não pôde pensar em mais nada pra dizer e ficou lá, em silêncio, por o que pareceu uma vida toda.
Finalmente, tomou coragem e perguntou o que faria com o corpo do filho.
-Ele não vai ficar aqui, com esse monstro...
Ao ir embora e entrar no carro, ela viu uma fumaça subindo ao céu, preto no âmbar da manhã. Rezou, contra todas as expectativas, pra que os pais de Josh ficassem
bem.
Saí da casa da minha mãe sem dizer mais nada. Falei que a amava e que iríamos nos falar logo, mas não sei o que logo significa pra nós. Entrei no carro e parti.
Entendo agora por que esses eventos na minha infância pararam há alguns anos. Adulto, vejo as conexões que não
foram vistas por uma criança que lembra da infância como um feixe de imagens ao invés de uma sequência. Pensei no Josh. Amava-o. Ainda amo. Sinto ainda mais saudade agora que sei que jamais nos veremos. Pensei em seus pais. Em tudo que perderam e na velocidade que perderam. Não
sabem da minha relação com tudo o que aconteceu, mas jamais terei coragem de olhá-los nos olhos. Pensei na Verônica. Só conheci-a na adolescência, mas naquele pouco tempo acho que realmente a amei também. Pensei em minha mãe. Tinha tentado com todas as forças me proteger. Era
alguém mais forte do que eu jamais serei. Tento não pensar naquele cara e no que ele fez ao Josh por mais de dois anos.
Na maior parte do tempo penso no Josh. Às vezes desejo que ele nunca tivesse sentado na minha frente no Jardim de Infância. Que eu nunca tivesse conhecido um
amigo de verdade. Às vezes gosto de pensar que ele foi pra um lugar melhor, mas é só um sonho. Sei que o mundo é um lugar cruel e que as pessoas só pioram. Não haveria justiça pro meu amigo, nenhuma chance de luta, nem vingança. Já passou pra quase todo mundo, mas eu ainda
lembrarei.
Sinto sua falta, Josh. Sinto muito por ter me escolhido e sempre lembrarei com carinho da nossa amizade.
Fomos exploradores.
Vivemos aventuras.
Éramos amigos.

FIM
eh isso então Kjkk moral da história, TODO mundo já tinha tido contato c aquele cara, seja na máquina de raspadinha, no cinema, no hospital, antes da obra, mas ngm sabia
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