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Fiquei tão impressionado com algumas mensagens de amigos e colegas no WhatsApp e Twitter nesta semana que fiquei pensando um pouco sobre a morte do "centro" e como isso ainda vai nos impactar pelas próximas gerações de forma quase exponencial. Segue a thread se tiver paciência 👇
Parte culpa da polarização política, parte culpa da velocidade que informação é transmitida (tem uma questão ovo/galinha nesses dois fatores aí), hoje não temos mais centro. Não há mais ponto de intersecção nas narrativas nem ponto de convergência no modelo espacial político.
Um bom exemplo foi a coletiva do porta-voz da República, general Otávio Rego Barros. Enquanto a esquerda compartilhava o trecho do vídeo sobre o tal "crime" de @ggreenwald, a direita compartilhava trecho do vídeo do repórter da @folha perguntando sobre o corte do cabelo do "Mito"
Não existe mais uma notícia/fato que faça as pessoas terem opiniões divergentes — o que ajuda a sociedade a achar pontos em comum e avançar no debate público. O que existe são 2 mundos completamente diferentes que não dialogam nem mesmo sabem o que está acontecendo do outro lado.
Não é nem a época da "pós-verdade" como falávamos, é a época de "todas as verdades" — ou "todas as mentiras". Outro exemplo são os diálogos entre @SF_Moro e @deltanm divulgados pelo @TheInterceptBr e outros veículos.
Hoje ninguém mais fala nada sobre a lisura do Judiciário — um debate importantíssimo se quisermos avançar como um Estado Democrático de Direito. O que temos agora é um lado criminalizando jornalistas e outro lado levantando teorias de conspiração sobre hackers.
O fato em si? Já se perdeu... Toda a história da @tabataamaralsp tb mostra isso — se você não está no extremo, você está do outro lado, você é inimigo. Não existe o centro. Não estou discutindo se ela está certa ou errada, mas estar no centro é ser vidraça. É morte política.
Mesma coisa com a reação da direita com a imprensa — a Veja, tão incensada pelas pessoas de camisa amarela da Seleção, hoje não presta mais, é socialista. Uma sociedade sem imprensa livre vai contra tudo o que os liberais defendem — mas defender imprensa não dá likes hoje em dia.
Esse é o que parece ser o pior efeito do fim do centro. Quanto mais extremos formos, sem pesos e contrapesos, mais difícil será para o País fazer qualquer coisa, avançar em qualquer item, chegar a qualquer consenso que ajude em qualquer tipo de evolução como sociedade.
Para quem trabalha com Comunicação ou mesmo para quem consome informação, o desafio é viver nesse mundo onde a verdade não é ditada por pessoas com autoridade, como um cientista, especialista ou fonte primária — ela é ditada por uma centenas de rede sociais diferentes e anônimas.
E o que acontece em redes sociais anônimas? — as pessoas gritam mais alto para se transformarem na autoridade daqueles grupos. Quanto mais as pessoas gritam, mais extremo o grupo se torna — porque as outras pessoas também precisam gritar para parecer autoridades.
Para piorar, mesmo a direita e a esquerda mal existem como ideias propriamente formuladas — #Bolsonaro acabou com a direita que tendia mais ao centro, o mesmo feito de Trump nos EUA, enquanto o fim melancólico de #Lula destruiu o que se chamava de esquerda no Brasil.
Sem referências, opostos se transformaram em extremos e o centro morreu. O centro hoje é o lugar do "establishment", do "meio-termo", do "em cima do muro", do "vendido", um espaço que político algum quer ocupar — e nem mesmo os eleitores parecem confortáveis em morar.
Só que sem centro, vale tudo. Eu nunca achei que ia ouvir de amigos comentários xenófobos e racistas, mas hoje esses comentários aparecem naturalmente porque já foram normalizados. Não é por acaso que acabamos de ver genocídio em tribo indígena.
A sociedade acaba sendo um reflexo do discurso público extremista, e hoje é normal falar que índios não importam ("Ele devia ir comer um capim ali fora para manter as suas origens.” BOLSONARO, Jair, 2008). Imagine então daqui a 10, 20, 30 anos?
Se você precisa ser mais polarizado e extremista do que Trump, Bolsonaro ou Boris Johnson, como será essa classe política que precisará representar sociedades para que elas possam realmente avançar? Onde vamos nos encontrar?
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