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1. DESIGUALDADE VS DESIGUALDADE

O livro "Arriscando a própria pele" do Nassim Taleb é uma obra de arte. Fica muito claro como #skininthegame funciona, e pq certos tipos de gente odeiam esse conceito. Recomendo todos a ler com calma. O capítulo 7, em específico é excepcional.
2. Transcrevo algumas partes, para se pensar:

Há desigualdades e desigualdades.

A primeira é a desigualdade que as pessoas toleram, por exemplo, o entendimento de um indivíduo comparado ao de pessoas consideradas heróis - digamos, Einstein, Michelangelo...
3. ... ou o recluso matemático Grisha Perelman. Não é difícil reconhecer a superioridade deles. Isso se aplica a empresários, artistas, soldados, heróis, Bob Dylan, Sócrates, o atual chef-celebridade local, algum imperador romano de boa reputação, a exemplo de Marco Aurélio;
4. ...em resumo, aqueles de quem alguém pode naturalmente ser um fã. Você talvez goste de imitá-los, pode aspirar a ser como eles, mas não se ressente.
5. A segunda é a desigualdade que as pessoas consideram intolerável porque o sujeito parece ser apenas uma pessoa como você, exceto pelo fato de que ele vem manipulando o sistema e se metendo em negócio de rent-seeking,...
6. ...adquirindo privilégios injustificados - e, embora ele tenha algo que você não se importaria de ter (o que pode incluir uma namorada russa), você não é capaz de se tornar seu fã.
7. A última categoria inclui banqueiros, burocratas que ficam ricos, ex-senadores que fazem lobby para a maligna Monsanto, executivos-chefes de barba feita que usam gravatas e âncoras e apresentadores de jornal que ganham bônus descomunais. Você não apenas os inveja;
8. ...você se ofende com a fama deles, e a visão do carro caro, ou até mesmo um pouco mais caro que o normal, deles desencadeia certa amargura. Eles fazem com que você se sinta inferior.
9. A escritora Joan C . Williams, em um artigo perspicaz, explica que a classe trabalhadora estadunidense está impressionada com os ricos, como exemplos de vida e de comportamento, modelos a serem seguidos - algo que as pessoas na mídia, que se comunicam umas com as outras mas...
10. ...raramente com sujeitos no mundo real, não percebem, à medida que transmitem ideias normativas para as pessoas ("é assim que elas devem pensar"). Michèle Lamont, a autora de The Dignity of Working Men [A dignidade dos trabalhadores], citada por Williams,...
11. ...fez uma entrevista sistemática com operários norte-americanos e constatou um ressentimento com relação a profissionais liberais bem remunerados, mas, inesperadamente, não com os ricos.
12. É seguro dizer que o público norte-americano - na verdade, todos os públicos - despreza as pessoas que ganham um salário alto, ou melhor, assalariados que ganham muito dinheiro.
13. Na verdade, isso é generalizado para outros países: há alguns anos, os suíços, logo eles, votaram em um referendo nacional um projeto de lei que visava a limitar o salário dos altos executivos do país a um múltiplo do piso salarial.
14. A lei não foi aprovada, mas o fato de eles pensarem nesses termos é bastante significativo. Pois entre os mesmos suíços há empresários riquíssimos, e pessoas que obtiveram sua celebridade por outros meios, em algum aspecto.
15. Além disso, em países onde a riqueza vem do rent-seeking , do clientelismo político ou da captura regulatória (que, lembro ao leitor, é como os poderosos e os favorecidos com informações privilegiadas usam a regulamentação para enganar o público, ou...
16. ...a burocracia para retardar a concorrência), a riqueza é vista como soma zero. O que Pedro recebe é tirado de Paulo. Alguém que fica rico está enriquecendo às custas de outras pessoas.
17. Em países como os EUA, onde a riqueza pode vir da destruição, as pessoas podem facilmente ver que alguém que enriquece não está tirando dólares do bolso; se duvidar está até colocando algumas cédulas no seu bolso. Por outro lado, a desigualdade, por definição, é soma zero.
18. Neste capítulo, proporei que aquilo de que as pessoas se ressentem - ou o que deveria ofendê-las e melindrá-las - é o indivíduo que está no topo mas não arrisca a própria pele , isto é, porque não arca com seu quinhão de risco, ele é imune à possibilidade...
19. ...de cair de seu pedestal, saindo de sua faixa de renda ou riqueza e esperando na calçada na fila do seguro-desemprego.
20. Novamente, por conta disso, os detratores de Donald Trump, quando ele ainda era candidato, não apenas entenderam mal o valor das cicatrizes como sinalização de risco, mas também não conseguiram perceber que, ao alardear o episódio de sua falência e seus prejuízos...
21. ...pessoais beirando o 1 bilhão de dólares, Trump eliminou o ressentimento (o segundo tipo de desigualdade) que as pessoas poderiam ter em relação a ele. Há algo de respeitável em perder 1 bilhão de dólares, contanto que seja seu próprio dinheiro.
22. Além disso, alguém que não arrisca a própria pele - digamos, um executivo corporativo em tendência de alta, com resultados positivos e nenhum risco de baixa (o tipo que fala claramente nas reuniões) - é pago de acordo com algumas métricas que não refletem...
23. ...necessariamente a saúde de sua empresa; ele pode manipulá-las, ocultar riscos, receber o bônus, depois se aposentar (ou fazer a mesma coisa em outra empresa) e culpar seu sucessor por resultados subsequentes.
24. No processo, tbém redefiniremos a desigualdade e fundamentaremos a noção em bases mais rigorosas. Mas primeiro precisamos introduzir a diferença entre 2 tipos de enfoque, o estático e o dinâmico, já q arriscar a própria pele pode transformar um tipo de desigualdade em outro.
25. Atentemos também para estas duas observações:

A verdadeira igualdade é igualdade na probabilidade.

e

Arriscar a própria pele impede que os sistemas apodreçam.
26. Se os intelectuais estão excessivamente preocupados com a desigualdade, é porque tendem a ver a si mesmos em termos hierárquicos e, portanto, pensam que os outros também o fazem.
27. Além disso, como que por patologia, as
discussões em universidades "competitivas" giram todas em torno da hierarquia. A maioria das pessoas no mundo real não fica obcecada com isso.
28. No passado mais rural, a inveja era bastante controlada; os ricos não eram tão expostos a outras pessoas de sua classe. Não sofriam a pressão para manter o mesmo nível de vida de outros ricos e competir com eles.
29. Os ricos permaneciam nos limites de sua região, rodeados de pessoas que dependiam deles - um lorde em sua propriedade, por exemplo. Exceto pela
ocasional temporada nas cidades, sua vida social era bastante vertical. Seus filhos brincavam com os filhos dos servos.
30. Foi em ambientes mercantis urbanos que ocorreu a socialização dentro das classes sociais. E, com o passar do tempo, com a industrialização, os ricos começaram a se deslocar para cidades ou subúrbios, cercando-se de pessoas em condição similar a sua, mas não completamente.
31. Por isso, não podiam ficar para trás e precisavam manter-se no mesmo nível dos outros, correndo em uma esteira. Para uma pessoa rica isolada da socialização vertical com os pobres, os pobres tornam-se algo inteiramente teórico, uma referência de livros didáticos.
32. Como mencionei no capítulo anterior, ainda estou para ver um decano bien pensant de Cambridge saindo para beber com taxistas paquistaneses ou levantando peso na companhia de falantes do dialeto cockney.
33. A intelligentsia, portanto, sente-se no direito de lidar com os pobres como um constructo; uma construção puramente mental que eles mesmos criaram. Assim, eles se convencem de que sabem o que é melhor para eles.
34. Há uma cruel dependência de domínio de conhecimentos especializados: o eletricista, o dentista, o estudioso de verbos irregulares do português, o
assistente de colonoscopista, o taxista em Londres e...
35. ...o geômetra algébrico são especialistas (mais ou menos algumas variações locais), ao passo que o
jornalista, o burocrata do Departamento de Estado, o psicólogo clínico, o teórico da administração, o editor-executivo e o macroeconomista, não.
36. Isso nos permite responder às perguntas: Quem é o verdadeiro especialista? Quem decide quem é e quem não é um especialista? Onde está o metaespecialista?
O tempo é o especialista. Ou melhor, a temperamental e implacável Lindy, como vemos no próximo capítulo.
37...

Enfim, é um puta livro bom.

#skininthegame traz justiça ao sistema.
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