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Por que as pessoas chamam a capital de "Parahyba" ao invés de "João Pessoa"?
⚠️Uma thread necessária! ⚠️ Bandeira alternativa da Paraíba proposta por @lucicorno
A thread é um pouco longa, então antes de ler, deixa logo teu RT, curte e segue a gente, pra que essa informação chegue a o maior número de pessoas possíveis!

Também recomendo a última thread que fizemos sobre o Movimento Jaguaribe Carne. 👇
Essa thread foi de longe a mais pedida e talvez seja a mais necessária. É muito comum ver as pessoas negando (rsrs) a atual bandeira do estado da Paraíba e o nome da capital, mas você sabe o por quê?
Pra entender melhor, vamos voltar um pouquinho no tempo. Essa história conta com muitos personagens ilustres e até aleatórios se analisarmos fora de contexto.
Mas bora lá, com calma a gente entende.
Bom, se você não lembra das aulas de história do ensino fundamental, a gente te refresca rapidamente de como era o país no início do século passado. O Brasil tinha recém saído do Império e começou a ser República em um golpe dado pelo Marechal Deodoro da Fonseca em 1889.
Isso significa q pela primeira vez o povo brasileiro teve participação direta na política nacional, a liderança maior do Brasil agora era decidida pelo voto popular, e não era hereditária e vitalícia como nos tempos do Brasil império. O poder agora era alternado a cada 4 anos.
Pra um país como o nosso, onde as elites oligarcas sempre quiseram controlar tudo pelo bem dos "negócios", vocês acham que essa primeira república foi 100% democrática? KKKKK só lamento moreh
O que aconteceu foi isso mesmo que você pensou: Compra e fraude de votos, ameaças pra quem não votasse no candidato do patrão (voto de cabresto) grandes fazendeiros (coronéis) usando do poder pra ter mais poder... O voto ainda não era secreto e nem tínhamos justiça eleitoral.
Nesse grande acordo nacional, com supremo, com tudo, essa elite fez um acordo sobre a manutenção dessa república, ou seja, pra não dar briga, os presidentes seriam mineiros e paulistas,

Alternados a cada mandato.
E assim surge o famoso nome: República do Café com Leite, devido a Minas ser referência na produção de leite, e São Paulo, de café.
O negócio era tão bagunçado, as eleições eram tão fraudadas, que o maior exemplo dessa bagunça foi a forma que o primeiro paraibano chegou ao poder federal.
Em 1918, o vencedor das eleições presidenciais, o paulista Rodrigues Alves, MORREU, vítima da pandemia de gripe espanhola. Ele ficou marcado por ter minimizado e subestimado a pandemia.
Daí se instala o caos nessa república, quem seria o sucessor? Um paulista, ou um mineiro? O opositor baiano Ruy Barbosa já tava correndo o país em campanha se preparando caso houvesse uma nova eleição.
Pra apaziguar as coisas entre São Paulo e Minas, e não permitir que o Ruy Barbosa chegasse ao poder, os café com leite decidem a favor da neutralidade de um Paraibano em 1919. O Epitácio Pessoa.
E o cara ganhou mesmo! 😱 Com 70% dos votos. Detalhe é que ele nem fez campanha, e nem no Brasil estava na época. Lá de Paris recebeu a notícia de que seria presidente. Se Paris já é longe hoje, imagina naquele tempo?

Esse meme do @HistoriaNoPaint explica bem o que houve.
Dez anos depois, uma nova crise surge entre os café com leite. O presidente em 1929 era o paulista Washington Luís, quando outro paulista, o Júlio Prestes, decide se candidatar. Rompendo o acordo de que os mineiros deveriam ser os próximos candidatos.
Assim como aconteceu na outra crise com Ruy Barbosa, a oposição dessa vez era formada pelo gaúcho Getúlio Vargas, que obteve o apoio de outras elites oligarcas do país que também queriam participar do governo federal.
Afinal, já eram 40 anos nesse lenga lenga.
E, se em 19 os paulistas recorreram a um paraibano de sobrenome “Pessoa” pra acalmar os nervos, em 29 não foi diferente, e foram atrás do sobrinho do Epitácio, um tal de João Pessoa, que era presidente do estado da Paraíba, para ser o vice de Júlio Prestes na chapa de situação.
(O governador também era chamado de presidente na época)
Mas, João Pessoa NEGOU o apoio a Júlio prestes, e foi ser vice da oposição, Getúlio Vargas. Deixando os cara full pistola. Daí veio o famoso "NEGO", que hoje tá na bandeira da Paraíba.
Mas, quem era esse governador, e o que estava acontecendo na Paraíba nesse tempo?
Pra entender, vamos voltar alguns anos.
Na metade dos anos 20, o estado era governado por João Suassuna. Você deve conhecer esse nome devido ao Aeroporto de Campina Grande João Suassuna, mas além disso, João Suassuna é o pai do poeta, fundador do Movimento Armorial e autor do "Auto da Compadecida" Ariano Suassuna.
Enquanto isso, João Pessoa era ministro do Superior Tribunal Militar, foi indicado ainda no governo do tio, Epitácio, por ter sido auditor geral da Marinha e ter boas relações com os militares.
Ele estudou na Escola Militar da Praia Vermelha, que se vocês pesquisarem bem, foi o local onde a maioria dos ideais golpistas do Brasil nasceram, e de lá saíram os generais das ditaduras do Estado Novo de 1937 e da Ditadura militar de 1964.
Em 1928 João Pessoa renuncia do Supremo Tribunal Militar para se candidatar ao governo do estado.
Era o embate direto entre duas visões de Paraíba.
Pelas palavras de Ariano Suassuna: “Pessoa representava a classe média das cidades e da capital, e estava na vanguarda. Meu pai, no entanto, representava os sertanejos e o status quo. Pode-se dizer que eles foram os dois últimos senhores feudais do sertão."
Como não havia reeleição naquela época, João Suassuna é sucedido por João Pessoa, após um grande esforço do tio Epitácio para obter apoio. Ele venceu (só tinha ele de candidato mesmo) e inicia um governo bastante conturbado.
De cara ele começou declarando guerra ao cangaço, priorizando, nas suas palavras: “o extermínio do banditismo rural”. É evidente essa preocupação, visto q os cangaceiros “vingavam” os coronéis poderosos do sertão, e João Pessoa, queria defender as outras oligarquias também 🥰
Ele iníciou as obras do novo porto de cabedelo, já que até então o porto do estado era localizado no Porto do capim. (aliás, pare, olhe, escute, e viva o porto do capim!)
Isso foi estratégico, já que fazendo um grande porto ele deslocava a hegemonia do comércio para o litoral. Foto de Roan Nascimento @incomodante
Porém, ao mesmo tempo, ele criou um sistema absurdo de arrecadação de impostos pra todas as mercadorias terrestres que viessem do interior para o porto de Recife.
Além de pagar pra passar pela fronteira, as estradas tinham porteiras de 20km em 20km que te cobravam um imposto pra cada mercadoria, só pra você passar por elas.

Menino Jampa criou o pedágio no Brasil.
É óbvio que arrecadando tanto imposto os cofres estivessem cheios. Ele reativou obras paradas, quitou as dívidas, e construiu estradas ligando municípios. Porém, sua popularidade na época era considerada baixa, e frequentemente alguém rompia com ele, e ia pro lado da oposição.
Os altos impostos deixaram a população p* da vida, do simples comerciante aos grandes coronéis, o cara irritou até a própria família e os aliados do interior, em especial o Coronel José Pereira de Lima, q era tido como o mais poderoso e um dos mais influentes do nordeste na época
José Pereira de Lima tinha seu berço político na cidade de Princesa Isabel. E essa tensão culminou na Revolta de Princesa, q não vamos nos aprofundar aqui pq vai ter uma thread só pra ela, mas aí vai um spoiler, Princesa declarou sua independência e virou um estado!
Mas o movimento foi duramente reprimido por João Pessoa, com apoio do atual presidente Washington Luís.
Com a desculpa de sufocar a revolta, John Person (João Pessoa tá gente, é que esse nome dá ranço) mandou a polícia da paraíba invadir casas e escritórios suspeitos de estocar armas da revolta. Na real mesmo ele aproveitou disso pra pressionar e perseguir opositores.
Um desses opositores aliado de José Pereira de Lima era João Dantas. Primo de João Suassuna, ambos estavam sendo perseguidos e tiveram que fugir pra Recife devido a toda essa repressão.

Ariano Suassuna fala nessa entrevista sobre esse momento da sua vida, e suas memórias.
A polícia invade a casa de João Dantas e não encontra nada que o incrimine. Porém, encontra cartas de amor, algumas delas bem íntimas, que João Dantas trocava com sua amante na época, a poetisa Anayde Beiriz.
Anayde era uma mulher incrível, com ideais revolucionários semelhantes ao atual feminismo, e que tinha uma certa influência na capital. Uma poetisa que ia contra os padrões conservadores, e incomodava a classe política com idéias polêmicas a época como a de “mulheres na política”
Como um elitista, oligarca e autoritário que era, João Pessoa viu ali uma bela oportunidade de manchar a imagem de Anayde, e também de fazer um exposed do João Dantas, antecedendo Léo Dias e lançando a moda de mostrar que consegue acesso a qualquer informação através de "fontes"
E assim, ele fez. Publicou as cartas no Jornal “A União”, tornando público cartas de conteúdo intimo, e causando um bafafá na sociedade (que se já é conservadora hoje, imagine naquele tempo).
Nessa mesma época, Getúlio Vargas perde a eleição para Júlio prestes, em mais uma votação duvidosa dentre as tantas que já aconteceram na república do café com leite, que naquele momento já estava a quase 40 anos no poder da república.
Getúlio fica puto, e começa a conseguir apoio dos militares, e dos políticos fora do eixo SP-Minas, pra dar um golpe antes de Júlio assumir. Porém, pra que isso acontecesse, faltava o apoio mais importante,

O apoio popular.
Eis que na manhã de 26 de Julho de 1930, João Pessoa vai a Recife para visitar um amigo hospitalizado, e encontrar apoiadores. Enquanto almoçava na Confeitaria Glória, leva três tiros de um homem que entrou de repente.

Com tanta gente puta c ele, quem teria o matado, e por que?
Parece a 1temp de Elite, mas não é. Essa morte era tudo que Getúlio Vargas precisava e pouco importava quem tinha o matado e por quais motivos. Era a chance de trazer a comoção popular e construir a figura de um mito, um mártir.
Pra fazer isso, ele teve a ajuda de um elemento importante nos golpes, a mídia.
O paraibano Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados teve a ideia de embalsamar o corpo de JP e sair de capital em capital até o Rio de Janeiro, fazendo discursos calorosos com a presença do corpo, jogando a culpa em Washington Luís, Júlio Prestes, e João Suassuna.
Ele sempre foi opositor da república café com leite, e viu em Getúlio uma oportunidade de ouro, de oferecer apoio em troca de benefícios em seu governo. Não é atoa em anos mais tarde, em 1950, ele funda a TV Tupi, primeira televisão do Brasil, no Governo Getúlio Vargas.
Todos sabiam que João dantas que tinha matado João Pessoa por questões pessoais. Mas a mentira foi mais forte que a verdade. A Assembléia Legislativa muda o nome da capital, que era “Parahyba” para “João Pessoa”
Alteram a bandeira do estado, representando agora o sangue, o luto e o “nego”, que João Pessoa deu a Júlio Prestes.
Coincidentemente João dantas, se “suicidou” na prisão ainda naquele ano, (essa prática é velha) e Anayde se “auto envenenou” pouco tempo depois, sendo enterrada como indigente no Cemitério de Santo Amaro, em Recife.
João Suassuna foi assassinado pelas costas no Rio de Janeiro, sem saber sequer quem o matou. Tudo isso naquele conturbado 1930.
Bom, o resto da história todos já sabem. Getúlio Vargas dá o golpe, comanda o país por 15 anos seguidos (sendo 8 deles em regime ditatorial), e depois por mais 4 anos concorrendo a eleições diretas.
A paraíba seguiu calada, aceitando a mentira como parte da sua história, e até se orgulhando (como chegamos a ver uma thread um dia desses). Esse processo conturbado começou a ser questionado em 2008.
Um movimento chamado “Paraíba, capital Parahyba”, começou quando o vereador Fuba (isso mesmo, o mesmo Mestre Fuba, fundador do bloco Muriçocas do Miramar) que ocupava sua cadeira na Câmara de Vereadores, decidiu preparar uma cartilha educacional sobre a origem do nome da cidade
Ao decorrer de sua pesquisa, Fuba teve acesso a documentos de livros que foram queimados na época da Revolução de 30, ocultando a história por todos esses anos. Ele então escreve o livro “Parahyba 1930: A verdade omitida”, que acaba se tornando o manifesto do movimento.
Na opinião de Fuba, ter trocado o nome da cidade, a sua bandeira, e ocultar sua história, é um fator que desencadeia enormes problemas para a sociedade paraibana. E é um erro que precisa ser reparado.
A Constituição Estadual da Paraíba, garante a mudança de nome da cidade, porém, é necessário um plebiscito, uma votação popular, proposta pela assembléia.
O próprio Fuba entende que ainda estamos longe do momento ideal para propor essa votação, visto que infelizmente grande parte da população ainda é cega, e chega até a defender o nome com unhas e dentes, sem conhecer a verdadeira história.
Além disso, a família do João Pessoa ainda é bem presente na política paraibana (ah, as famílias, sempre elas…) Exemplo é o político Fernando Milanez, atual secretário de turismo da cidade de João Pessoa, e ex-presidente da câmara municipal, que é sobrinho-neto do João Pessoa.
Milanez diz que mexer no nome da cidade é uma atitude ridícula de desrespeito a história. Indagado sobre o assunto diz que a “homenagem é mais que merecida” e que João Pessoa “mudou a história da nação liderando a revolução de 30.”
Também não enxerga problema na construção do “mito” João pessoa, e diz: “Se não for ele vai ser quem? Se mudar o nome vai mudar pra quê?”
Seu filho, Milanez Neto (PTB) é líder da atual gestão Luciano Cartaxo na câmara, e é pré-candidato a prefeitura da capital em 2020.
O movimento “Paraíba, capital Parahyba” também sofreu duras repressões, com Fuba sendo ameaçado de morte constantemente enquanto escrevia seu livro. “Se o livro sair, eu lhe mato.”

Fuba pediu proteção a polícia e lançou o livro.
Quase doze anos depois, o movimento caminha a passos lentos, com poucas pessoas tendo acesso a essas informações, e sem entender o pq muitos chamam a capital de “Parahyba”.
Esse é um pequeno resumo q pode conter erros e generalizações. Espero que agora você prontamente mude sua bio nas redes sociais, pare de pronunciar esse nome, e sempre que ouvi-lo, lembre de toda essa tragédia em forma de história. Ah, e estude mais sobre!
Essa thread é uma forma de resistir, de lutar pelo nosso estado, e contra essas oligarquias nojentas que se mantém até hoje no poder. Compartilhe com o máximo de pessoas possíveis, informação é o principal fator nessa guerrilha cultural.
E caso alguma viúva que ainda insiste em defender, vier jogar hate aqui pela thread, fique ciente que acreditamos que ideias são a prova de bala.

PARAHYBA! ❤️
Adendo:

Ouçam Imprópria de Chico Limeira, canção que aborda esse tema, vencedora de festival de música e que também rendeu ameaças, como bem lembrado pelo @Delmagalhaes



Aliás @rodrigovizeu dá um punhadinho de atenção aqui, o teu livro ajudou bastante pra gente entender esse período. Eu consigo ler a thread com a tua voz dos podcasts 😂
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