O debate sobre religião na esquerda hoje em dia me dá tanto ranço.

Já tentei entender mais, mas ultimamente... fico mais é esperando a cara de surpresa de geral quando gente como Crivella ganha voto massivo entre a população trabalhadora (que é, adivinhem: religiosa).
De modo mais amplo, meu ranço maior tem sido mesmo com a perspectiva racionalista e secularista dessa galera que enche o peito de superioridade moral pra tratar as experiências religiosas como uma forma de irracionalidade que deveria ser combatida até não existir mais.
Um discurso ignorante e paternalista pra cacete, que ignora a autonomia de consciência e de organização das comunidades religiosas, e que inclusive despreza o componente da espiritualidade como se fosse uma coisa ilegítima, menor que a razão.

Iluminismo porco e puro até o talo.
Agora me digam: cês tão mesmo esperando diálogo com essas pessoas, sendo que o seu olhar, de fora, é um olhar superior, que trata necessariamente como ~alienação~ um dos elementos que são mais centrais no modo como as pessoas organizam suas percepções de mundo?

Boa sorte.
E o que mais me irrita na parada é que a análise quase sempre foca numa crítica ao cristianismo, ao mesmo tempo em que contribui pra própria hegemonia do cristianismo:

1. As críticas reproduzem a mesma visão fundamentalista de religião.

2. SEMPRE invisibilizam outras religiões.
Veja por exemplo o despropósito de gente branca de esquerda falando que ~toda religião é alienante~, num país onde existe o Candomblé, que talvez seja o principal dispositivo de de resistência, organização e manutenção da memória da população negra da Diáspora. É foda.
E aí mesmo no caso do Cristianismo, podemos mencionar a experiência da Teologia da Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base, que têm uma história que praticamente se confunde com a história dos movimentos de luta social na América Latina. Cês enfiam essa memória aonde?
Dá pra discutir perfeitamente todos os problemas reais e estruturais que existem quando a gente fala da cultura histórica de violência e genocídio que é promovida por muitas religiões.

Há inclusive pessoas RELIGIOSAS fazendo esse debate há bastante tempo, com muita propriedade.
Mas se você acha que o problema é as pessoas serem religiosas (como se fosse essa a raiz dos processos de alienação nesses contextos), você precisa sair da sua salinha de estudos e ir ouvir melhor o que essas pessoas têm a dizer sobre si mesmas, pra poder parar de falar merda.
E se você sonha com uma sociedade sem religiosidades ou sem formas de organização religiosa... boa sorte aí pra lidar com a frustração depois.

Espero que você entenda que são visões escrotas que nem essas que vem impedindo muitos dos avanços que a gente precisa fazer.
[Agumas pessoas aqui dizendo que tô pegando uma thread isolada e "generalizando" a crítica.

Desculpa aí, gente. Toda a minha militância, desde a adolescência, foi nos movimentos da esquerda cristã. E não, esse não é um problema isolado. É problema geral na esquerda mesmo.]
(E eu sou de esquerda, viu?

Me assumo assim desde quando tomei consciência do que é luta política, e continuo sendo.

Cuidado com os tweets isolados que vocês vêem printados fora de contexto por aí.)

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More from @musaraujo

25 Aug
Dizem que na vida a gente só tem uma certeza (a da morte) mas nesses últimos dias eu vivi com pelo menos outras duas, absolutas:

1 - Que Livia Zaruty ia responder o meu vídeo.
2 - Que a resposta dela só ia reafirmar as minhas posições.

Um fio aqui pra dizer umas coisas. rs
Pra mim, o AUGE dessa resposta dela foi ela dizendo que eu a estava "atacando", pra depois dizer as mesmas coisas que ela diz, e sustentar as mesmas posições que ela "sustenta"... e aí ela TIROU TRECHOS DO MEU VÍDEO DO CONTEXTO pra tentar se provar.

Vejam só a bizarrice.
Primeiro, usou um trecho em que eu falo das categorias de cor/raça do IBGE, pra dizer que eu estaria repetindo uma coisa que ela já disse... mas deixou de fora a parte em que eu aponto porque essas categorias são problemáticas. Risos.
Read 17 tweets
3 Mar
uma sessão de análise inteira comentando do meu ranço cada vez maior de estar em espaços massivamente ocupados por pessoas brancas
concluímos que eu tenho: razão
faz um tempo já que venho reduzindo minha presença nesses contextos - nem tanto de propósito, mas mais por causa dos rolês e dos projetos em que eu venho me envolvendo mesmo

não é que eu excluí os espaços brancos, é que comecei a priorizar mais os espaços da galera preta
Read 12 tweets
25 Jan
[Sobre querer e não querer.]

Faço terapia já há alguns anos, e na linha da minha terapeuta (psicanálise) a questão do desejo que move a gente é muito importante.

Daí que ela sempre me traz questões assim: por que você fez/não fez isso?; por que você acha que [não] conseguiu?
Tempos atrás, eu tava emperrado com uma questão importante que eu (achava que) tinha que lidar, que tava me gerando muito sofrimento, mas que eu não conseguia me mover pra resolver. Um bloqueio mesmo.

E quando minha terapeuta me perguntava por que, eu nunca tinha a resposta.
Passei MUITAS sessões, muitas mesmo, mais de um ano, falando sobre isso, explorando todas as camadas da minha questão pra tentar entender a raiz do bloqueio, e porque eu não conseguia lidar com ela.

Até que um dia cheguei no seguinte pensamento: "acho que é porque eu não quero".
Read 14 tweets
25 Aug 19
sobre uma galera ecodemagógica aí na defesa do meio ambiente

na hora de defender o direito dos povos indígenas (que são população chave na defesa das florestas)...

eles vão tomar posição?

ou é capaz de condenar indígenas por não serem veganos (como fazem com o candomblé)?
acho importantíssima essa movimentação que tem rolado em torno do debate sobre meio ambiente e defesa das florestas, mas é fundamental que a gente se ligue no fato de que essa pauta, como qualquer outra, sempre pode ser cooptada pra dentro de uma lógica liberal (e branca)
é fundamental mesmo que a gente esteja se preocupando com a Amazônia

mas já que é pra se preocupar, que a gente tome isso seriamente, debatendo estratégias efetivas de mudança da realidade - coisas que vão além do discurso, das hashtags, do "faça sua parte, plante uma árvore"
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12 Mar 19
Essa coisa do Rodrigo Amorim emoldurando a placa de Marielle no gabinete me lembra uma das coisas mais cruéis da história do racismo: a das pessoas que guardavam fotos de negros enforcados, e transformavam em cartões postais colecionáveis. Nossa morte como souvenir.

[Thread]
O linchamento de pessoas negras foi uma prática bizarramente comum na transição do século XIX pro XX nos Estados Unidos, período logo posterior à Guerra Civil. Pessoas negras, vistas como criminosas, eram arbitrariamente agredidas e mortas por multidões.
Era uma prática como as que a gente tem ainda hoje no caso dos "justiceiros": uma pessoa negra é acusada de um crime na rua, e os demais ao redor, movidos por uma lógica de punição, capturam a pessoa, prendem, amarram, espancam e assassinam.
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15 Feb 19
Ainda sobre essa treta da criminalização: não sei como é que tá aí com vocês, mas a maior parte das pessoas que tá discutindo aqui comigo parece não fazer ideia de qual é o modelo de criminalização que tá sendo disputado no STF.

Vou trazer mais algumas infos aqui.
Primeira coisa: o STF não vota leis. Ele não pode propor leis. Isso é função do legislativo, da Câmara dos Deputados e do Senado.

Então não tem lei nenhuma sendo votada, construída ou aprovada lá.

É a primeira coisa que a gente precisa entender.
O STF, que é um tribunal, está fazendo um julgamento, respondendo à solicitação de um grupo de movimentos que entrou no STF com duas ações ligadas à questão da LGBTfobia.

Falarei sobre as ações nos tweets seguintes (se eu estiver enganado, me corrijam).
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