Repostando o texto que escrevi para a Jacobin sobre o cristianismo da libertação para lembrar à companheirada que as religiões, qualquer que seja, são, como quase todas as coisas do mundo humano, "bens equívocos".

jacobin.com.br/2020/08/o-cato…
Ou seja, tanto podem contribuir para que socialidade humana seja mais "humana", enquanto produto cultural que são, como podem, ao contrário, servir para tornar a socialidade humana mais "bruta". Isso serve para a política, para ciência, para praticamente qualquer coisa.
O Enrique Dussel, pessoa sábia e consequente, disse uma vez:

"É ópio do povo uma religião de dominação - como a do faraó. Porém, Moisés creu escutar uma voz de um certo Deus que lhe disse, 'liberte os escravos do Egito' e se esse Deus não existisse, seria bom criá-lo".
O Dussel, claro, sabe que a expressão marxiana "a religião é o ópio do povo" não tem o sentido de "religião de dominação", ele o disse conforme a leitura errônea que foi difundida para mostrar como essa leitura equivocada deve ser rejeitada.
Marx, na entrevista que deu ao Chicago Tribune, diz, com sabedoria também, que "é insensato tomar medidas violentas contra a religião", e reafirma a crença de que conforme a sociedade progrida as religiões iriam "infalivelmente" desaparecer.
Eu discordo disso. Penso que Marx se equivocou. Sou da posição do Max Horkheimer que dizia que a religião jamais desapareceria porque, por melhor que uma sociedade possa ser, há algo contra a qual o ser humano nada pode fazer ou dar resposta suficiente: a morte.
A morte sempre estará aí para a gente. Não importa o avanço da medicina, o ser humano é um ser mortal. Emmanuel Levinas a tinha como uma das primeiras experiências de "alteridade". A morte é esse outro que nunca podemos alcançar e muito menos dominar.
A morte - e principalmente: a morte de Outrem - tem esse quê de transcendência que sempre acompanhará a existência humana.
O Enrique Dussel tem muitos textos sobre religião; deixarei aqui esse livro onde podem ler o capítulo 7, "A arte do oprimido na América Latina", em que ele analisa o uso que o povo faz de sua fé e de sua cultura religiosa como instrumento de libertação.
drive.google.com/file/d/17JbDav…
Outra observação.

Muita gente fala que não se pode equiparar o cristianismo com outras religiões no que concerne às relações com o Estado, como se o cristianismo fosse, por "natureza", uma religião "de Estado".
Bom, em primeiro lugar, é só dar uma conferida em outras regiões do mundo, e em outras épocas, para ver que a "promiscuidade" entre o Estado, ou entre poderes políticos, e a religião não é algo exclusivo do cristianismo e é algo possível a praticamente qualquer religião.
Em segundo lugar, Enrique Dussel tem uma tese muito interessante e que eu penso ser verdadeira. Qual seja:
O cristianismo foi o responsável pela dissociação entre religião (igreja) e Estado uma vez que retirou do Estado o seu fundamento teológico ao não reconhecer no Estado qualquer autoridade religiosa, mas, sim, na comunidade religiosa estrita, a Igreja (e sua hierarquia).
Não possuindo mais fundamentação religiosa, pois a esfera religiosa havia se deslocado a uma instituição particular, autônoma, e fortemente organizada, o Estado entrou num longo processo de secularização.
Isto é, de buscar fundamentar-se sem a necessidade de recorrer à autoridade religiosa – processo que não desconheceu, da parte do cristianismo, contradições ao sacralizar monarquias nas cristandades.
Basta recordar que um dos motivos que levou os romanos lançarem os cristãos aos leões era o não reconhecimento, da parte dos cristãos, da divindade do Imperador e da sacralidade do Império - os cristãos eram "ateus" do Estado.
Nessa tradição cristã de secularização do Estado devemos, sem dúvida, listar Guilherme de Ockham, com o seu "Brevilóquio sobre o principado tirânico", e João Quidort, com "Sobre o poder régio e papal".
Em ambas as obras [e sugiro fortemente a leitura delas, são muito boas] os filósofos medievais argumentavam contra a jurisdição papal nos assuntos seculares, isto é, negavam poder político à Igreja.
Isso, claro, também tinha em vistas negar poder “religioso” aos poderes seculares, ou seja, se procurava afirmar a independência da Igreja frente aos reinos [ao Estado], e não só dos reinos [do Estado] frente à Igreja.
Hegel, diferentemente disso, via o cristianismo como a religião que realiza a unidade do Espírito na história pela unidade da Igreja com o Estado. O cristianismo de Hegel era um cristianismo "paganizado", que, manifestamente, contradizia a fé da igreja primitiva.
Quando Marx diz que "o pressuposto de toda a crítica é a crítica da religião" é contra isso que ele está falando.

O pressuposto de toda a crítica é a crítica contra "o Estado religioso", contra a pretensão do Estado de ser uma entidade divina.
A religião contra a qual Marx se levantava, de fato, era a religião "hegeliana". Marx sabia que o cristianismo, enquanto tal, não era uma religião de Estado.
Quanto a isso, sugiro a leitura desse texto do Dussel, "Crítica política al Estado desde las condiciones materiales: Karl Marx" - é a seção 4 do §10 desse livro.
drive.google.com/file/d/0BwalGp…

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28 Sep
Terminei essa leitura e digo sem medo de errar:

Esse livro é.... uma delícia! Super recomendo, gente amiga. O último capítulo, "A última viagem do Mouro", eu já havia lido na versão em artigo que há, e me emocionei de novo.

Só teria duas pequenas observações. + Image
1. A primeira diz respeito a uma crítica pontual que o Musto faz a Enrique Dussel quando inclui este entre os que, sem razão suficiente, defendem "um rompimento drástico de Max em relação a suas convicções anteriores [a respeito das comunas rurais russas]". pp. 76-77.
Bom, Dussel não pode ser incluído entre estes, pois, de fato, não tem essa posição, e isso se averigua na própria referência que Musto traz de Dussel. Creio que o trecho é claro o bastante, não necessitando de maiores comentários.

El último Marx. Siglo XXI. p. 260. Image
Read 8 tweets
27 Sep
Pequena amostra de como traduções ruins podem nos levar a cometer equívocos significativos.

Deparei-me com esse artigo do Mauro Iasi outro dia, não entrarei aqui na questão principal do texto, mas um trecho me chamou a atenção. +

pcb.org.br/portal2/23326/…
Do que conheço de Hegel, achei bem estranho que o sujeito que uma vez disse que o cristianismo realiza a unidade do Espírito na história pela unidade da Igreja com o Estado [visão distorcida do cristianismo, diga-se de passagem], diga que a religião seja opositora da verdade.
Eu não achei essa edição da Hemus que o Mauro Iasi faz referência, mas achei essa tradução da Edições 70 em que não se fala de "religião" ou "religiosidade", mas do pietismo.
Read 10 tweets
23 Sep
Eu tenho um esboço de critério.

Quando o sujeito enuncia dado falso sobre algo do mundo objetivo e no qual a verificação da veracidade está ao alcance de qualquer outro sujeito, sem que se exija "interpretações", ele mente.
Se o Bolsonaro tivesse dito: "pagamos uma ótima quantia de auxílio emergencial", aí se exige que se interprete o "ótima quantia", pois não é algo "dado" no mundo, exige esclarecimento.
Pode-se achar que 600 reais não seja "ótima quantia", há quem pense que seja "boa", e há quem defende que seja "insuficiente". Cada qual deverá se justificar. Nesse caso, portanto, embora eu pense que 600 reais não seja "ótima quantia", eu diria que o Bolsonaro "exagerou".
Read 6 tweets
20 Sep
O amigo tocou num ponto que eu acho importante: a "memetização" da militância política [agrego: de esquerda].

Há uns anos nós nos ríamos dos direitistas porque tudo eles respondiam com memes, com "mitagens" e etc.

Hoje uma parte da galera de esquerda está praticamente igual.
É uma atmosfera de "jantar" o outro, de "lacrar" em cima do outro, e etc. que em nada contribui para qualquer debate.

O que importa mesmo é buscarmos o esclarecimento mútuo. Ninguém nasce sabendo, ninguém entende tudo de primeira, às vezes nem de segunda ou terceira.
Temos que aprender a renunciar a querer que o outro "se dobre" às nossas razões e argumentos. Dei a minha ideia, o outro deu a dele, cada um está convicto na sua, vida que segue.
Read 6 tweets
11 Sep
Isso se pode qualificar como "hegelianismo" - no sentido pejorativo. Para Hegel, a história era a história do espírito ganhando consciência de si, era a história da desdeterminação das determinações, ou da negação das negações - o negado era a unidade indiferenciada do espírito. Image
Essa desdeterminação das determinações é a totalização das particularidades em totalidades mais "elevadas", que fazem o espírito avançar até a "ideia absoluta": o ser. Em cada época um povo vai levando a realização desse espírito.
A Europa é esse povo na Modernidade. O colonialismo, para Hegel, não seria bem uma "violência", mas a libertação das determinações da "dor da negatividade", de não serem o positivo - de não serem ser, serem "não-ser".
Read 4 tweets
8 Sep
O sujeito está criticando o fato de eu ter qualificado como "lixo liberal" o livro "Como as democracias morrem".

Bem, acontece que Marx, bem dizer, fazia isso sim. Não com relação a Ricardo e a Smith, que respeitava, mas com relação a outros economistas burgueses. + Image
Marx diferenciava quatro graus de decadência [o termo é por minha conta] da economia política burguesa:

1. economia burguesa clássica.
2. economia burguesa vulgar
3. economia burguesa apologética
4. economia burguesa professoral
A economia clássica [na qual se incluem Ricardo e Smith] tinha consciência das suas contradições e as tratava como contradições.

Já a economia vulgar é caracterizada como uma "compilação erudita-sincrética, eclética e carente de caráter" que vai ignorando as contradições.
Read 15 tweets

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