O preço do arroz e feijão fez ressurgir um medo que assombrou os brasileiros por décadas: a carestia, definida como "grande escassez de coisas necessárias à vida" e o decorrente encarecimento do custo de vida.

A inflação na MPB é o tema da minha thread musical deste domingão.
Em 1939, Manezinho Araújo, o "rei da embolada", dava dicas de "inconomia" para fazer frente ao aumento de preços:

Aperta o nó da carestia
Aperta tudo pra fazer economia
Minha família também faz economia
Se alevanta ao meio dia
Pra comer uma vez só

Cauby Peixoto, no seu disco de estreia, em 1951, também reclamava do aumento de custo de vida numa marchinha de carnaval:

"Meu Deus do céu, que carestia,
Pois tudo sobe, sobe, sobe, hoje em dia.
Ai, ai, meu patrão, assim não aguento
Eu quero, eu quero mais aumento
O que eu ganho já não chega,
Ai, ai, pobre de mim,
Lá em casa minha nega toda hora diz assim:
Sobe o feijão, sobe o arroz,
Sobe o leite, a carne e o pão,
Sobe o café, sobe o aluguel,
[Alguém consegue identificar o último verso da estrofe?]

Na onda do começo da exploração espacial, com o lançamento do satélite russo Sputnik, o forrozeiro Ary França viu a solução para o problema da inflação no Brasil, em "Eu vou pra Lua", de 1960:
Já estou enjoado aqui da Terra
Onde o povo a pulso faz regime
A indústria, o roubo, a fome e o crime
Onde os preços aumentam todo dia
O progresso daqui é a carestia
Não adianta mais se fazer crítica
Ninguém acredita na política
Onde o povo vive em agonia
Ainda no forró, no mesmo ano Marinês lançou "Carestia":

Ai, carestia, é tao triste a gente ver
tudo crescendo dia a dia
impedindo o pobre viver
Ai, carestia, se o doutor se incomodasse
fazia que o preço abaixasse
tão bom que ia ser
A vida tá muito difícil, seu moço
imagine que a carne 120 merréis
o feijão tá pelos olhos da cara
uma banana prata por 10 tustão
e uma laranja comum por 2 merréis
tá danado

Em 1964, Tião Carreiro e Pardinho também reclamam da inflação dos alimentos:

Ninguém aguenta com tamanha carestia
Os preços sobem todo dia não se pode mais viver
Há muita gente que faz tanta economia
Estão querendo ver se um dia
Se acostumam sem comer

Num samba de Candeia, Clara e Clementina reclamam do preço do feijão em 1977:

Energia nuclear
O homem subiu à lua
É o que se ouve falar
Mas a fome continua

É o progresso, tia Clementina
Trouxe tanta confusão
Um litro de gasolina
Por cem gramas de feijão

O feijão parece que era o grande vilão da inflação daquele tempo, pois no mesmo ano de 1977 Beth Carvalho gravou "Saco de Feijão":

De que me serve um saco cheio de dinheiro
Pra comprar um quilo de feijão?

Com a inflação saindo do controle, em 1980 Neguinho da Beija-Flor canta a dureza do "Dia-a-Dia" com a inflação:

Olha o guarda mantimentos
E faça uma lista do que não tiver
Depois vá ao mercado
Pra saber os preços
Para que eu lhe possa
Dar o capital
É que a cada dia
Surge um novo aumento
Que as vezes descontrola
A situação
E todo aquele que não faz a lista
Ao chegar ao caixa que decepção

Mete a mão no dinheiro
Não dá
E ter que tirar do carrinho
Não é mole não

No casamento do custo de vida com a inflação, o padrinho era o imposto de renda e a correção monetária a madrinha, segundo Dicró (1980):

Você tá convidado
Pra participar, meu irmão
Do casamento do custo de vida
Com a inflação
Vem meu povão!

Com a redemocratização e o lançamento do Plano Cruzado, iniciou-se uma corrente de otimismo de que o "dragão da inflação" seria finalmente derrotado. "Tem que dar certo" era o slogan do governo Sarney.

Na música, o Cruzado contou com a ajuda até de Bezerra da Silva:

Alô, alô Dona de Casa,
Fiscais do Presidente, se liga,
Tabela de preços na mão,
E vamos lutar contra a inflação.

O resultado, porém, foi um "plano furado", segundo os Ratos do Porão:

Deu tudo errado!
Plano furado
Deu tudo errado!
Novo Cruzado
Ei, Ribamar
Olhe só o que você fez
Sua cabeça vai rolar
Se der errado outra vez
Não adianta congelar
Os produtos vão sumir

Às vésperas do Plano Real, a inflação gera uma sucessão de problemas sociais rimados por Gabriel o Pensador em 1993:

Foi nesse instante em que eu olhei pela janela
E que susto eu levei
Era ela, a inflação estampada na vitrine

Com a adoção do Real, a inflação desaparece também da música brasileira. Num dos poucos registros do período, Pedro Luís e a Parede perguntam:

Um real aí, é um real
Um real aí
é um real aí, é um real
Um real
Com quantos reais se faz uma realidade?

Algumas dessas músicas (e outras mais), estão numa playlist sobre inflação que montei no @SpotifyBR.

E você, lembra de mais alguma canção sobre aumento de preços? Diz aí!

open.spotify.com/playlist/14vio…

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