CONFISSÕES DE SETEMBRO AMARELO

Desde que me conheço por gente, eu lido com um sentimento constante, diário, quase onipresente: ANGÚSTIA. Todos os dias eu a sinto, com ou sem motivo, mais ou menos intensa; e todos os dias, viver depende de negociar com ela.
Não sei o que causa isso, eu não sei de onde ela vem, eu não sei mandar ela embora. Mas ela está aqui, todos os dias, desde que me lembro. Algumas coisas anestesiam e disfarçam: o carinho da esposa, o riso da bebê, a troça com os amigos, a comunhão com a igreja. Mas é temporário.
Às vezes essa angústia me paralisa e me deixa improdutivo; outras vezes, Deus a afoga nos oceanos da graça e consigo me manter alegre apesar do sentimento quase físico que o Espírito me ajuda a ignorar. Com quase 30, já sei que a desgraçada não vai embora e que só resta conviver.
Tem dias, muito raros, que eu penso em morrer; mas os dias que eu penso em desistir de tudo não são tão raros assim. Os que eu acho que o mundo seria melhor sem mim são meio comuns. A angústia gera pensamentos disformes, tão distorcidos quanto podem ser.
Eu consigo lidar intelectualmente com tudo: eu sei que é um sentimento errado, eu sei que minha vida tem valor, eu sei que sou amado, eu sei que faço diferença no mundo. Eu sei, mas é difícil sentir.
Como eu tenho conseguido, lidando com isso por tanto tempo, ser tão produtivo, tão intenso, tão frutífero? Eu demorei para aceitar, mas é tudo uma tentativa de calar essa megera. Cada livro, cada vídeo e cada evento era só um jeito de manter a dor em silêncio. E deu certo.
Eu, workaholic, trabalhador compulsivo, só achei meu anestésico. Podia ser cachaça, podia ser bordel, podia ser maratona de Netflix. Foi trabalho. Todos os 600 vídeos eram o Yago se drogando para sentir menos dessa angústia.
Chegou a hora que o trabalho parou de funcionar, e ficamos eu e ela, sozinhos, constrangidos, como casal que perdeu a intimidade. Angústia e eu, olhando nos olhos um do outro, sem saber o que dizer. Ela me ferindo, e eu sem saber divorciar. Uma propaganda de margarina às avessas.
O que acontece quando você anestesia a dor por duas décadas, e então se vê obrigado a lidar com ela sem opioide para aliviar? Resta a imaturidade emocional, o senso de desespero e inadequação interior. Você cogita a cachaça e o bordel, mas sabe que é a mesma vaca no mesmo brejo.
Mas sabe o que é inacreditável? O que Deus fez até aqui com um homem tão quebrado. Eu tenho um lar saudável, um casamento feliz, uma igreja amorosa, um ministério frutífero e abençoador. Nove livros, e bons livros. 600 vídeos, e bons vídeos. Gente salva, curada e edificada.
Olho para trás e acho graça, nos dois sentidos. A graça do riso e a graça de Deus. Começo a rir, porque pouca gente imagina como tudo até aqui foi inundado de angústia, e percebo a graça divina mostrando que ele é que tem usado esse pedaço de desespero para abençoar tanta gente.
Tenho minhas seguranças, e elas compensam minhas confusões. Tenho o Espírito Santo que eleva meu espírito cansado. Tenho um tesouro insondável que Deus carrega nesse vaso de barro, quebradiço e remendado. Me apegar ao que independe de como eu me sinto até faz eu me sentir melhor.
Você tem depressão? Você se sente mal? Você é fraco? Seus sentimentos são confusos? Se eu servir de consolo, pode olhar para mim. Eu sou um angustiado plenamente funcional na operação sobrenatural da graça. Você pode ser também. Não desiste da batalha e segue firme.
Tudo nessa vida é bagunçado mesmo, e nossos sentimentos têm origens que só Deus conhece. Se cuida. Procura aconselhamento. Entra em um discipulado. Faz terapia. Mas, acima de qualquer coisa, permanece. A promessa é que a dor vai embora, mais cedo ou mais tarde.
Que essa maldita precise engolir tudo de bom que Deus vai operar por seu intermédio, entre um choro e outro, porque no último dia, nosso corpo cansado e nosso emocional destruído estarão diante de Cristo, exultantes, porque não deixamos nossos diabos internos nos pararem.
Vão para o inferno, angústias. Queimem para sempre, depressões. Nosso redentor vai nos encontrar em guerra, e vamos cair atirando enquanto fluir graça dos altos céus.

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3 Feb
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[segue o fio]
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31 Oct 19
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