Aliás, gostaria de fazer uma ressalva sobre essa história do Losurdo - ao menos do livro que li gostei, a Contra-Historia. Há diferenças entre os princípios abstratos de qualquer ideologia e sua aplicação concreta mas circunstâncias de tempo e espaço. (segue) 👇
O que ele mostra - pelo menos o que me chamou a atenção - é que o liberalismo, a despeito de seu universalismo, também foi, como todas as ideologias europeias até recentemente - bastante etnocêntrico, elitista, excludente etc.
Mas isso não é razão para não ser politicamente liberal, e abraçar doutrinas autoritárias. As mesmas vicissitudes de tempo e espaço tiveram outras ideologias. Eu não concebo democracia sem liberalismo político, ou seja, defesa do Estado de direito.
O esforço todo do liberalismo desde a Segunda Guerra Mundial foi o de provar que ele pode transcender etnocentrismo e elitismo, para incorporar um número crescente de seres humanos, sem restrições culturais.
Todas as ideologias se adaptam, não são imutáveis ou petrificadas. Basta ler autores do liberalismo político contemporâneo, como Ralws e afins. Liberdade contemplando cenários de crescente igualdade. Isso também é liberalismo.
Foi o liberalismo que inaugurou a ideia de igualdade, contra o privilégio do Antigo Regime. Depois a questão da igualdade vai se tornando mais central com o liberalismo social, até que você compatibiliza o liberalismo com a ideia de planejamento econômico, depois da 2a. Guerra.
Ou seja, liberalismo democrático é liberalismo ocupado com a criação de cada vez mais espaço para a igualdade. Sem condições mínimas de igualdade, não há como haver liberdade para o maior número.
Por isso diversas autores, como Michel Freeden, não consideram o tal neoliberalismo ou libertarianismo de mercado como liberalismo, mas como híbrido desde último com conservadorismo. Porque se contenta com um igualitarismo puramente formal, para justificar a desigualdade.
Então, para retomar o argumento, eu li o livro do Losurdo como um livro que mostra os percalços históricos do liberalismo em sua aplicação concreta em tempos pré-democráticos, colonialistas, racistas, oligárquicos. Não o li toscamente como "desmascarando" os princípios liberais
Nesse sentido, é que achei o livro muito interessante, e a parte específica referente à aplicação do liberalismo da fase oligárquica no sul dos EUA me serviu para pensar o Brasil do século 19, como uma "democracia para o povo de senhores".
Mas o liberalismo não "é" aquilo. Como o(s) socialismo(s) de hoje também não tem necessariamente as limitações etnocentricas que também podem ser encontradas em certos textos marxistas do século 19 e do começo do século 20
Enfim, o livro do Losurdo me mostrou o lado B do liberalismo no passado e que seu mau uso pode ter no presente por parte de quem assim agir. Não invalidou na minha cabeça a validade de princípios de democracia, liberdade, Estado de direito, tolerância, respeito, progresso etc
Isso foi o que me ficou da leitura do livro (que aliás só fala do liberalismo até 1914). Falo de memória, porque o li há mais dez anos e me serviu para pensar meus próprios problemas de pesquisa relativos ao liberalismo pre-democrático no Brasil e seus eventuais resquícios hoje.
Agora, cada leitor lê a partir de determinados interesses e focos muito variados. O que importa é que o livro me serviu bem para pensar o liberalismo a contrapelo. Comprei depois o Bonapartismo e Democracia, mas este já não me interessou tanto.
Era isso o que eu tinha a dizer sobre essa treta. Uma experiência pessoal positiva com um livro do Losurdo. Abraços
O esforço todo do liberalismo desde a Segunda Guerra Mundial foi o de provar que ele pode transcender etnocentrismo e elitismo, para incorporar um número crescente de seres humanos, sem restrições culturais.
Todas as ideologias se adaptam, não são imutáveis ou petrificadas. Basta ler autores do liberalismo político contemporâneo, como Ralws e afins. Liberdade contemplando cenários de crescente igualdade. Isso também é liberalismo.
Foi o liberalismo que inaugurou a ideia de igualdade, contra o privilégio do Antigo Regime. Depois a questão da igualdade vai se tornando mais central com o liberalismo social, até que você compatibiliza o liberalismo com a ideia de planejamento econômico, depois da 2a. Guerra.
Ou seja, liberalismo democrático é liberalismo ocupado com a criação de cada vez mais espaço para a igualdade. Sem condições mínimas de igualdade, não há como haver liberdade para o maior número.
Por isso diversas autores, como Michael Freeden, não consideram o tal neoliberalismo ou libertarianismo de mercado como liberalismo, mas como híbrido desde último com conservadorismo. Porque se contenta com um igualitarismo puramente formal, para justificar a desigualdade.
Então, para retomar o argumento, eu li o livro do Losurdo como um livro que mostra os percalços históricos do liberalismo em sua aplicação concreta em tempos pré-democráticos, colonialistas, racistas, oligárquicos. Não o li toscamente como "desmascarando" os princípios liberais
Nesse sentido, é que achei o livro muito interessante, e a parte específica referente à aplicação do liberalismo da fase oligárquica no sul dos EUA me serviu para pensar o Brasil do século 19, como uma "democracia para o povo de senhores".
Mas o liberalismo não "é" aquilo. Como o(s) socialismo(s) de hoje também não tem necessariamente as limitações etnocentricas que também podem ser encontradas em certos textos marxistas do século 19 e do começo do século 20
Enfim, o livro do Losurdo me mostrou o lado B do liberalismo no passado e que seu mau uso pode ter no presente por parte de quem assim agir. Não invalidou na minha cabeça a validade de princípios de democracia, liberdade, Estado de direito, tolerância, respeito, progresso etc
Isso foi o que me ficou da leitura do livro (que aliás só fala do liberalismo até 1914). Falo de memória, porque o li há mais dez anos e me serviu para pensar meus próprios problemas de pesquisa relativos ao liberalismo pre-democrático no Brasil e seus eventuais resquícios hoje.
Agora, cada leitor lê a partir de determinados interesses e focos muito variados. O que importa é que o livro me serviu bem para pensar o liberalismo a contrapelo. Comprei depois o Bonapartismo e Democracia, mas este já não me interessou tanto.
Era o que eu tinha a dizer sobre essa treta. Uma experiência pessoal positiva com um livro do Losurdo. Abraços

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21 Sep
RETÓRICA LIBERTÁRIA OU NEOLIBERAIS.

1) TUDO TEM QUE PIORAR ANTES DE MELHORAR: Não existe ajuste econômico sem sofrimento ou uma piora nas condições de vida dos pobres num primeiro momento, portanto
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14 Sep
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10 Aug
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28 Jul
DEMOCRACIA E COMUNICAÇÃO. Ninguem tem o direito constitucional de se manifestar publicamente sob o manto do anonimato. Sua vedação decorre do princípio da liberdade de expressão, que se compensa pela possibilidade de identificação e responsabilização.
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