89. RELAÇÕES BRASIL - ESTADO DE ISRAEL

Relações que trazem muito o que falar, então a história de Israel em si deixei "de lado", apesar de falar muito sobre ela, já que a história das relações volta e meia se encontra com a história do país em si. Vamos lá!
O Brasil teve participação importantíssima na criação do Estado de Israel em 1947. Oswaldo Aranha, ex chanceler brasileiro, então presidente da Assembleia Geral da ONU e representante brasileiro na ONU, foi um dos idealizadores da criação de 2 Estados na repartição da Palestina
Sua atuação é considerada fundamental na criação do Estado de Israel. Mas seu sonho era que a partilha criasse paz na região, coexistindo a Palestina e Israel (o que sabemos que não se alcançou, ainda). Isso para dizer que ele não era pró-Israel e anti-Palestina
Mas até hoje a população de Israel vê com muita admiração Oswaldo Aranha e o Brasil.
O Brasil foi inclusive um dos primeiros países a reconhecer a criação do Estado de Israel em 1949 e estabelecer relações diplomáticas.
Em 1962 o Brasil firmou um acordo de parceira tecnológica com Israel e quase ao mesmo tempo o Brasil firma acordos com países árabes da região. Isso é exemplo de que o Brasil não tomava partido, nem pró-árabes nem pró-Israel.
Mas essa parceria com Israel contribuiu para o desenvolvimento da agricultura do semi-árido, por meio da difusão de técnicas de irrigação em regiões do Nordeste brasileiro
Alguns anos mais tarde, em 1967, o Brasil, como membro não-permanente do Conselho de Segurança, votou favoravelmente à Resolução 242 (1967), marco do processo de paz na região após a Guerra dos Seis Dias entre Israel e países como Jordânia, Egito e Síria
O apoio brasileiro à Resolução foi muito elogiado por Israel à época.
Só que ao mesmo tempo, o Brasil não possuía uma relação muito próxima de Israel. Na verdade o Brasil era meio ausente nos assuntos do Oriente Médio, mas sua omissão era vista como benéfica à Israel, até pelo alinhamento aos EUA, que viria nos primeiros anos de ditadura militar.
No período militar brasileiro, inicialmente podemos destacar a cooperação entre os países pelo uso pacífico de tecnologia nuclear em 1966, o que parecia até um ponto de aproximação.
Mas tudo vai um pouco por água abaixo no governo de Ernesto Geisel (1974-1979), que diante dos choques do petróleo de 1973 e 1979, se aproxima como nunca dos países árabes, sem fazer o mesmo movimento em direção à Israel.
Assim, em 1974, o Brasil reconhece a OLP (Organização pela Libertação da Palestina), considerado por muitos países como Israel e EUA como uma organização terrorista.
Já em 1975, o BR votou a favor da Resolução 3379 da Assembleia Geral da ONU que condena o sionismo (um movimento em prol do Estado Judeu) como uma forma de racismo, o que separou de vez o Brasil e Israel, o que durou até os anos 1990.
Durante os anos 1990 não que tenha ocorrido uma aproximação à Israel, mas o Brasil se distanciou dos países árabes, voltando a balança para a estaca 0.
Israel volta à órbita da política externa brasileira com o governo Lula.
Por mais que queiram lhe fazer acreditar, a política externa lulista não foi distante de Israel e muito menos contra Israel. Lula conseguiu desenvolver uma intensa parceria com o país judeu.
O que faz muita gente achar que o governo Lula foi contra Israel é porque enquanto ele intensificava as relações com Israel, ele fazia a mesma coisa com os países árabes, mas é como nos anos 1950 e 60, o Brasil não tomava partido e buscava a resolução pacífica do conflito.
Exemplo disso são as inúmeras parcerias em tecnologia que o Brasil firmou com Israel no período, mas também o êxito em firmar um acordo de livre comércio entre Israel e Mercosul em 2007
Em seguida, Lula foi o primeiro presidente brasileiro, desde os anos 1960, a receber um presidente israelense. Shimon Peres veio ao Brasil em 2009, momento em que os presidentes tiveram a oportunidade de falar sobre a paz no oriente médio e os interesses em comum sobre o processo
Em 2010 Lula retribuiu a visita e foi à Israel, se tornando o primeiro presidente brasileiro a fazer essa visita.
Vou dizer, todas essas visitas tiveram polêmicas, principalmente ao tratar sobre países rivais de Israel, como o Irã, que o Brasil mantinha relações igualmente próximas. Mas isso acontecia também no contrário, sobre as relações com Israel.
O que acontecia era que o Brasil tentava pela primeira vez fazer parte do jogo geopolítico do Oriente Médio, sem tomar partido, mas tentando promover a paz, por meio do diálogo com os dois lados.
Para o prestígio brasileiro, esse política teve frutos.
No nível dos ministérios, Celso Amorim havia quebrado um hiato de 10 anos sem visitas de chanceleres brasileiros à Israel, em 2005. Ele ainda voltaria por mais 4 vezes à Israel (2008, 2009, 2010 2x)
Nos últimos anos, os também receberam visitas de uma série de Ministros, com destaque para os titulares das pastas de integração regional, agricultura, segurança pública, educação, e indústria e comércio.
Isso só mostra que o Brasil não, não estava distante de Israel durante o governo Lula. Talvez estivesse mais próximo que nunca.
Já no governo Dilma, sim, o Brasil se afastou um pouco de Israel, uma vez que Dilma tomou uma posição mais crítica às ações israelenses, principalmente na Faixa de Gaza. Isso ficou claro quando Dilma rejeitou a nomeação do embaixador israelense no Brasil em 2014 por (+)
ter relações com os assentamentos israelenses em Gaza, que Dilma mesmo chamou de "massacre" (bbc.com/portuguese/not…)
Esse impasse levou 14 meses. Somente em 2016 que um novo embaixador israelense foi aceito pelo Brasil.
É também com o governo Dilma que temos o famoso caso do "anão diplomático", quando Dilma chama o embaixador brasileiro em Tel Aviv para consultas (+)
diante dos ataques militares israelenses em Gaza, o que foi muito mal visto por Israel, na verdade visto como uma afronta, causando a declaração de um ministro israelense, chamando o Brasil de "anão diplomático".
Essa situação somente foi resolvida dias depois com a ligação do presidente de Israel, Reuven Rivlin, para Dilma, pedindo desculpas oficiais.
É de se dizer que antes do acontecimento de 2014, o governo Dilma, apesar de não ter tido o mesmo vigor que Lula nas relações, havia até mantido uma certa aproximação, com a visita de Antonio Patriota à Israel em 2012
Já com Temer, as relações ficaram mais na busca e na diversificação de investimentos israelenses no Brasil, o que ficou claro no encontro entre Temer e Netanyahu em Nova Iorque, em 2017.
Com Bolsonaro é isso que todos sabem. Há uma clara aproximação com Israel pelos valores culturais em comum e pela busca da "pureza cultural" diante do "globalismo". Mas não só isso, também um detrimento da política de uma paz equilibrada. Hoje o Brasil tomar o partido de Israel
Talvez seja a primeira vez na história que o Brasil faz isso em prol de Israel. Tanto que Bolsonaro já recebeu a visita de Netanyahu e já foi à Israel, isso acontecendo em 1 ano de mandato.
Além disso, Bolsonaro insiste em transferir a embaixada do Brasil para Jerusalém, em um ato simbólico, mas que diz muito no jogo geopolítico e até religioso do Oriente Médio.
Uma coisa interessante desse movimento é que a transferência da embaixada e o reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel é que isso não é necessariamente lobby judeu nem no Brasil nem nos EUA de Trump
Na verdade isso é lobby dos grupos evangélicos que veem na bíblia uma afirmação que o Estado de Israel seria criado com a capital especificamente em Jerusalém e querem ver a profecia bíblica acontecer.
Bom, mas com Bolsonaro, os temas de cooperação não mudaram tanto. Continuamos tendo uma cooperação de alto nível em energia e tecnologia, principalmente.
2 ações se destacam também nesse período:
1. Israel foi o único país a oferecer ajuda de fato para o resgate dos sobreviventes da tragédia de Brumadinho, em 2019, com uma tropa de 130 israelenses.
2. Israel também promoveu ajuda ao Brasil nos incêndios da Amazônia em 2019
Bom, vamos ao comércio.
Hoje o comércio bilateral gira em torno de US$ 1.5 bilhões, tendo ocorrido um aumento de 250% entre 2002 e 2011, por exemplo. Portanto, Israel é um dos maiores parceiros brasileiros no Oriente Médio.
Nossos principais produtos exportados são carne bovina (33%), soja (13%) e milho (11%), totalizando US$ 372 milhões, junto com os demais produtos.
Já as importações são quase 60% de adubos ou fertilizantes e inseticidas, rodenticidas, fungicidas, etc.
As importações, como um todo, totalizando US$ 1,21 bilhões, sendo um importante déficit comercial ao Brasil.
Bom, é isso galera. Espero que eu tenha me mantido imparcial e que vocês tenham gostado de saber mais sobre essas relações.
Amanhã é dia de mais um país de enorme importância para nossas relações: Itália 🇮🇹

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7 Sep
83. RELAÇÕES BRASIL - REPÚBLICA DA ÍNDIA

Nos últimos 30 anos é uma relação que vem ganhando cada vez mais destaque e dinamismo. Por sua importância, 7º no ranking daqueles de importações do BR, hj ñ contarei a interessantíssima história do país, infelizmente, mas me falta espaço
Brasil e Índia estabeleceram suas relações diplomáticas em 1948, logo a pós a independência indiana (1947). Mas à época a distância física, cultural, a não complementariedade das economias e a característica de terem governos fechados impediram maiores aproximações diplomáticas
É no governo Janio Quadros (1961) que o Brasil, dentro do contexto da Política Externa Independente, começa a timidamente se aproximar da Índia, ainda no campo puramente comercial.
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