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16 Oct, 16 tweets, 3 min read
Meus pais se separaram quando eu e meu irmão éramos muito novos: eu tinha 5, meu irmão faria 4.

Não demorou muito, meus pais se casaram novamente. Ganhei uma madrasta e um padrasto.

Em seus segundos casamentos, meus pais já têm quase 40 anos juntos.
O meu padrasto, em especial, se tornou uma pessoa fundamental em nossas vidas.

Porque meu pai sempre foi muito sério e compenetrado, vivia lendo e estudando e jamais fez exercícios ou qualquer coisa do tipo.

Meu padrasto chegou para ser o inverso.
Meu padrasto talvez seja a pessoa mais inteligente que conheço. Fala 5 línguas, foi professor universitário até se aposentar, doutor em geociências com dois pós-docs.

Mas era que fazia os churrascos, jogava bola e corria com a gente pelas ruas de Mosqueiro, na chuva.
Com a vinda do meu padrasto, parece que surgiu um megazorde paterno na nossa vida.

Da junção de toda a seriedade do meu pai, com toda a ação de meu padrasto, surgia um robô gigante, igual de filme japonês.

E nós amávamos isso.
Certa vez, viajando de ônibus para o Nordeste, conversávamos eu, minha mãe e meu irmão, e falávamos dele, do meu padrasto.

Do quanto era legal conosco, maravilhoso, e do quanto ele nos amava e protegia e queria bem.

Nesse dia, resolvemos começar a chamá-lo de PAI.
O tio Netuno (sim, ele se chama Netuno), virou o pai Netuno, e não teve qualquer estranheza naquela nova nomeação que fazíamos.

Ao menos para a gente, porque muita gente estranhou.

Lembro até hoje de uma situação:
Em uma festa na casa da minha família paterna, deixamos escapar um “papai Netuno”.

Lembro perfeitamente da cara de estranheza de alguns familiares, que olhavam meu pai, o Carlos, com olhares de “tu tens que reagir a isso”.

Talvez pensassem que alguém estava nos roubando.
Mas meu pai, maravilhoso como sempre é, não fez nada.

Só seguiu sua vida como se nada tivesse acontecido.

Havia um novo pai e, para ele, aquilo parecia absolutamente natural.

Tempos depois, lembro de alguém perguntar a ele se nunca teve ciúmes disso, e ele respondeu:
“Eu não posso estar sempre do lado dos meus filhos.

E, se nessa minha ausência, houver do lado deles alguém que faça por eles o que eu faria, eles têm mais que chamar de pai mesmo.”
Lembro dele sempre dizer para mim:

“O Netuno ama vocês como eu amo. Igual a mim, ele morreria ou mataria por vocês. Tu não imaginas como isso é tranquilizador para mim, como pai, saber que vocês têm ao lado um amor igual ao meu.”

E isso me fez entender muita coisa, sabe?
Principalmente sobre um amor não egoísta.

Um amor que não pensa em si, mas em quem você ama.

Uma dedicação tão gigante, que é capaz de sumir com qualquer sentimento ruim em prol de estar bem o ser amado.

E disso se faz a vida.
Minha filha mais velha tem 19 anos. Ela também tem um padrasto que morreria ou mataria por ela - e que, nas minhas ausências, é tão pai dela quanto eu.

E, mesmo que ele nem imagine isso, eu o amo muito por isso, por esse amor e cuidado absoluto com minha filha.
E que seja assim sempre, pois o amor é isso, jamais egoísta.

O amor egoísta pode ser qualquer outra coisa, menos amor. Posse, ciúme, orgulho ou vaidade, mas jamais amor.
E vocês não imaginam o quanto é bom viver esse amor sincero...

De quando saímos aos finais de semana para almoçar, eu e meus irmãos, nossos amores, mais minhas mãe e meus pais, todos juntos, sem ciúmes, competições ou bobagens.
Jamais tivemos tempo para penduricalhos.

Sempre gastamos nosso tempo assim, amando.

Tenho dois pais, duas mães, ganhei irmão e sobrinhos, numa família que menos fala de sangue, mais de amor puro.
O só torço e espero que meus filhos possam viver isso sempre também.

Que essa paz possa fazer parte da vida deles sempre.

E que tenham pais e mães, e irmãos e amores, e que todos façam por eles o que eu faria.

Sempre.

Boa noite pra vocês ❤️

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8 Oct
O ano: 2007

Luanda, minha irmãzinha caçula, estava prestes a fazer vestibular e tinha começado a namorar um garoto da escola.

Após um tempo de namoro, meus pais quiseram conhecer o rapaz e o convidaram para jantar.

E foi aí que a desgraça aconteceu, rs
Meus pais resolveram ir em um clube “tradicional e elegante” da cidade, e era gigante o clima de nervosismo na mesa, pois imaginem a situação:

Primeiro namorado da Lulu.

Primeira vez que ela nos apresentaria alguém.

E ela, sempre muito tímida, não sabia onde tinha se metido.
Pouco depois o rapa chegou. Da porta do restaurante ele procurou a gente com um olhar de cachorro perdido.

Até simpatizei.

Ele estava visivelmente nervoso e, acho até, teve um leve tremor quando nos avistou no meio do salão.

Minha irmã, encabulada, acenou para ele.
Read 24 tweets
6 Oct
Ontem tive um texto raptado.

Eu poderia dizer plagiado, mas acho que raptado faz mais sentido e explico a razão.

O texto falava sobre o sequestro do voo VASP 375, e comemorava o piloto, Fernando Murilo, que salvou a vida de centenas de pessoas.
E por qual razão digo que o texto foi raptado, e não plagiado?

Porque todos os perfil são bolsonaristas, com toda a pinta de serem bots e quase todos replicaram o texto em mesmo período (2ª metade de setembro), em movimento que parece ter sido orquestrado.
Todos os perfis conseguiram uma enorme repercussão dentre seus seguidores, que louvavam, sobretudo, o comandante Murilo como herói da pátria, homem de honra e que estaria abençoado por Deus.

E muitos lamentam que o sequestrador não tenha conseguido matar Sarney.
Read 8 tweets
6 Oct
Deitei para dormir meia noite. Bastou encostar no colchão e capotei.

Devo ter chegado em sono profundo, pois sonhei: minha avó, já falecida, aparecia para conversava comigo.

Em determinado momento do sonho, Flora, minha gata, chegava perto e minha avó a colocava no colo.
Eu estranhava minha avó agir assim, porque ela nunca foi fã de gatos.

Mas, no sonho, ela fazia carinhos na Flora e, ao fim, dizia:

- Essa gata é doida por ti, te ama muito.

Quanto mais minha avó fazia carinho na Flora, mais eu estranhava e me inquietava.

E acordei num susto.
Cara... eu tava lavado de suor e não tirei Flora da cabeça. E ainda encucado com aquela aparição da minha avó.

Aí me deu um enorme estalo:

QUANDO FOI A ÚLTIMA VEZ QUE VI A FLORA!?

Ela geralmente é antissocial, então é normal que fique sempre no carinho dela.
Read 9 tweets
4 Sep
Cheguei no consultório, passei álcool gel nas mãos, pisei na bandeja pra limpar sapato e esperei.

O dentista veio sorridente, me cumprimentou e pediu para sentar na poltrona - e eu sentei.

E, mal vi, ele chegou com uma injeção pequenina, dizendo:

- Abra bem a boca.
Eu abri, mesmo incomodado com o tom de voz dele, uma coisa meio maligna...

Mas era impressão minha, com certeza. Talvez o medo de tirar os sisos mudasse minha perspectiva sobre aquele homem sempre tão gentil anteriormente.

Veio a furada, a boca adormeceu, fiquei grogue.
No meio de estar zonzo, não via mais o dentista e sua ajudante. Só via vultos velozes vagando vez ou outra ao meu lado, as vozes distorcidas, como num pesadelo horrendo.

Não conseguia entender bem o que diziam, mas achei ter escutado um “pede pra ele entrar...”
Read 26 tweets
1 Sep
Tudo corria bem naquele voo VASP 375 no dia 29/09/1988.

Ele saiu de Porto Velho, Rondônia, e fez escala em Cuiabá, Brasília, Goiânia e Belo Horizonte, de onde ele voaria para o Rio de Janeiro, aeroporto do Galeão, seu destino final.

Mas as coisas não aconteceram assim...
Decolando de Belo Horizonte, um passageiro se levantou e, armado com um revolver calibre .32, iniciou o sequestro da aeronave.

O passageiro, Raimundo Nonato Alves da Conceição, estava com raiva da política econômica brasileira, dos rumos do país, e por isso resolveu se vingar.
A vingança pretendida:

Sequestrar um avião e jogá-lo contra o Palácio do Planalto, bem no local onde fica o gabinete do Presidente.

Com isso, Raimundo pretendia matar aquele que ele considerava o grande vilão da história: Jose Sarney.

Pode parecer piada, mas a coisa foi feia.
Read 27 tweets
28 Aug
A história que vou contar hoje, faz algum tempo que aconteceu, mas jamais saiu da minha cabeça.

Faz uns 2 anos e era Carnaval.

Nós saímos da nossa cidade, Rio Grande da Serra, para uma cidade bem próxima, Paranapiacaba, onde haveria uma grande festa de rua. Cena aberta de Paranapiacaba, durante o dia, mostrando uma i
Paranapiacaba, para quem não conhece, é uma antiga vila ferroviária, em estilo inglês, que fica perto de São Paulo.

Ela pouco mudou com o tempo, e conserva todo um aspecto assustador.

Ela é famosa por suas lendas e por sua neblina, que cai sem avisar. Uma ferrovia com um vagão de trem e neblina.
Chegamos na vila por volta de 4 da tarde, tempo de ainda aproveitar bastante a festa, e assim fizemos.

Com várias bandinhas percorrendo as ruas do centro, cerveja barata e gente bonita, a alegria foi garantida até por volta de 23 horas, quando a tal neblina caiu com tudo. Uma cena noturna com pessoas na rua e neblina.
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