FIO | as novas mídias e a violência do imaginário

Hoje podemos dizer que já existe um consenso a respeito do fato de que as modernas sociedades industriais são sociedades muito violentas.
Há também um consenso de que essa violência não é apenas a violência da exclusão social, a violência que é própria da luta de classes, dos miseráveis que têm que forçar para conseguir um lugar no mundo capitalista.
Acima de tudo há um consenso de que a televisão - ou toda a indústria de produção imaginária da cultura de massas em geral - tem uma responsabilidade forte na produção e naturalização da violência.
Não é uma questão de "modelo-repetição" onde vamos reproduzir no dia a dia, as atrocidades que vemos na TV. Se fosse assim a sociedade já teria se autodestruído e nenhuma criança conseguiria se manter viva no intervalo das escolas.
Na cultura de massas em que vivemos, impera algo chamado "tirania da imagem", uma violência que é própria do funcionamento da imaginação em si. Principalmente porque a violência do imaginário não depende dos conteúdos que as imagens apresentam.
De fato, a qualidade e o conteúdo das imagens que assistimos fazem a diferença na sociedade, porque a exposição constante do público a cenas de violência ou a um padrão de respostas violentas a todos os tipos de conflitos, aumenta nosso limiar de tolerância perante a barbárie.
O que me preocupa é a elevação do padrão de tolerância para o horror, o que não tolerávamos a 5 anos, 10 anos ou 20 anos atrás, hoje em dia nos passa despercebido. Algo que nos faria sair da sala, ter ânsia de vômito ou incômodo moral, hoje é tratado com normalidade.
O funcionamento da imaginação dispensa necessidade de pensamento, não é que ela proíbe, reprime ou inibe o pensamento, mas esse modo de funcionar das imagens e da nossa exposição a elas é baseado segundo a lógica da realização dos desejos.
Cada imagem apresentada é como se fosse um micro fragmento de gozo que o espectador obtém, a cada
fragmento de gozo, o pensamento cessa. Quanto mais o fluxo de imagens ocupa espaço na nossa vida real e na nossa vida psíquica, menos é convocado o pensamento.
E a consequência disso é:

qnd o imaginário começa a incitar ao ato (atitudes), onde o pensamento não opera e o sujeito se vê incapaz de simbolizar aquilo que vê, então a única alternativa é interferir em ato onde ele não consegue existir como sujeito simbólico. "Agi sem pensar".
Essa atitude sem pensamento, quase uma angústia causada pelo vazio de pensamento, é um ato de superficialidade, um ato de irreflexão. "Não pensei na hora de falar".
Hanna Arendt conta uma relação entre o vazio de pensamento e o mal. O mal absoluto não é o produzido com intenções malignas, a partir da perversão de alguém, é o que vem da superfluidade do ser humano, da ausência de reflexão, da banalização da nossa condição humana.
Nos EUA, dois adultos estupraram e mataram um menino de 10 anos. Descobriu que esses adultos eram usuários de um site, ao qual ficavam ligados em rede, cujo nome é algo como "amigos da perversão infantil", lá as pessoas comunicavam e trocavam as suas fantasias de pedofilia.
A reflexão é a seguinte: qual é a diferença de registro psíquico de uma ideia que é expressa apenas como tal e outra expressa como um imperativo de passagem ao ato?

Mr. Robot E01S01, início do episódio.
Alguém diz "sonho estuprar uma criancinha", e até escreve a frase. Mas qual é a diferença de registro que faz com que numa sociedade, essa confissão seja recebida assim:

"puxa vida, coitado desse cara, ele precisa de ajuda"

ou

"ah, mais uma para a gente gozar, vamos nessa"?
A 2ª é a nossa cultura, a diferença está na cultura, na sociedade, a diferença não está naquilo que estava escrito no site. Está numa cultura em que a nossa existência psíquica depende de uma passagem ao ato, da onde vem a necessidade de se postar no Instagram?
"Posto logo existo". O ato público-virtual em que fazemos a imagem do nosso corpo imagem, e imagem para o outro assistir e gozar. Se eu posso ganhar dinheiro com a imagem do meu corpo, porque não?
A fundação do imaginário se dá com a imagem do corpo, com a constituição da imagem do próprio corpo. É quando a criança se identifica com a imagem de seu corpo que começa a se constituir o eu; a imagem do corpo proporciona uma precária unidade a este sujeito ainda fragmentado.
Vamos nos aproximando da ideia de que uma sociedade regida por formações imaginárias torna-se uma sociedade violenta.

A violência do imaginário é a resposta à ausência de sentido na nossa vida qnd o pensamento é dispensado, e qnd o nosso lugar de existência é o corpo e o ato.
O vazio de pensamento é uma condição que se produz nas sociedades de massa e uma das condições das origens do totalitarismo. Não que vivamos na mesma condição de um totalitarismo de estado próprio da Alemanha nazista. Esta não é a única
formação totalitária possível.
Uma formação totalitária é uma formação em que as significações que participam do laço social estão tão fechadas que não há lugar para se começar algo novo, pois os cidadãos se veem tão totalmente cercados, congelados e paralisados no discurso de significações estabelecidas que +
não há brecha para o rompimento desse outro sem falta.

Uma sociedade em que o imaginário prevalece, em que as formações imaginárias é que elaboram o real - esse real ao qual não temos acesso - é uma sociedade totalitária, independentemente de qual seja a situação do governo.
Mesmo diante das notícias mais chocantes, dos fatos mais escandalosos que nos incomodam, que nos angustiam, sim, mas que nos dão a impressão de que não há nada a fazer porque é assim. "É o que é". "Não tem jeito mesmo". "Corrupção nunca vai acabar."
Não estamos mais diante de um "vir a ser", nem diante de um mundo em construção ou de um universo instável em
que nossa vontade e nossa ação podem começar algo, dar início a algo, em que nosso diálogo pode produzir novos significados...
Estamos diante de um lugar que "é o que é", nenhuma nova informação nos mobiliza a pensar e, principalmente, nenhuma informação funciona para incentivar uma possibilidade de mudança.
Toda tomada de atitude é uma passagem de pura destruição. Um muro de significações, desse muro do "é o que é", nada + podemos fazer a não ser ou existir nele sendo em ato, ou destruí-lo de alguma forma violenta, já que não contamos com o pensamento e a reflexão para nos ajudar.
A reflexão fica supérflua, e se isso acontece, os homens ficam supérfluos e a banalidade do mal se instaura. Essa compulsão de "se posso conceber, posso fazer", na expressão pública de fantasias ditas inconfessáveis, ñ tem o registro simbólico de ideias e pensamentos.
Elas já vêm na forma de ato, de imagem em palavra. Elas já são realização de desejo, mas realização consentida pelo espaço público de uma sociedade que não pede nenhuma renúncia ao gozo.
Finalizando com o exemplo do funcionamento de nossas campanhas políticas, que independentemente do que um político diga, o efeito sobre o eleitor não passa pelo conteúdo das propostas, pela avaliação da qualidade política do que o candidato propõe.
A linguagem publicitária se apossou de tal maneira da campanha política que, independentemente do que um político propuser para seu governo, o debate político já funciona segundo a lógica da realização de desejos.
O eleitor não vota mais no candidato que expõe algumas ideias razoáveis, que apresenta problemas que talvez possam ser resolvidos. O eleitor vai votar no que o faz gozar na hora, diante da imagem dele.
Mesmo que a imagem de um candidato se associe a imagens capazes de dar prazer ao eleitor-telespectador, por mais fantasiosas que sejam +
ele conquista o eleitor ao fazê-lo gozar diante das imagens de campanha, como se aquilo já
fosse um desejo realizado, de modo que o eleitor vai votar na esperança de prolongar aquele gozo.
Talvez assim se explique também por que, seja qual for o candidato eleito, um mês depois está todo mundo furioso com ele. Porque, acabada a campanha, acaba o gozo imaginário.
E aí não há o que ele possa fazer para recuperar a imagem - coisa que tentará fazer, para infelicidade de todos nós, na próxima campanha.

FIM

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