"Mas qual a sua opinião sobre FILHOS, Clara?"

Primeiro, não sei por que me perguntam isso, como se eu fosse especialista no assunto, profissional formada, mas vamos lá:
O pessoal ficou revoltadíssimo com o fato de que o Fábio Porchat disse que não quer ter filhos, que ter filho é um inferno.
Fábio Porchat, até onde eu saiba, não tem nenhum filho, então não precisam fingir preocupação com a hipotética criança que vai crescer e descobrir que MEU PAI DISSE QUE ME TER FOI UM INFERNO.
(Preocupem-se mais com seus filhos descobrindo que vocês votaram em gente do partido NOVO).
Mas, adiante: eu me lembro de um dia das mães em que uma mãe resolveu postar não a foto sorridente do bebê dela, mas uma foto da cara dela amassada e inchada e, enfim, carregando aquele cansaço de mil anos, que tantos pais (mães) de primeira viagem carregam.
No post—que era bem longo—, ela não disse que ter filho é um inferno, não com essas palavras, mas que, apesar de amar o filho, ela detestava ser mãe.

E as pessoas piraram com isso.
A mulher recebeu ataques, ameaça, leu gente escrevendo que ela merecia ter o filho tirado dela—como se ela tivesse cometido o pior dos pecados mortais.
Aqui, diante dos olhos de todos, para ser apedrejada, a mulher que não gosta de ser mãe. Ou a mulher que ousa reclamar de aspectos maternidade.
Minha opinião pessoal sobre quem está com a bunda em chamas por causa do Porchat, ou sobre quem jogou pedra nessa e em tantas outras mães, é de que vocês são, nas palavras imortais de Christian Grey, 50 shades of fucked up.
Minha opinião mais elegante é que nós não teríamos metade desses problemas se nos desligássemos dessa noção de família nuclear que exige que apenas os pais (a mãe) se responsabilizem por absolutamente tudo que diz respeito aos filhos.
O capitalismo veio e, entre suas pragas (como empreendedores e tênis da Balenciaga), trouxe essa ideia de família—em que os demais membros de uma tribo (porque não há mais tribo) são excluídos da criação dos mais novos e relegados a um papel bem periférico.
O resultado é que pais (mães) precisam se responsabilizar por cada minuto do vida dos filhos, do momento em que eles acordam ao momento em que vão dormir.
Se não dão conta, acabam empregando a televisão e a tecnologia como babás, ou dizem para o filho encontrar o que fazer sozinho lá no quintal, quando o que a criança quer interação.
Durante essa epidemia, um número assustador de mulheres largou do emprego para cuidar dos filhos que, sem escola, não tinham pra onde ir, com quem ficar.
Acaba sempre nas costas da mãe—porque dificilmente o pai vai largar a profissão dele, mesmo no absoluto estado de caos do país, para vigiar os filhos.
Muitas mulheres privilegiadas e brancas, com isso, acabaram redescobrindo o que é maternidade—o que é você se responsabilizar sozinha por uma ou duas ou três crianças, sem ganhar dinheiro, sem poder se dedicar a mais nada, sem ter a quem pedir ajuda.
(O que a mulher pobre e racializada já sabe desde sempre, porque a mulher pobre e racializada carrega o país nas costas).
Se Porchat acha que ter filhos é um inferno, então é bom saber que ele não tem e nem quer filhos.

Se você topar com alguma mãe dizendo que odeia ser mãe, exerça um pouco mais de empatia antes de afiar a pedra.

É o que eu acho sobre a questão TER FILHOS.

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17 Oct
Eu tenho três conselhos radicais (alguns diriam) para mulheres:

- Nunca se permitam acabar dependendo financeiramente de um homem;
- Não tenham filhos;
- Aprendam a se defender (não meramente defesa pessoal; aprendam a machucar de verdade, a tirar sangue).
(Esses conselhos valem para qualquer minoria).
Quando aprendi a atirar, nunca imaginei que um dia teria que apontar uma arma para alguém. Ainda espero que esse dia nunca chegue. Detesto armas e violência, mas você tem que sobreviver.
Read 7 tweets
29 Jun
Eu acho ótimo (acho mesmo, sem ironia) exigir que o Fábio Assunção seja tratado com humanidade na luta contra a dependência química. Mas eu queria que todo mundo também estendesse essa humanidade para o dependente químico é é pobre e que está abandonado nas ruas.
O morador de rua, que perdeu tudo, não tem dinheiro e não é global, é tratado como praga pelo governo. Leva jato de água fria na cara numa manhã gelada, é preso, espancado, queimado vivo.
Infelizmente, eu já vi de perto o que a dependência química faz com alguém (e sei que muitos de vocês também já viram). A única coisa que impediu essa pessoa que eu conheço de ir parar nas ruas e provavelmente acabar morta foi ter apoio e dinheiro para se cuidar.
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8 Jun
A maioria dos casos na hashtag #EuPagueiAEditora poderia ser evitados se autores entendessem que pagar para publicar não é como publicação funciona. Pagar pra publicar chama-se vanity press. Não é publicação tradicional. Nenhuma Rocco, Companhia, Aleph ou o que seja cobra.
É difícil até pensar em fazer um #PublishingPaidMe por aqui justamente por isso. Autor brasileiro acha que pagar para publicar é normal.

Não é.
Não deveria ser.
É cilada.
poderia ser evitada*
Read 12 tweets
6 Jun
É sempre bom lembrar que não existe criador perfeito. Se você investigar a fundo as vidas dos seus autores e criadores favoritos, inevitavelmente vocês vão encontrar algo ruim.
É óbvio que as redes sociais facilitam o trabalho: as pessoas vomitam tudo sobre suas vidas pessoais e crenças por aqui.
E, vejam só, eu sou uma pessoa que já disse coisas transfóbicas. Satan forgive me, mas eu disse. Ninguém é a perfeição da virtude que tantos tentam parecer por aqui.
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26 May
OK. Respirem fundo. Vamos lá.

Existe uma pessoa que me odeia. Eu não consigo pensar em outra palavra para descrever as atitudes dessa pessoa. Ela parece me odiar. Ponto.
Ofereço contexto: ano passado, rolou uma discussão sobre a Jessica Yaniv, uma mulher trans que abriu processos contra donas de salão que haviam se recusado a depilar a genitália dela. Na época, eu manifestei minha opinião dizendo que era um absurdo processar alguém por isso.
E havia muitas perspectivas nessa história: porque a Jessica Yaniv não estava processando só uma pessoa, mas várias; algumas que admitiram não estarem preparadas para depilar testículos (porque isso exige uma técnica própria) e outras que admitiram desconforto.
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13 May 19
Eu tenho tantas coisas pra dizer sobre Game of Thrones, mas acho que dá pra poupar todo mundo das minhas palavras e resumir em dois pontos:

1 - A Daenerys tinha mesmo que ser a vilã final;

2 - Os roteiros desses episódios são ruins e isso estraga boa parte da experiência.
Daenerys ser a vilã: bola eu cantava desde que comecei a ler Game of Thrones (antes do show ser lançado). Não é esperteza da minha parte. É que simplesmente está lá, nos livros, e também estava na série. Muita gente previa algo assim.
Isso revolta algumas pessoas porque a Daenerys foi percebida como um exemplo feminista. Mas uma mulher no poder ainda é um ser humano no poder, fadado a repetir os métodos do opressor que veio antes. Poder, quando desejado demais, domina nossas vidas.
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