THREAD SOBRE OXUM PARA TODOS AQUELES QUE NÃO SÃO DA RELIGIÃO.

VAMOS DESCONSTRUIR O QUE ESTÁ EM TORNO DESSE ORIXÁ TÃO LINDO, E MOSTRAR SUAS PARTICULARIDADES.
Começo pedindo pra que dêem rt, e assim chegue ao máximo de pessoas possíveis. Ou mandem para aquele amigo evangélico, ateu, ou aquele que é interessado e não sabe por onde começar. Enfim, comecemos:
Pra falar sobre afro religiosidade, precisamos entender que vivemos e coexistimos com 2 realidades diferentes ao mesmo tempo.

Elas são: as religiões afro BRASILEIRAS
E a Religião Tradicional, que é praticada na África.
As diferenças são muitas, obviamente por aqui eles terem que reinventar totalmente o culto, principalmente por estar em um estágio de escravidão e submissão.

Oxum em terras yorubás é filha de Orunmila e Yemanjá.
No Brasil e em Cuba, pra muitos, ela é irmã de Yemanjá e filha de Oxalá. Independentemente qual seja seus vínculos familiares, eu queria falar sobre Oxum em si.
Para os yorubás (e quando eu falo yorubás estou me referindo a etnia que vive na Nigeria e em parte do Benin) Oxum é rainha do reino (estado) de Osogbô, e matriarca (precursora) da nação ijexá.
Ela recebe o título de "Iyalodê". Iyalodê significa "mãe/senhora da cidade". É uma honraria dada para toda mulher que exerce um grau de influência enorme dentro de uma comunidade Yorubá, uma voz soberana entre as mulheres e respeitadíssima entre os homens.
É importante entender que para os yorubás parte dos orixás viveram em terra, como homens e mulheres, como humanos. Esses orixás que viveram em terra são chamados de "irunmolés", que são os orixás que fizeram parte da criação, quando vieram do Orun (céu) para o Aiyê (terra).
Entre os irunmolés estão: Ogum, Xangô, Oxóssi, Yemanjá, Oya, Ossain, Obá e vários outros... Sem contar Oxum, claro.

Oxum, então, viveu em terra e coexistiu entre dois planos. O divino e o terreno, o sagrado e o profano.
O legal da cultura Yorubá é que os orixás estão historicamente ligados com as fundações das maiores cidades das regiões yorubás. Ogum, por exemplo, foi fundador do que hoje conhecemos como Ire Ekiti. Obatalá (Oxalá) foi fundador de Ilê Ifé. Xangô, por sua vez, foi rei de Oyó.
Logunedé foi rei de Edé. Oya foi rainha de Irá. Oxóssi e Exu reis de Ketu, tendo os dois bastante influência naquela área.

Oxum, por outro lado, foi rainha de Osogbô e senhora da nação Ijexá (um dos maiores reinos históricos da Nigeria).
Ela viveu em terra entre os homens e mulheres, crianças e velhos, foi tudo aquilo que muitos não esperavam que ela fosse. Em vida ela foi uma grande rainha, soberana, pulso firme, de bom reinado e ao mesmo tempo compreensiva. Foi historicamente a maior rainha da Nigéria.
Oxum tem uma imagem sagrada e política, pelo simples fato de ter sido a voz ensurdecedora dentre as mulheres, batendo de frente com toda uma ideologia patriarcal e até mesmo machista por parte dos homens yorubás.
Ela é considerada Iyalodê exatamente por lutar e estar alinhada com as necessidades femininas para com a comunidade.
Nesse contexto, conta um itan (história) de Oxum do qual fala que os orixás borós (homens) impediam os orixás Iyabas (mulheres) de participarem das reuniões do Orun, pra decidirem o destino da humanidade.
Irritada por ser impedida de participar das reuniões ao lado dos homens, então, Oxum fez com que as mulheres no aiyê (terra) ficassem infertéis, fez com que os rios secassem, as colheitas morressem e os bebês que estavam pra nascer, nascessem mortos.
Essa manifestação de Oxum ficou eternizada na revolução das mulheres dentro da comunidade Yorubá, pois a partir do que ela fez, Eledumarê (senhor supremo) ordenou que as mulheres passariam a ter os mesmos direitos e a mesma importância que os homens dentro da comunidade humana,
dentro das decisões divinas dos orixás.
Vale lembrar que os Itans contam histórias pra explicarem acontecimentos históricos dos yorubás. Nem sempre devem ser levados ao pé da letra. Eu entendo esse Itan de Oxum como uma demonstração de como ela foi influente ao se tornar Iyalodê, e como ela conseguiu fazer com que as
mulheres fossem respeitadas pelos homens no meio yorubá. Oxum é política, Oxum é necessária, ela representa o ímpeto feminino e a necessidade da mulher de ter sua voz ouvida.
Existe um outro itan também que narra a vida de Oxum como esposa de Xangô.

Xangô, rei de Oyó, era conhecido por ser um rei guerreiro. Não temia ir a batalha no fronte da guerra, ao lado de seus soldados e soldadas.

Xangô era casado com outras duas esposas, Oya e Obá.
Tanto Oya quanto Obá eram duas grandes guerreiras, por conta disso, Xangô deixou Oxum no reino, tomando conta do castelo. Afinal, pra ele Oxum não tinha capacidade de entrar em uma batalha, já que ela não tinha esse costume.
Após alguns dias sozinha no reino de Oyó, foi avisado a Oxum que um exército de soldados estavam na porta do castelo afim de domina-lo. Oxum, prontamente, ordenou para que seus súditos deixassem eles entrarem.
E assim foi feito. Os homens truculentos e sedentos por guerra adentraram o castelo, já prontos para realizar um banho de sangue.

Oxum se jogou aos pés deles, pedindo para que os mesmos não matassem ninguém, e os fez um desabafo sincero:
"Não nos mate. Por favor! Eu sou uma rainha indefesa. Meu marido saiu com seu exército e me deixou aqui sozinha. Eu não tenho o que fazer. Não quero mais continuar. Vocês não precisam matar ninguém, eu lhes darei o castelo e lhes servirei um jantar em mostra da minha amizade."
Os guerreiros então se entreolharam e caíram na risada. Afinal, para eles era engraçado ver o lamento e a submissão de uma mulher. Porém, os mesmos prontamente aceitaram a proposta de Oxum, que na mesma noite lhes serviu um mais farto dos jantares.
Foi festa no salão real a noite toda! Os homens bradavam, debochavam, ultrajavam os cantos do castelo e se esbanjavam da vitória sem batalha.

Quando a noite caiu a dentro, o silêncio ensurdecedor fez com que todos os residentes do reino tivessem sido levados a pensar
que os homens haviam ido embora, afinal, eles estavam festejando tanto e do nada tudo ficou em um completo silêncio? Muito estranho.

O dia amanheceu. Os homens estavam TODOS MORTOS.
Oxum os envenenou com o jantar que fora servido. Ela reconheceu que não poderia os vencer caso pegasse numa espada, mas que se usasse de sua inteligência e poder de persuasão, ela seria capaz de derrota-los.
E assim o fez: sentada em seu trono amanheceu a observar os corpos dos invasores sobre o chão. Estavam ali, todos mortos, todos aqueles que debocharam da capacidade de Oxum por ser uma mulher.

Ela os venceu no silêncio. Derrotou um exército sem derramar uma só gota de sangue.
Oxum pune os malfeitores, os tiranos e os que ousam levantar a mão para uma mulher.

Ela é a imprevisibilidade, aquela que é capaz de ressurgir ao apagar das luzes, é aquele gol aos 30 minutos da prorrogação. É a certeza disfarçada de dúvida.
"Ìba Òsun sekese"

Eu elogio a deusa do mistério, espírito que limpa de dentro para fora.

"Osun omi ti n pa ongbẹ awọn olododo
ati pe iṣan omi ile onigbese"

Oxum é água que mata a sede do justo
e que inunda a casa daquele que trai.
"Òsun òyéyéni mò"

Oxum é repleta de compreensão

"Yeye opo
O san rere o"

Mãe da abundância, nós cantamos seus elogios.
Oxum ao mesmo tempo que pode ser punitiva com aquele que deve, é totalmente compreensível e acolhedora com os que andam certo e tem o coração puro.

É a doce água que alimenta, e a que afoga. É boa para quem é bom, e é bonito de alma e coração.
Oxum é isso. O encanto, a beleza, o amor, a inteligência, a estratégia, o acolhimento, a luta, a voz para os que menos tem e o afago para os crêem não ter mais razões para viver. Oxum nos ensina que pra ser bonito, primeiro, tem de ter a boa índole e a alma preservada.
Muitos dizem que Oxum é o orixá da beleza, e eu concordo. Porém, não creio que seja da beleza física somente, mas sim de toda representação de beleza. A maior da beleza, pra Oxum, é a mente e a cabeça boa.
Orixá do amor, nos ensina a sermos compreensivos. Acolhedores, amigos, irmãos e lutadores. Estrategistas, pensantes e harmoniosos. Oxum vence no silêncio, não faz alarde pra conquistar os seus desejos.
Orixá das águas doces e leves, é ela a pertencente de tudo aquilo que flui da fonte e percorre o leito abaixo.

Os rios são suas moradas. É o espírito encantado das águas. Senhora das grutas, cachoeiras, riachos e córregos.

Peça licença sempre ao adentrar seu domínio.
Aprendemos com Oxum a não falarmos para qualquer um as nossas ambições, e sermos menos duros com aqueles que precisam da nossa ajuda.
Para um mundo de pouco amor, doente e frágil, eu vos apresento Oxum. Coração é terra que ninguém pisa, mas é terra que só ela conhece. Venham conhecer Oxum pra saber o que é o amor! Ela pode fazer você enxergar um mundo mais bonito.

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9 Dec
Eu realmente tenho pena (não no sentido de superioridade, mas de pena mesmo) das pessoas que pensam em Oxum como uma mulher boba e vaidosa, que vive a se olhar em seu espelho para se admirar.

Gente, o espelho da Oxum é a arma mais fatal que existe:
Conta um itan que Oxum aprendeu com as Iyami Oxorongá a como controlar o sagrado feminino e seus feitiços. Assim, além de ter seu poder de persuasão e boa comunicação por natureza, Oxum se tornou também uma exímia feiticeira.
O abebê que para alguns é um leque (e tem até um Itan sobre isso), é conhecido popularmente como o "espelho da Oxum".

Oxum não fica de frente pro abebê a se mirar, muito pelo contrário, com o espelho ela derrota seus inimigos sem nem sequer olha-los nos olhos.
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8 Dec
Hoje, dia 8 de dezembro, é dia da Oxum. O Emicida, macumbeirinho que nem a gente, hoje lança um documentário que mostra a vivência e a luta de pessoas pretas, com a cor dourada que representa o ouro da Oxum.

Falamos de representatividade. Falamos de Emicida.
#EmicidaAmarEloDOC
Ele cita Exu, cita o axé, cita a negritude em suas falas.

O mesmo fala que hoje luta por coisas das quais não começaram com ele. Por isso ele cita o oriki de exu "Esú matou um pássaro ontem, com uma pedra que arremessou hoje".
Porque pode passar-se anos, mas se o pássaro da desigualdade ainda voar nos nossos céus pretos, independentemente de quando for, temos que lutar pra que ele caia.

Emicida age como Exu, tendo o discernimento de derrubar preconceitos do ontem, com a capacidade de hoje.
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8 Dec
O resgate da ancestralidade negra precisa, com certeza, passar por Oxum. Por isso eu peço para todos aqueles que se engajam pela causa afro, que venham conhecer Oxum.

Ela não é Nossa Senhora, porque é mãe preta dos peitos de fora e da cintura saliente.
Não é atoa que a Beyoncé ao resgatar suas raízes negras em seu novo álbum, exalta Oxum e a sua energia.

É essencial lembrar desse orixá, pois é o princípio de uma comunidade preta.
Quer falar de feminismo? Fale de Oxum. Lembrem-se que os pretos já exaltavam a figura feminina e todo seu empoderamento dentro da sociedade Yorubá.
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8 Dec
Difícil definir orixá Oxum sem os mais belos elogios. Ela é a Iyalodê (título dado a uma mulher de forte influência dentro de uma comunidade Yorubá; reino/cidade).

Oxum é rainha do reino de Ijexá, senhora da maternidade entre os yorubás. É o tesouro feminino que reluz em ouro!
Impossível negar a maternidade da Oxum. Entre os nagôs, para ela é ofertada os mais diversos obis em troca da fertilidade, da boa fecundação e da abundância familiar no que se diz respeito a continuidade.
Afinal, para as famílias yorubás, a ancestralidade não define só e somente tudo aquilo que um dia foi, mas sim aquilo que também virá. Por isso, uma família farta de descendentes, é indício de que sua ancestralidade nunca irá se perder. E é aí que entra a importância da Oxum!
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13 Nov
Ogum é o orixá mais conhecido do Brasil, talvez o mais cultuado.

Eu consigo compreender os motivos, quando penso no senso de uma sociedade aguerrida por natureza. Ogum que cresceu historicamente entre os negros em estado de escravidão, se torna tão aclamado pela necessidade (+)
de lutar para viver.
Entre os yorubás, todo orixá se dispõe às necessidades da comunidade da qual o mesmo é cultuado.

Porém, Xangô junto de Obatalá talvez sejam os orixás mais aclamados entre os mesmos, que mais bem representem a imagem da sociedade do qual residem.
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12 Nov
Esses dias li e debati sobre a pesquisa de doutorado do meu afilhado, que era em relação a cannabis.

Na pesquisa do mesmo mostra que a erva era usada em cultos africanos em terras brasileiras, mas que foi abolida e criminalizada.
Em muitas práticas xamânicas brasileiras o uso do fumo e da ingestão de ervas específicas, é muito importante no culto. Afinal, é através disso que o praticante pode se conectar com o seu astral superior.

Santo Daime, a bebida da Jurema e entre outros.
É comumente retratado em vários cultos sejam eles indígenas, africanos ou não, o uso de ervas e elementos da natureza como parte da liturgia das práticas que os mesmos exercem.

A pesquisa do Evandro mostra esta mesma utilização através da maconha. Não entendo o repudio.
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