Eu já falei isso aqui, mas faço questão de repetir que a macumba é uma sociedade alternativa, com conceitos civilizatórios milenares e filosofias ancestrais um tanto que recorrentes.

Na Macumba você aprende a viver. Aprende a como morrer digno.
Na Macumba você exerce um papel de resgate e comunhão com tudo aquilo que um dia tiraram de nós. Conhecemos pessoas, nos relacionamos e conseguimos conciliar os ensinamentos seculares com nossas experiências cotidianas.
A partir do momento em que vivi a macumba, eu conheci grandes cambas, conheci semirombas que me vanglorio disso, conheci akins, me retornei a Benguela e convivi com a transição do meu povo.

Meu resgate e meu caráter político étnico racial, foi construído por minha religiosidade.
Antes de ler Abdias do Nascimento, eu sentava aos pés de Vovó Maria Conga e aprendia a como fazer um patuá e escutava suas histórias de parto dentro da Casa Grande.

Sentava aos pés do Rei do Congo, e ouvia suas broncas e aprendia seus feitiços com fogo, cachaça e erva.
Foi com esses e mais um pouco que eu aprendi o que é ancestralidade.

Foi convivendo com pessoas e conhecendo pessoas afro religiosas, que eu me senti acolhido.

A macumba me abriu portos. Mas não, não foram os portos de Benguela que nos escravizaram.
Me abriu portos para horizontes que imaginei nunca caminhar. Hoje ando e convivo entre homens e mulheres que até uns meses atrás eu achava inalcançáveis.

E o que dizer sobre isso? Eu modéstia parte, não sei. Eu disfarço tudo. Até a emoção que sinto. Na verdade, faltam palavras.
Sou um cara muito grato e emotivo. Me emociono em saber que meus afilhados da macumba (um de 11 anos, outro de 43) dizem ter orgulho de mim.

Me emociono em saber que meu mais novo afilhado, um filho pra mim, está para nascer semana que vem.
E o que dizer sobre esses leques de vivência e relações amistosas e comunhão que a Macumba me ensinou?

Não sei. Não sei mesmo. Só sei dizer que quando foram as senzalas e disseram que lá não haviam rosas, eles estavam enganados.

Temos rosas, fogueiras e tambores.
Temos amigos, mães, pais, amores.

Nós temos tudo que eles dizem que não temos, e mais um pouco.

Diferentemente do que eles um dia disseram, nós temos almas sim.

Não somos corpos opacos de existência duvidosa, ou conhecimento escasso.
Não somos burros, jumentos, seres desprezíveis.

Nosso corpo tem fogo, tem ancestralidade, tem o universalismo pessoal da Dikenga Bakongo, tem a autonomia do Orí Yorubá.

Eu tenho alma sim. Dentro dela pulsam ngangas, kumbas e quimbandas.

Eu tenho alma sim.
Tenho história sim, e tenho meus próprios heróis civilizadores.

Vivo minha negritude, vivendo minha macumbaria.

E isso pra mim basta.

Te agradeço, ó macumba. Tu me salvou da inércia e da tristeza profunda.
Eles dizem que tu fazes o mal. Eu digo que tu fazes o necessário para sobreviver.

E enquanto um filho do teu seio mandingueiro e mirongueiro estiver vivo, você ei de estar.
Nos consideraram obsoletos por muito tempo. Nos jogaram à marginalidade.

Nos condenaram e nos demonizaram. Na verdade, até hoje fazem isso.

Mas eu modéstia parte estou cansado.
Se tiver que incorporar o espírito da guerra de Ogum, e o impeto Roxi Mukumbi (o leão congolês), eu ei de fazer.

Está na hora de devolver a macumba para o lugar que ela nunca devia ter saído; o protagonismo.

Sejamos protagonistas das nossas próprias histórias. Isso é macumbear!
Exú não escreve certo por linhas tortas. Ele desentorta as linhas e rasga o papel. Exú escreve o necessário por Encruzilhadas.

Caminhemos pelas Encruzilhadas de Exú, matando o pássaro do ontem com nossas pedras de hoje.
O pássaro do ontem, no nosso contexto do "Brasil que deu certo", é o pássaro do escravismo, o pássaro da democracia racial, o pássaro da marginalização africana, o pássaro da desigualdade social e o pássaro da intolerância.
Esse pássaro precisa ser derrubado. Só assim o Brasil "dará errado". Esse Brasil precisa dar muito errado, para dar certo. Contudo, antes que isso aconteça, precisamos resgatar os valores macumbalisticos para nossas lutas e causas.
Se vivermos e crescermos levando conosco conceitos que aprendemos no chão de um terreiro, vamos perpetuar nossa resistência afro centrada.
Como disse @emicida, é tudo pra ontem. Não há tempo para perder.

Já perdemos muito tempo, e isso não deve se repetir.

Vamos ensinar nossos mais novos a impactarem em vida, para serem reconhecidos na morte.

Só assim seremos ancestrais. Só assim a macumba continuará vivendo.
A macumba é o Brasil que deu certo. Na verdade, do Brasil que deu errado.

Vivemos em dois "Brasis". O que faz parte de um projeto genocida e opressor, e o Brasil que salvou seu povo nos quilombos e salva nas favelas.

Esse segundo Brasil, deu errado.
Bom, pelo menos para aqueles que construíram nossas narrativas políticas e sociais. A macumba faz parte disso. Não está nem um pouco dentro do Brasil que agrada.

O Brasil para dar certo, precisa dar muito errado. Pra isso, macumbemos.
Nosso lema deve ser: viver e saravá.

Com muita fundanga, otin, peregun, pemba e acaçá que iremos salvar o país que vivemos.

O país que é nosso. Nossos ancestrais construíram. E o que é deles, é nosso por direito.

@emicida tudo pra ontem!

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More from @_doblues

14 Jan
Segundo Bandeira e Batstone, o termo Umbanda descende de terras angolanas, e tem como significado "a arte da cura tradicional".

O termo Umbanda, diferentemente do que muitos dizem, já existia como bandeira religiosa antes de 1908.

Era usado em rituais espirituais bantus.
Enquanto Umbanda é definitivamente a arte de curar, Kimbanda, do quimbundo, é aquele que exerce a cura.

Logo, não há como desvincular um termo do outro.

A Umbanda é a prática, o Kimbanda é quem o pratica.
Todos termos utilizados em rituais de religiosidades bantus, e não me limito apenas a Angola e Congo, afinal, ambos os termos estão presentes em outros países da África Central, como por exemplo em Guiné.
Read 14 tweets
12 Jan
Gente, tô estudando sobre a diáspora africana em terras haitianas.

Mais especificamente, estou estudando sobre as faces de Ogum por lá, rsrs.

Já adianto que Ogum lá também é sincretizado com São Jorge. Tem também certa influência na revolução haitiana.

Muito foda.
Ogum no Haiti, dentro do voodoo, é um Ioá.

Bom, na verdade, o culto a Ogum no voodoo tem muita influência fon. Afinal, o território haitiano foi controlado pelos franceses, que por sua vez compravam muitos escravos da costa ocidental africana. Africanos do Reino do Dahomé.
Reino do Dahomé esse que foi colonizado de forma arrebatadora e extremamente cruel pelos franceses no ano de 1904.

Enfim, os fons influenciam muito as crenças afro latinas. Já falei sobre isso aqui, vou deixar uma thread que fiz.
Read 4 tweets
9 Dec 20
Eu realmente tenho pena (não no sentido de superioridade, mas de pena mesmo) das pessoas que pensam em Oxum como uma mulher boba e vaidosa, que vive a se olhar em seu espelho para se admirar.

Gente, o espelho da Oxum é a arma mais fatal que existe:
Conta um itan que Oxum aprendeu com as Iyami Oxorongá a como controlar o sagrado feminino e seus feitiços. Assim, além de ter seu poder de persuasão e boa comunicação por natureza, Oxum se tornou também uma exímia feiticeira.
O abebê que para alguns é um leque (e tem até um Itan sobre isso), é conhecido popularmente como o "espelho da Oxum".

Oxum não fica de frente pro abebê a se mirar, muito pelo contrário, com o espelho ela derrota seus inimigos sem nem sequer olha-los nos olhos.
Read 8 tweets
9 Dec 20
THREAD SOBRE OXUM PARA TODOS AQUELES QUE NÃO SÃO DA RELIGIÃO.

VAMOS DESCONSTRUIR O QUE ESTÁ EM TORNO DESSE ORIXÁ TÃO LINDO, E MOSTRAR SUAS PARTICULARIDADES.
Começo pedindo pra que dêem rt, e assim chegue ao máximo de pessoas possíveis. Ou mandem para aquele amigo evangélico, ateu, ou aquele que é interessado e não sabe por onde começar. Enfim, comecemos:
Pra falar sobre afro religiosidade, precisamos entender que vivemos e coexistimos com 2 realidades diferentes ao mesmo tempo.

Elas são: as religiões afro BRASILEIRAS
E a Religião Tradicional, que é praticada na África.
Read 40 tweets
8 Dec 20
Hoje, dia 8 de dezembro, é dia da Oxum. O Emicida, macumbeirinho que nem a gente, hoje lança um documentário que mostra a vivência e a luta de pessoas pretas, com a cor dourada que representa o ouro da Oxum.

Falamos de representatividade. Falamos de Emicida.
#EmicidaAmarEloDOC
Ele cita Exu, cita o axé, cita a negritude em suas falas.

O mesmo fala que hoje luta por coisas das quais não começaram com ele. Por isso ele cita o oriki de exu "Esú matou um pássaro ontem, com uma pedra que arremessou hoje".
Porque pode passar-se anos, mas se o pássaro da desigualdade ainda voar nos nossos céus pretos, independentemente de quando for, temos que lutar pra que ele caia.

Emicida age como Exu, tendo o discernimento de derrubar preconceitos do ontem, com a capacidade de hoje.
Read 4 tweets
8 Dec 20
O resgate da ancestralidade negra precisa, com certeza, passar por Oxum. Por isso eu peço para todos aqueles que se engajam pela causa afro, que venham conhecer Oxum.

Ela não é Nossa Senhora, porque é mãe preta dos peitos de fora e da cintura saliente.
Não é atoa que a Beyoncé ao resgatar suas raízes negras em seu novo álbum, exalta Oxum e a sua energia.

É essencial lembrar desse orixá, pois é o princípio de uma comunidade preta.
Quer falar de feminismo? Fale de Oxum. Lembrem-se que os pretos já exaltavam a figura feminina e todo seu empoderamento dentro da sociedade Yorubá.
Read 9 tweets

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