Tenho visto alguns tweets a escarnecer da teoria de JMT de que o voto no Chega é um voto de protesto anti-sistema.

Mas tudo o que li desde que este fenómeno do neo-fascismo se mediatizou com Trump, e quando digo li refiro-me a artigos na imprensa sobre estudos feitos sobre o
fenómeno indicam que, sim, os votos nos partidos ou figuras neo-fascistas (de Trump ao Brexit) são votos anti-sistema: pessoas que antes tinham um emprego para a vida graças à indústria e perderam empregos ou viram as suas terras tornarem-se um deserto sentem-se abandonadas
e revêem-se no tipo desbragado, que diz «as verdades» e vem «de fora de sistema».

O facto de se reverem, antes de mais, num discurso de uma pessoa (e não numa ideologia firme) torna maior a fidelidade ao fenómeno, por ser menos racional - o que é natural em quem vive num misto
de pânico (pela sua sobrevivência, pela sobrevivência dos seus filhos) e rancor social que facilmente se torna em comportamento agressivo.

Estas pessoas, mais ou menos conservadoras, desprezam os MeToo e BlackLivesMatter desta vida porque não compreendem porque raio se está
agora a discutir uma revolução social quando eles passam fome ou podem passar fome a qualquer momento.

Foi o que aconteceu nas zonas mineiras dos EUA, na periferia de Bristol, em que o Brexit foi buscar votos aos idosos que antes eram Labour.

Claro que cada país tem o seu faxo
e cada país tem a sua demografia que se arrasta para o partido pró-facho.

Lembro-me de ler que em Portugal havia indícios de uma valente percentagem dos apoiantes do Chega serem quadros médios, aquelas pessoas com o 9º ao 12º anos que encontraram lugar numa empresa e depois
nunca mais subiram. Seria importante conhecermos melhor a demografia do Chega para entendermos os motivos destas pessoas, mas convém lembrar que nós temos uma história em que à monarquia se segue quase de imediato uma ditadura imperialista e profundamente corrupta (profudamente
amiguista, por assim dizer), o que significa que levamos séculos de fome - se há país em que (tirando a década em que a UE despejou dinheiro no país) nunca houve bem-estar material e em que a desconfiança nas instituições faz sentido é em Portugal, que se tornou uma democracia
mas permaneceu pobre.

Claro que termos consciência disto não significa que possamos partir daqui para afirmar que 50% do país trabalha e a outra metade chucha na mama do estado. Isso é uma ficção que os números demonstram com facilidade - mas o que os números não desmontam é
o sentimento de quem já está propenso a acreditar que se vive mal é porque outros (ladrões) o roubaram do que merece (uma vida boa).

Não menosprezemos o rancor social, nem partamos do princípio que o rancor social não tem razão de ser. Os Bourdieus deste mundo dão a entender
, pelo menos para um leigo curioso como eu, que sim, esse rancor tem razão de ser e que sim, a imobilidade social é um facto.

À partida a única forma de resolver isto seria redistribuir melhor a riqueza, criar ainda mais oportunidades para quem vem "de baixo", mas sejamos
honestos: enquanto uma empresa poder "contratar" uma empresa fantasma para fazer nada, transferindo para esta (devidamente sediada num paraíso fiscal) os lucros sobre os quais, agora, já não terá de pagar impostos, enquanto isto acontecer será difícil sonhar com um pouco menos de
desigualdade.

A ironia disto é que estes sujeitos, estes salvadores providenciais, nunca são realmente fora do sistema - são usados pelo sistema para criar caos social, porque o caos social favorece as grandes empresas: se o Chega for governo, torna-se mais fácil travar uma
subida do salário mínimo, por exemplo.

Como é que se explica às pessoas que o seu salvador não é um Cristo mas um Pilatos? É dificílimo.

Quando o Chega surgiu muitos de nós apelaram de imediato à ilegalização do partido por ter apresentado nomes falsos. E continuamos a apelar
ao mesmo tendo em conta a enormidade de enormidades que os seus membros dizem: mandar deputadas portuguesas para a sua terra porque são negras, dizer que ladrões merecem ver as suas mãos cortadas, ter nas suas fileiras neo-nazis e ex-condenados por crimes de ódio devia ser mais
que suficiente para ilegalizar um partido.

Podem dizer-me: mas isso não resolve o descontentamento das pessoas.

Certo, mas resolve a forma como essas pessoas exprimem o descontentamento.

Parecendo que não vivemos em sociedade; temos certos pensamentos que sabemos ser melhor
não verbalizar. Não verbalizamos e não agimos sobre eles, porque é isso que a sociedade nos ensina.

Mas eis que de repente surge alguém com um tempo de antena desmedido (que ainda está por explicar) e que legitima o discurso de ódio, tocando nos pontos fracos daqueles que se
sentem enganados pelo sistema. E de repente uma não despicienda percentagem da população diz coisas inacreditáveis, xenófobas.

Ninguém nasce racista, não há um gene do racismo. As pessoas dizem coisas racistas porque as pessoas que admiram - seja o pai, o tio ou o vizinho - têm
actos e palavras racistas. Nem sequer o racismo é uma "posição" racional ou que dure a vida inteira - eu conheço uma data de ex-skins que votam hoje à esquerda e que têm vergonha da sua juventude. Claro que essa malta não teve a mais fácil das infâncias - ser skin era um meio de
se integrarem, de pertencerem a qualquer coisa, de controlarem qualquer coisa na sua vida. Nuns passou, noutros não.

O que me parece óbvio é que quanto mais deixarmos a população ser exposta a este traste mais gente ele arrastará.

O que me leva a concluir que a ilegalização do
Chega é uma obrigatoriedade moral e cívica (pelo atrás exposto e pela Constituição).

A democracia não é a aceitação de tudo - é a aceitação de todos os que aceitam as suas regras, coisa que o Chega não faz.

É obrigação da democracia não permitir que um tiranete se disfarce
de democrata para instalar o caos social, lançar as pessoas umas contra as outras e corroer a democracia.

Mas isto não pode ser feito sem que de facto percamos tempo com quem vota Chega. Temos de saber quem eles são, a sua escolaridade, o seu salário médio, o que os leva a votar
Chega - e temos de ter soluções para os seus problemas.

Uma das coisas que me fez impressão nos debates presidenciais é que estavam todos muito preocupados com a sua quota de mercado mas ninguém (excepto o próprio AV) falou para a quota de mercado do Chega.

Talvez algumas
dessas pessoas sejam irrecuperáveis, já sejam racistas há demasiado tempo, sei lá.

Mas não serão todas irrecuperáveis. Não todas escória humana que esteve estes anos todos à espera da escória-alpha que os guiasse.

Há um défice, nessas pessoas, de capacidade de interpretação:
não são capazes de perceber que são vítimas de um embuste, não são capazes de perceber que as soluções que pedem não são frases de ordem simplistas mas alterações complexas de ordem financeira, de redistribuição de dinheiro, de educação.

Temos de chegar a essas pessoas.

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