Tava tentando organizar ideias em torno de "liberdade de expressão/censura" nessa cacofonia de ações contra Trump et all. Hj cedo o Café da Manhã da @folha me ajudou muito a partir da conversa da @mageflores e do @brunoboghossian c/ @britocruz_. Fiz um mapa (em azul, pontos meus)
Antes de começar c/ alguns comentários/reflexões, queria sublinhar o ponto da @tainalon sobre necessidade de fugir um pouco dos "suspeitos usuais", sobretudo diante da enorme quantidade de mulheres especialistas no assunto que precisam ser ouvidas!

1o ponto (e talvez o mais importante): Chico estressou mto muito bem a complexidade do ecossistema do qual a gente tá tratando: “Depende da perspectiva sobre liberdade de expressao, Mage”, “Depende do regime juridico do pais que a gente considerar”, “Depende da rede social”, ...
Isso nos lembra (primeira ressalva em azul na figura) que o ecossistema criado em torno da Internet é muito grande pra permitir generalizações sobre "a esfera pública", sobre "os usuários de Internet", sobre "as plataformas", etc.
A discussão sobre "como tratar a moderação de conteúdos" depende não só de quem faz a moderação, mas também de quem produz esses conteúdos e, ainda, de variáveis culturais, socioeconômicas, político-institucionais que variam muito de país pra país.
2o ponto: não são todos serviços/aplicações de Internet que ganham escala e relevância global/transversal. É um número pequeno considerando a vastidão do ecossistema digital. Até mesmo o WhatsApp que é grande no Sul global até ontem não era relevante nos EUA.
Isso pra dizer que: ainda que serviços/apps comumente utilizados ou populares em um grande número de países ganhe status de 'gigante global', é preciso levar em consideração que seus provedores não se comportam da mesma forma nos diferentes países onde oferecem serviço.
Isso acontece por várias razões (e podemos seguir discutindo por horas a fio). Mas quero só chamar atenção pro fato de que demorou muito mais tempo pro Trump ter conteúdos *deletados* em algumas redes sociais que presidentes de outros países (Bolsonaro nessa lista).
Lembro bem das discussões por aqui há alguns meses sobre o comportamento distinto de Facebook e Twitter, em contextos diferentes obviamente, mas em eventos mto similares em termos práticos.
Ora: pra usar uma expressão do @britocruz_, "o DNA dos modelos de negócio" de empresas sediadas nos Estados Unidos obviamente influencia nessa maior reticência/proatividade de agir nesses diferentes casos.
3o ponto: a gente precisa separar em duas categorias as exigências que faz em termos de transparência/accountability/prestação de contas dos distintos serviços e apps de Internet. Faz sentido exigir coisas baseadas na nossa realidade local/nacional. Mas é preciso também...
fazer um diálogo sério sobre como coordenar essas exigências pra um contexto de transnacionalidade, principalmente pra esses mamutes que oferecem serviços aparentemente semelhantes (posto q iguais não são) de forma transversal pelo planeta.
Tentar resolver um problema localmente, desconsiderando o contexto mais amplo em que o nível local tá inserido, vai gerar soluções sub-ótimas e até mesmo que entram em conflito com soluções adotadas em outros espaços.
Um outro ponto (e talvez o mais importante): não se trata só de redes sociais. Vários tipos de serviços e aplicações (de plataformas de hospedagem de conteúdo, a meios de pagamento, passando até mesmo por empresas de segurança cibernética) fazem da discussão ainda mais complexa.
Deem uma olhada nessa listinha viva de "plataformas" de todo tipo que tão entrando na onda de negar serviço como resposta à invasão de 06/jan (spoiler: doc muito útil para pesquisador@s e curios@s de todas as áreas)

docs.google.com/document/d/1dN…
Falta uma coluninha nessa tabela: local de incorporação ou talvez local da sede. Vou me furtar de comentar em detalhes por que acho que essa informação é relevantíssima. Mas quando foi que metade dessas empresas fez algo similar em processos sociais violentos registrados alhures?
Isso tudo pra reiterar um trem que falei há alguns dias. Sigam a thread abaixo:

"Na Internet, o buraco é sempre mais embaixo." (Voltaire) Tá, piadinha à parte, tudo isso pra dizer que a gente precisa ser muito cuidadoso e rigoroso pra conseguir dar conta dessa tensão nacional/transnacional ou local/global (...)
que não é nova mas foi intensificada sobretudo a partir do advento da Web e ganhou proporções incomensuráveis com a ubiquidade e a dependência que temos de serviços e aplicações que se valem da Internet pra funcionar.
problema não é "da Internet". O problema é uma vida cada vez mais interconectada. O desafio da governança sociopolítica que nos é imposto é multidimensional, exige multidisciplinaridade, diálogo e colaboração. Como civilização, creio que não estamos preparados.

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11 Jan
As reflexões feitas neste fio são as perguntas de respostas difíceis que indicam o incrível ponto de inflexão que estamos vivendo. Não há resposta fácil.
Eu diria ainda que o que mais me intriga, nesse turbilhão de coisas sintetizadas pela @boomartins, é o seguinte: "Redes como Parler tiveram seus serviços de hosting suspensos, mas esse debate continuará em algum lugar."
Todo o sistema capitalista tá assentado na 'autonomia privada' como regra e na intervenção regulatória do estado como residual. Isso quer dizer que qualquer ator econômico (por maior e mais preponderante que seja), via de regra, é livre pra fazer negócio com quem bem entender.
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22 Aug 20
honra estar no mesmo patamar (e do lado) do @ayres_britto e do @brunobioni nessa discussao. O meu artigo, para registro, teve co-autoria do @prenass. Obrigado pela referencia, @ricardo. E pelo texto, que permite seguir o debate sobre a rastreabilidade de mensagens! 1/n
Para referencia e cotejo, meu texto com o @prenass esta disponivel aqui 2/n

www1.folha.uol.com.br/poder/2020/08/…
Vou evitar de entrar no merito de questoes relacionadas aa natureza do trabalho do legislativo e do judiciario, e nao vou tratar da questao da “manipulação criminosa do mercado de ideias”, pra nao perder o foco das questoes teoricas e praticas que tao por tras do art 10. 3/n
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10 Aug 20
Me mudei por umas semanas pra casa do meu sogro (em Belo Horizonte). Chego aqui, @vivobr cobrando 249,00 por Internet de 15Mbits/s. Um assalto. Ligamos pra lá pra tentar melhorar a qualidade, aumentar a banda e diminuir o preço. Vejam o que aconteceu: 🧶👇
Atendente da @vivobr informa: (1) o máximo que conseguimos levar à sua região da cidade é 15Mbits/s; (2) há tempos este plano não existe mais; (3) dá pra reduzir substancialmente o valor do plano: de 249,00 pra 89,00 (-169,00!!!).
Há anos, a @vivobr vem aumentando o preço do plano de Internet (sem qualquer incremento de capacidade e de qualidade do serviço). Diante da possibilidade de perder o cliente, a empresa reduz aproximadamente 65% do preço do serviço!
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3 Aug 20
“criptografia de ponta a ponta” é um modelo multidimensional q ñ pode ser reduzido à codificação/decodificação da msg. Modelo envolve: o intercâmbio seguro de chaves entre as pontas + o envio seguro da mensagem de uma ponta a outra; + (...) 1/n #pl2630
(...) + a codificação/decodificação do conteúdo somente pelas pontas. Toda e qualquer interferência de terceiros em uma das dimensões descritas anteriormente representa uma QUEBRA da criptografia de ponta a ponta. 2/n #pl2630
Exemplo 1: se provedor é obrigado a copiar chaves criptográficas que deveriam ser acessíveis somente pelos usuários nas pontas, p/ mantê-las à disposição de órgãos de persecução criminal interessados em acessar o conteúdo das msgs, tá QUEBRADA cripto ponta a ponta. 3/n #pl2630
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6 Apr 20
Thread de “utilidade pública” sobre o Zoom sugerida pelo @MrWagnerCabral. A ideia é compartilhar algumas infos que tenho sobre o que tá pegando e o que a empresa tá fazendo pra ajudar decisões embasadas a respeito.
Isso veio no contexto de uma conversa relacionada à decisão da Gerência de TI da Anvisa de banir o uso do Zoom e migrar tudo pro MS Teams.
Preocupação com segurança é importante, mas é preciso ter ciência de q (1) não há bala de prata em TI e (2) a maior parte dos problemas conhecidos sobre o Zoom são manejáveis por meio de configs. Outros problemas graves existem. É preciso saber como eles tão sendo contornados.
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