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13 Jan, 37 tweets, 10 min read
Eu tinha 08 anos e morava em Barreiras, interior da Bahia.

A cidade era calma e tranquila, lugar perfeito para uma criança crescer.

A população de Barreiras era predominantemente parda, um estranho eufemismo para quase todos pretos.

Na vizinhança de casa, todos eram pretos.
Em determinada época, sermos pretos virou um problema visível, pois a cidade foi invadida por sulistas que vieram investir no agronegócio do cerrado.

Geralmente eram pessoas muito brancas, de olhos claros e cabelos loiros - o que desde logo criou uma divisão na cidade.
Bem na frente de casa, em um bangalô que estava desocupado fazia muito, veio morar uma família assim.

O pai, gerente de uma fazenda, passava o dia todo fora. A mãe, dona de casa, uma mulher muito bonita, estava grávida quando chegou.

E Roberto, o filho deles.
Apesar de tudo, Roberto não ligava para cor. Para ele, eu e os outros meninos éramos somente isso: amigos com quem ele brincava e se divertia a tarde toda, naquela cidade estranha para onde foi obrigado a se mudar.

Mas, mesmo assim, havia coisas estranhas...
Porque a mãe do Roberto, Dona Carla, sempre olhava para a gente com olhos de raiva, sabe?

Era evidente que ela não aceitava que o filho brincasse com "aqueles pretinhos", como ela nos chamava, misto de ofensa e brincadeira.

Naquela época, a gente ainda não entendia bem racismo.
Apesar de tudo, nós brincávamos.

Era o dia todo correndo, jogando bola, indo tomar banho no rio e pegando fruta. Se não fossem aqueles olhares que pioravam, cada vez mais, nossa infância teria sido extremamente feliz.

E as coisas pioraram.
Mamãe dizia que Dona Carla devia estar ruim pela gravidez, que isso de ter filho e parir mexia muito com a mulher, e que a gente tinha que entender aquilo e relevar olhar feio e as "brincadeiras".

Até que os ataques começaram a ser gerais.
Teve um dia, nunca esqueço disso, que a gente estava brincando e, sem querer, o Roberto se machucou.

Dona Carla saiu correndo da casa dela, a barriga gigantesca apontando para a gente, e ela gritava e xingava:

- SEUS PRETOS MALDITOS

- SEUS MACACOS MALDITOS

Foi um horror.
Lembro bem das nossas mães, também saindo de casa, as caras cheias de ódio, todas elas recolhendo seus filhos nos braços e trazendo para casa, para evitar brigar com aquela mulher grávida, que cada vez mais ia se deteriorando em humor.

Entramos, mas ela não...
Dona Carla ainda ficou na rua uns longos minutos xingando a todos, especialmente a mim, que era o amigo mais próximo do Roberto.

Foi na frente de casa que ela falou tanta coisa ruim, tanta coisa horrível... e lembro também da minha mãe chorando muito, tampando meus ouvidos.
Não sei se um dia eu ainda poderia me magoar mais do que naquele dia, sabe?

Ver minha mãe chorar, humilhada, sem poder fazer nada... ouvir que foi dito de mim... Me senti um lixo completo naquele dia. Meu pai, quando chegou em casa, quis ir lá brigar, mas, do que adiantava?
E, por mais que ela tenha feito coisas tão horríveis para mim... que tivesse me ofendido daquela forma... nada justificou o que fiz depois...
Bem... passado esse dia, Roberto nunca mais brincou conosco. Os únicos amigos que ele tinha eram outros meninos brancos, com quem ele brincava no clube da cidade, reservado só aos sulistas.

E Dona Carla também sumiu, porque deu a luz.

Nasceu a Bianca.
Quando a menina nasceu, parece que ela nos olhava com mais raiva ainda, sabe?

Como se nós fôssemos monstros que pudéssemos devorar a criança viva.

Só que, com o tempo, todos ficaram nos seus cantos. Ela lá, com seus preconceitos, a gente aqui, com nossas mágoas.

Até que...
Lembro bem do ano.

Foi em 1990...

Minha tia resolveu levar todas as crianças para tomar banho de rio. Era um sábado quente de verão.

Depois de a gente se divertir muito, já quase de noite, voltamos para casa.

E, de longe, a gente viu aquele clarão assustador.
A casa do Roberto pegava fogo.

Mas era um fogo tão enorme, que só restava torcer para não ter ninguém dentro.

Na frente, muita gente tentava apagar o fogo, os bombeiros ainda lutavam para salvar algo... foi quando uns homens saíram das chamas carregando alguém.
Era a baba da Bianca...

A filhinha loira de olhos azuis da Dona Carla. A irmão mais branca do que nuvem, do Roberto.

Roberto, pai e mãe, tinham saído rapidinho para resolver algo. A baba ficou sozinha com Bianca. O incêndio começou e a baba foi retirada das chamas...
Já a Bianca, o choro dela foi engolido rapidamente pelo barulho da madeira que crepitava à medida que virava cinza...
A morte chegou de forma terrível para aquela família.

Só no final do outro dia os bombeiros encontraram o corpo completamente carbonizado da menina. Não havia nada para ser reconhecido, numa época em que DNA ainda era coisa de filme de Roliudi...

Mas era ela.
Eu nunca vi ninguém sofrer mais do que vi Dona Carla, diante da morte da filha.

Dona Carla não chorava, uivava, e durante anos eu ainda guardei aquele barulho nos ouvidos, que sempre me aparecia nas noites mais silenciosas e terríveis, ainda mais depois do que eu fiz...
O velório da Bianca foi no estádio municipal de Barreiras.

Vieram pessoas de todos os lugares para nem ver o corpo completamente carbonizado da criança, o caixão lacrado que escondia o horror daquela morte.

E eu estava lá, na multidão, e nem tinha ideia de fazer nada...
Achei estranho irmos, mesmo depois de tudo que Dona Carla nos fez... depois de todo o preconceito...

Mas minha mãe disse:

- Filho, não há nada mais importante do que um filho. Essa mulher está devastada e, apesar de tudo, nós vamos.

Acho que foi aqui que a ideia surgiu...
Na fila dos cumprimentos, uma fila gigantesca, estavam o pai, o filho e Dona Carla.

Ao lado deles, a idealização da menina perfeita, agora morta...

A nossa vez foi chegando e eu observava aquela mulher apática, que cumprimentava a todos sem nem entender aquilo.

E fui chegando.
Minha mãe foi a primeira a falar, depois meu pai... um a um... primeiro com o pai da Bianca, depois com o Roberto, depois Dona Carla.

Até que fiquei bem defronte dela, apertei sua mão e, sem nem raciocinar, puxei ela de leve, como se querendo contar um segredo.

Então, falei:
Com todo o peso do meu ódio, falei baixinho:

- Dona Carla, qual a sensação de ter uma filha preta, torrada, igual a mim?
Eu matei aquela mulher.

Naquele dia, naquela hora, eu soube que tinha matado Dona Carla, que ela estava morta, mesmo que vivesse ainda uns cem anos.

Ninguém entendeu quando ela desabou no chão, de joelhos, chorando.

Minha mãe, me olhando feio, só fez me puxar dali.
Nunca contei a ela o que falei naquele dia do velório, estou contando aqui, pela primeira vez, porque já não sei mais o que fazer, sabe?

Não sou uma pessoa ruim, muito pelo contrário. Eu sei que errei, sei que fiz uma grande besteira, que destruí aquela mulher...
Tanto é que depois do velório eles sumiram da cidade e nunca mais se teve notícias deles.

E eu viveria com minha culpa, com meu arrependimento... viveria de boa me martirizando sem fim, querendo morrer pelo que disse naquele dia, mas, faz dois anos, nasceu minha sobrinha.
Desde que minha sobrinha nasceu ela tem um medo absurdo do escuro...

Desde bebezinha, a gente nunca entendeu o pavor dela pela escuridão, nem o estranho fascínio que ela tem por velas.

Ela adora velas, adora o derretimento das velas.
E, faz pouco tempo, minha sobrinha aprendeu a falar e inventou que tem uma amiga invisível, uma criança chamada Bibi, que é muito feia, que só aparece de noite e mete medo.

Levamos minha sobrinha em um psicólogo, que disse ser somente imaginação fértil, hehehe
Acontece que, semana passada, minha sobrinha começou a conversar com sua amiga invisível e, depois de um papo observado por nós, ela levantou a falou:

- Bibi disse que não quer mais brincar comigo.

- Ah é, que bom - dissemos todos.

- Ela agora quer brincar com titio...
E não sei mais o que fazer...

Porque agora, todas as noites, quando fecho meus olhos, eu vejo a Bianca queimada, a pele toda derretida, ao lado da minha cama, dizendo que quer brincar comigo...
E eu já chorei, já me desesperei, já tentei não dormir e não sei mais o que fazer...

E to aqui, agora, contando essa história, e nem sei se consigo chegar a amanhã, porque a Bianca está me assombrando e não me deixa em paz...

Ela só pede para brincar...

Fim
Essa história me foi contada por DM, por uma pessoa desesperada, que não sabe mais o que fazer...

Ele pediu anonimato, porque tem muita vergonha do que fez no velório.

Tentei ajudar a ele, dei dicas do que pode fazer, e espero que ele consiga se livrar desse pesadelo.
Para mais histórias, tem aqui:

Em podcast, no umcontoetanto.com.br

No Telegram, um canal: t.me/tantotupiassu

No Facebook, uma página: facebook.com/tantotupiassu/

No Instagram, fotos fofas de pimpolhos: instagram.com/tantotupiassu/
As pinturas utilizadas no fio são todas de Candido Portinari.
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11 Jan
Há dez anos, a Região Serrana do Rio de Janeiro vivia um pesadelo que se configurou na maior tragédia climática do Brasil.

A partir do dia 11/01/2011, caiu tanta chuva naquela região que as encostas dos morros simplesmente se desfizeram. Image
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Nesses dias tristes morreram 918 pessoas. O n° de desaparecidos varia de 99 345 pessoas. ImageImage
Dentre os horrores desses dias, lembro sempre da saga do Wellington e do Nicolas, pai e filho, que passaram por dois deslizamentos e só foram resgatados depois de 15 horas soterrados. Image
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7 Jan
Quando Maurice Hilleman nasceu, em agosto de 1919, o mundo passava pela pandemia de Gripe Espanhola e estava absolutamente maluco.

Talvez por isso, a vida desse norte-americano tenha sido sempre cercada pela morte.

No parto, perdeu a irmã gêmea e a mãe. Image
Caçula de 9 irmãos, Hilleman foi criado por tios muito pobres. Sobreviveu a período de seca, de inundações, frio extremo. Sobreviveu a um quase afogamento, a um quase atropelamento e à difteria.

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Por sorte, o tio era muito mais incentivador do que o pai, e permitia que a curiosidade e intelecto de Hilleman florescessem - e ninguém jamais poderia imaginar o rumo que essa criação mais mente aberta traria ao mundo.

Hilleman se tornou um salvador de vidas.
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5 Jan
Faz pouco, cheguei com Íris da Unimed. Doentinha, doentinha, mas bem e medicada.

E uma coisa me chama a atenção: em uma tarde no pronto-atendimento, eu fui o único pai. Todas as crianças, somente as mães.

E não estou falando de bebezinhos somente.
Porque, por exemplo, Vicente ainda mama e só se acalma no peito, por vezes, ainda mais doente.

Mas a criança grande, já verbalizando, já andando, capaz de expressar emoções... só as mães.

O que os pais fazem enquanto isso? Porque o peso é “necessariamente” da mãe?
Porque essa ideia de que tem de ser a mãe a suprir as necessidades dos filhos nesse momento de doença?

De onde surge a “incapacidade” dos pais?

Tudo isso eu pensei com minha filha no colo, nas horas passadas no corredor da Unimed onde eu era o único pai.
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29 Dec 20
Era junho de 2001.

O veleiro Tudo, de 14 metros de comprimento, cruzava o Atlântico vindo da Venezuela, com destino às Ilhas Baleares, na Espanha, quando uma forte rajada de vento destruiu sua vela principal e o leme.

Daquela forma, seria impossível seguir navegando.
Mas a situação não era de todo desesperadora.

Felizmente o acidente ocorreu muito perto dos Açores, onde o barco poderia ser reparado.

Mas, infelizmente, o veleiro transportava cocaína, em quantidade até hoje não determinada (mas estimada em 1,5 tonelada).
Que fazer nessa situação, em que suas vidas dependem de aportar?

Que fazer com uma carga avaliada, à época, em 150 milhões de euros?

Os traficantes decidiram: parte da carga seria afundada em local mais raso, amarrada a pesos, para ser resgatada depois.
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27 Dec 20
Era 08 de maio 2010 e eu tinha uma viagem programada com minha namorada na época.

Como esperávamos pegar frio no destino, fomos ao shopping fazer umas compras e, na volta, planejando as milhares de coisas que faríamos, acabei passando pelo pior dia da minha vida.
A gente estava vindo de carro pelas ruas de Belém, tranquilamente.

Pararíamos na casa dela para buscar minha Maria e, somente então, eu iria par casa.

Acontece que, ao estacionar na frente do prédio dela, desavisados, fomos rendidos por três homens armados.
Até hoje não sei de onde eles surgiram. Só sei que um deles se adiantou e foi logo me mostrando um revolver preto.

Os outros dois cercaram minha namorada e mandarem a gente entrar no carro.

Eu só conseguia pensar que fazer qualquer coisa seria perigoso, mas tive que tentar.
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15 Dec 20
Fico desconfiado e confuso com essa questão sobre boa e má literatura.

Quem define isso?

O que merece ser lido?

Jamais esqueço quando @paulocoelho explodiu no mercado editorial.

Convivendo com professores de Letras espetaculares, o que mais ouvia era:

@paulocoelho é RUIM.
Aquela informação enteou na minha cabeça de forma rígida.

Para mim, criança, @paulocoelho escrevia coisas que não mereciam ser lidas.

Até que, belo dia, minha mãe entra em casa com diversos livros do Paulo e deixa na pilha de breve leitura.

Lembro do meu susto.
- Mãe, tu vais ler Paaaaaulo Coelho?

- Sim.

- Mas não é ruim?

- Não sei, filho. Nunca li, rs

- Mas todo mundo diz que é ruim.

- Filho, para criticar eu tenho que ler.

E ela leu.

Leu tudo, leu todos, marcou, fez anotações e seguiu comprando livros do @paulocoelho
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