Salles acaba de excluir universidades, pesquisadores e cientistas de todos os PANs, o instrumento no qual o ICMBio coordena esforços para salvar espécies já bem próximas da extinção.

Também decidiu que ele vai ter que renovar todo ano a autorização pro plano sequer existir
As reuniões ordinárias também sumiram

O Brasil estruturou dezenas de PANs na última década, com ciclos longos, ações perenes, calendário cheio, reunindo voluntariamente vários dos especialistas do país naquela espécie ou grupo. P.ex., PAN Toninha, PAN Primatas, PAN Ararinha azul
O pan da toninha, por exemplo, é praticamente todo executado por pesquisadores de ONGs premiadas no mundo.

Uma rede de dezenas de pesquisadores, universidades e estudantes faz o trabalho que o ICMBio não dá conta.
Tirar uma espécie da extinção envolve entender do bicho, seu ambiente, estudos genéticos, relações com comunidades, caça, pesca, tráfico, fazer manejo em campo, ações de comunicação e imprensa, é uma miríade de ações e especialidades que o estado não dá conta e nem tem pq assumir
O que o Salles faz é esvaziar ações e centralizar a decisão de qual espécie é salva e qual é abandonada à própria sorte. Pode colocar os PMs paulistas que ele enfiou no ICMBio pra montar a estratégia de salvação da onça-pintada. Pode nunca renová-lo ou convocar as reuniões.
Essa é a maneira que ele encontrou pra acabar com uma das políticas ambientais mais importantes que existem sem precisar extinguir o instrumento e criar manchetes.

É a especialidade dele. Manejar letras miúdas pra foder o meio ambiente.
É assim que ele, sabendo que não há clima pra extinguir o ICMBio, pretende acabar com o trabalho do instituto.

Ele já fez isso com o PAN Manguezais, que conflitava com interesses dos carcinicultores. Veja como ele opera nas letras miúdas

Se você junta isso que ele fez com o PAN com a decisão da última semana de que servidores do ICMBio não podem sequer trabalhar com pesquisadores em publicações científicas sem que ele, o onipotente, autorize, sobra o que?
Enquanto ele mantém todo mundo em compasso de espera com o tal grupo que estuda extinguir o ICMBio, está destruindo um a um os instrumentos de trabalho que construímos. Nem orçamento pro órgão ele pediu esse ano

PAN é uma solução nossa, tem 15 anos que a galera quebra a cabeça pra construir o melhor, + viável e + efetivo modelo

Todo ano o ICMBio mudava diretrizes, incorporava lições aprendidas, etc, aprimorando a ferramenta. É a vanguarda da proteção de grupos ameaçados no mundo
Agora acabou, virou papel na parede.

O mico leão dourado que se foda, os tubarões e raias que se virem sozinhos, as toninhas que aprendam a desviar de rede de pesca, a ararinha-azul que arrume um jeito de sair do zoológico de Dubai e voar até o sertão da Bahia.
Sabe o que é isso aqui? Reintrodução da ararinha-azul, aquela do filme Rio, extinta na década de 80. Só tinha sobrado em zoológicos.

O PAN da Ararinha preparou esse dia por uma década: pesquisadores, zoológicos do planeta, sheiks árabes, moradores de Curaçá/BA, empresas e ICMBio
“a participação na elaboração de propostas de atos normativos terminará com a apresentação dos trabalhos à autoridade responsável, os quais serão recebidos como sugestões e poderão ser aceitos, alterados ou não considerados pela autoridade ou pelos seus superiores [Salles]”

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23 Mar
Belo Monte não é fato consumado.

Os impactos se avolumam ano após ano. O decaimento de espécies, a perda de interações ecológicas, a estratificação do lago, a morte de florestas centenas de kms rio abaixo, isso piora a cada minuto.

Com o rio, as pessoas que vivem do rio.
Cada minuto perdido é trabalho dobrado na recuperação do rio, dos peixes, das florestas, das pessoas.

Me chamem de louco, mas a solução é uma só. E precisa acontecer rápido.

piseagrama.org/implodir-hidre…
Visualize o tremendo impacto de uma barragem: apenas imagine o que significa pra essa floresta na imagem um muro atravessado bem no meio, transformando montante em um lago podre e jusante em um córregozinho seco

Read 4 tweets
23 Mar
Pelo amor de deus, gente, isso não é só mudança climática. Isso é resultado do ataque coordenado que fazemos aos rios e florestas com barragens, outorgas suicidas, monocultura, poluição, esgoto.

Isso não é só desmatamento na Amazônia, mas principalmente Cerrado, Mata Atlântica +
Isso acontece quando a bancada dos coroneis pistoleiros se junta com o resto do centrão pra mudar o código florestal e em plenário começam a trucar os maiores cientistas da área dizendo que rio não tem que ter 20m de APP, como os estudos indicam, mas 5 ou 10.
O nível do "debate":
Ninguém chamou o Código Florestal de Lei da Água à toa. Ninguém pede criação de áreas protegidas à toa. É a vegetação nativa que protege os rios e os solos, que protege umidade, que protege floresta que produz água e chuvas.

NÃO EXISTE ÁGUA GRÁTIS
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16 Mar
O "global" André Marques, acreditem, entrou com um punhado de caminhonetes em riachos na Serra da Canastra para... fazer um churrasquinho.

Estas corredeiras são o hábitat do pato-mergulhão, espécie icônica da Canastra e criticamente ameaçada de extinção.
instagram.com/p/CMdESc5Bgm9/
mais do apresentador do @TheVoiceBrasil fazendo farofada em área de preservação permanente. Deve tá faltando praia no lugar que ele mora

Ainda tem coragem de marcar "águas do S. Francisco. A Serra abriga a nascente do Velho Chico. Espero que ele não a encontre
Este é o pato-mergulhão, ícone da Serra da Canastra. Restam apenas 250 indivíduos na natureza.

Água tem no mundo todo. Pato-mergulhão só tem na Serra da Canastra, em um local de SP e poucos de Goiás e Tocantins.

wikiaves.com.br/wiki/pato-merg…
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23 Feb
Milionário, garoto-propaganda da Vale, patrocínio do BNDES e da Samarco, música do Gilberto Gil, cobertura 24h da imprensa e com documentário disputando o Oscar: o Sebastião Salgado só conseguiu restaurar 700 hectares de Mata Atlântica? 🤦🏻‍♂️
Ou o plantio está sendo feito em Marte ou ele está enganando todos vocês
Um pouco de perspectiva do que é 700 hectares de MA.

Meta de restauração brasileira do acordo de Paris: 12 milhões de ha até 2030

Área original em MG: 27 milhões de ha. Salgado plantou ~0,0026%

Área de floresta utilizada por uma única onça pintada no bioma: 10 a 70 mil ha
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29 Jan
Historinha: em 2011, 1º semana do governo, Dilma reuniu sua equipe para tratar do imbróglio Belo Monte e avisou que a usina ia ter uma licença de qualquer jeito.

Dentre os impasses, a avaliação do Ibama de que a vazão do Xingu não permitia produzir energia na maior parte do ano.
O presidente do Ibama se demitiu logo. Um sujeito chamado Américo Ribeiro Tunes assumiu interinamente, deu uma LICENÇA PARCIAL e saiu no mês seguinte.

Esta licença não existe. Naquele momento o que estava pendente era uma licença de instalação, a 2ª de 3 do rito do licenciamento
Não podendo dar a licença que efetivamente iniciaria as obras, diante de uma série de falhas nos estudos ambientais e da resistência interna no Ibama, o governo inventou a "precária" licença parcial ainda no 1º mês de mandato.

A obra nunca mais parou.

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28 Jan
"A Vale é a culpada pelos dois maiores desastres ambientais da história do Brasil. É culpada por ter enterrado vivas 272 pessoas em Brumadinho e 19 em Mariana. Em ambos os casos, a causa dos desastres foi uma sucessão de medidas para socializar os riscos"

noticias.uol.com.br/opiniao/coluna…
"Em 2020 a Vale distribuiu R$ 2 bi em dividendos e o mercado espera mais R$ 50bi em 2021. Dinheiro não falta.

(...) não há mais como esconder: o problema da Vale é dinheiro. O único motivo pelo qual o acordo não foi assinado é o valor inexplicavelmente baixo que a Vale ofereceu"
Querer economizar c/ a reparação é perpetuar o modus operandi que causou os desastres. É continuar pedindo à sociedade mineira que suporte as consequências nefastas do seu negócio. Que ngm se engane: onde a ética não prevalece, o problema é sempre dinheiro

dica do @f_alperowitch
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