Ontem, dois conhecidos foram vítimas de fraude eletrônica via invasão de WhatsApp, felizmente resolvidas.

E isso me lembrou de quando tentaram aplicar um golpe via telefone na minha avó, coisa antiga...

1ª coisa que vocês precisam saber: sempre fui o neto favorito. Minha vó me segurando no colo, bebê. Julho de 78. Eu tinha
Como fazíamos todos os sábados, estávamos comendo churrasco na casa da vovó, vários filhos, netos e agregados, quando vovó lembra de relatar o fato:

- Ah, tentaram me passar um golpe essa semana - e falou isso sem parar de saborear sua asinha de frango.

O caos!
- Como assim, mamãe
- Vovó, que perigo
- A senhora não fala nada
- Lhe agrediram, mamãe?
- Foi na polícia?

Vovó, asinha na mão, sem se abalar, responde:

- Que nada... fui muito mais esperta.

Diante do clima de alívio - UUUFA - ela começou a contar o golpe.
- Foi terça-feira de tardinha; tocou o telefone e fui atender. Eu falei alô e a pessoa do outro lado respondeu “oi, vovó!”

- Era voz de menino, voz longe, já não escuto bem, e quantos netos tenho, Alvarina?

- 28, netos e bisnetos, mamãe.

- Pois é, 28...
- Como não reconheci a voz, falei

“oi, meu filho. Quem é?”,

e o rapaz respondeu

“égua, vovó, não tá reconhecendo a voz do seu neto mais bonito?”

Aí eu disse,

“oi, Fernando. Tudo bem, meu amor?”

Nessa hora, imaginem a cena de choque a revolta.
Sim... 28 meninos, entre netos e bisnetos. Quase todos entre 40 e 16. Todo mundo comendo seu churrasquinho, bebericando um suquinho de cupuaçu, chupiscando um açaí, quando vovó assume

em alto

e bom som

que eu, euzinho, era o neto mais bonito.
2ª coisa que vocês precisam saber: mais novinho, fui um pitéu.

Hoje que sou pão dormido, no crepúsculo da vida, mas, naquela época, minha avó não estava errada não.

Não estava mesmo. Eu, na minha formatura, em 2004.
Contudo, pelo silêncio e engasgo que se fez na sala, facilmente se percebia que todos discordaram daquilo.

- Ah, vó, quer dizer que o Tanto é o mais bonito, é?
- A senhora diz isso na cara dura, vó?
- 28 jovens na sua descendência e a senhora nem treme falando assim?
Calado estava, calado fiquei, saboreando meu churrasquinho.

E ela, impassível, ainda nas asinhas:

- Mas não tenho culpa se acho o Fernando o mais bonito. Até porque ele é parecido comigo.

Até que um primo perguntou:

- E eu, vó? A senhora não me acha bonito?
- Meu neto, você é até bonito, mas é a cara do seu pai.

E o “seu pai”, meu tio que estava bem atrás dela, fora da disputa de neto mais bonito, só gritou.

- Oh, mamãe, a senhora não me acha bonito?

E vovó se vira e diz:

- Meu filho, você até é bonito, mas é a cara do seu pai.
O clima pegou fogo com as discussões sobre o neto mais bonito (eu), o filho mais bonito (minha mãe) e sobre vovó ser linda e vovô ser apresentável.

No meio do bate boca e gritaria, um jogando ossinho de frango na goela do outro, ainda tinha Maria, velha empregada da minha avó. Minha mãe nos seus 15 anos.
Maria, mulher forte como um búfalo. Já era avó. Vivia paquerando os coroas da vizinhança. Adorava dançar um merengue e éramos apaixonados um pelo outro.

Vovó se revoltava com nosso plano maluco, meu e da Maria, de fugir para Corijuba para dançar merengue na beira-mar.
Maria fazia churrasco para todos, mas era para mim. O tempero era do meu gosto, as carnes que ela comprava, as que eu gostava. O ponto do cozimento. Até o refrigerante era o meu preferido.

E no meio da briga rolando solta, vovó chupiscando açaí, Maria punha lenha na fogueira.
No intervalo dos gritos, ela falava baixinho, para todo mundo ouvir.

- Mas ele é bonito mesmo, fazer o quê?
- Verdade, és a cara do teu pai.
- Verdade, o senhor é a cara do finado.

E me bajulava:

- Meu amor, mais uma carninha? Tá no ponto - as pernas, parece um flamingo.
- Opa, Maria, manda.

E ela dava a volta na mesa, já senhora, rebolando, e me servia, o que só fazia aumentar a revolta e gritaria geral, eis que o complô era da vovó e da Maria - um peso de absolutamente desleal - e eu, pouco me lixando, bebericando meu guaranã.
No final, almas e egos feridos, eu, impassível, fui decretado o neto mais bonito, além do que o que mais passeava com vovó, levava para festas de São João, saia para comprar fazendas para suas roupas (era costureira) e a levava para comer caranguejo na praia.
Inclusive, vovó só beijou dois homens na boca, a vida toda:

Meu avô e eu, nas inúmeras bitoquinhas que roubava dela - e ela nunca reclamava, embevecida.

E a fraude?

Vovó foi mais esperta mesmo. Minha avó, eu e nossas bitoquinhas.
O rapaz que se fazia passar por mim pediu 400 reais.

Ela disse que daria, claro.

O rapaz disse que ia mandar um amigo de moto ir buscar, e que esse amigo ia ligar para pegar o endereço.

“Mas quando que isso é verdade! Isso não é o Fernando jamais”.
- Pede para ele me ligar e vir, meu amor. Isso... umas 19:00. vou esperar no pátio.

O bandido também deve ter percebido que minha vó sacou.

E ainda bem.

Porque a velha Agripina ficou até 20:00 sentada no pátio, com uma tranca de porta na mão, esperando o “neto” que nunca veio. Foto do RG da minha avó.
Essa história é para tentar alegrar a vida.

Para que, além das tristezas, das bandidagens e dos choros, a gente ainda possa rir.

Fico feliz de contar hoje, quando choramos mais de 4 mil mortos pela Covid.

Que ela seja uma nesga de sorriso em cada um de vocês.

Fim
Para mais histórias, tem aqui:

Em podcast, no umcontoetanto.com.br

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