Vou contar uma história de como eu e uns amigos fazíamos para ter acesso a livros em Guaianases, periferia de SP, nos anos 2000 (pois, afinal, "só ricos leem no Brasil", segundo a Receita):
1 - Morar em Guaianases, pelo menos em 2000, significava que você teria pouco ou nenhum acesso a quase tudo. Achar livrarias, teatro, cinema, show era tipo encontrar água na Lua.
2 - Havia duas bibliotecas, mas elas tinham acervos minúsculos. E basicamente eram livros didáticos que nenhum adolescente ler. Depois, até melhorou.
3 - Nessa época, Guaianases vivia (e eu só descobri depois) um “conflito armado pelo controle do território”. Então, imagine o que era ser pré-adolescente no meio da violência banal e inexplicável. Um dia escrevo sobre isso...
4 - Nossa professora de português, sem acervo na escola municipal, recebia doações de amigos, ou recolhia livros abandonados, e levava alguns exemplares para a aula.
5 - A gente podia ler durante 45 minutos, uma vez por semana, às sextas. Foi assim que conheci Harry Potter, Médico e o Monstro e Os assassinatos da rua Morgue.
6 - Minha mãe ganhava bem pouco como operadora de caixa numa loja de sapatos. Mas, quando virei leitor, todo mês ela dava um jeito de comprar um livro pra mim.
7 - Minha mãe, Maria das Dores Machado, é uma heroína nessa história: mesmo com pouco estudo e salário baixo, ela sempre valorizou a leitura. Assinava revistas tipo Época e Superinteressante. Não sei com qual dinheiro...
8 - Ela comprou vários Harry Potter pra mim, Senhor dos Anéis, Edgar Allan Poe, Sétima Torre, Desventuras em Série etc.
9 - Minha mãe me levava nos lançamentos do Harry Potter no shopping Morumbi. Horas de ônibus, shopping de ricos, crianças fantasiadas...
10 - Numa delas, acho que Ordem da Fênix, tentaram assaltar o ônibus onde a gente estava e eu levei uma pedrada na cabeça. Machuquei de leve, mas ainda assim fomos ao lançamento. Valia tudo por Harry Potter...
11 - Mudei pra uma escola estadual no ensino médio. Havia uma biblioteca, mas ela ficava trancada. Alunos não podiam entrar. Diziam que não havia funcionários para trabalhar ali.
12 - Também havia um boato de que, no ano anterior, pegaram alguns alunos fumando cola dentro da biblioteca. Não sei se era verdade, mas talvez fosse.
13 - Observação: depois de virar repórter, entrei em alguns presídios para fazer matéria e reparei em como eles se parecem com escolas estaduais. Grades em janelas e portas, portões duplos, inspetores com molhos de chaves, áreas inacessíveis. Talvez sejam dos mesmos arquitetos.
14 - Ficamos amigos de uma inspetora. Um dia, ela também se revoltou com a biblioteca fechada. Numa aula vaga, deixou a gente entrar e falou: “peguem o que quiserem”.
15 - Furtei, salvei: O que é isso, companheiro?, A Guerra dos Mundos, 100 crônicas de Rubem Braga, 100 crônicas de Mário Prata, O Matador. Dois amigos pegaram outros…
16 - A gente também não tinha dinheiro nem banda larga na época (demorou pra chegar em Guaianases). Mas era possível ganhar pontos usando algum provedor gratuito, tipo o Click21.
17 - Quanto mais tempo conectado, mais pontos. Eu conectava de madrugada pra não gastar conta de telefone. Dava pra comprar coisas no Submarino com esses pontos. Comprei dezenas de livros assim: Viva o Povo brasileiro, Cem Anos de Solidão, Fama e Anonimato...
18 - Uma vez, o @ferrezoficial disse que, quando ele terminava de ler algo (tipo John Fante), ele saía na rua do Capão e não tinha ninguém pra conversar sobre a experiência.
19 - Passei por isso muitas vezes. A solidão do leitor na periferia é real, embora esteja mudando. O leitor da periferia é um salva-livros: livros abandonados, desprezados, esculhambados, jogados no lixo ou caixas que nunca serão abertas.
20 - O Bolaño uma vez disse que um livro é o melhor travesseiro pra um latino-americano. Então, parem com esse papo de que pobres não leem. Isso é idiotice! Obrigado a todos que salvaram livros para que eu fosse salvo por eles!

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