DE ADÈLE A ADÈLE: PARIS V
Victor Hugo morreu em 1885, quatro anos antes da Exposição Universal de 1889 e da inauguração da Torre Eiffel, que substituiu o arco do triunfo como monumento mais conhecido da cidade que representa muito bem uma passagem de fase para a cidade.
Mas pouco mais de meio século antes ele havia dado a sua mais importante contribuição para a cidade de Paris: a valorização da catedral de Notre Dame, e de certa forma, de todo o passado arquitetônico parisiense, sobretudo as construções da Igreja.

planocritico.com/critica-o-corc…
Adèle Hugo sobreviveria 30 anos ao pai, veria a construção da torre Eiffel, o futurismo, o início da primeira Guerra Mundial e o fim da Belle Époque, mas não a execução de Mata Hari e o bombardeio da cidade por parte dos zepelins alemães.
Os 30 anos que se seguiriam entre a morte de Adèle Hugo e o fim da Segunda Guerra Mundial, seriam duríssimos para Paris, em parte graças ao tratado de Versalhes assinado, ironicamente, na própria cidade.
Foi a era de Duschamps, do Palais de Chaillot e da Art Dèco, que deixaram marcas na cidade e no mundo.
Em termos de concreto e aço, a Segunda Guerra Mundial acabaria cobrando de Paris menos do que de qualquer outra capital europeia envolvida na Guerra.
Leningrado, em 900 dias perdeu mais gente do que a própria população e pessoas morreram de fome protegendo as sementes que salvariam União soviética; Londres foi bombardeada sem perdão e Berlim quase foi destruída. Excetuando as capitais dos covardes, como Madrid e Estocolmo...
... nenhuma grande cidade europeia sofreu menos em termos de destruição urbana do que Paris; para compensar isso os franceses inventaram o sofrimento da alma, do qual Jean-Paul Sartre foi o maior representante.
Nsse sentido, Paris, diferente de quase todas as cidades da Europa, não teve que ser reconstruída porque a priori ela não foi destruída. Na verdade, a população da ville diminuiu em mais de 600 mil habitantes, porque as classes médias e mais abastadas se dirigiram aos subúrbios.
Após a Segunda Guerra Mundia, sem ter que reconstruir nada, a cidade começa a construir do zero, e embarcar em uma vibe futurista...
O caso e o contraste da Asniéres que inspirou Van Gogh e Seurat e a mesma Asniéres onde um idoso permaneceu três anos morto dentro de um apartamento sem ser notado, é particularmente chocante.

terra.com.br/noticias/mundo…
Para ter suas próprias guerras, Paris recorre ao neocolonialismo e enfrenta o Vietnã, entre 1946 e 1954 e logo em seguida a Argélia entre 1954 e 1962 e praticando o esporte favorito dos franceses: a derrota.
Passados alguns poucos anos, os franceses puderam praticar o seu outro esporte nacional: a revolta! Era maio de 1968 e a juventude parisiense não queria só comida e De Gaulle para a Gália!
Para salvar a honra da França, o cinema. François Truffaut, um dos maiores gênios da Bela Arte _invenção francesa inclusive_ dirige A História de Adèle H. com a esplendorosa Isabelle Adjani no papel principal.
Os anos passam em Paris, mas a a gente deve se lembrar que a luz é etérea, e quem vai cidade não são só seus prédios e pessoas, mas também sua arte. É assim que chegamos a 2008, Léa Seydoux e La Belle Personne, um filme que inverte um paradigma. Muito francês, recomendo.
A mesma Léa voltaria cinco anos mais tarde, de cabelos azuis, no genial La Vie d'Àdele, um filme que é a cara da Paris moderna, seja por seu elenco multiétnico, seja por que o filme mostra bem diferenças entre as concepções das classes média e alta da Ville.
Quando a Paris contemporânea, continua sendo uma festa e é uma cidade onde hoje se encontra até barracas de açaí e portanto, vale a visita ou, no caso de uma primeira vez ter dado ruim, a volta. C'est la vie!
Por fim, como eu escrevi lá no início, mais do que qualquer outra cidade do mundo, Paris se destaca por suas mulheres, em todos os seus séculos.
Eu estava esquecendo de linkar este fio com o antepenúltimo. Acho importante porque trata de personagens de atrizes e de mulheres extraordinárias. Por isso a cidade é Luz, afinal.

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