Esse será o meu primeiro fio aqui. Talvez o último. Mas é porque tenho sido muito questionado por antig@s estagiári@s que estão há alguns anos estudando para concursos, se não seria a hora de desistir e partir para outra. Deixa então eu contar a minha experiência.
Eu estudei apenas em colégios públicos a vida toda. Filho de um ex operário e uma professora primária, ainda não sei como furei a barreira social que me levou até o curso de Direito da UFJF. Claro, estudei muito, mas isso na maioria das vezes não basta pra quem é da periferia.
Como faço aniversário em agosto, entrei um ano atrasado na escola e só aprendi a ler aos 8 anos. Foi quando ouvi as primeiras cobranças de pessoas fora da minha casa. "ele não tá atrasado"?
Ao fim da 8° série resolvi tentar o vestibular para o CTU da UFJF, no curso mais difícil, Informática. De incentivo, apenas a força que meus pais e irmã deram. Para os meus amigos de escola, seria impossível eu passar. Era uma vaga para cada 25 candidatos, mas deu certo. Entrei!
Como no CTU eu tive ao longo dos 3 anos do 2° grau apenas um ano de cada matéria regular (história, geografia, etc), tomei bomba no primeiro vestibular que fiz para a faculdade de Direito, mas não me abalei. Esse revés já era esperado por mim, não só pelas pessoas em volta...
No ano seguinte estudei pra caramba pra tirar o atraso e passei no vestibular, mas para as vagas do 2° semestre. Entrei na faculdade de Direito aos 20 anos. Segundo uma tia, velho. Me formei aos 25, segundo a mesma tia, velho.
Ao longo de dois anos trabalhei no escritório de advocacia do meu pai (o coroa voltou a estudar aos 36 anos na 6° série, largou a fábrica aos 42 e se formou em direito aos 44 - o que a minha tia diria a ele?) enquanto eu estudava para concursos. Jornada tripla.
Aos 27 passei para Delegado de Polícia Civil, tomando posse aos 28 anos de idade. Nessa época eu já tinha deixado os meus amigos de Santa Terezinha, meu bairro em Juiz de Fora, orgulhosos, mas eu queria mais. Queria uma profissão q eu tivesse aptidão para exercer. Faltava paixão!
Então na minha primeira semana na academia de polícia abriu o edital para Defensor em MG. O salário era 20% menor do q eu ganhava, mas não tive dúvida em partir pra essa. Isso era 2006 e a DPMG ainda não era tão estruturada como hoje. Meu padrinho achou que eu tinha enlouquecido.
Eu trabalhava na Delegacia com hora marcada pelo chefe das 8h às 18h, com plantão tempo integral (24h) semana sim, semana não (as vezes ser celetista tem suas vantagens). Estudava o resto do tempo em q estava acordado, até desmaiar de sono. As vezes às 21h, outras às 2h da manhã.
Dentro deste V Concurso da DPMG eu tomei pau três vezes! Explico: na primeira etapa passaram apenas 4 candidatos (quem são essas pessoas?) e o concurso foi anulado, por interesse público. Um colega me disse pra esquecer esse concurso, porque não rolava de passar já trabalhando.
Ignorei o "conselho" e segui. Reaplicaram a primeira etapa e, embora eu tenha feito uma boa nota global, não fiz o mínimo de pontos necessários em Processo Penal. O mínimo era 4, tirei 2. Nessa hora o colega disse, "não falei?!".
Eu não estava confiante, achei que tinha dançado. Mas não é que numa tarde recebo uma mensagem de uma amiga me parabenizando por ter passado para a 2°etapa do V Concurso da DPMG?! Ela tinha visto no site, procurando o nome dela, e me avisou. Anularam justamente 2 questões de PP.
Tendo sobrevivido à 2° bomba no conc, Lá fui eu estudar para a prova escrita, em meio a plantões, chefes, Inquéritos, operações policiais e pouco incentivo de quem achava que eu já tinha ido longe demais. Eu confiava na minha redação e estava animado, mas zerei a peça de civil.
Era uma ação de obrigação de fazer na área da saúde, na qual a autora pleiteava um medicamento caro. Inexperiente, ingressei contra o município, acreditando q isso facilitaria a vida da parte por estar mais perto do ente federativo. Me deram 0, em razão da ilegitimidade passiva.
No terceiro pau eu teria apenas 48 horas para convencer o meu chefe a me liberar, sair de Viçosa, onde eu era Delegado, buscar a cópia da minha prova em BH (250km de distância), elaborar o recurso e remeter de volta para a capital. Assim eu fiz. Dá preguiça só de lembrar.
No recurso sustentei a legitimidade concorrente entre os entes e, contra argumentando a banca, o fato da lista do SUS sobre qual medicamento caberia a cada ente não constar do edital. Deu certo! Sobrevivi à terceira bomba! Parti para a prova oral!
Na véspera da prova oral o chefe me arrumou uma operação na qual tive que levantar às 5h em Viçosa. A prova era em BH no dia seguinte. Depois de muita insistência minha e bem bravo, ele me liberou às 15h pra pegar estrada. Fui feliz!
Acho que jamais ficarei tão nervoso como eu fiquei no dia da prova oral do V Concurso da DPMG. Na minha cabeça a minha vida estava sendo decidida ali (de fato estava). Eu sabia que se não passasse, não teria forças para empreender novamente tanto esforço, ainda sendo delegado.
No dia dos namorados de 2007 recebi a notícia da aprovação. Chorei como criança. Mas ainda foi necessário esperar até 18/01/08 para a posse, que só veio após uma ordem do STF (sim, o roteirista costuma caprichar nos concursos da DPMG. A galera do VI que o diga). Aos 29 anos.
De lá pra cá são quase 14 anos que me encontrei na vida, um sentido. No início achava que era por mim, pela minha futura esposa e filhos, pelos meus pais orgulhosos do filho que fez pouco caso das estatísticas. Eu era o único oriundo de escola pública na minha sala da faculdade.
Mas hoje vejo que foi pela comunidade Santa Maria em Barbacena, minha 1° comarca. Pelo Sr. Jura de UBÁ, onde fiquei 8 anos. Pela D. Olga de BH onde estou há mais de 4 anos. Foi para os 20 milhões de mineiros potencialmente assistidos pela DPMG.
Não existe profissão melhor, que mais te ensine e te humanize no dia a dia. Formatado nesta sociedade machista, homofóbica, racista, etc, estou em desconstrução, em processo de humanização. A DP, através de seus assistidos, me proporcionou isso. Evoluir como pessoa, aprender.
Não foi fácil chegar até aqui, mas foi possível. Então, ex estagiári@s e quem leu até aqui, não desistam no meio do caminho. Não de ouvidos às vozes negativas, inclusive as da sua mente. E quem precisar de uma força na jornada, contem comigo! Obrigado pela paciência.

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