Algunas coisitas para quem está terminando o doutorado e não vê muitas perspectivas na carreira acadêmica:

1) Esta não é a primeira crise. Os anos 1990 e início dos 2000 foram bem duros. A diferença é que agora o sistema é muito maior nas duas pontas.
2) As universidades não fecharão. Parece otimismo, mas é puro realismo. Em algum momento haverá a retomada dos concursos. Como o sistema de pós aumentou cresceu muito, a concorrência será muito maior que das outras vezes. Então prepare-se.
3) Duas coisas serão fundamentais nos concursos: experiência didática e pesquisa (publicações). Nada além disso conta em um concurso e algumas coisas, como sua presença nas redes, pode contar contra. Procure manter o foco e concentrar-se naquilo que é importante.
4) Experiência didática:
4.1) Vagas de pós-doc parecem a solução (supondo que existam). Não acho! A maioria dos concursos não pontuam a experiência docente como pós-doc. Sem esses pontos você pode ficar para trás nos concursos, apesar da relevância de sua pesquisa.
4.2) A solução ideal enquanto os concursos não vem passa por combinar alguma forma de docência (substitute, particulares, etc.) com a pesquisa. Provavelmente uma dessas atividades não será remunerada, mas quando os concursos vierem você estará na frente.
5) Pesquisa (publicações)
5.1) Mantenha-se vinculade a um grupo de pesquisa de ponta. Não receie em se afastar de sua instituição de origem ou da orientação anterior. Pense mais no futuro do que no passado.
5.2) Publique resultados do doutorado, preferencialmente em revistas bem qualificadas. Ao contrário do que os senso comum imagina não precisamos publicar muito, precisamos publicar bem. (Nas ciências humanas três artigos resultantes da tese em revistas A1-B1 já é excelente.)
5.3) Não recuse propostas para escrever artigos em parceria com outras pessoas e não fique medindo o trabalho delas ou comparando-o ao seu. Aproveite as oportunidades, principalmente quando elas são oferecidas por pesquisadore senior.
5.4) Resista à tentação de publicar a tese como livro imediatamente. Artigos são mais importantes para concursos.

5.5) Resista aos convites para publicar cap. de livros. Contam pouco em concursos e provocam enorme dispersão. (A exceção é quando a proposta e irrecusável.)
5.5) A partir de sua pesquisa construa redes, participe de eventos, estabeleça parcerias, contate pessoas, conheça gente. Torne-se conhecide por sua pesquisa (de preferência apenas por ela 😉).
6) Concursos
6.1) Algum dia eles voltarão e, como disse, serão concorridos. Preste todos na sua área. Em sua área! Só faça concursos para disciplinas básicas de sua área ou para aquelas nas quais você é especialista. Não desperdice sua energia e nem a das bancas.
6.2) Não se autoelimine. Não gaste tempo investigando e imaginando as preferências da banca e a concorrência. Não desista porque imaginou alguma preferência da banca. Se inscreveu? Faça o concurso. Faça sua parte e deixe a banca decidir.
6.3) Se família não é um impedimento, não vacile e preste concursos longe de onde você mora. Em qualquer lugar.
6.4) IFs e escolas técnicas podem ser excelentes alternativas; universidades particulares com pós-graduação, também.
6.5) Seu primeiro emprego (concurso) não precisa ser o ultimo. Mas aproveite bem ele para adquirir experiência didática e nunca abandone sua pesquisa, nem deixe de publicar.
6.6) Não descarte a possibilidade de fazer concursos para instituições de pesquisa ou órgãos públicos que não estejam voltados para o ensino, ou mesmo de usar sua formação para obter um emprego na iniciativa privada.
Agora uma observação final. O processo pode ser longo e extenuante. Não encare cada oportunidade ou etapa como a última. Pense sempre no longo prazo, proteja sua saúde mental e procure divertir-se ao máximo no processo.

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More from @alvarobianchi

9 Feb
Depois de um dia emitindo pareceres para o CNPq aqui o que aprendi. Algumas sugestões para solicitantes e pareceristas.
A Portaria 1.1222/2020 estabeleceu como prioritários os projetos de pesquisa das áreas de desenvolvimento e inovação de tecnologias estratégicas; habilitadoras; de produção; de desenvolvimento sustentável; e de qualidade de vida.
bit.ly/2LBXtht
A descrição dessas tecnologias é bem restritiva. Não adianta inventar. A menos que a pesquisa tenha como resultado direto o desenvolvimento e a inovação tecnológica, ou seja, a menos que ela resultar em um produto, processo ou política, ela não se enquadrará nessas prioridades.
Read 10 tweets
9 Feb
– Professor, o sr. é hobbesiano?
– Não. Eu sou colorado.

Esses episódio se transformou em anedota no @IFCH_Unicamp. A pergunta e a resposta fazem sentido. Dizem respeito a uma ética da docência. +
Eu estava animado explicando o conceito de liberdade como ausência de impedimentos quando veio a pergunta. Quando dou aula sobre autores ou correntes de pensamento minha preocupação principal é apresentar da maneira mais exata possível as ideias e os argumentos que as sustentam.
É muito fácil deslegitimar peremptoriamente um autor com duas ou três tiradas de efeito. Ou pinçar frases aqui e ali para comprovar uma tese. É fácil, mas é desonesto. O ganho pedagógico com isso é zero. E não acho que exista nesse procedimento qualquer intenção crítica.
Read 6 tweets
13 Jan
Uma das coisas que sugiro para jovens pesquisadores nas oficinas de escrita acadêmica é escolherem logo um "nome acadêmico", tipo nome artístico, um que vai acompanhá-los durante toda a carreira. E publicar usando o mesmo nome SEMPRE ! +
Sugiro usar apenas um nome e um sobrenome, a menos que o nome ou o sobrenome sejam compostos. E, obviamente, nunca usar sobrenome de cônjuge. A carreira costuma durar mais do que os casamentos. +
Por quê? Nomes grandes atrapalham indexação e citação. É mais difícil localizar autores que tem seus nomes grafados de maneiras diferentes. Quanto maiores os nomes/sobrenomes, maiores as chances de serem escritos de maneiras diferentes pelo próprio autor, ou por quem o cita. +
Read 10 tweets
11 Jan
Hoje descobri que um artigo meu e de @danixhm foi extensamente lido em video e resenhado por um facínora fugitivo da justiça. O meliante é incapaz interpretar textos muito simples, desprovisto de referencias históricas básicas e ignorante a respeito das ideias que quer criticar. Image
Seu único acerto foi escrever meu nome sem acento. O antigramscismo das direitas radicais brasileiras é um delírio conspirativo. Distingue-se do antigramscismo argentino e chileno dos anos 1980, o qual importou temas e argumentos do debate filosófico italiano.
Estamos pesquisando a circulação das ideias antigramscistas na América Latina e recentemente terminamos um artigo a respeito. Eis que o objeto de pesquisa nos encontra para validar nossa hipótese. Um privilégio!
Read 4 tweets
17 Dec 20
Hoje respondi a um email de discente sobre questões a métodos de pesquisa quando o objeto são ideias. Aqui minha resposta:

"tuas dúvidas talvez surjam de uma confusão muito comum quando o objeto de pesquisa são ideias, autores, obras, etc.
"A pesquisa é definida pelo seu objeto e por seu método, mas o que determina se uma pesquisa é teórica ou empírica é o método, a maneira como você vai estudar a informação recolhida.
"Se você inclui na pesquisa variáveis como tempo e espaço, muito provavelmente não está fazendo uma pesquisa teórica e sim empírica. Elas podem ser pesquisas sociológicas, nas quais a ênfase geralmente recai na conformação dos grupos intelectuais e nas instituições
Read 9 tweets
4 Jul 20
Você já teve um artigo rejeitado? Não desista, estas pessoas também passaram por essa:
BUCHANAN, James M.. External and Internal Public Debt. American Economic Review, v. 47, n. 6, p. 995-1000, Dec. 1957.
FRIEDMAN, Milton. Professor Pigou's Method for Measuring Elasticities of Demand from Budgetary Data. Quarterly Journal of Economics, v. 50, n. 1, p. 151-163, Nov. 1935.
KALECKI, Michal. A Theorem on Technical Progress. Review of Economic Studies, v. 7, n. 1, p. 178-184, May 1941.
KRUGMAN, Paul R.. Increasing Returns, Monopolistic Competition, and International Trade. Journal of International Economics, v. 9, n. 4, p. 469-479.
TOBIN, James. Multiple Probit Regression of Dichotomous Variables/ Collected Essays of James Tobin. Chicago: Markham, 1975, v. 2.
Read 5 tweets

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