Acabo de me desligar oficialmente do projeto Por uma escola afirmativa: construindo comunidades antirracistas, coordenado pela Companhia das Letras, após a publicação do livro ABECÊ da Liberdade: A história de Luiz Gama, que naturaliza e reproduz a violência da escravidão 1/
contra crianças negras, em uma narrativa sádica, irresponsável e desumanizadora. Trata-se de um livro na contramão do projeto de educação antirracista do qual escrevi uma parte junto com mais duas pesquisadoras negras e que esperávamos que fosse nortear as ações da editora. 2/
Embora minha contribuição tenha sido pontual e eu não trabalhe para/na Cia das Letras, acho importante expressar aqui minha indignação com a publicação de um livro que fere tão visivelmente a dignidade e a história da população negra no Brasil e que não deveria depender 3/
da leitura e do crivo prévios de especialistas negros para não ser publicado, uma vez que o discurso antirracista da editora deveria se refletir em critérios e ações editoriais que não compactuassem (mais) com edições dessa natureza. O projeto, para quem não sabe, consistia em /4
em um catálogo que reunia um texto p/ professores sobre ensino de literatura, raça e antirracismo, com uma série de indicações de livros para cada etapa do ensino básico e sugestões de ações a serem realizadas no âmbito das comunidades escolares, tendo a literatura como centro 5/
Embora o catálogo continue, a meu ver, sendo uma grande contribuição, esta deixou de fazer sentido pra mim após a publicação desse livro. Dito isso, não colaboro mais com esse projeto nem com quaisquer ações futuras da editora a ele relacionadas.
Pra quem está por fora:

noticias.uol.com.br/cotidiano/ulti…

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1 Sep
Seu Oswaldo de Camargo, aos 85 anos, com toda sua inestimável contribuição à literatura e à história do negro no Brasil, sobretudo em SP, tem sido questionado sobre o filho. Ele não responde +. Mto triste que ele seja mais lembrado por isso agora do que por sua obra. Eu sou fã.
Tanto sou fã q publiquei um artigo sobre seu livro de memórias em 2019, uma das coisas mais bonitas e sensíveis que já li.

"Figurações ambivalentes de uma infância possível no pós-abolição em Raiz de um negro brasileiro de Oswaldo de Camargo"

revistas.usp.br/crioula/articl…
Também participei dessa linda homenagem pra ele no ano passado, pelo canal Pensar Africanamente. Fiquei feliz por poder dizer em vida tudo que ele representa pra mim. Seu Oswaldo é enorme.

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30 Aug
É tão bom ouvir as memórias festivas e dançantes das nossas mães e tias. Minha madrinha ontem contando das disputas nos bailes negros de quem tinha a calça com a maior boca de sino, que ela comprava tecido e minha bisavó costurava pra ela calças c/ bocas de sino gigantescas+
q uma vez ela usou uma tão grande q até tropeçou e caiu. Falou q usavam arame de guarda-chuva pra garfar o cabelo, que qdo ñ tinham dinheiro pra baile, iam pra casa de uma tia, levavam caixa de som, juntavam uma galera e ficavam dançando samba rock até 7h da manhã+
Ela lembrou de vários "negões bonitos" q arrasavam no samba rock e começou a lembrar de uns passos básicos. Há mt historia de dor, mas essas histórias de prazer, festa e diversão tb precisam de atenção, pois são parte da sobrevivência e de uma vida q nunca se limitou ao trabalho
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20 Aug
Ontem aconteceu a live de apresentação do conselho editorial das novas edições da obra da Carolina Maria de Jesus. C/ pesquisadoras majoritariamente negras, sob coordenação de Vera Eunice (filha de Carolina) e Conceição Evaristo, elas trouxeram um ponto q me fez pensar mto:
Que Conceição, no alto de sua sabedoria e conhecimento como doutora em Letras, as orientou a olhar p/ a escrita da Carolina a partir do lugar de uma mãe negra solo q, muitas vezes, precisava parar repentinamente a escrita pra cuidar dos filhos, fazer comida, sair p/ um evento+
de forma que trechos aparentemente lacunares, inacabados, uma pontuação confusa e outros traços de sua escrita q podem ser simplesmente vistos como erros precisavam ser compreendidos, no processo de edição e revisão, à luz dessa escrita intermitente de Carolina, q era importante+
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31 Jul
A única professora que Carolina Maria de Jesus teve na vida, nos seus 2 anos de estudo, foi uma professora negra:
"A minha saudosa professora era preta. Dona Lanita Salvina. Ela nâo permitia que os alunos faltassem. Quando um aluno não comparecia ela ia na ressidência do aluno+
saber o motivo e levava as liçôes. Ela dizia:
— Quando você não tiver o que fazer envez de ficar nas esquinas procuram um livro para ler. Envez de dançar lêia. Você lucrará mais. A lêitura nos favorece na vida. Eu obdecia a minha professora."

In: Casa de Alvenaria
Agora fico pensando na dona Lanita Salvina, uma professora negra no interior de MG nas primeiras décadas do pós-abolição, que acreditou na Carolina, uma menina negra pobre, e a incentivou a estudar. Quem foi essa prof? Como conseguiu estudar e se tornar prof? Como ela era?
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20 Jul
Eu vejo essas dicas acadêmicas baseadas em preciosismos gramaticais desvinculados dos usos reais da língua, como se um suposto mau uso de "onde" definisse a qualidade de um texto, e penso como aulas de Linguística deveriam compor a grade de outros cursos além da Letras.
Ñ é a 1a vez q vejo alguém q ñ é prof de português, não é da Letras, não é da Linguística dando "dicas" q reforçam uma gramática prescritiva que há décadas tem sido discutida a sério. Além disso, ridicularizar pessoas pelo uso da língua é o que chamam de preconceito linguístico.
Mas é isso aí, a língua portuguesa é terra de ninguém aqui, pois saber escrever "bem" (nesse caso, dominar a norma-PADRÃO da língua) parece que autoriza as pessoas a darem dicas antiquadas e fazerem comentários como se especialistas e/ou professores de português fossem.
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19 Jul
Me toca tanto qdo Saidiya Hartman fala da emoção q sentiu ao encontrar sua tataravó num livro de testemunhos de escravizados. Busco sentir o mesmo diante de qlqr menção a minha avó materna em livros, reportagens, docs, trabalhos acadêmicos sobre a colônia do Juquery.
Infelizmente, um incêndio queimou os prontuários da época em q ela foi internada lá, mas há vários livros de memórias de ex-funcionários do Juquery. Minha tia mais velha lembra de bastante coisa e talvez com a memória dela eu consiga chegar a outros documentos. Tenho esperança.
É difícil às vezes acreditar q eu vou conseguir algo, afinal, foram tantas pessoas presas, torturadas e violentadas lá, mas eu me sinto cada vez mais convocada a empreender essa busca, mesmo q eu não encontre "nada" - esse "nada", como diz Hartman, tem muitos sentidos tb.
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