O mito dos gestores militares.
Treinados para a guerra, os militares vão conseguir derrotar seus inimigos na batalha pelo orçamento: a população brasileira. Hoje, o capitão está para continuar nossa grande tradição de ignorar os problemas reais e inventar inimigos imaginários,
com um orçamento para defesa maior que para educação.
Mais da metade dos novos investimentos do orçamento de 2022 vão para o Ministério da Defesa (www12.senado.leg.br/noticias/mater…)
Tanto na época do golpe quanto no governo do capitão, não há preocupação com a melhoria da economia ou real
defesa do país, mas simplesmente uma busca por maiores soldos. Durante as três primeiras décadas do século passado, as forças armadas representavam 22% das despesas públicas. Obviamente, esse percentual aumentou durante a segunda guerra mundial, com pico de 37% em 1942. Em 1963,
sem inimigos externos (a não ser imaginários), gastávamos 16% do orçamento dos ministérios com defesa nacional. Mas a ditadura avançou sobre os cofres públicos. Em 1965, os gastos com as forças armadas já tinham saltado para 22% do orçamento total. Oito anos depois, no auge da
megalonamia do “milagre econômico”, as forças armadas recebiam 44% do total dispendido pelo governo federal; o ministério da educação ficava com 10%.
Infelizmente, como os militares saíram pela porta da frente e parte do governo coincidiu com o ciclo natural do processo de
industrialização, inventou-se por essas bandas a ideia de um “milagre econômico”, de 1968-1973, no qual a economia brasileira teria crescido a 11% ao ano. Cresceu mesmo, mas no contexto do maior crescimento da história do sistema capitalista no mundo (8% ao ano), e através da
formação da dívida externa que afundaria o país por quase vinte anos.
Os militares nunca foram bons gestores da economia. Surfaram a onda do crescimento mundial, enquanto gastavam como bem entediam. E isso sem qualquer preocupação com pobreza ou desigualdade social.
A dívida externa começou a crescer a 20% ao ano já em 1964. Pegaram um país com dívida de U$3 bilhões (10% do PIB e dois anos de exportações) e entregaram algo impagável (mais de U$100 bi, 40% do PIB e quatro anos de exportações). O golpe de mestre foi culpar a crise externa
e o FMI, empurrando a conta para os governos seguintes. Mas a realidade é que os militares lideraram processo de crescimento baseado em pirâmide financeira – pegavam novas dívidas para pagar os juros das anteriores, até que, em 1980, o choque Volcker acabou com a farra.
Paul
Volcker, chefe do Fed, decidiu, numa tacada, acabar com a inflação americana jogando os juros nas alturas (a taxa básica chegou a 20%). O Brasil foi pego com as calças arriadas. Sem crédito, não tinha como pagar os juros da dívida. Logo vieram o calote e a hiperinflação.
Infelizmente, não aprendemos com a história. Encher de militares o governo e validar o aumento do orçamento das forças armadas vai acabar mal, de novo. É hora de abandonar o mito: os generais não conduziram bem a economia no passado e nem hoje saberiam fazê-lo.
E se gostarem, sigam. Aqui sempre vai ter informacao de qualidade.

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25 Sep
Uma família com renda acima de R$10.000 está entre as 5% mais ricas do país.

É isso mesmo. Família com mais de R$10.000 é RICA no Brasil.

Somos um país super desigual.

E não, os ricos não são só os capitalistas.
É pra taxar os mais ricos.
É pra taxar PROGRESSIVAMENTE muito mais os mais ricos.

Mas ricos não são os outros. É pra taxar MAIS heranças, ganhos de capital, trabalho e tudo o mais. E vai afetar os 10% mais ricos, não os 0,00005% bilionários.

Não existe bala de prata.
No Brasil, gostamos de viloes de novela. "Ricos" sao uma categoria facil de se odiar. O problema? Ricos sao sempre os outros.

Nao sao. Somos nos.
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18 Sep
🧵 Fio

O escândalo da Evergrande na China vai criar uma crise financeira global? Provavelmente não, mas desde q os reguladores façam o trabalho direito.

No fio, respondo (1) pq há realmente riscos e (2) quais os problemas pros reguladores.

Mas antes: contexto.
É comum a visão de que há muita dívida na China, principalmente de entes privados. Isso é besteira.

Dívida = algo ruim é visão comum, mas errada.

Em sistemas econômicos, dívida vem antes de crescimento. Ou seja, países emergentes DEVEM ter endividamento maior q países ricos.
Além disso, a China é um dos países com maior poupança privada do mundo. 100%, 200% ou 300% do PIB, não é isso q importa. A crise financeira global de 2008 não ocorreu pq havia muita dívida. Qualidade importa. Ainda mais importante, é alavancagem "ruim".

E é aí q mora o perigo.
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8 Sep
Fio sobre a geração perdida q estamos criando.

Imaginem 30 milhões de palavras em três anos. 10 milhões de palavras por ano. Esse é o número de palavras que uma criança rica escuta a mais que uma criança pobre (em um estudo de Hart e Risley para os EUA mas que vale também
para nós). É comum falar que o problema do Brasil é a educação.

Mas o buraco é muito mais embaixo. As diferenças entre crianças ricas e pobres já é gigantesca antes do 1º ano do ensino fundamental. Ao longo do sistema de ensino, o abismo só aumenta.
Outro lugar comum é dizer
que falta qualidade; falta infraestrutura; e, os professores são mal pagos. Ou seja, se magicamente melhorarmos a estrutura do sistema educacional, pronto, está tudo resolvido.
O buraco é mais embaixo. Falta demanda por educação. As famílias pobres brasileiras investem pouco
Read 14 tweets
5 Sep
🧵Fio.

Os robôs vão tomar seu emprego, mas tudo bem.

Inteligência artificial (IA) e automação vão roubar muitos empregos, mas se o medo é o aumento do desemprego, podemos ficar tranquilos. Isso não significa que os efeitos sobre a sociedade serão neutros. Superestimamos Image
os efeitos dos avanços tecnológicos sobre o desemprego, mas subestimamos àqueles sobre desigualdade de renda.

Processos de decisão e previsão serão automatizados, mas a maioria será de processos intermediários. Na medicina, por exemplo, muitos tipos de diagnósticos já são
feitos de forma melhor por IAs e robôs já ajudam em operações complexas. O impacto sobre produtividade vai ser gigantesco, mas automação completa vai levar décadas. A visão equivocada da relação entre novas tecnologias e desemprego vêm da crença na existência de empregos estáveis
Read 13 tweets
4 Sep
🧵Fio.

A extrema-direita está armando o golpe. Ela é neoliberal? Não, o neoliberalismo morreu. E o Brasil nunca foi neoliberal. Explico.
Não há ações mundiais que podemos chamar de neoliberais, como havia no passado. E o neoliberalismo nunca de fato existiu no Brasil, embora sempre tenha servido de culpado de conveniência em uma sociedade que abusa do uso do sujeito indeterminado.

Havia duas essências
neoliberais, na política e economia. Em termos econômicos, o Consenso de Washington representava essa doutrina, com uma lista de dez políticas (agregadas por John Williamson em 1989) que pavimentariam o caminho para países em desenvolvimento se tornarem ricos. Dentre as dez
Read 15 tweets
3 Sep
🧵

Fio sobre sono e produtividade.

Se fazemos uma maldade com as crianças é força-las a ir pra escola muito cedo. As evidências científicas recentes não podiam ser mais claras: poucas coisas importam mais sobre a saúde de longo prazo que uma boa noite de sono. Do ponto de vista
econômico, temos estimativas como as de Hillman e coautores de 2018 e Wickwire e colegas de 2016: na Austrália, para uma população de 25 milhões de pessoas, o custo de problemas de sono é de U$45 bilhões por ano, ou de U$1.800 por ano por pessoa. A maior parte desse custo é o
de perda de produtividade pelas pessoas dormiram pouco e mal. Nos EUA, estimativas bem conservadoras são de uma perda de produtividade na casa dos U$100 bilhões por ano.
Esses valores elevados se referem às perdas pelos nossos problemas como adultos (como 10% da população
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