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12 Oct, 39 tweets, 14 min read
@lanadeholanda Putz... a série critica constantemente a lógica da competitividade, do arbítrio que regra as relações de exploração e de morte (os jogos são uma metáfora para isso), que começam logo na infância e assim vão fazendo com que as pessoas normalizem a dor do outro.
@lanadeholanda No jogo a que os miseráveis são chamados e que faz a metáfora do capitalismo (sem rosto, mascarado em sua ideologia), aqueles que dominam os participantes dizem para estes que todos ali são iguais, mas é evidente que cada jogo, com suas regras, favorece uns e desfavorece outros.
@lanadeholanda No capitalismo, dizem, basta querer, universo da igualdade, da liberdade, o que só serve, porém, para mascarar os processos de desigualdade ao, assim, ocultá-los.
@lanadeholanda O personagem principal tinha alguma estabilidade trabalhando em uma montadora. Quando está para ter uma filha, a fábrica demite os funcionários, culpando-os pelo fracasso financeiro. Ocorre uma greve, o Estado mata um de seus colegas de trabalho durante o processo.
@lanadeholanda O nascimento da filha é perdido, enquanto o personagem principal vê seu colega morrer. Sem opções, ele tenta abrir dois negócios, que vão a falência (mito do empreendedorismo). Ao final, vira motorista (ciclo da uberização completado com sucesso).
@lanadeholanda No decorrer desses acontecimentos, uma enorme dívida é feita. O personagem principal é levado a assinar um contrato que o levaria ao jogo, sem que soubesse disso (crítica ao contratualismo, que pressupõe necessária legitimidade no objeto alvo de acordo...
@lanadeholanda ... ao hipotetizar uma consciência iluminista entre seus assinantes sobre os aspectos que envolvem o acordado; sem considerar ainda que ninguém assina coisa nenhuma ao nascer dentro do sistema capitalista, mas muitos de seus defensores falam em contrato social).
@lanadeholanda O primeiro jogo, uma brincadeira infantil, como todos os outros que ocorreriam, como que a dizer da docilidade da ideologia capitalista ("olha como o capitalismo é legal, aqui é tudo lindo, todos conseguem o que quer, todos podem ser o que quiser, terra das mil maravilhas").
@lanadeholanda Nele, uma boneca, incorporando o aparato de repressão do sistema, mata aqueles que não seguem à risca suas regras. É necessário não ser percebido por ela, andar nos conformes: um movimento equivocado, e os dominados serão eliminados.
@lanadeholanda Mas a doçura do sistema não se furta de tentar edulcorar seus resultados: a morte de suas vítimas, afinal, é embalada em belos caixões. Sim, é verdade, eles são incinerados, a la prática das fábricas de morte do nazismo; no entanto trata-se do capitalismo.
@lanadeholanda Aqui, a matança dos oprimidos sempre encontra um pacote ideológico em que se legitimar.
@lanadeholanda No segundo jogo, um amigo de infância do personagem principal não ajuda ninguém, mesmo sabendo de algo que poderia salvar a vida das pessoas. A lógica da competitividade e seus efeitos.
@lanadeholanda No terceiro jogo, o tema da descartabilidade dos idosos instaurada no capitalismo é a tônica. Ganha destaque também a crítica à religião como uma forma de legitimação de horrores.
@lanadeholanda No quarto jogo, as relações de competitividade vão ao limite. Os q eram até então de certa forma parceiros, agora, precisarão eliminar uns aos outros, se quiserem ganhar. Uma personagem sul-coreana abre mão de sua vida em favor daquela q seria sua competidora, uma norte-coreana.
@lanadeholanda Aquela viu na vida desta uma vida de sentido, uma vida pela qual ela entregaria a sua.
@lanadeholanda Ainda nesse jogo, um sul-coreano não aceita sua derrota diante de um paquistanês. Evoca, em sua revolta, uma lógica dos números, das porcentagens. Era um homem do mercado, a sua lógica assassina dos cálculos tinha que vencer.
@lanadeholanda O paquistanês, por outro lado, não queria que o sul-coreano morresse para continuar competindo. Acaba enganado por este. É totalmente ludibriado por ele, levado a acreditar em um suposto plano que seria benéfico para ambos.
@lanadeholanda O paquistanês, que era super explorado em seu trabalho na Coreia do Sul, lugar em que esperava ter uma vida melhor, é morto pelo sul-coreano.
@lanadeholanda Começa a se desenhar uma crítica mais dura ao imperialismo. No quinto jogo, os VIPs aparecem. Não falam coreano. Falam inglês. Vão se deliciar vendo os oprimidos despencando do alto da ponte de vidro construída pelos dominantes como um caminho para o que seria um grande prêmio.
@lanadeholanda Eles adoram ver a competição. Eles são homens brancos, ricos. Usam máscara também. Mas suas máscaras são personalizadas. São douradas e são de animais dominantes. São invisibilizados por uma ideologia q lhes mostra como fortes. Uma ideologia q naturaliza as relações de dominação
@lanadeholanda Afinal, o capitalismo seria um sistema inevitável, fruto de uma suposta natureza ruim do ser humano, algo de que seus defensores tanto gostam de falar. A competição estaria em nosso DNA. Assim, os "vencedores" desse sistema não poderiam estar melhor representados.
@lanadeholanda Na última prova, volta o jogo q inicia a primeira cena da série, em q crianças brincam, como a dizer ao espectador: - veja, existe uma gênese p/ o q está sendo apresentado aqui, p/ todos os processos de dominação, os quais vão inculcando nas pessoas uma certa forma de ver o mundo
@lanadeholanda Ali, os dois amigos de infância se enfrentam. Seria a total destruição dos laços afetivos. Esta, entretanto, é superada: lembram-se de que na infância suas mães os chamavam, encerrando a disputa, lembram-se de que o suposto prêmio não poderia sê-lo com tudo o que ocorria ali.
@lanadeholanda O melhor amigo do personagem principal tira a própria vida, dizendo a palavra "minha mãe", repetidas vezes. Sua mãe seria ajudada depois, com o dinheiro que ficou para o "vencedor".
@lanadeholanda A mãe deste, por sua vez, estava doente. Sua doença e a respectiva impossibilidade do pagamento de seu tratamento por parte do filho foi um dos grandes motivos de ele entrar na competição. Ao sair desta, sua mãe estava morta. Não pôde estar com a mãe em seus últimos dias de vida.
@lanadeholanda O personagem principal tem em sua conta bancária uma quantia em dinheiro exorbitante, mas a vida, agora, parece vazia. Ele é um vencedor em um mundo de vencidos.
@lanadeholanda No último episódio da série, ele reencontra alguém com quem havia jogado: mas percebe que se tratava, na verdade, de um VIP, não podia ser morto.
@lanadeholanda Acreditara q ambos tinham criado laços na competição, mas a então evidenciada farsa de sua morte e tudo que ela implicava o inconformava, o indignava. Quis saber o porquê de tudo aquilo. Por que faziam os jogos?
@lanadeholanda No começo do diálogo, o VIP, do alto da janela de um prédio, chama a atenção para a presença de um desabrigado que poderia acabar morrendo de frio, na calçada. Fala sobre o fato de ele estar ali, congelando, sem ninguém o ajudando.
@lanadeholanda O VIP indaga o personagem principal, agora rico, sobre o que ele faria por aquela pessoa. "O que você faria? Você pararia para ajudar aquele lixo humano fedorento?", perguntou-lhe.
@lanadeholanda O personagem principal mostra-se irreflexivo aos questionamentos. Quer sua resposta. Esta só seria dada, porém, caso ele aceitasse jogar novamente com o VIP.
@lanadeholanda O jogo seria uma aposta: se aquele homem na calçada continuasse lá até meia-noite, o VIP ganharia. Se alguém o ajudasse antes disso, o personagem principal ganharia. A proposta é aceita.
@lanadeholanda A personagem principal instrumentaliza o homem a congelar na rua. Parece não perceber as dinâmicas que movimentam o mundo, mundo espelhado nos jogos.
@lanadeholanda Nos últimas cenas da série, após ter ajudado a mãe de seu amigo de infância e o irmão de uma das competidoras, está para viajar para os EUA, onde veria sua filha, buscando ter uma relação melhor com ela.
@lanadeholanda No caminho, porém, é confrontado com o que foi uma surpresa: os jogos continuavam acontecendo. Decide não mais ver a filha, para enfrentar aqueles que promoviam o horror dos jogos.
@lanadeholanda A interpretação com q fiquei foi q o personagem principal não apreendeu o absurdo do mundo, mundo espelhado nos jogos. P/ ele, o horror estava msm lá, naquela competição. Assim, a série terminaria em um tom sombrio, pouco otimista com os rumos q temos apontado enquanto sociedade.
@lanadeholanda Tem tantas coisas mais para falar, a mulher que não conseguiu um par para o jogo gude, sendo uma das personagens mais encarniçadas de ideologia capitalista, mas que acaba, por isso, ficando resguardada pelo sistema, que a livra do jogo. A estética dos jogos sempre...
@lanadeholanda ... dizendo algo. Os diálogos excelentes. Enfim. Uma série excelente.
@lanadeholanda Galera que tá curtindo o fio, vai pelo link do último tweet. De outro modo, o fio fica meio bagunçado.

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