Nasci em 79. Abri a minha primeira empresa em 2000, reinava o Guterres. Senti bem como isto ficou à saída dele. "Apertar o cinto" era o que se dizia. Lembro-me daquele ano em que o mercado contraiu de tal maneira que ninguém gastava um tusto. Estive meio ano sem faturar...
...e só me safei porque na altura éramos só dois, apertámos o cinto e lá nos aguentámos a tirar os nossos ordenadinhos de 600€ mês sim mês não. A percepção que tinha era que enquanto o PS lá estava corria tudo bem, vinha o PSD e apertava.
Depois veio o Sócrates e bati palmas. Era Magalhães e o catano. Maravilha. "A direita espingarda mas o que eles querem sei eu. Portas submarinos e o diabo a quatro." Segunda vez e maioria absoluta. Ah carago, agora é que vai ser!
"Vem aí merda? Más línguas!" O negócio corria bem, fartei-me de fazer sites que os clientes financiavam ao abrigo de POEs e PT2020s e não sei quê. Volta e meia saia de uma reunião esganado porque não compreendia como é que uma empresa rentável e com BMWs à porta...
... precisava de um financiamento para pagar 2 ou 3k por um site, e ainda me diziam na reunião "nós até nem precisamos de remodelar isso, mas já que o financiamento paga, bora lá."
Algo começava a parecer errado. Os projetos que não eram esmifrados, eram os financiados. Empresas especializadas na mineração desse guito. Obtiam os apoios empresas que as conseguiam contratar. Tudo começou a parecer preso por arames.
E depois estourou mesmo. No espaço de uma semana passamos de "não se preocupem está tudo bem" a "já nem temos para pagar os ordenados, vamos chamar a Troika."
O que veio depois todos sabemos. A conversa a explicar ao pessoal que iam ficar sem um subsídio, tive-a eu. Foi giro ter essa conversa quando eu próprio nunca tirava subsídios para mim. Ter que entregar ao estado o que não tirava para mim.
(fiz tweet all sem querer, vem aí mais)
Boa altura para um disclaimer: Não tirava subsídios, não distribuia lucros, e pagava a boa parte da equipa mais do que a mim próprio. Se não fosse liberal acho que tinha uma porrada de fãs com estrelinha no perfil.
Mas bem. O estrondo bateu, mas não tão forte como o primeiro. Por momentos pareceu que apesar de tudo iriamos sobreviver. Acabou por não acontecer e eventualmente a empresa foi mesmo ao charco.
Da experiência fiquei só com lições aprendidas. Cheguei ao ponto de nem 1.20€ ter no bolso para um bilhete do Metro. Poupanças nunca as acumulei. O que a empresa ganhava sempre foi para investir, para pagar o melhor possível, a Joana Mortágua ficaria orgulhosíssima.
Quem não ficou orgulhoso fui eu que, na altura, vendo como estava o mercado, comecei a ponderar seriamente emigrar. E ainda me lembro de conversar sobre isso com o meu filho.
Comecei a dar passos nesse sentido. Enquanto me fiz à vida para pôr contactos a mexer e fazer os meus próprios projetos, comecei a estabelecer contactos em agências internacionais e toda a minha experiência teve pay-off. Fiz bons acordos e consegui ficar por cá, trabalhar remote.
Neste momento, vejo o futuro com extrema incerteza e enorme preocupação. Sempre que o PS deixa o governo é como se explodisse uma bomba. É sempre azar, a conjuntura, crise mundial, fado, mas nunca culpa do PS. É sempre a mesma negação, o estamos bem, o damos coisas, há fundos...
...até que não há e afinal resta dívida. Dívida, e um mercado miserável onde ninguém prospera sem foder o próximo. E os ricos que paguem a crise. E as offshores. E o capitalismo. E o neoliberalismo. E a desigualdade e o catano.
Por isso perdoem-me o desalento. Perdoem-me o pessimismo. Perdoem-me na repetição na história reconhecer os mesmos sinais que fazem antever um desastre. Perdoem-me, mas neste momento não acredito que isto vá correr bem.
Espero estar enganado.
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PS vai (por-nos a) trabalhar para "melhorar" financiamento da RTP "através do aumento da CAV". lusa.pt/article/n2JtlK…
É assim, não se pode também andar a dar alívios na ordem das dezenas de cêntimos no IRS sem compensar noutro lado, não é? observador.pt/2021/10/08/com…