thread sobre a publicação da inteligência artificial que está intrigando psicanalistas
(simplificando muito tudo mas n quero passar horas escrevendo isso aqui)
O chat-gpt faz parte de uma família de algorítimos chamados Large Language Models, que utiliza técnicas de redes neurais artificiais para extrair padrões de um grande volume de textos. Mais especificamente, as LLMs aprendem a prever as relações entre dados sequênciais,+
+ sendo treinadas para prever as diferentes probabilidades com que que palavras aparecem em diferentes contextos discursivos.
Após o treino, as LLMs guardam um "modelo" matemático da linguagem, representando todas essas relações em termos de vetoriais multidimensionais. A estrutura vetorial do modelo tem a ver com a arquitetura básica de redes neurais e com a busca por representações computacionais+
+eficazes para esse problema. O importante é a descoberta de que relações entre palavras/partes da linguagem pode ser representada em uma espécie de "espaço" onde as distâncias e orientações guardam informação sobre semântica, sintaxe, etc.
Um exemplo simples mas bem ilustrativo: aqui dá pra ver que as relaçoes entre "homem-mulher" e "rei-rainha" são paralelas e com mesma distância. Ou seja, esse modelo conseguiu extrair que as relações entre essas palavras são parecidas ("masculino-feminino")
É aí que a coisa começa a ficar curiosa, pois desde o estruturalismo na linguística (Saussure, ~1920) já havia a hipótese de que a linguagem poderia ser descrita como um sistema abstrato de relações opositivas.
Lacan, a partir do início da década de 1950, se inspira em ideias estruturalistas sobre a linguagem para repensar os fundamentos da psicanálise. No início do seminário 5, por exemplo, ele afirma que a análise linguística e a análise psicanalítica se confundem,+
+pois tanto uma quanto a outra estão fundadas nos mesmos princípios estruturais da linguagem. Nesse contexto surge o famoso lema do "inconsciente estruturado como linguagem".
O uso que Lacan faz dos conceitos de Saussure é completamente atravessado pelas peculiaridades desse autor: surrealista, barroco, polissêmico etc. Mas alguns temas centrais se repetem e definem os pilares de sua contribuição.
Para Freud, o Inconsciente seria habitado por fantasias e mitos sexuais primitivos. Ele argumenta que a questão de TER ou NÃO TER o pênis seria um componente central na "pesquisa" sexual que faz parte do desenvolvimento psicológico de uma criança
Lacan, combinando influências de Freud e Saussure, postula que o FALO é um elemento fundamental na organização estrutural da linguagem humana, dos nossos sistemas simbólicos. A possibilidade de inscrever o significante fálico (um elemento simbólico da sexualidade+
enquanto diferença) permitiria ao sujeito melhor organizar seu campo simbólico no que diz respeito ao desejo. [O argumento específico dele é bastante complexo e tem a ver com questões clínicas como diagnóstico estrutural entre neurose e psicose, mas não vamos entrar nisso aqui]
O pensamento de Lacan também discute a ideia de que a inscrição do elemento fálico recobre uma espécie de vazio, permitindo que o mundo simbólico-imaginário do sujeito fique organizado (pela fantasia, Zizek adora discutir esse tema).
Enfim: mwatkins no blog LessWrong estava se perguntando sobre como se organizam os elementos de linguagem na estrutura de 4096 dimensões do LLM GTP-J. Ele descobriu que os tokens se distribuem em duas hiper-esferas em intersecção, com um "centro" vazio -- um "vácuo semântico"
Daí, ele desenvolveu uma técnica para tentar fazer o próprio programa o que esse centro vazio poderia representar em termos do modelo de linguagem, solicitando uma descrição. Os resultados são estranhos, e geralmente produzem sequências de palavras com pouco sentido próprio.
Porém, se você insiste um pouco e pede para ele encontrar os "elementos no vácuo que descrevem algo mais específico, o resultado é...
"A MAN'S PENIS"
...e os outros resultados específicos são menos falocêntricos mas igualmente sexuais (!)
Isso tem levado muita gente a lembrar do nosso querido Lacan, e até a pensar se em alguma medida esse resultado poderia ser lido como uma comprovação/ corroboração de suas ideias. Especialmente interessante pensando na série de diálogos que tem havido entre psicanálise e ciência.
Pessoalmente acho essas descobertas muito estimulantes, e acho ótimo que possamos repensar a linguagem colocando em contato Lacan e LLMs. E parece que alguma intuição, ideia fulcrante do Lacan encontra muito mais respaldo na linguística computacional do que imaginávamos
Porém, é preciso lembrar que tem diferenças consideráveis entre os campos (objetivos, conceitos, epistemologia etc.). Para concluir que a IA corrobora a teoria do Lacan seria necessário, por exemplo, definir melhor qual tese exatamente estamos querendo avaliar (o que n é simples)
Espero que vejamos mais produções no futuro contribuindo pra esse diálogo! Eu depois de ler a notícia saí com vontade de voltar a estudar mais sobre LLMS.
Se chegou até o fim me siga! -- tenho pensado em postar mais aqui sobre as coisas que estudo, vai ser um bom incentivo
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levei a sessão de análise inteira para conseguir dizer algo excepcionalmente difícil. meu analista, bom lacaniano que é, encerrou o encontro ali mesmo - não sem alguma preocupação, me lembrando que tínhamos um novo horário já em breve. pensei "fdp corajoso"
fui saindo do consultório como quem fosse andar firme. abri a porta, dei dois ou três passos até que bem dados, mas aí a perna bambeou. a vista enturveceu e mal deu tempo de sentir o choro subindo, explodindo, convulsionando
quase que decido ficar em prantos atrás da porta corta-fogo, na escadaria de emergências - nome apropriado. mas não dessa vez, não tão sozinho, não tão escondido. decidi voltar ao consultório e desaguar no banheirinho modesto, como soubera recentemente