Essa matéria traz um bom ponto para um fio metodológico!
Ela faz referência as questões 1, 2 e 3 feitas antes das pergunta de intenção de voto (imagem abaixo). Como a própria matéria diz, não há nada de errado ou ilegal nisso, mas quais são as implicações metodológicas disso? +🧵
Antes de mais nada, leiam a matéria inteira!
Diferentes institutos, optam pelo posicionamento das perguntas de intenção de voto em diferentes pontos do questionário. Há essencialmente duas linhas de racíocinio para isso: +
1) Colocar essas perguntas logo no início do questionário para evitar qualquer efeito de ordem. 2) Incluir algumas perguntas antes das questões de intenção de voto (o que a matéria chama de "esquenta") para dar um contexto maior ao respondente. +
Há uma extensa literatura em metodologia de pesquisa que indica que, *em determinadas situações*, pode ocorrer um efeito de ordem de questionário. Isto é, o entrevistado *pode* condicionar sua resposta a uma questão de acordo com perguntas e suas respostas a questões anteriores.+
Isso, entretanto, levanta duas questões:
i) Em quais situações as duas abordagens tendem a trazer resultados diferentes de intenção de voto?
ii) Algumas das duas formas conseguem captar mais precisamente a intenção de voto? +
Quanto a i), obviamente isso depende de quais perguntas são colocadas antes das questões de intenção de voto. Pode-se imaginar que certos tipo de perguntas podem ter um grande impacto na forma como os entrevistados respondem posteriomente intenção de voto, enquanto outras, não. +
Mas o mais legal é que isso pode ser verificado com o uso de um bom experimento! Por exemplo, em uma metade aleatória dos respondentes, as perguntas de intenção de voto são colocadas logo no início, enquanto a outra metade responde algumas questões antes da intenção de voto. +
Aí, compare-se as estimativas de intenção de voto entre os dois grupos para verificar se há alguma diferença estatisticamente significante. Se houver, é evidência de que há um efeito de ordem.
E é assim que se faz ciência! +
A questão ii) é um pouco mais complicada, pois, caso haja realmente diferenças entre as duas abordagem, seria preciso ter algum benchmark para se averiguar quais delas traz resultados mais próximos. Então a questão é: qual benchmark utilizar para intenção de voto? +
Alguns sugeririam comparar com os resultados das eleições, mas como todos sabem, eu não recomendo esse tipo de comparação, do ponto de vista técnico, afinal, pesquisas pré-eleitorais retratam o momento, não são prognóstico das eleições. +
Outros pontos para se considerar aqui:
A) Como diz a matéria, essa é uma abordagem que o instituto já vem utilizando há algum tempo. Então, para fins de comparação temporal de resultados desse mesmo instituto, o uso dessas questões iniciais não trazem impacto algum. +
B) Nesse caso em particular, alguns podem apontar para um possível efeito de ordem seria de o entrevistado se sentir contrangido a responder que desaprova ou avalia mal o presidente/governo nas questões 1 e 2 para depois responder que votaria nele. +
Entretanto, há boas evidências empíricas na literatura de metodologia de pesquisa de que esse tipo de fenômeno é bastante reduzido em questionário de auto-preenchimento, como o instituto em questão utiliza, uma vez que o entrevistado não está interagindo com ninguém. +
C) Por fim, o formato de questionário em única página rolável que o instituto utiliza (e que não é padrão na indústria), torna essa questão do efeito de ordem um pouco mais complicado. +
Isso porque, como o entrevistado pode a qualquer momento alterar suas respostas no questionário nesse formato, mesmo perguntas posteriores a intenção de voto podem trazer um efeito. Isso também é um problema em outros tipo de questionário de auto-preenchimento, como em papel. +
Por outro lado, esse tipo de comportamento não tende a acontecer em pesquisas presenciais, telefônicas ou mesmo online, em que cada questão é apresentada em uma página diferente e o respondente não pode voltar para alterar suas respostas. +
Entretanto, se o instituto coleta os paradados ou metadados do formulário online, como mudanças nas respostas que o entrevistado dá a cada questão e marcadores de tempos das respostas, esse tipo de comportamento pode ser identificado e quantificado.
\TheEnd
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Sexta passada saíram um dos resultados mais aguardados do #Censo2022: a distribuição de religião na população.
Nesse fio, discuto um pouco sobre certos aspectos metodológicos dessas estatísticas, com implicações inclusive para pesquisas de opinião pública e eleitorais 🧵+
1) A informação sobre religião é coletada apenas no questionário da amostra do #Censo2022. Ou seja, ela é respondida para moradores de uma de amostra de 11% dos domicílios no Brasil, o que é grande o suficiente para ter estimativas com um altissímo nível de precisão. +
2) No entanto, tanto no questionário básico quanto da amostra, as questões não são respondida individualmente por cada pessoa no domicílio. Em geral um informante reporta as informações para todos os moradores, o que pode trazer acarretar certos efeitos nos dados +
💰 Vale a pena jogar na MEGA-SENA DA VIRADA?💰
Com um prêmio de R$600 milhões, caso você for o único acertador, o seu ganho esperado com uma aposta de 6 números seria de R$6,98. Então vale a pena fazer uma fezinha, certo?
Não tão rápido, vamos ver isso um pouco mais de perto! 🧵+
Primeiramente, eu explico no fio abaixo como esse ganho esperado é calculado. É importante se atentar às suposições desse cálculo, principalmente:
* Uma única aposta de 6 números
* Um único acertador da sena
* Desconsidera os prêmios das quinas e quadras
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Logo, o ganho esperado de uma aposta com 6 números jogados, supondo-se um único acertador, seria de
E[G(X)] = G(X = 1)*P(X = 1) + G(X = 0)*P(X = 0) =
(R$600.000.000-R$5)*(1/50.063.860) + (R$0-R$5)*[1-(1/50.063.860)] = +R$6,98
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🚨🇻🇪 Walter Mebane, pesquisador da Universidade de Michigan reconhecido como um dos maiores especialistas em detecção de fraude eleitoral do mundo, acaba de postar um working paper sobre as atas disponibilizadas pela oposição na Venezuela das eleições presidenciais de 2024. 🧵
Utilizando ferramentas estatísticas de perícia eleitoral (eforensics), ele não encontra nenhuma evidência de fraudes incrementais ou extremas nas eleições segundo as atas publicadas pela oposição (). + resultadosconvzla.com
Usando essas atas, ele calcula que probabilidade de não ter ocorrido fraude (π_1) seja de 99,97%.
Ele também calcula que a probabilidade de ter ocorrido fraudes incrementais (π_2) seja de 0,0185% e de ter ocorrido fraudes extremas (π_3) seja de 0,0114%. +
Primeiramente, precisamos fazer algumas suposições para o cálculo: 1) Uma aposta simples de 6 números, custando R$4,50 2) Prêmio de se acertar os 6 números da Mega da Virada de R$ 132.418.255,11 3) Um único acertador da sena 4) Desconsiderar os prêmios das quinas e quadras
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A suposição 2 não é exatamente factível, pois, salvo engano, esse é o valor do prêmio total a ser distribuído entre acertadores da sena, quina e quadra. Logo, essa é uma suposição conservadora, no sentido de que o ganho esperado de fato será menor do que o calculado. +
Live tweeting the panel of Elections and Nonresponse now here at #AAPOR
First is Cameron McPhee (SSRS) presenting Underestimation or Overcorrection? an Evaluation of Weighting and Likely-Voter Identification in 2022 Pre-Election Polls
2022 Election Polls did really well, with maybe some under-estimation of Democrats